3 de set de 2009

Teresinhas


As letras do bordado


Por toda a minha vida eu nunca vou me esquecer da minha vó bordando sob a parreira de uva lá de casa enquanto eu e minha melhor amiga discutíamos nossos relacionamentos. Dona Hilda já tinha chegado aos 70 anos sabendo escrever só o primeiro de seus nomes, trocando, como sempre o fizera, o nome da minha mãe e me chamando, no melhor do seu sotaque cearence, de Rudrigui. Lá pelas tantas, no calor de quem recém tinha feito 20 anos e estava mais longe de saber quem era, eu e minha amiga nos perguntamos o que aquela senhora estaria pensando sobre nossos papos intermináveis e malucos. Minha vó tivera um homem só em toda a sua vida e, com ele, nove filhos. Na velhice, vendo “Brega & Chique” na televisão, tampava os olhos para não ver o ator “pelado, pelado, nu com a mão no bolso uh uh”. E nunca, nunca, nunca sabia quem era a Rute e quem era a Raquel. Mas, para a nossa surpresa, sabia exatamente do que a gente estava falando. Hoje, já não lembro o que foi que ela comentou, porque também não lembro afinal de contas qual era a história que dividíamos, mas recordo a vergonha inicial que senti quando descobri que minha vó tinha entendido os meus códigos pós-adolescentes e do orgulho final ao perceber que minha vó me entendia, me compreendia, me amava.

Pensei na minha vó durante o espetáculo Teresinhas, tão bem comentado, com lindas imagens e um elenco de bailarinas muito especial em todos os sentidos. Acho que essa era a intenção do Meme - Grupo de Pesquisa do Movimento ao propor um espetáculo tal como é essa produção.

Todo mundo teve uma avó de quem, um dia, vai se lembrar com carinho. Mesmo que não seja a mãe de sua mãe, mas é mãe de alguém ou mesmo uma senhora de cabelos brancos, rugas e falar diferente. Todo mundo tem ou terá uma mulher perto de si, seja lá qual for a relação que com ela estabelecer: família, trabalho, amizade, amor, sexo, vizinhança. Teresinhas fala de algo que todo mundo tem.

A cor predominante é terra. Seja o laranja do cenário e da luz, o bege e o marron e o vemelho de um outro vestido... Pouco se vê de azul e de verde. Não lembro de nenhum rosa, roxo, cinza. Os tons pastéis não acompanham os radicais, não vão muito lá, nem muito cá. Teresinhas não vai na margem, prefere o centro, nem direita, nem esquerda.

A letra da música fala em andor. Você vê um andor. A letra da música fala em começar o dia. A coreografia gira em torno de vestir-se e escovar os dentes. A narração fala em casamento: o figurino apresenta uma noiva. O texto diz que a noiva se arrepende. No vestido branco há sangue. Teresinhas te deixa absurdamente seguro e, quase sempre, muito entediado.

As músicas interpretadas ao vivo são lindas, mas não são teatro. É muito rico o desenho abstrato do cenário, mas não é teatro também. O texto, independente da voz da atriz locutora, é muito forte, mas, enquanto signo verbal, é literatura. O teatro se vê na dança, no movimento dos corpos, nas vozes usadas, cansadas, vivas. Mas quem já ouviu a música, quem já ouviu o texto, vai lá prestar atenção na redundante dança? Quando uma pessoa fala, ela quase sempre gesticula. O gesto preenche o corpo do falante, participa da conversação. Mas o que é essencial é o que está sendo dito. O gesto só vai se tornar protagonista se, ou não houver fala, ou a fala não concordar com o gesto.

Sem nenhuma narração ou música precedente, uma mulher de vestido vermelho entra.

“Como assim?” - penso eu positivamente.

O encenador, diferente do falante não é obrigado a seguir nenhuma gramática para ser entendido. Ele inventa a sua gramática conforme vai dispondo os signos no palco. Esse dispor, pode ser aleatório somente até o terceiro sistema posto. O quarto sistema será percebido pelo público a partir dos três primeiros. Quer ver?

Você sai e conhece alguém. Essa pessoa liga para você na segunda-feira. Liga novamente na terça. E liga na quarta-feira se você mostrar interesse até aí. Se ela não ligar na quinta, ocorre a surpresa. Você ficará tentado a ligar e perguntar o que houve. Nenhuma regra foi estabelecida. No domingo, a pessoa não combinou com você que ligaria três dias seguidos e, no quarto, não. Mas você percebeu uma sequência e se acomodou. O mundo é percebido como uma sequência de signos por quem vive nele e os produz também. Em Teresinhas, quando uma nova informação surgiu sem me preparar anteriormente fiquei surpreso. Nesse caso, felizmente surpreso! E, de novo, na entrada da máquina de costura. “O que ela quer me dizer? Por que aquilo está em cena? Até, então, tudo estava muito explicadinho. Finalmente, eu pude entrar em cena e minha criatividade foi aguçada pelo diretor!"

Há peças que jogam com a surpresa contínua. Nada combina com nada, mas nada mesmo! Há outras, no lado oposto, em que todos os elementos conversam: são diferentes, mas se complementam, não sendo opostos. A coerência se dá tanto num caso como no outro, pois, no primeiro, a incoerência é que é coerente. Teresinhas, no entanto, com pequenas exceções, vai além da coerência chegando a ser repetitivo: uma linguagem repete a outra, um sistema repete o outro. A pessoa pode até ligar pra você três dias seguidos, mas falar com você na terça como se já não tivesse falado na segunda e repetir tudo de novo na quarta fará com que você nem atenda o telefone, caso haja uma nova ligação.

O bom é que só lê quem conhece as letras. E, a muitos, Teresinhas agrada pela temática quase feminista, da qual eu não compartilho, mas respeito. O ruim é que minha avó, analfabeta, podia até não conhecer as letras, mas sabia ler cada sistema que eu e minha amiga dispunha na conversação, sem precisar de legenda, letra e muito menos narração.

Saudades, Dona Hilda!

*


Ficha Técnica

Concepção, direção e coreografia: Paulo Guimarães

Elenco: Ângela Coelho, Gabriela Rutikoski, Sônia Guasque, Fernanda Stein, Marina Stumpf, Thais Freitas, Walkíria Araújo

Cenário: Rudinei Morales
Iluminação: Fabrício Simões
Trilha sonora e execução: Tiago Rinaldi
Depoimentos e locução: Teresinha Jardim Machado
Figurino: Francisco Pimentel
Fotografia: Cláudio Etges e Fábio Zambom
Divulgação e design gráfico: Tiago Rinaldi
Direção de palco: Miguel Sisto Jr.
Produção: Tiago Rinaldi e Paulo Guimarães
Assistente de produção: Enzo Zuboski
Orientação cênica e atuação: Rodrigo Shalako

3 Comentários:

Paulo disse...

Bom dia, Rodrigo.

Sou Paulo Guimarães, diretor e coreógrafo do espetáculo TERESINHAS e lhe escrevo para agradecer a presença no último domingo (03/8/09) e por ter escrito seu parecer sobre nosso trabalho. Primeiramente queria lhe pedir para corrigir as informações colocadas sobre TERESINHAS: aparecem os nomes de duas bailarinas que não estavam em cena,
Ariane Donato e Adriane Vieira, e não aparecem os nomes de outras duas que estavam, Gabriela Rutikoski e Sônia Guasque, e os créditos do figurino são de Francisco Pimentel e não do grupo MEME. Nossa produção confirmou que lhe passou as informações corretas. Em segundo, ao ler e discutir com os profissionais que trabalham comigo chegamos a conclusão que sua palavras foram muito proveitosas e nos fizeram repensar algumas questões. Obrigado! Mas ao mesmo tempo ficamos preocupados com termos como “Isto não é teatro!” e nos perguntamos: - O que é teatro? Trabalhei na UFG (universidade federal de Goias) nos cursos de teatro e musicoterapia, e lá deparei-me com “Phds” e “Drs.”, que tentavam com teorias e conceitos definir questões que vão muito além da nossa capacidade de entendimento e que fazem parte do fazer artístico, tanto é que encontramos na literatura teorias que se contradizem. Não vou entrar no mérito do seu comentário sobre os pontos citados, pois pode parecer que estou me justificando. Mas cito o exemplo de Lígia Rego: Eu estava fazendo um seminário de figurino, ministrado por Lígia, na ocasião ela citou um de seus figurinos que mais tinha dado certo e sido premiado, e que na época todas as teorias e conceitos de costura diziam que “jamais” se usaria listrado com xadrez, no entanto, ela colocou e percebeu, por “intuição”, que tinha funcionado. O que fazer? Seguir as teorias do “isto não é certo” ou seguir o processo artístico que muitas vezes nos faz ir por caminhos contrários à lógica?

Saudades, Ligia Rego!

Paulo Guimarães

. disse...

Oi, Paulo!

Sempre me pergunto qual a vantagem de se colocar um trabalho "na roda" se for só para receber elogios? É bom que eles venham, mas sempre, a sós, e de forma rasgada não te cheira a hipocrisia? Pois bem, colocaste um trabalho na roda e vens, como diretor, recebendo elogios e críticas, às vezes, até sobre os mesmos aspectos, esses que parecem valor para uns e desvalor para outros.

Fiquei, assim, muito grato com o teu comentário, mas devo dizer mais grato ainda pela tua contribuição. o que escreveste aqui sobre o meu trabalho, sobre o que escrevi em "O que é teatro?" me fez pensar, quero crer, tanto quanto eu também te fiz pensar. E, assim, crescemos juntos!

Concordo com o que disseste. E acrescento que também acho a definição de teatro bastante nebulosa. No texto, quis refletir sobre a configuração do código teatral, uma formalização que dá especificidade à obra e, ao mesmo tempo, à linguagem. Mas, como vc disse, parece que quero me justificar aqui... rsrssrs

Quero destacar que, como eu, vc chamou a atenção não para a minha pessoa, mas para o meu trabalho, a minha obra. Confesso que sinto falta desse comportamento profissional e fico muito feliz quando encontro alguma contribuição do tipo. Motivado por essa alegria venho te agradecer no espaço dos comentários, esse que acredito ser somente dos leitores. Peço licença.

E te envio meu abraço e meu muito obrigado!

Grupo Mototóti disse...

Parabéns Ro pelo aniversário do blog!!
Vid longa a esse filhote!!!

Um beijo grande,

Fe!

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