18 de jan de 2010

Stand up drama

Foto: Marcelo Nunes

Tristeza pela tristeza?!

Achei que nunca escreveria isso, mas dessa vez eu preciso:

“Stand up drama” é um espetáculo que não deve ser visto.

- Por quê?

Os atores são reconhecidamente bons: Margarida Leoni Peixoto e Patsy Cecato são experientes e, ao longo dos anos, sempre receberam críticas positivas. Nesse espetáculo, no que diz respeito às interpretações, nada pode ser dito em contrário. Não conhecia o trabalho de Léo Ferlauto, mas Bob Bahlis, quem assina a direção, merece ser aplaudido por trazê-lo ao palco. O Prof. Dr. Clóvis Massa, o mais contido entre os quatro, também não deixa a desejar.

O trabalho de ambientação é excelente. A forma como o desenho de luz risca o palco é um dos melhores usos do instrumento que eu tenho visto nessa última temporada. Não consegui achar quem é o responsável pela iluminação, mas aqui afirmo que o resultado fica à altura da qualidade do elenco. Alia-se a isso a discrição dos figurinos, a composição das letras DrAMA, a trilha sonora.

- Por que, então, não deve ser visto? Por que é triste?

Sim. Porque é inutilmente triste.

- Inutilmente, como assim?

Abandona-se do teatro sem energia alguma. Não se chora. Não se emociona. Não se comove com nenhuma das primeiras sete histórias. Apenas a última fica, marca, permanece. E o único motivo desse privilégio da oitava história triste é o fato de ser a última. É tão bem contada como as outras. É triste como as demais. Mas só ela fica.

- Por que ela fala da morte de uma mãe e todos temos mãe, não?

Não. Todas as histórias são boas, são fortes, são pesadas. Escritas por Paul Auster e Mario Benedetti, a direção dada individualmente a elas por Bob Bahlis é muito sensível. Se a das ervilhas fosse a última, pensaríamos nela. É na estrutura da dramaturgia onde está o problema.

- São oito dramaturgias.

Não. Cada espetáculo tem uma dramaturgia só. A síntese faz com que o homem receba o objeto artístico como um todo. E como é organizado esse todo? Todas se apresentam exatamente da mesma forma:

1) O ator entra e arruma o microfone à altura de sua boca;
2) O ator dá um passo para trás e, logo depois, um passo para a frente, dando início à contagem de sua história;
3) A história começa descontraída. O ator olha para o público e diz algo que tem uma cara (falsa) de improvisação;
4) A história avança e o ator dá ao seu personagem-narrador um tom emocionado;
5) A história termina com uma frase de efeito. A luz morre, a trilha sobe e o ator sai.

E esquecemos, assim, a primeira história quando começa a segunda. E a segunda com a descontração da terceira. A sétima com a última. E, como não há nona, saímos com a oitava. Uma hora de espetáculo hermeticamente previsível, duas histórias para cada ator. Todas elas são baseadas em temas diferentes, embora se consiga perceber que o que rege a sua união é a faixa etária dos personagens. Na primeira, o protagonista tem 8 anos. Na última, a mãe da narradora tem noventa.

- Mas qual é o problema da tristeza? Porque você não gosta de histórias tristes não recomenda a assistência do espetáculo?

Em primeiro lugar, gosto de histórias tristes. Realmente, adoro chorar no cinema e me encanta o desafio de fazê-lo no teatro. Vi Titanic oito vezes e chorei em todas as sessões. Tenho me mantido longe das imagens do Haiti porque já chorei um par de vezes com o que vi. Chorei três vezes em “Agora eu era” e duas vezes em “Arca de Noé”, só para citar algumas provas de que eu sou chorão.

Em segundo lugar, aqui não se trata de gostar e não gostar. Se trata de tentar entender por que, numa platéia cheia como a que eu fiz parte, ninguém ficou emocionado, à guisa do relato do diretor na sua entrevista para o Sated/rs quando narra o ensaio na cozinha do seu apartamento. Lá, Margarida Leoni Peixoto estava sozinha. Grande atriz que é, tenho certeza, mesmo sem ter visto, que, como ela (e os demais) fez também no palco, deu colorido para história. Sem mexer nada além dos braços e da face, colocou toda a sua interpretação no ritmo, na contagem, na respiração. Todo o ambiente era para essa história, para esse momento, e é isso que difere do que acontece em “Stand up drama”.

A união das histórias deixa claro uma intenção negativa: “tentaremos, a todo custo, fazer você chorar.” E, justamente por isso, não conseguem. O clima é para choro e não para a história contada. As histórias contadas, assim no plural, nos tiram a energia, nos deixam cansados e suscetíveis. Não sensíveis.

Respondido?


*

Em tempo, ontem (24/03/2010) revi o espetáculo.

Antes, quero dizer que é muito importante, em todas as críticas, os leitores lembrarem que o referente (nunca o todo do objeto, mas apenas parte) é sempre a encenação recém vista e não a temporada inteira, o espetáculo inteiro e muito menos o histórico das pessoas envolvidas. Minha assistência de ontem não resultou nas mesmas impressões da vez anterior.

O espetáculo me pareceu bem menos rígido, bem menos formal o que é um ganho. As interpretações continuam ótimas, com destaque para Áurea Batista, que ainda não tinha visto nesse elenco. As histórias continuam as mesmas: todas muito bonitas. E a produção continua ótima: é o único espetáculo bem acabado de Bob Bahlis. A luz está excelente, a música entra na hora certa, tudo converge para um resultado positivo. Até o ritmo, como eu disse, que antes era feito de oito pausas e também oito reproduções exatas de contagem de oito histórias diferentes, agora, é levemente ascendente numa única linha, quase sem pausa nenhuma.

Mas continua-se saindo do teatro com a sensação de que um caminhão veio e passou por cima, levando embora todas as energias da gente. Parece-me que essa foi a intenção e, por isso, o espetáculo atinge o seu objetivo.

Mas volto a mesma pergunta inicial: precisamos disso? Ficar sem energia serve para quê?

*

Ficha Técnica:

Direção e texto: Bob Bahlis

Elenco: Léo Ferlauto, Margarida Leoni Peixoto, Clóvis Massa e Patsy Cecato.

8 Comentários:

Julio Conte disse...

Rodrigo, acho que tu pegou pesado demais. Não vi o trabalho, mas é obvio que tu está vestindo uma roupa nova e gostando do novo personagem. Admiro teus comentários, tua generosidade e tua disposição de assistir a todos os espetáculos. Mas a representação do espectador que tu sustenta é fragil demais. Este cara nem iria ao teatro. Temos que concluir que não existe espectador comum. Teatro é um vinculo especial que cada um faz com a peça. Olha para ti para perceber como isso é verdade. A crítica não pode se arvorar a ser representante de qualquer segumento. Tu bem viu isso no dabate na Usina. Admiro o teu empenho não pode se transformar cada crítica num enunciado criativo, mas busca da originalidade poe virar crueldade. Não se perde a ternura sem pagar um preço alto.

Rodrigo Monteiro disse...

Oi, Júlio. Obrigado pelas palavras.

Mas te confesso que escrevi esse texto três vezes. Adoro o trabalho da Margarida. Gosto muito da Patsy. O Clóvis é meu professor e achei o Ferlauto um encanto. Mas entendi que eu só conseguiria escrever o texto, fugindo de gostar, encantar e adorar, se fosse sincero como eu fui pelos mais de cem textos que há aqui.

Dizer que uma peça não deve ser vista foi horrível. Mas era o que eu estava e estou sentindo em relação ao espetáculo. Me pareceu macabro, sombrio, masoquista até. Respeito o Bob por "Dez quase amores" que adorei. E achei ótimo o trabalho de direção de atores, mas fui extremamente sincero em publicar que não vejo nada de interessante em direcionar uma emoção para o nada.

Num Stand up comedy você ri. Rir faz bem. Chorar, para mim, só faz bem quando há uma intenção e essa criada (não passada)no espectador de forma bem construída.

Que me perdoem os atores, a produção de um modo geral por ter escrito o que escrevi. Mas fui honesto. A peça não é ruim. Para mim, ela é má.

E, como sempre, essa é apenas a minha visão, sobre um espetáculo, esse apresentado a mim numa única noite. Ou seja, uma visão bastante relativa. E nada mais.

Rodrigo Monteiro disse...

Registro a reação, talvez não intencional, do diretor Bob Bahlis. No blog dele, postou, um dia após a minha crítica, comentários de diversas pessoas respeitáveis, todos dizendo o contrário do que eu escrevi.

http://bobbahlis.blogspot.com/2010/01/opinioes-sobre-o-stand-up-drama.html

Vale a pena ler! São opiniões que eu respeito muito. Com isso, o diretor deixa claro que, no Brasil, não há lugar para censura, mas são bem-vindas visões diferenciadas.

Que o diálogo teatral continue assim!

Cláudia Rocha disse...

Realmente, as diferenças devem ser respeitadas.
Por isso mesmo teu comentário de que não se deve ser a peça foi infeliz. Nâo gostar é direito de todos, dizer o porque também. Depois disso, que lê tua crítica que decida se irá. Eu vi a peça e achei o que escreveste muito mais perto do cruel que o Stand up drama.
Assim como foi infeliz tu quereres falar por toda platéia que estava no teu dia.
Não sei que dia foste, mas por um acaso tenho conhecidos que foram sexta, eu fui sábado e tenho conhecidos que foram domingo e advinha?
Se emocionaram com mais de uma das histórias. Não fale por toda platéia.
Sim, teve histórias que eu não me emocionei, ficaram apenas no interessante. E teve histórias que me emocionei. Mas assim como num Stand-up comedy vai ter piadas que não vou rir.
Sendo assim, não ficou apenas a última história em mim, assim como não ficaram todas. Não tenho memória de peixe para esquecer uma história assim que começa outra.
Assim como o Júlio, acho muito legal que te proponhas a fazer esse trabalho, mas o tom e as escolhas das palavras para essa crítica foi infeliz. Não o fato de não teres gostado, mas como expôs.
Um abraço

Márcia disse...

Já eu, espero que Stand up drama retorne aos palcos em outras temporadas pois gostei muito de ouvir as histórias. E me lembro de todas (é verdade).Na platéia vi lágrimas, escutei risadas e eu própria chorei e ri.

Jotalina disse...

Mais uma bela performance da arte da stand-up!

Mas sabem como fazê-la como deve de ser? Há óptimas dicas aqui: http://pararir.com/guia-comedia-stand-up/>Guia de Stand-up Comedy para principiantes!

Anônimo disse...

Eu fui ver este espetáculo nesta mesma semana. Apesar da verborragia de algumas críticas do Rodrigo Monteiro que me trazem a sensação clara de ele estar sendo tendencioso, desta vez, a respeito desta peça, ele tinha me passado um conceito aparentemente real de que havia, nesta produção, uma tentativa gratuita de emocionar, coisa que anda me irritando muito ultimamente (o romantismo gratuito de filmes como o mexicano O Estudante tem me irritado mais do que a tal violência gratuita que tantos reclamam, quem sabe essa agora seria a vez do drama gratuito?). Mas que nada! As histórias contadas em monólogos pelos quatro atores são bem interessantes, sim. É lógico que algumas emocionam pouco, exatamente como aquelas piadas de stand-up comedy que muitas vezes não são engraçadas (e aí entra muito o estado de espírito e o gosto do espectador, obviamente). Mas algumas histórias impressionam pela gama diferente de emoções que provocam em um mesmo relato. Todas são contadas de forma criativa, algumas com falso distanciamento, outras focando em angústias bem particulares do personagem em questão, outras com quebras de emoções interessantes. O que há pra se criticar ou comentar seria o pequeno desnível do elenco masculino em relação ao feminino. Não que as interpretações não sejam todas ótimas, todas tocantes, dramáticas e engraçadas na medida em que devem ser. Mas não se pode deixar de notar a naturalidade e a verdade com que as histórias de Patsy Cecato e Áurea Batista são contadas. Mas o Monteiro jamais comentaria isso porque um dos atores parece que foi professor dele. De que vale ler uma crítica, se essa raramente é imparcial? Assistir essa peça depois de ler os comentários de Rodrigo Monteiro fortaleceu em mim a percepção que tenho a respeito deste... digamos personagem do blog que parece ter sido criado como uma espécie de escapismo a frustrações próprias já que a auto-massagem do ego fica evidente para qualquer um que lê (e comenta, ridicularizando o cara nas rodinhas por aí). Eu estava começando a entender e aceitar melhor esse personagem à medida que ele foi se revelando através de suas opiniões que, me pareceu, estavam ficando mais sensíveis e menos preconceituosas. Das críticas que tenho lido ultimamente, o desenvolvimento de algumas de suas resenhas está bem melhor do que no início. Antigamente algumas construções repetitivas e bobas de parágrafo me irritavam. Ele tem sido menos tendencioso. Não fica só no puxa-saquismo de quem ele é adora bajular (ou prefere não escrever nada para não fazer um comentário negativo) ou na verborragia de fazer comentários destrutivos (há uma enorme diferença entre isso e uma boa crítica negativa) só porque não vai com a cara do diretor ou pra massagear o próprio ego mesmo. Ele parecia estar moldando mais os seus comentários à realidade e às possibilidades das produções locais. Mas uma coisa não mudou e nunca mudará porque é intrínseco desta pessoa em questão (e não do personagem criado por ele): a sensibilidade monocromática de Rodrigo Monteiro. Estou citando algo que ele mesmo descreveu na crítica de Monoton, outro espetáculo que eu duvido muito que ele tenha realmente "entendido".

Rodrigo Monteiro disse...

Pois é. Sabe que um mooonte de amigos meus tiveram ótimas impressões de Stand up drama? Aí eu lembro que quase nenhum deles teve a mesma reação positiva de "Dez quase amores", embora eu tenha falado muito bem do espetáculo... As coisas são assim mesmo. Que bom que vc curtiu a produção!

E continue indo sempre ao teatro! Isso é o mais importante!

Abraços,

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