29 de set de 2009

A megera domada

foto:

Life is a Cabaret!

“Deixe os seus problemas lá fora!
Então, a vida não é o que você queria? Esqueça disso!
Nós não temos problemas aqui dentro.
Aqui a vida é bonita…
As garotas são bonitas...
Até a orquestra é bonita!

Willkommen, bienvenue, welcome!
Fremde, etranger, stranger.
Gluklich zu sehen, je suis enchante,
Happy to see you, bleibe, reste, stay."


É assim que Bob Fosse nos apresenta o seu Cabaret (1972): como um lugar mágico onde as coisas são do melhor jeito que você é capaz de ver. Onde não há espaço para problemas, desilusões, impossibilidades. No Cabaret, você é quem quiser ser.

Pensei nesse filme assistindo a “A megera domada”, última produção da Cia. Rústica, dirigida por Patrícia Fagundes. Como em Fosse, que traduz para o cinema o que já foi teatro (Cabaret, 1966), o que já foi texto dramático (I am a câmera, 1951) e o que já foi livro (The Berlin Stories, 1946), Fagundes traduz para o palco o Shakespeare de 1594, que já re-traduzia uma antiga peça chamada "A taming of a shrew" e outras histórias. Tanto lá como aqui, estão abertas as janelas que nos dão direito a trocar de roupas, de personagens, de identidades sociais. De uma forma muito interessante, a Cia. Rústica, entre mil possibilidades (um número finito), resolveu re-hierarquizar o sistema “Megera” a partir do sujeito discursivo, ato esse similar ao que Adriane Mottola fez com “A comédia dos erros”, pelo comércio de rua e a relação comercial; e Luciano Alabarse, com “Medéia”, pela relação homem e mulher. No resultado final, consta o palco como um camarim: um espelho com luzes, cabides com figurinos à mostra, cadeiras e garrafas d’água. Os atores vestem e agem como num musical de Fosse: chapéus coco e fraque, danças altamente sensuais, cigarro e rosas vermelhas, o preto prevalecendo. Life is a Cabaret!

O convite é, então, que deixemos nossos problemas de lado, na porta da rua. O personagem Lorde transforma um bêbado em nobre não por aquilo que ele é ou apresenta poder ser, mas pela influência do olhar do outro sobre ele. A partir desse mote, estimula-se a mudança, o proveito que se tira de oportunidades: podemos ser o que querem que sejamos, o que queremos ser. A longa e, um pouco cansativa, história de Catarina, a irmã mais velha de Bianca, começa trazendo seus muitos personagens, nomes e tramas. Mesmo o elenco sendo muito habilidoso, é muita história para contar. Sorte nossa que estamos no veludo do São Pedro. Azar o dos ingleses, em pé (muitos deles), no teatro elizabetano. Mas sorte nossa também porque o clima dessa concepção é de divertimento e leveza: o olhar irônico de Sandra Possani (Catarina), quando passa pela platéia, provoca sorrisos e nos enche de convites para continuar gostando e não esmorecer. Francisco de los Santos, absolutamente excelente em todos os seus personagens, consegue a façanha de se destacar nesse conjunto tão afinado, talentoso e potente: Heinz Limaverde (Açorianos de Melhor Ator 2008), Elisa Volpato (cujo nome no programa tem garantido um bom espetáculo a ver!) e Álvaro Vilaverde (com a seriedade de uma interpretação a altura de sua linda e educada voz), entre outros nomes bem conhecidos do teatro porto-alegrense. Boa surpresa encontrar Leonel Radde, apesar de alguns excessos de expressão facial, resquícios de teatro infantil clássico, tão desenvolto em cena a propor sempre novos jogos cênicos com Lisandro Bellotto. Não tão bom encontrar Carlos Mödinger, afeminado demais em todos os personagens que interpreta nessa história. Ótimo encontrar Simone Rasslan, Monica Tomasi e Eduardo Kraemer nessa ficha técnica tão reconhecida.

A diferença básica entre o filme Cabaret e o musical homônimo da Broadway é que, no primeiro, as músicas concentram-se dentro do Cabaret, a exceção de “Tomorrow belongs to me”. É só dentro daquele espaço que é possível subverter a realidade: Fosse chama a atenção para o crescimento do nazismo ainda na República Weimar, alguns anos antes da eclosão da guerra. Patrícia Fagundes, no entanto, coloca toda a história dentro desse camarin, abrindo o leque de vantagens para todos os momentos do seu espetáculo. São quase duas horas de duração com marcações ágeis, uma luz absolutamente coerente com o camarim e não com a história de Shakespeare - o que marca uma concepção muito bem amarrada -, figurinos e adereços que só ratificam e engrandecem a proposta como um todo. Assim, a Cia. Rústica não sugere, como faz Fosse, que deixemos nossos problemas do lado de fora, na Praça da Matriz. Mas exige que isso seja feito e barra totalmente a entrada deles.

Pena que, diferente de Fosse, não podemos ir na locadora e locar Fagundes para assistir quantas vezes quisermos ou precisarmos. Talvez seja por isso que assistir à Rústica nessa produção é, ainda mais que Fosse, um privilégio!

Willkommen, bienvenue, welcome
Im Cabaret, au Cabaret, to Cabaret”

*

Ficha técnica:

Direção e adaptação: Patrícia Fagundes

Elenco: Álvaro Vilaverde, Carlos Mödinger, Elisa Volpatto, Francisco de Los Santos, Heinz, Limaverde, Lisandro Bellotto, Leonel Radde, Rafael Guerra e Sandra Possani

Tradução: Beatriz Viégas-Farias
Trilha sonora: Monica Tomasi
Preparação musical: Simone Rasslan
Iluminação: Eduardo Kraemer
Figurinos: Antonio Rabadan
Assistência de Figurinos: Kethyenne
Confecção de Figurinos: Titi Lopes
Cenário e Programação gráfica: Paloma Hernández
Estágio de direção: Júlia Rodrigues
Instrutor de tango: Rodrigo Tomazzoni
Direção de Produção: Patrícia Fagundes
Produção Executiva: Luciana Leão
Fotos: Alex Ramires
Divulgação: Leo Santanna



25 de set de 2009

XVI Porto Alegre em Cena

foto: Nadia Mastromauro

Aposto

Há uma classe sintática que explica bastante a importância do teatro para a humanidade. Essa classe é o aposto. Sem me permitir ser gramatiqueiro, explico (ou tento) em rápidas palavras que essa classe corresponde à expressão que acrescenta uma informação ao nome a que se refere. Essa informação individualiza o nome. O teatro individualiza o ser.

Participaram da XVI Edição do Porto Alegre em Cena, um dos mais importantes eventos teatrais da América, cinqüenta e sete espetáculos. “Um dos mais importantes eventos teatrais da América” é o aposto. O Porto Alegre em Cena não é qualquer coisa.

Assisti a dezesseis espetáculos nos quinze dias de programação. Se somarmos os dez espetáculos que fizeram parte da grade a que eu já tinha assistido porque correspondem à mostra gaúcha, posso dizer que vi quarenta e cinco por cento do todo. Rodrigo Monteiro, quem viu quarenta e cinco por cento do disponível no Porto Alegre em Cena 2009, não é qualquer um. “Quem viu quarenta e cinco por cento de disponível no Porto Alegre em Cena 2009” é uma oração subordinada substantiva apositiva. E, como também a expressão “oração subordinada substantiva apositiva”, Rodrigo Monteiro parece muito pedante nessa construção.

Vou reformular então: Tive o privilégio de assistir a vários espetáculos interessantes e aqui quero dizer que gostaria que muito mais gente tivesse tido a mesma oportunidade. Diferente de qualquer outra arte, as que compõem o grupo das cênicas (teatro, dança, performance) não se repetem. São únicos em suas apresentações. Os espetáculos assistidos por mim naqueles dias, não eram os mesmos nos outros dias e não serão os mesmos se voltarem à nossa capital. A assistência de uma peça teatral é um bem irrecuperável.

E, às vezes, indivisível também. Num dos espetáculos, um aquário deslizava no palco tendo ao fundo um filete de tela branca que, contrastando com o peixe, destacava-o lindamente. Eu, no entanto, estava sentado na platéia alta e o filete branco, aos meus olhos, estava muito acima do aquário. Vi o peixe, mas reconheço que o efeito a que teve total acesso só uma pequena parte do público, era muito especial! O teatro enche um nome de apostos. Confere-lhe especificidade. Profundidade. Tato para com o mundo.

Um freqüentador de teatro contempla o mundo como quem contempla o mar e para ele fabrica redes (“A mar aberto”, RN, Brasil) que, acariciando-o, dele tirará o sustento. Não há, no mundo, motivos para brigar com ele. A fome está em nós. Tudo o que nos desagrada está em nós. E não há como livrar-se dessa e de tudo o que não é bom sem misturar-se, sem travestir-se das roupas (“Mulheres fortes em corpos frágeis”, Porto Alegre, Brasil) que o mundo mesmo nos disponibiliza. Moramos nele. Fazendo parte dele, mas com um olhar atento tanto para sua estrutura como para os seres que, como nós, no mundo vivem, vamos aprendendo sobre nós mesmos (“Caio Fernando Abreu – três monólogos”, PE, Brasil), nossas dores (“La Douleur”, Paris, França), nossa graça (“Rainha [(s)]” – SP, Brasil), e, sobretudo, nossa capacidade de se reinventar (“Kiss Bill” – Montreal, Canadá). Quem vai a teatro e adquire por isso uma especificidade que lhe destaca olha o mundo como se o mundo fosse parte de si e não o contrário. “Há um ser que habita dentro de mim como se eu fosse sua casa” – já dizia Clarice Lispector (“Luisa se estrella contra su casa”, Buenos Aires, Argentina). E resolver esse mundo torna-se parte de nossa responsabilidade (“O dragão”, RJ, Brasil). É daí, sinto dizer, que vem a tal de sensibilidade que toma conta de quem aprecia arte. E disse “sinto” não porque fico triste, mas porque passa-se a sentir tudo aquilo que se diz, que se canta (“Senhora dos afogados”, SP, Brasil), que se dança (“Dúplice”, GO, Brasil) e que se experiencia (“Crépuscule des océans”, Montreal, Canadá). É verdade que as tristezas assumem grandes proporções em pessoas mais sensíveis, mas também é verdade que os prazeres (“Medida por medida”, RJ, Brasil) ficam maiores. Sem falar na possibilidade de redesenhar os desafios e reescrever a própria história (“A mulher que escreveu a bíblia”, RJ, Brasil), o que enche aquele que olha o mar de ânimo e força (“The Voca People”, Jerusalém, Israel) para acordar no dia seguinte mais velho, sim, mas com rugas (“Só os doentes do coração deveriam ser atores”, SP, Brasil) trazidas mais pelas ações do que pelo tempo ("Quartett", Paris, França).

É errado, assim, dizer que teatro não é para qualquer um. Mais adequado é lembrar que o teatro torna qualquer um em um ser especial: um ser que viu essa peça e aquela. Que não gostou disso, mas amou aquilo. Que sentiu a falta de tal pessoa para comentar tal cena, e que encontrou aquela outra na fila do saguão. Que ficou com dor de tanto rir e que não conseguiu aplaudir de tão absorto com a cena final. Que teve que ir embora na metade porque uma atriz passou mal, que não conseguiu um lugar bom de tão cheio que estava a platéia, que não ouviu a fala mais importante da peça porque um bocó começou a tossir muito mais alto do que era necessário. Se o teatro te conta histórias, ir ao teatro é fazer parte de uma.

E esse Porto Alegre em Cena teve várias. Que venha a edição do ano que vem a trazer mais apostos a, desculpem, minha coleção.

24 de set de 2009

O amargo santo da purificação

foto: Mariana Viana

O nome Marighella

Reconhecimento é uma etapa superior do processo perceptivo ao conhecimento. Primeiro o mundo se relaciona com os nossos sentidos. Depois, ambos interagem e, quem sabe, modificam-se. “O amargo santo da purificação”, espetáculo da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz pára no fornecimento de sensações. Não chegam a sentimento e, muito pouco, ao conhecimento. A ação passa longe. Em resumo: é muito bonito. E nada além.

Quando pensei que a má experiência (porque teatro se experiencia e não só se vê) era só minha, fui pesquisar na internet. Fotos espalhadas em diversos sites comprovam: o espetáculo é sempre apresentado a pequenas multidões. Não haveria de ser de outro jeito. Dois cortejos dão início à peça, cada um vindo de um lado da cidade. Os atores, vestidos com cores fortes e máscaras que chamam a atenção, se destacam no ambiente não-teatro rua, cantam e executam coreografias. Usam do signo mais básico desse gênero teatral popular: a procissão de entrada. Fica-se maravilhado com os sons, encantado com as danças. Mas muito do que as palavras significam não chega até nós, apesar do som. Além de ver, ouvimos. E tocamos, pois as pessoas se aglomeram tentando de todo o jeito se aproximar, acompanhando o movimento liderado pelo grupo. Feliz de quem fica na primeira fila. Os demais, a óbvia grande maioria, é desconsiderada a não ser pela personagem em perna-de-pau. Vemos, ouvimos, tocamos, mas não nos aproximamos mesmo assim.

Se já não entendemos a música inicial, permanecemos sem entender a primeira parte do espetáculo (e também a segunda) quando finalmente o grupo composto por um número bastante expressivo de atores pára num lugar específico. As primeiras filas sentam-se, as pessoas de trás conseguem enxergar melhor. Umas sobem em bancos e mesas públicas tamanho é o interesse que a Terreira de Tribo consegue despertar. Vemos novas danças, ouvimos novas músicas, novos personagens passam entre nós. Entram bonecos, bicicletas e mais pernas-de-pau. Mas o texto continua sendo bastante inacessível: cheio de rimas e composto por um vocabulário bastante específico. A dramaturgia dessa produção com estética popular é, perdoem-me, elitista. A cada entrada de novo elemento, nova informação histórica é requisitada. Eu, embora acumule dois cursos superiores, fiquei com várias dúvidas. E, também, triste por ouvir as pessoas confundirem Vargas com Sarney, se perguntarem quem afinal de contas foi Marighella, e acharem que tudo era uma nova montagem do televisivo “O Auto da Compadecida.”

É riquíssimo todo o uso de elementos cênicos que disponibiliza o espetáculo ao seu público. Ao olhar, ao ouvido, ao toque. A articulação, que dá sentido e eleva a sensação para o sentimento e a abstração, no entanto, afasta a assistência, indo em direção contrária ao que se propõe. Como uma Esfinge, “O amargo santo da purificação” desafia sem pausa as pessoas a decifrarem o espetáculo que se torna cansativo pela extensa duração (uma hora e meia de pé ou sentado no chão!), pela estrutura biográfica da dramaturgia (já sabemos que a peça só vai terminar quando o protagonista morrer) e pelo texto rimado e cheio de necessidades históricas. Composto de boas interpretações, a direção (coletiva) usa e abusa dos ótimos adereços que tem, embora gaste, em cada um deles, um tempo muito maior do que têm aqueles que foram à praça para curtirem a paisagem natural, ou ir ao banco, ou ao trabalho, ou ao cumprimento enfim de sua agenda e não ao teatro que lhes pegou de surpresa.

Elogiar a entrega do programa no final da peça que contém a descrição das cenas é falar de outra coisa que não teatro. Publicidade, talvez. Muito bem escrito, o material vai ficar armazenado para a segunda vez que eu tiver a oportunidade de ver a peça. Reflito, no entanto, se não teria sido melhor que o interesse me fosse despertado no ato cênico do espetáculo ao invés da posterior leitura do texto informativo.

Requerendo tamanho repertório do público desprevenido, o grupo de teatro de rua mais antigo, conhecido e respeitado da capital gaúcha, apresenta um espetáculo que enche os olhos, mas, em quase nada, atinge os objetivos marcados pela sua própria história. Vemos, ouvimos e estamos. De Marighella, pouco além do nome.

*

Encenação coletiva da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz. Dramaturgia criada coletivamente a partir dos Poemas de Carlos Marighella. Roteiro, sonoplastia, figurinos, máscaras, adereços e elementos cenográficos são de criação coletiva.

Músicas: Johann Alex de Souza

Atuadores: Paulo Flores, Tânia Farias, Pedro Kinast de Camillis, Clélio Cardoso, Luana Fernandes, Marta Haas, Edgar Alves, Roberto Corbo, Sandra Steil, Paula Carvalho, Judit Herrera, Eugênio Barbosa, Roberta Fernandes, Lucio Hallal,Paula Lages, Déia Alencar, Danielle Rosa, Alex Pantera, Karina Sieben, Jorge Gil, Luciana Tondo, Carlo Bregolini, Renan Leandro, Alessandro Müller e Jeferson Cabral.


11 de set de 2009

Mulheres fortes em corpos frágeis [lado b]

Foto: Angela Alegria

Recorte


Você pode até nunca ter ouvido falar da Análise do Discurso e de Michel Pêcheux, mas sabe que veste por dia muitas roupas.

Quando com uma amiga, com a vizinha desconhecida, com o ator canadense, com o mestre em biologia, com a atriz da sua peça, com atriz ganhadora do prêmio no ano passado, com sua mãe, com seu ex-namorado, com seu gato, com sua professora da terceira série, com a coordenadora do seu pós-graduação, com seu chefe, com o estagiário, com a atual namorada do seu ex-marido...

Quando em casa, na sua rua, numa rua desconhecida, num parque à uma da manhã, num bar onde você vai sempre, no MSN, no Orkut, no Twitter, numa mensagem de celular, ao microfone de um videokê, na frente do padre, na casa da talvez futura sogra, no escritório da talvez futura chefe, na frente do talvez futuro orientador, no ouvido de alguém que você ama, às costas de quem você odeia...

Quando ao acordar, ao vestir-se, ao banhar-se, ao comer, ao comer-se, ao fumar, ao sair e esquecer as chaves, ao chegar e esquecer o guarda-chuva em algum momento do passado próximo, ao dormir, ao morrer, ao morrer-se...

“Mulheres fortes em corpos frágeis [lado b]”, produção do Grupo Gaia, me fala de manequins expostos visivelmente às várias roupas da estação. Presos em poses, olham o mundo além do vidro. Então, alguém lhe despe e muda-lhe um braço de posição. A nova tendência chegou, novos gostos a atender.

Três bailarinas expõem suas referências num programa. Tentei esquecer delas. E esqueci. Elas não me importam mesmo porque o bom desse tipo de espetáculo é que o que importa é o que eu leio. E eu leio isso: sou lido. A noção de que até mesmo quando sou sujeito, sou objeto captado pelo outro. O homem só existe como diferente do outro.

Daniela Aquino, Roberta Savian e Joana Amaral são intérpretes dessa interpretação de mundo. Têm movimentos pré-definidos e que se repetem em cada novo ritmo, em cada nova moda da estação. O universo popular, da Rádio Aliança à Rádio Amizade, do jeans à saia balão, da Ciderella ao (Hugo) Chaves: o tema é sempre a passagem, a mudança.

A mim, Diego Mac e Alessandra Chemello, os diretores, quiseram me falar sobre o que fica entre esse e aquele corte de cabelo, esse e aquele cinto ou cadarço de All Star. Quem fica é o olhar do outro. É esse que nos observa, que é nosso inferno. E o céu das temporadas de verão e de inverno.

Um espetáculo baseado em cima da novidade cansa. E “... [lado b]” cansa várias vezes. Em momentos diferentes, o ritmo cai e levanta, cai e levanta reproduzindo, talvez, as liquidações de inverno e verão que antecedem as novas modas. Não tem início, nem fim porque usamos coisas que usávamos há dez anos com uma cor nova e tudo se repete.

O cenário de Élcio Rossini, sem dúvida, nosso melhor cenógrafo, é realmente parte de um conceito muito bem amarrado. A mim, placas brancas pareceram giletes. Há uma gilete na capa do programa e talvez tenha sido por isso que essa imagem me veio à cabeça: recortes. A vitrine, a roupa, a modelo é um recorte do sonho, do ideal, do plano.

Como também somos recortes de nós mesmos quando no churrasco da turma, no fim da festa, na fila dos crachás. Quando acabo de comer e esqueci minha escova de dentes, quando acordo e já não penso em tanta coisa, quando digo não...

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FICHA TÉCNICA
Direção: Alessandra Chemello e Diego Mac
Coreografia: Alessandro Dall’Omo, Diego Mac e Paulo Guimarães
Elenco: Daniela Aquino, Roberta Savian e Joana Amaral
Coordenação técnica: Sandra Santos
Cenário: Élcio Rossini
Figurino: Lourdes Dall’Onder (especialmente convidada)
Iluminação: Liliane Vieira
Trilha sonora: Alessandro Dall’Omo, Diego Mac e Ticiano Paludo
Produção: Grupo Gaia

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