28 de ago de 2011

Exercício sobre a cegueira


Foto: Vilmar Carvalho

O simples complicado

Exercício sobre a cegueira” não tem relação direta com o “Ensaio sobre a cegueira”, conhecido romance de José Saramago, recentemente levado às telas. A nova produção da Cia. Teatro Face & Carretos é uma versão adaptada do texto “Os Cegos”, do belga Michel de Ghelderode (1898-1962), quase desconhecido no Brasil. Atualizando o tom sombrio, moralista e misterioso presente nos mais de sessenta textos desse autor, a parábola foi inspirada nos quadros do pintor seiscentista Pieter Bruegel, o Velho, em especial “Parábola dos Cegos”, de 1568. Três cegos estão a caminho de Roma. Depois de semanas caminhando, já cansados, acham que estão próximos do Vaticano, onde esperam ver o Santo Padre que irá curá-los. Um homem caolho, que os vê dar voltas sem sair do lugar, adverte-os da triste realidade. As máximas “Pior cego é aquele que não quer ver” e “Em terra de cegos, quem tem um olho é Rei” são os fios condutores dessa história. No Evangelho de Lucas, consta outra máxima provavelmente útil ao dramaturgo e ao diretor: “Jesus contou uma parábola aos discípulos: Pode um cego guiar outro cego? Não cairão os dois num buraco?” (Lc 6,39)

O espetáculo dirigido por Camilo de Lélis surge a partir de um curso de direção ministrado em 2010, segundo consta no programa entregue na entrada do teatro. A inexperiência de três dos quatro atores do elenco, no entanto, é negativamente visível, independente dessa informação. Leandro Schimitt, Paulo Resendez e Davi Borba executam as marcações perfeitamente, dizem o texto sem errar as falas e exploram os diferentes níveis do espaço, conferindo mérito ao experiente diretor, responsável pelo desenho da cena. Apesar disso, durante todo o tempo da representação, não vemos suas ações sendo corporalizadas, as interpretações não são críveis e, por vezes, elas exibem um histrionismo exagerado que se torna inadequado sobretudo quando se pautam por referências à sexo. A sensação que o espectador sente de que o ator está “fazendo de conta” que está sentindo algo que, na verdade, não sente vem do excesso de gestos, da força manifesta em despertar o riso, do emprego de ações que “puxem o foco”. O distanciamento visível entre o ator e o personagem é bem vindo em alguns gêneros narrativos. Esse, no entanto, não é o caso da parábola, sistema que precisa da catarse para se estabelecer. Se o espectador não acredita nos personagens, não consegue se desvencilhar momentaneamente de si. A reflexão proposta só acontecerá quando o espectador retorna não seu ponto de vista de origem com a nova informação. Em “Exercício sobre a cegueira”, são poucos os momentos em que há o convite para deixarmos de ver teatro no teatro.

Os melhores momentos da peça estão nos solos de João França, ator que interpreta o “Caolho”. As palavras soam naturais na assistência, o discurso se estabelece em vários elementos (tom da voz, pausas, ritmo, gestos), de forma que é possível acreditar-lhe. Não se pode deixar de destacar também o interessante uso que se faz da trilha sonora. A bela canção “Michael row the boat ashore”, registrada pela primeira vez na guerra civil americana (1861-1865), que, no Brasil, é cantada pelos católicos à refeição (“Ao Senhor oferecemos/agradecemos, Aleluia, o alimento que teremos/tivemos, Aleluia!”), torna-se ferramenta útil para expressar: a) a religiosidade dos personagens que querem ser curados, e, talvez, sua cegueira não-física; b) o movimento de dar voltas e mais voltas no mesmo lugar sem nunca se afastar muito do ponto de origem. Ainda, entre os aspectos positivos, deve ser citada a criação de luz de Maurício Moura que, num espaço não cenografado, adquire importância e responsabilidade ainda maiores. Moura produz uma ambientação pontual que, pelo jogo, dá ritmo à narrativa de Camilo de Lélis e seus atores.

“Exercício sobre a cegueira” é um espetáculo simples que parece ter sido complicado negativamente pelo acréscimo de comédia e pelo aparente rebuscamento das interpretações. A opção por figurinos contemporâneos, à guisa das roupas em estilo medieval, mais comuns em outras montagens desse texto, é, de forma positiva, uma atitude no sentido de preencher de possibilidades significativas o texto literário. Assim, a Cia. Teatral Face & Carretos, um dos grupos mais importantes da história do teatro gaúcho, reafirma a sua volta, mas também seu empenho em propor produções cuja qualidade é inegável.

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Ficha técnica:

Direção, adaptação, figurinos e adereços: Camilo de Lélis

Elenco:
Leandro Schimitt
Rodrigo “Kão” Rocha
Davi Borba
João França
Paulo Resendez (stand by)

Criação de Luz: Maurício Moura
Efeitos Sonoros: João França
Estágio em direção: Cléia Bertinetti e Bernardo Vieira
Realização: Cia Teatral Face & Carretos
Produção: Gemini Tauros Produções Artísticas

24 de ago de 2011

Tartufo

Foto: Jorge Scherer

O Grupo Farsa volta à Farsa!

E são bem vindos! “Tartufo” é o segundo espetáculo da trilogia “As três batidas de Molière”, que começou com “O Avarento” e terminará com “O doente imaginário”, espetáculo que celebrará os dez anos de atividades desse grupo que se caracteriza por produções extremamente bem cuidadas. Não há espetáculo do Grupo Farsa sem programa, sem pessoas que te recepcionem bem à portaria, sem divulgação ampla, sem projetos paralelos que acrescentem à classe artística portoalegrense e aqueles envolvidos com ela. “Tartufo” pode não ser o melhor espetáculo da companhia, mas fica bem próximo do saudoso “A Roupa Nova do Rei.” Eis novamente uma Farsa!

O gênero farsa, que, embora dê nome ao Grupo, não é sua prisão, é o que melhor organiza os sentidos numa peça de Molière, como aqui, mais uma vez, é o caso. Na produção dirigida por Gilberto Fonseca, muitos elementos que fazem parte do repertório do gênero foram aproveitados a começar pelas construções de personagem. Em Ariane Guerra (a empregada Dorina), Marcos Chaves (Oregon, o dono da casa) e Laura Leão (a mãe de Oregon), as melhores construções em cena, é possível identificar a máscara farsesca, elemento que mais proporciona ao público o riso, a comédia, a piada em montagens desse tipo. Os três atores, ao carregar suas “tintas” em movimentos compartimentados (num simples gesto de mão, facilmente se reconhece vários estágios previamente planejados), deslocam os personagens do realismo, do público, e , com isso, instauram, uma realidade narrativa que acontece em dois níveis: o nível do personagem e o nível do ator. Ao espectador é dado ver, assim, Guerra e Dorina, ao mesmo tempo, em cena, num duelo cômico tão rico na farsa molineresca. Laura Leão ri de sua personagem, se diverte com ela e nos deixa livres para pensar que a Mãe que ela interpreta reprova a atriz. Os personagens de tão codificados (a empregada enxerida, o patrão ingênuo, a sogra fanática) se reproduzem no universo cultural de diferentes lugares e histórias ao longo do tempo, sempre sendo fonte de muitas anedotas contadas de pai para filho,de quadro em quadro, de romance em romance. Guerra, Chaves e Leão não perdem oportunidades de se exercitar, de nos divertir e, sobretudo, de se divertir. Quando isso fica claro para o público, a plateia responde ao riso sem fazer força. Apesar de alguns momentos de exceção, Tefa Polidoro (A filha de Oregon ou “a mocinha”da história) e Carlos Azevedo (o cunhado de Oregon ou “o cunhado aproveitador”) acompanham o trio e conseguem, assim, grandes momentos.

Em termos de encenação, Gilberto Fonseca dá duas contribuições ao gênero, particularizando a produção. Uma delas diz respeito à interpretação de Elison Couto ao personagem protagonista. O Tartufo de Couto/Fonseca ultrapassa o realismo e é apresentado quase sem expressão, muito próximo do neutro e seria possível dizer, embora se saiba impossível, que não há teatralidade nele. A negação da máscara torna-se sua afirmação e é como se a peça dissesse à assistência: “esse personagem pode ser encontrado, assim como ele está, entre vocês!” – o que é extremamente rico. O jogo que a produção estabelece com a produção de “O Avarento”, cujo protagonista Harpagão também foi interpretado por Elison Couto, garante gargalhadas, atinge o alvo em cheio, é diversão pura. Os movimentos, como apontado acima, bastante neutros não escapam a uma certa malícia própria do discurso verbal do personagem. O resultado é sarcasmo: chave para o conflito que o personagem propõe à situação dramática. Tartufo é um enganador que é acolhido por Oregon, que vê nele uma espécie de novo profeta, um homem cujas palavras devem ser ouvidas e postas em práticas com cega devoção. A vida dupla de Tartufo na casa de Oregon encontra paralelo na vida dupla de sua concretização cênica: personagem e ator convivem na cena farsesca, o que, séculos depois, será politicamente rediscutido no distanciamento brechtiano. Mas se, em Brecht, causa reflexão, em Molière, por primeiro, causa riso. Fonseca e a maior parte do seu elenco consegue isso. Os senões estão em Lúcia Bendati, Plínio Marcos Rodrigues, Vinícius Meneguzzi e Bruno Hypólito que exibem construções realistas e, por isso, não exploram a farsa a consenso.

Outra grande contribuição dessa produção ao repertório de Molière está a profícua aproximação do texto “Tartufo” com o universo das igrejas evangélicas/renovação carismática católica. As músicas iniciais, por explorar as possibilidades desse arcabouço estético, investem na ironia, na brincadeira séria, na crítica. Lembrando o quadro “Tim Tones”, personagem de Chico Anysio, a plateia se diverte, sobretudo na cena do “Vamos passar a sacolinha”. Uma vez que a adaptação do texto é recheada de palavrões, as cenas musicadas, com exceção das duas últimas, se afastam das comportadas marcações vistas em “O Avarento” e dão ao todo um saldo extremamente positivo.

A concepção estética que traz os personagens, em termos de figurino (Daniel Lion), ao século XX, também é positiva por proporcionar ao espectador o aprofundamento do nível de linguagem, isto é, permite pensar na produção como alusiva à hipocrisia da classe média contemporânea. Em questão, está o julgar pelas aparências, a fé desmedida, a corrupção, temas que, em tudo, encontram resposta nos elementos estéticos escolhidos, sejam eles plásticos, como o caso do figurino, ou da ordem do movimento e do conjunto da interpretação. As repetidas e, por isso, positivas ocasiões de convergência fazem de “Tartufo” um espetáculo que merece ser assistido e valorizado pelo bom público gaúcho e, quiçá, de outras paragens.

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Ficha técnica:
A partir da obra de Moliére
Direção: Gilberto Fonseca

Elenco:
Elison Couto
Ariane Guerra
Carlos Azevedo
Laura Leão
Lúcia Bendati
Marcos Chaves
Plínio Marcos Rodrigues
Tefa Polidoro
Vinícius Meneguzzi
Bruno Hypólito

Assistência de Direção: João Pedro Madureira
Stand by: Fernanda Petit
Figurinos: Daniel Lion
Trilha Sonora, Preparação Vocal e Direção Musical: Marcos Chaves
Banda Cênica: Rimel in color
Iluminação: Gilberto Fonseca e Carlos Azevedo
Cabelos e Maquiagem: Elison Couto
Produção: André Oliveira e Rodrigo Ruiz
Assessoria de Imprensa: Sandra Alencar

22 de ago de 2011

Um verdadeiro cowboy


Foto: Kiran
Para quem não conhece Roberto Oliveira

Texto vencedor do Prêmio Carlos Carvalho de Dramaturgia em 2006 (2º lugar), a montagem de “Um verdadeiro cowboy”, da paulista radicada na Espanha Marilia Samper, não ganhou o Prêmio Auxílio Montagem do Júri indicado pela Coordenação de Artes Cênicas da Prefeitura Municipal de Porto Alegre. A produção marca os 35 anos de carreira de Roberto Oliveira e os 15 anos do Depósito de Teatro, um dos grupos mais importantes da capital gaúcha. Nada disso precisa saber, no entanto, quem entra no teatro e vê o ator sentado sob o refletor com o controle remoto em mãos e o volume da TV bastante alto. Não há nada externo ao espetáculo que o espectador precisa conhecer para ser “pego” por ele quando ele é bom. A análise a seguir se sustenta apenas nos elementos internos à obra. Informações adicionais são meros souvenirs para quem não está envolvido com produção teatral, ou seja, o grande púbico.

O texto é simples e expressa uma situação dramática previsível, o que nos leva a entender que a importância não está na narrativa, mas nas relações que se estabelecem entre os personagens. As figuras de “Um verdadeiro cowboy” se modificam de acordo com quem está com elas na cena, como um espelho que tem a aparência de quem olha para ele. E como se houvesse várias versões diferentes do personagem Pai: um diante da Filha, outra diante do Cowboy, outra diante de Marilyn, outra diante do Médico e outra diante da Esposa. Com a personagem da Filha, acontece o mesmo: há uma diante do Pai e outra diante do Médico, o que nos permite pensar que toda a encenação dirigida por Liane Venturella pode ser lida a partir desse princípio lúdico de identificação: se um personagem é A, o outro é B, de forma que, por princípio, não há construções inteiramente fixas.

Roberto Oliveira providencia ao seu público um momento raro e, por isso, precioso de excelência em interpretação. Com coragem, o ator enfrenta o estereótipo do idoso sem medo. Esse Pai, sim, se arrasta, fala com chiados e tem movimentos lentos e trêmulos, elementos esses muitas vezes sugeridos pelo código já fixado. O particular está no uso desses elementos pelo espetáculo: o olhar de Oliveira que investe a plateia de responsabilidades, o lábio inferior projetado para a frente, que garante fisicamente uma justificativa para o falar característico são dois entre muitos exemplos. O ritmo da respiração explica a lentidão dos passos. Em cada detalhe, Oliveira inscreve uma nova afirmação sobre o seu personagem, ato esse que confere ao todo a prazerosa segurança de que o público precisa para reconhecer suas nuances no desenrolar das cenas. O senhor cansado e depressivo com a Filha, não é o mesmo senhor vibrante e infantil com o Cowboy. A situação de inferioridade no primeiro caso é uma reação à superioridade oposta. A igualdade no segundo momento vem do ambiente alegre assim sugerido. De forma aparentemente natural, o espectador se deixa levar por esses jogos e se encanta, em catarse, com a capacidade inevitável do homem de se multiplicar em si mesmo.

Marcelo Johann e Elisa Heidrich interpretam o Cowboy John Wayne e a Filha respectivamente. Com funções coadjuvantes, ambos atores têm, por isso, menos oportunidades que Roberto Oliveira na peça para mostrar sua técnica e seu talento. Os resultados que conseguem, no entanto, não são um pouco que seja menos positivos.

Johann interpreta um personagem hollywoodiano bastante forte no imaginário coletivo. Como Oliveira, o jovem ator tem em mãos um estereótipo para vencer como desafio nesse trabalho. Mas, também dirigido por Venturella, investe, avança e nos proporciona grandes momentos. Seus ombros sempre em diagonal, o quadril para a frente, o olhar calculado de quem sabe para onde está olhando porque planejou esse olhar: o Cowboy é campo livre e tranqüilo onde todos nós podemos deixar nossa imaginação fluir, o que também acontece quando na entrada da personagem Marilyn Monroe, construção de Heidrich, cuja qualidade da voz surpreende e encanta. São nesses Oásis em que o Pai, protagonista, irá se aventurar, nos divertir e nos fazer enternercer.

A personagem Filha aparece como o exato oposto dessas duas últimas construções: ela é nervosa, instável e pesada. Seus movimentos são imprecisos, sua voz é cortante, seu olhar é inquisitivo. Num determinado momento, o texto traz a palavra “estorvo”. A morte, a doença, a sujeira são os estorvos da vida dessa mulher, construída pela atriz Elisa Heidrich, que vê nessa situação a resposta contrária ao que tinha planejado para si. Sua presença em cena é como o sino que anuncia que o recreio acabou, cumprindo, assim, exata e perfeitamente o seu papel na narrativa, que se mostra como apontado no início voltada mais pela configuração dos personagens do que pela história que conta.

“Um verdadeiro cowboy”, ao tratar do abandono, da velhice, da morte, das relações familiares e do prazer em viver, emociona o seu público, agrada os entendidos, surpreende os ingênuos. A todos deixa o direito de pensar sobre si e sobre a vida e seus personagens que nela habitam, usando, para isso, uma história simples, três figuras simples, elementos visuais simples. O aplauso é um dever que se cumpre como quem goza um direito.

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FICHA TÉCNICA

Texto: Marília Samper
Direção: Liane Venturella

Elenco: Roberto Oliveira, Elisa Heidrich e Marcelo Johann

Figurinos: Liane Venturella
Edição de som e imagem: Álvaro RosaCosta
Produção: Francine Kliemann

1 de ago de 2011

Breves Entrevistas com Homens Hediondos


Foto: Marina Fujiname


Quando Daniel Colin protagoniza

Breves Entrevistas com Homens Hediondos” é a nova produção do Grupo Sarcáustico, companhia responsável por “Wonderland e o que M. Jackson encontrou por lá”, espetáculo vencedor de cinco indicações e quatro troféus Açorianos, entre eles, o de Melhor Espetáculo de 2010. A peça é uma adaptação de Daniel Colin e de Felipe Vieira de Galisteo, com direção geral do primeiro, da coletânea homônima de contos de David Foster Wallace (1962-2008). A produção, conseqüência do Prêmio de Incentivo à Pesquisa Teatral no Teatro de Arena 2011, apresenta-se como resultado de um trabalho em conjunto de direção. Nos diferentes quadros, o papel de diretor se alterna de forma que os quatro atores – Daniel Colin, Guadalupe Casal, Ricardo Zigomático e Rossendo Rodrigues – são ora atores, ora diretores. Trata-se, assim, de uma sucessão de quadros que respeita o universo do contista. Dos oito quadros, três se destacam positivamente.

“Como conseguir uma xoxota em 5 estágios”
Sob a direção de Daniel Colin, Rossendo Rodrigues inicia o teatro em “Breves Entrevistas” com a elogiável interpretação de um homem que seduz mulheres chamando a atenção para uma deficiência física: ele não tem um dos antebraços. Ao narrar seus “truques” para conseguir sexo, o ator, que simplesmente mantém suas mãos postas sobre os joelhos, seduz a plateia que, facilmente, cai em seus “encantos”. Rodrigues está, durante todo o período da encenação, sentado e pouco se mexe. É na voz e no jogo de tons que ele atinge o seu objetivo, sucesso esse que coloca essa cena entre um dos melhores acontecimentos da noite. A luz sobre ele, igualmente muito positiva, junto das grades ao fundo, constrói um universo de submundo que acabará por ser muito interessante ao longo de todo o espetáculo. Com essa cena, o espectador entra no clima sombrio e sórdido, preparado para encontrar-se com “homens hediondos”.

“A Mulher Pós-Feminista”
Sucedendo o início do espetáculo, algumas cenas (cujos nomes eu não consegui localizar no programa) construídas a partir de cansativos textos sobre sexo, relações sexuais, poder, machismo x feminismo, fazem “Breves Entrevistas” cheirar a espetáculos comerciais de baixa qualidade e valor estético duvidoso. Entre elas, a proposta do Grupo Sarcáustico de promover um espetáculo interativo em que o público escolhe uma entre duas cenas que deseja ver.
Na crítica de outros espetáculos da mesma companhia, eu já havia apontado um traço negativamente característico de suas produções: um desapego marcado entre a forma e o conteúdo. Aqui, a proposta de interatividade é mais um exemplo. “Breves Entrevistas com Homens Hediondos” não tem absolutamente nenhuma relação com a interatividade, com participação, com o clima leve e democrático necessário para o adequado estabelecimento desse tipo de exercício narrativo/fruitivo. Ao contrário, cena após cena, entrevista após entrevista, com o público, se consolida a ideia naturalista de sufocamento, como se os homens fossem comparados aos animais, em que o predomínio do instinto esbarra com a racionalidade civilizada do mundo sociável. Os personagens, afinal, não são sociáveis, não são respeitosos, não são democráticos. A interatividade é, assim, mais um resultado de uma vontade do grupo em construir um espetáculo com esse tipo de característica sem que haja ou, pelo menos, fique visível, a relação entre ela e o que a peça está realmente querendo dizer. Em outras palavras, porque escrever bem não é simplesmente justapor palavras quaisquer, acho difícil um bom espetáculo partir de exercícios quaisquer como é o caso da proposta desse jogo que, afinal, se perde.
Mas eis que Guadalupe Casal entra em cena diante desse marasmo estético e inicia um discurso tedioso sobre o feminismo, as vontades das mulheres, seus desejos em relação os homens e às relações. Aos seus pés, um pouco mais distantes, estabelecendo uma relação triangular, estão Daniel Colin e Ricardo Zigomático. É, então, que, dirigidos por Rossendo Rodrigues, os dois atores estabelecem um jogo de oposição entre si em relação à atriz, situação essa que é rica e, por isso, bastante interessante.
A cena é simples: os dois homens brigam pela mulher. Ou melhor: dois machos brigam pela fêmea. O animalismo irracional retorna à cena e é construído a partir do teatro. Os atores brigam, disputam, correm, se batem, duelam pela atriz que, em sua personagem, os domina quase sempre, excetuando as vezes em que se deixa levar por si própria e por eles. Texto e atitudes se opõem, concordam, se equiparam. A cena tem ritmo, tem força, movimenta a roda da narrativa e o faz de forma convergente.A crítica, a força do texto de Wallace aparece novamente.

“Um Homem em Busca de Sentido”
“Incomunicabilissimamente” (direção de Ricardo Zigomático, com Guadalupe Casal e Rossendo Rodrigues) e “Vitória para as Forças da Liberdade Democrática” (direção de Daniel Colin, com Rossendo Rodrigues) são duas cenas que acontecem em momentos mais próximos do fim de “Breves Entrevistas com Homens Hediondos”. Entremeadas por novas e prejudiciais sequências desprovidas de ação e cheias de teses sobre a relação entre homem e mulher, essas duas em destaque, num curto espaço de tempo, trazem o espectador de volta aos bons motivos que o Grupo Sarcáustico podem oferecer ao seu público. Na primeira, Rodrigues e Casal interpretam dois personagens falando um em inglês e a outra em espanhol. Eles dançam, seduzem-se. A relação evolui, se modifica, se enriquece, se critica. Na segunda, Rodrigues interpreta um homem com dificuldades de se concentrar na hora do sexo. Ele está dentro de uma gaiola, de forma que o cenário corrobora com a situação dramática, tornando potente o significado. A comunicação com o outro e consigo próprio, num ambiente individualista e de solidão, concorda com o espetáculo cujos personagens centrais parecem estar desamparados em meio às próprias situações. Alguns momentos de escape se mostram falsos e, por isso, cruéis com esses “homens” que, devido a sua humanidade, essa friamente exposta, acabam por não parecer tão hediondos. Uma dúvida paira no ar. E, então, o espetáculo chega ao seu final.
Em “Um Homem em Busca de Sentido”, Daniel Colin se mostra como um excelente ator, um dos melhores do nosso estado. Na cena, ele está sozinho, único e, por isso, encontra-se pleno para mostrar a sua técnica e o seu talento. Depois de tantas vezes assisti-lo e, em várias ocasiões, ter me dedicado a escrever sobre ele, percebo, a partir desses outros trabalhos, mas, sobretudo, por sua atuação em “Breves Entrevistas”, que Colin mostra dificuldades em ser um personagem coadjuvante, “puxando o foco” constantemente para si, tornando difícil para o espectador prestar a atenção no protagonista da cena quando ele está próximo. Na última cena, no entanto, isso não acontece porque ele é o protagonista. Nesse caso, quem ganha somos nós.
O texto de Wallace traz um novo ponto de vista sobre fatos tidos como dogmáticos. O holocausto é um exemplo. Seria possível pensá-lo positivamente? Quando o personagem interpretado por Daniel Colin, na cena dirigida por Guadalupe Casal, começa a investir nesse questionamento e em outros similares ou, talvez, mais profundos, o espectador é convidado a voltar para o submundo que, talvez por um certo cansaço, abandonou logo depois da cena inicial. Há, finalmente, conteúdo “dos bons” sendo tratado, em detrimento das mornas discussões sobre sexo, sobre homem e sobre mulher e suas relações. É, também, nessa cena que David Foster Wallace, até então mostrado quase que apenas pela sua capacidade de escrever palavrões e por pôr seus personagens em situações sombrias (como tantos outros já o fizeram), é apresentado em profundidade. Colin, em sua belíssima interpretação, não nos deixa tempo para pensar em nós, não nos dá chances para lembrar de Wallace e nem mesmo permite que lembremos do teatro. Com olhar a girar sobre a audiência e sobre si próprio, o ator prende a nossa atenção e faz com que nos doemos mais rapidamente do que ele próprio se doa. Por ter ficado imanente qualquer reflexão sobre nós próprios, sobre Wallace e sobre o teatro, é que, finda a cena, a avalanche catártica ganha lugar e força. Colin varia as tensões, percorre o espaço que, nesse momento, é reconstruído de forma a expressar plasticamente a desconstrução do mundo de que o personagem fala em sua entrevista. Sobre tudo, a cena desconstrói o horror que sobrou nos personagens que vieram antes do de Colin, mesmo que eles só tenham ficado nas intenções. A entrevista está para terminar e muito ficou para ser dito.
Não há jeito de fazer com que um significante fique sem significado. Uma vez significante, sempre haverá para ele um significado. O homem que busca o sentido, na verdade, procura outro sentido. Nas “Breves Entrevistas”, faltam mais buscas para que todas tenham a mesma força sígnica dessa última.

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Ficha técnica:

Dramaturgistas: Daniel Colin e Felipe Vieira de Galisteo
Direção geral: Daniel Colin
Direção das entrevistas, concepção e atuação: Daniel Colin, Guadalupe Casal, Ricardo Zigomático, e Rossendo Rodrigues.
Atriz especialmente convidada: Tatiana Mielczarski
Cenário: Eder Ramos e Ricardo Zigomático
Figurinos: Daniel Lion
Iluminação e operação de luz: Carol Zimmer
Operação de luz (stand by): Maíra Prates
Coordenação de Trilha Sonora: Rafael Lopo
Trilha Sonora Pesquisada: Rafael Lopo, Daniel Colin e Ricardo Zigomático
Direção, edição e operação dos vídeos: Thais Fernandes
Design Gráfico: Pedro Gutierres
Cabelos e maquiagem: Márcia Pazzini
Fotografias: Marina Fujiname
Assessoria de imprensa: Bruna Paulin
Coordenação de Produção: Fernanda Marques
Assistência de Produção: Cassiano Fraga
Produção internacional: Simone Buttelli
Realização e Produção Geral: TEATRO SARCAUSTICO

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