26 de mar de 2011

Feedback


Foto: Danny Bittencourt

Intervenção

Feedback é resultante dos projetos Dalí Daqui (2009) e Olho3 (2010), Prêmios do Edital Interações Estéticas/Residências artísticas em Pontos de Cultura - Funarte – MinC. Entre as muitas propostas interessantes que esse projeto apresenta, talvez uma das mais interessantes seja a de levar a dança ao lugar onde ela acontece naturalmente: uma boate, uma danceteria, um clube. A partir desse único aspecto já é possível pensar sobre várias questões que o espetáculo pode despertar. A primeira delas é a noção de espetacularidade.

Há um limite claro no teatro: o personagem. Considerando o personagem uma equação de características, se 99,9% do personagem for igual ao ator que o interpreta diante de um público (uma pessoa pelo menos), é o 0,1% que fará a diferença entre o personagem e o ator. Se aceitarmos a ideia de que somos diferentes de nós mesmos em cada discurso, então, ampliaremos a noção de personagem, sem desconsiderá-la. A dança, no entanto, tem outro código. Não é no personagem que se encontra o cerne do sistema dança, mas no encadeamento dos movimentos ou, de uma forma mais acadêmica, nos signos cinéticos. Se no teatro os signos todos se referem, antes de tudo, ao personagem, na dança, o processo é reflexivo. Os signos cinéticos se referem a eles mesmos. É justamente por isso que a dança é muito mais livre que o teatro e muito mais aberta em possibilidades estéticas que o teatro. Dessa forma, o limite da dança inexiste: qualquer movimento pode ser visto como uma dança. Sendo o Cabaret, uma pista de dança onde as pessoas vão para dançar, onde está a espetacularidade dos atores que lá vão para dançar? Em Feedback, o teatro está no figurino, nos focos de luz, na maquiagem.

No meio da festa, uma música quebra a rotina das anteriores, um grupo de dançarinos se diferencia dos demais, algumas luzes se acendem sobre eles e não sobre quem não é eles. Por fim, quatro bailarinos dançam uma coreografia e um quinto artista dubla uma música. Está instaurada a intervenção ou a espetacularidade.

Denis Gosch, Gustavo Cardoso, Aline Jones e Rossendo Rodrigues batem os pés no chão e sustentam uma série de movimentos fortes e precisos. Sucede isso, passos de dança, movimentos pelo espaço, maior leveza. Charlene Voluntaire (Charles Machado) está vestido de violeta, brilhos, maquiagem, unhas e cílios e dubla uma música do chamado “repertório gay”. Três acontecimentos que se relacionam e se redundam: a música quebra a rotina das músicas anteriores, a coreografia quebra a rotina da liberdade individual anterior, a estética (figurinos, luz, maquiagem) quebra a rotina do ambiente. Três afirmações postas numa página, marcando ela, diferente dela. Dizer ou sugerir alguns significados para essas afirmações é menos importante do que chamar a atenção para a existência de significado na apresentação da diferença.

O Cabaret não é uma Boate Gay. Tampouco é um lugar heterossexual. O Cabaret é um lugar aberto a todos os públicos e se pauta na cidade pela livre convivência entre todas as orientações sexuais. Feedback, em seu corpo, fala das diferenças, se diferencia, significa. O fim de Feedback é a pequena multidão de espectadores voltando a dominar a pista e os dançarinos sumindo entre as pessoas. A diferença deixa de existir quando passa a ser semelhança. Outras diferenças virão, porque o processo de significação é cíclico. Fica a proposta de reflexão, a pulga atrás da orelha, o sabor. Jussara Miranda, quem concebeu e dirige o projeto, acerta em não apresentar sem ofender: Feedback não quebra o ritmo da festa, não força a atenção das pessoas, não convoca. O interesse é despertado naturalmente pela presença diversa e divertida. E dura exatamente o tempo que dura uma música normal, não ocupa o espaço além do desconforto, não agride. E, por isso, só ganha: em disposição, em atenção e em fruição.

Além dessa questão aqui apresentada, outras existem e são passíveis de serem utilizadas como ponto de partida para uma análise desse “espetáculo”. A relação com o público, as coreografias, os figurinos, a relação entre os performers, a própria questão da performance versus a da espetacularidade, uma narrativa sugerida, a temática da diferença, entre outras muitas. Todas elas são sinais de que o projeto, em termos de seu acontecimento, é rico e profundo, embora disfarçado sob a alegria da festa, o intervalo, a intervenção poética.

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Ficha técnica:

Concepção e Direção geral:
Jussara Miranda

Projeto coreográfico:
Jussara Miranda em parceria com Diego Mac

Direção de Produção:
Marcinhò Zola



Performes:
Denis Cafrune Gosch
Gustavo dos Santos Cardoso
Aline Jones
Rossendo Rodrigues
Charles Wilson dos S. Machado (Charlene Voluntaire)

Ensaiador:
Denis Gosch

Identidade visual e Projeto Gráfico:
Sandro Ka – SOMOS

Blogueira:
Lauriza Vidal

Produção operacional:
Sandra Santos

Assistente de produção:
Ariane Laubin – SOMOS

Figurinos:
Kathyene Sperhack

Fotografia:
Danny Bittencourt

Realização:
Muovere Cia de Dança Contemporânea de Porto Alegre

20 de mar de 2011

Bach para crianças


Foto: Divulgação

Duas faces do sucesso

A classe teatral se une em dois aspectos: no seu amor ao teatro e na compreensão de que não há teatro sem público, seja esse último de que tamanho for. A Coordenação de Artes Cênicas de Porto Alegre, em mais de um de seus gestos simples, mas extremamente importantes, reuniu, na semana que passou, os artistas cênicos da capital para discutir questões referentes que, de alguma forma, se relacionam com o Sucesso. Assim, em duas noites, diversos pontos de vista foram trazidos à baila, todos eles pertinentes ao fazer artístico, seja do ponto de vista da produção dos espetáculos, da qualidade estética ou da implementação de uma possível política cultural.
Para mim que, sempre com muito prazer, assisto aos fazeres desse grupo encontro no espetáculo “Bach para crianças” campo rico para uma humilde contribuição. Estando na origem da palavra teatro, a ideia de “lugar de onde se vê”, o Sucesso, por ser um conceito extremamente subjetivo, concorda com o teatro na medida em que parte da pergunta: “De onde quem vê o quê?”. O público vê os atores. Os atores vêem a si mesmos e também o público. Encontro aqui mote para iniciar minha parcial contribuição.

1) Quando os atores se vêem e vêem o público.

            O Grupo Cuidado Que Mancha, quando se vê e vê seu público, encontra no espetáculo “Bach para crianças” uma produção extremamente bem cuidada em todos os seu aspectos. Constrói um texto que parte da brincadeira possível entre a expressão gaúcha Bah! e do nome do compositor Bach para conquistar as crianças e os adultos que lhe assistem. Esse texto evolui sempre alternando entre a biografia do músico e algumas informações relevantes acerca dos instrumentos musicais, das notas, dos estilos, enfim de várias informações que enriquecem o trabalho e também quem lhe assiste. Cada frase acontece em tantos níveis quanto é possível a compreensão, possibilitando aos espectadores fruir a produção sempre de forma a contemplar as diversas bagagens culturais. Os três músicos (Sergio Olivé, André Paz e Marjana Rutkovski) interagem com o público, com o Maestro (Róger Wiest), com seus instrumentos e entre si de forma a nos convidar para participarmos juntos com eles da história que se conta. Ao longo de quarenta minutos, trechos de quatorze composições de Bach são executadas e o resultado não poderia ser outro que não pedidos de bis e aplausos sem fim. A dureza de uma música barroca, a partir de ouvidos talvez mais acostumados ao que se ouve na TV e na internet, é encarada pelo Grupo como um mote para colorir. As crianças brincam com os sons, os adultos se envolvem, o espetáculo acontece. Com um cenário e figurinos simples, mas visivelmente planejados, toda a atenção é dada à música de Bach. Róger Wiest, o maestro, é quem guia o olhar do público por todo esse universo que sabe em nenhum lugar insignificante e, por isso, tão bem sucedido. O Sucesso aqui quer dizer olhar para si e para o público com atenção, oferecendo não o melhor que se pode, mas tudo de que é preciso para acontecer no máximo das suas potencialidades.

2) Quando o público vê os atores.

            Quando o público vê o espetáculo  “Bach para crianças”, ele encontra tudo o que precisa para se orgulhar da cidade onde mora. O espetáculo começa na hora marcada, acontece num lugar confortável (com estacionamento, cafés, banheiros e lugares para se esperar ou ficar mais um pouco após o final da peça) e fornece um programa com todas as informações que possam ser interessantes. Existe uma equipe de recepção bem preparada e há a divulgação de números de telefone, site e email de contato, caso seja preciso alguma consulta prévia ou posterior. Apesar da sala de espetáculo não ter, em sua construção, todos os aspectos ideais para um palco à moda italiana, há a conquista de uma simpatia que possibilita ao público ajustar-se à realidade, oferecendo, por exemplo, os lugares da frente para as crianças, as cadeiras para os mais velhos e assim por diante. Ou seja, não há barreiras entre o público e “Bach para crianças”, mas, ao contrário, há o convite para que cada um ajude gentilmente a divulgar a produção e volte nessa ou em outras do mesmo grupo. Sucesso aqui quer dizer abrir as cortinas da produção para o público em todos os aspectos e não só enrolar o pano de boca e deixar o palco ser visto.
            Nesse sentido, “Bach para crianças” é um bem para Porto Alegre que é digno dos aplausos que recebe, porque também aplaude a cidade, a sua classe e o seu público.

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Ficha técnica:
Roteiro: Raquel Grabauska e Róger Wiest
Maestro e Voz: Róger Wiest
Teclado: Sergio Olivé
Violão: André Paz
Violoncelo: Marjana Rutkovski
Repertório: Cláudio Veiga
Cenário e Figurino: Mariana Melchiori
Direção: Raquel Grabauska
Produção: Raquel Grabauka e Alexandre Prabalde

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