Entrevista com espíritos
“Ela diz que não pode falar agora, mas que, no futuro, todos saberemos.”
(Entrevista com Espíritos, Luis Carlos Pretto, fala do personagem Bruno)
Talvez tenha sido eu quem tenha entendido errado a proposta. Mas penso em teatro assim: eu chego na sala e me sento. Começo a olhar o que tenho para ser olhado: um folder, um cartaz, um cenário a minha espera... Escuto a música de fundo, olho para as pessoas... Isso tudo vai entrando na minha mente e me dizendo, mais ou menos, sobre o que é a peça, o que está por vir. Procuro me afastar do antes: da sinopse que procuro não ler, de outras peças do mesmo grupo, de opiniões que a mim chegaram. Me coloco na posição de quem nunca veio ao teatro, o público mais raso que eu possa ter no meu blog. Assim, consigo não fazer comparações entre trabalhos, não levar opiniões sobre uma produção à outra, e julgar utilizando como referencial aquilo que consigo visualizar enquanto proposta inicial. Contemplo o objetivo e vejo como ele foi alçando, independente do fato de que concordar com ele ou não, gostar dele ou não. Depois de ter assistido à “Entrevista com espíritos”, cheguei à conclusão de que ou a proposta foi lida por mim equivocadamente, ou o anúncio dela é que é enganoso.
A peça estava em cartaz na Cia. De Arte dentro da programação do Porto Verão Alegre. Na página do dia, a produção da Cia. Artiurbana, dividia espaço com a Cia. Teatro Novo e com o grupo dirigido por Bob Bahlis, para falar somente nas peças que vi. Acho que a Cia. Halarde também tinha tido uma apresentação extra de “Dona Gorda”. Esses três grupos são grupos de teatro desvinculados de qualquer associação política, religiosa, ecológica ou sei-la-o-quê. Fazem teatro para ganhar a vida e única e exclusivamente pela arte. A gente vai ver o trabalho deles para, antes de tudo, se entreter. De sobra, crescemos em algum ponto ou outro. O festival inteiro, de um modo geral, é composto de grupos participantes com os mesmos objetivos: entreter. Eu, de fato, nunca vi Presépio Vivo participar de festival de teatro, embora ache que uma produção de extrema qualidade como é o caso da produção “Paixão de Cristo”, realizada pela Cia de Atores Independentes de Gravataí, e que se apresenta somente na época da Páscoa, e, todo mundo sabe, para um público que celebra o mistério da paixão e morte de NSJC, poderia concorrer com muitos grupos por aí em termos exclusivos de qualidade estética. Dessa forma, antes de qualquer coisa, entrei para ver teatro, não para ser catequizado por essa ou aquela corrente religiosa.
Eu sabia que a temática era espírita. Ok! Eu vi as novelas “A Viagem” e “O Profeta” na Globo, uma emissora sem ligações explícitas com nenhuma religião. Gostei das narrativas. Uma boa história me comove pelo fato de ser bem contada e, nascido e criado dentro do catolicismo, não me lembro de ter me sentido ofendido aos 14 e 26 anos quando essas novelas passaram na TV. Não vou virar indiano por ver Caminho das Índias, assim como não virei cigano vendo Explode Coração ou muçulmano como expectador do O Clone. Então, me senti confortável em ir ver a produção dirigida por Luis Carlos Pretto e ver outras pessoas pagar até vinte reais por isso.
Mas, sinceramente, se eu não acreditar que eu é quem estava errado, que antes de ser teatro, o trabalho é uma palestra espírita e eu é quem não tinha entendido isso, não consigo tirar absolutamente nada de positivo em uma análise superficial como um espaço como esse me proporciona.
“ - Irmão Rodrigo, não é uma peça espírita! É uma sessão espírita com teatro! Entendeu?”
Suspiro. De novo. Mais um. Conto a dez. Acho que entendi.
Agora consigo desculpar uma trilha toda cheia de recortes de trilhas de filmes e interpretações que beiram ao patético: uma secretaria que tremilica na ânsia por sustentar sua construção (se é que há uma) em caras e bocas, um psicólogo que fala um português corretíssimo a fim de nos fazer ver alguém com curso superior, e um médium tachado de louco, cheio de gritos e excessos.
Agora, próximo da paz, consigo até ver uma curva dramática quando se descobre que o louco não é louco e que a secretária já morreu. Quando vejo uma boa intenção nos figurinos e quando lembro de ter achado bem interessante a cena de clown.
Deu.
Me voltam os tiros, o ritmo lento do início, as frases de efeito. Não! Não consigo desculpar a ausência de senso, a falta de noção de que ou se priva pela harmonia estética ou se funda essa na total desarmonia. E que estudo de arte existe desde Aristóteles e que não é possível que um grupo se inscreva num roll de 51 espetáculos sem levar em consideração tantos e tantos séculos de história que faça com que a pessoa diga: isso não combina com aquilo!
Não me interessa, numa avaliação estética, as lindas e sábias teses espíritas sobre esse mundo e o outro. Num primeiro momento, quero me divertir e ver como tal peça foi feita. É do que ela é feita que vem o que ela me diz e nisso está a grande diferença das artes em relação à literatura. Se tirarmos o dito da literatura, teremos um papel em branco (com exceção da poesia concreta). No teatro, poderemos ter mil ditos e até repetições dele (Ver Beckett) que é a situação que importa e diz mais do que o dito.
No futuro, talvez saberei perdoar. Agora não.
Que venham também para o Porto Verão Alegre 2010, o teatro empresa, os melodramas da Record (“Pergunte e responderemos”) e os presépios vivos ensaiados pelas catequistas cheias de boas intenções do mundo afora.
(Entrevista com Espíritos, Luis Carlos Pretto, fala do personagem Bruno)
Talvez tenha sido eu quem tenha entendido errado a proposta. Mas penso em teatro assim: eu chego na sala e me sento. Começo a olhar o que tenho para ser olhado: um folder, um cartaz, um cenário a minha espera... Escuto a música de fundo, olho para as pessoas... Isso tudo vai entrando na minha mente e me dizendo, mais ou menos, sobre o que é a peça, o que está por vir. Procuro me afastar do antes: da sinopse que procuro não ler, de outras peças do mesmo grupo, de opiniões que a mim chegaram. Me coloco na posição de quem nunca veio ao teatro, o público mais raso que eu possa ter no meu blog. Assim, consigo não fazer comparações entre trabalhos, não levar opiniões sobre uma produção à outra, e julgar utilizando como referencial aquilo que consigo visualizar enquanto proposta inicial. Contemplo o objetivo e vejo como ele foi alçando, independente do fato de que concordar com ele ou não, gostar dele ou não. Depois de ter assistido à “Entrevista com espíritos”, cheguei à conclusão de que ou a proposta foi lida por mim equivocadamente, ou o anúncio dela é que é enganoso.
A peça estava em cartaz na Cia. De Arte dentro da programação do Porto Verão Alegre. Na página do dia, a produção da Cia. Artiurbana, dividia espaço com a Cia. Teatro Novo e com o grupo dirigido por Bob Bahlis, para falar somente nas peças que vi. Acho que a Cia. Halarde também tinha tido uma apresentação extra de “Dona Gorda”. Esses três grupos são grupos de teatro desvinculados de qualquer associação política, religiosa, ecológica ou sei-la-o-quê. Fazem teatro para ganhar a vida e única e exclusivamente pela arte. A gente vai ver o trabalho deles para, antes de tudo, se entreter. De sobra, crescemos em algum ponto ou outro. O festival inteiro, de um modo geral, é composto de grupos participantes com os mesmos objetivos: entreter. Eu, de fato, nunca vi Presépio Vivo participar de festival de teatro, embora ache que uma produção de extrema qualidade como é o caso da produção “Paixão de Cristo”, realizada pela Cia de Atores Independentes de Gravataí, e que se apresenta somente na época da Páscoa, e, todo mundo sabe, para um público que celebra o mistério da paixão e morte de NSJC, poderia concorrer com muitos grupos por aí em termos exclusivos de qualidade estética. Dessa forma, antes de qualquer coisa, entrei para ver teatro, não para ser catequizado por essa ou aquela corrente religiosa.
Eu sabia que a temática era espírita. Ok! Eu vi as novelas “A Viagem” e “O Profeta” na Globo, uma emissora sem ligações explícitas com nenhuma religião. Gostei das narrativas. Uma boa história me comove pelo fato de ser bem contada e, nascido e criado dentro do catolicismo, não me lembro de ter me sentido ofendido aos 14 e 26 anos quando essas novelas passaram na TV. Não vou virar indiano por ver Caminho das Índias, assim como não virei cigano vendo Explode Coração ou muçulmano como expectador do O Clone. Então, me senti confortável em ir ver a produção dirigida por Luis Carlos Pretto e ver outras pessoas pagar até vinte reais por isso.
Mas, sinceramente, se eu não acreditar que eu é quem estava errado, que antes de ser teatro, o trabalho é uma palestra espírita e eu é quem não tinha entendido isso, não consigo tirar absolutamente nada de positivo em uma análise superficial como um espaço como esse me proporciona.
“ - Irmão Rodrigo, não é uma peça espírita! É uma sessão espírita com teatro! Entendeu?”
Suspiro. De novo. Mais um. Conto a dez. Acho que entendi.
Agora consigo desculpar uma trilha toda cheia de recortes de trilhas de filmes e interpretações que beiram ao patético: uma secretaria que tremilica na ânsia por sustentar sua construção (se é que há uma) em caras e bocas, um psicólogo que fala um português corretíssimo a fim de nos fazer ver alguém com curso superior, e um médium tachado de louco, cheio de gritos e excessos.
Agora, próximo da paz, consigo até ver uma curva dramática quando se descobre que o louco não é louco e que a secretária já morreu. Quando vejo uma boa intenção nos figurinos e quando lembro de ter achado bem interessante a cena de clown.
Deu.
Me voltam os tiros, o ritmo lento do início, as frases de efeito. Não! Não consigo desculpar a ausência de senso, a falta de noção de que ou se priva pela harmonia estética ou se funda essa na total desarmonia. E que estudo de arte existe desde Aristóteles e que não é possível que um grupo se inscreva num roll de 51 espetáculos sem levar em consideração tantos e tantos séculos de história que faça com que a pessoa diga: isso não combina com aquilo!
Não me interessa, numa avaliação estética, as lindas e sábias teses espíritas sobre esse mundo e o outro. Num primeiro momento, quero me divertir e ver como tal peça foi feita. É do que ela é feita que vem o que ela me diz e nisso está a grande diferença das artes em relação à literatura. Se tirarmos o dito da literatura, teremos um papel em branco (com exceção da poesia concreta). No teatro, poderemos ter mil ditos e até repetições dele (Ver Beckett) que é a situação que importa e diz mais do que o dito.
No futuro, talvez saberei perdoar. Agora não.
Que venham também para o Porto Verão Alegre 2010, o teatro empresa, os melodramas da Record (“Pergunte e responderemos”) e os presépios vivos ensaiados pelas catequistas cheias de boas intenções do mundo afora.












