21 de dez de 2008

Teresa e o Aquário


Foto: divulgação

Contemplar-se




“Entra Jasão e dirige-se à Medéia (...)

MEDÉIA

Maior dos cínicos! (É a pior injúria que minha língua tem para estigmatizar a tua covardia!) Estás aqui, apontas-me, tu,meu inimigo mortal? Não é bravura, nem ousadia, olhar de frente os ex-amigos depois de os reduzir a nada! O vício máximo dos homens é o cinismo. Mas, pensando bem, é preferível ver-te aqui; abrandarei meu coração retribuindo teus insultos e sofrerás ouvindo-me. (...) Tratado assim por nós, homem mais vil de todos, tu me traíste e já subiste em leito novo! (...) Ah! Esta mão direita e estes meus joelhos que tantas vezes seguraste! Ah! Foi em vão que tantas vezes me abraçaste, miserável! Como fui enganada em minhas esperanças!... (...)

Não quero uma felicidade tão penosa, nem opulência que me esmague o coração!”

EURÍPIDES. Medéia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, (s.d.). P. 36 – 41.

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Há um aquário que, um dia, fica vazio porque a água toda escorre pela casa como também o amor escorre por todo o mundo quando estamos apaixonados. Há um peixe dentro do aquário que está vazio porque a água, assim como o amor, foi embora. O peixe não se convence da morte e luta contra ela. Então, encosta sua cabeça no fundo tentando respirar até que não se lembra mais de nada.
Tereza estava com cabeça no fundo do seu aquário quando Ele voltou. Ele, seu ex-marido que se foi, que não a valorizou, que partiu, que sumiu a inundar o mundo. Ele volta. Chama por ela uma vez. Quer falar. Chama outra. E outra. E outra. Ela resiste. Os dois brigam. O amor, como água se foi. Que ele também se vá.

Tereza veste um vestido branco sem nada além de branco como também é o chão. Ele veste uma calça preta sem nada cobrindo o peito. Os dois estão descalços. A luz é geral. O aquário é um balde comum cheio de água comum. Nem uma única palavra é dita.

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Eurípides escreveu Medéia em 431 a. C. João de Ricardo pré-estreou “Teresa e o Aquário” ontem. Um marido que se vai. Uma mulher que fica. Um rancor que se guarda.

O que há entre João de Ricardo e Eurípides é 2.439 anos de diferença. O que há entre nós e João de Ricardo é um caminho incerto entre o que fazemos e sentimos e o que percebemos que fazemos e o que percebemos que sentimos. Porque qualquer um pode montar Medéia hoje, mas não é qualquer um que consegue representar a si mesmo, a sua geração, o nosso conflito. Não é da relação homem e mulher que falamos ao citar Medéia. Tampouco ao enaltecer os valores de Tereza e o Aquário, produção da Espaço em Branco. Mas é porque o cinqüentão Eurípides contou a sua versão e utilizou o seu tempo para contar a história que queria. Hoje lemos a tragédia e sentimos o século IV antes de Cristo. Agora, assistimos a “Tereza” e nos sentimos como parte de uma história no quase verão de 2008-2009. João de Ricardo, trintão, nos deixa sentir o nosso próprio tempo. Somos no palco.

Não temos regras e as que há não incidem sobre nossas decisões como outrora aconteceu com nossos pais. Os atores não definem um fim ou um início. Sissi Venturin come bergomotas (?) e Lisandro Bellotto faz nós em gravatas. Nem sempre sabemos o que dizer, nos debatemos como loucos em busca do quê e de que formas se expressar. Tereza se joga no chão, baila sobre a atriz que a interpreta. E a liberdade conquistada antes de nós nos deixa sem ideologia, imersos sobre luzes coloridas e bichos pequenos vistos como se fossem grandes. Nossos celulares tocam até mesmo quando estamos fazendo cocô, personagens de uma tragédia grega, dispostos conforme nos pedem os deuses sem que saibamos bem quais, quem e quantos são eles. Nossa visão não é/está nítida porque estamos no fundo do mar e olhamos com olhos de mergulhadores para a realidade que nos envolta.
Duas horas de um espetáculo que nos coloca como Tereza a olhar o seu aquário e ver-se no lugar do peixe. Poderia ser uma hora e meia, houvesse menos projeção e mantida a atuação no valor que já tem. Afinal, o sublime do espetáculo está nas sementes e não na árvore inteira que cresce na medida em que a água dos aquários sai.
O onírico está em contemplar-se com interesse e emoção. Palmas!

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Ficha Técnica

Direção: João Ricardo
Roteiro e Adaptação: Diones Camargo
Assistente de Direção: Felipe Vieira de Galisteo
Atuação: Sissi Venturin e Lisandro Bellotto
Cenotecnia: Cristiane Eifler Bastos
Figurinos Daniel Lion
Iluminação: Liliane Vieira
Producão e Divulgação: Marco Mafra

Andy / Edie (escrito em julho de 2006)*


/: a nova peça de João Ricardo

Uma vez escrevi para o João que ele era um cara cuja obra me fazia ter orgulho de ter 26 anos. E assistindo ao seu mais novo trabalho, "Andy/Edie", em cartaz no Teatro de Arena, ratifico o dito, acrescentando novas observações.
A sala toda pintada de branco, luzes de néon, filmadora em pleno funcionamento, tvs espalhadas pela platéia... É um abuso como ele consegue unir tantas linguagens diferentes num só espetáculo, num só fight. E consegue! Tal como alguém que nasceu com o controle remoto na mão, a turma do balão mágico, a redemocratização, a aids. Tal como um grupo de pessoas que aprenderam a transar com a volta da onda do sexo livre já morrendo por causa das campanhas de "use camisinha". Uma geração que viu o Papa morrer e ficou puto da vida com o carnaval todo que fizeram com o corpo do homem, tenha ele sido um cara bom ou ruim. Uma geração mais tetra e penta que todas as anteriores, mais de saco cheio com o empeachmment do tal presidente mais que todas, mais mtv que todas. Talvez pessoas mais pop art que todas porque vivemos num tempo que a Parada Gay de São Leopoldo traz 40 mil pessoas e, por outro lado, há uma rua em Novo Hamburgo que, numa contagem rápida, tem 9 igrejas de denominações diferentes. Acho que crescemos no meio do lixo de Andy Warhol, entre as latas de sopa e os retalhos de uma sociedade em ebulição há tanto tempo que já se tornou chato falar disso.
Andy Warhol e a pop art são os cenários de João Ricardo, mas não o seu o tema. O tema, já trazido em "Celebridade", tanto da Globo como de Wood Allen, é a mania humana de sonhar em deixar marcas para o futuro. Os homens da caverna e os homens da capela (sistina) já pensavam assim... Mas talvez os andaimes de Michelangelo não eram tão altos como os de Edie Sedwick e as pinturas nem tão "chão" como as Warhol. E é nessa mistureba de ontem e de hoje, de cima e debaixo, de Hollywood e de pilas pras festinhas que se encontra o trabalho de João Ricardo. O título da peça tem uma barra que separa os primeiros nomes dos protagonistas. Eu diria que o título, na verdade, só precisaria da barra, pois é na linha diagonal que divide e junta que encontramos a certeza de um excelente trabalho desse feliz jovem diretor.
Excepcional os tijolos dessa história... As cenas de Bob Dylan e Edie são os ganchos que nos lembram estar num palco vendo teatro. Todo o resto é navio que voa pelas imagens, pela comunicação, pelo intertexto. Somos um mouse entrando nos desejos de Gerard Malanga e na ascenção de Ingrid Superstar. Somos um clique que abre telas de Warhol, sem estarmos de frente para um catálogo de artes plásticas. "O que você tem feito?" * pergunta Edie. "Arte!" * responde Andy. É isso. Só isso. Tudo isso. Para o nosso bem, nós que precisamos de energias bem feitas e bem conduzidas (não confundir com energias boas, que demais, são tão ruins como as ruins), de histórias bem contadas, de desenhos traçados conscientemente a qualquer modo, como também de qualquer modo somos crescidos, nascidos e mortos.
Eba! para as interpretações de Sissi Venturin, Rodrigo Scalari e Lisandro Bellotto. Viva! para a surpresa que é Ravena Dutra. Valeu! pelos figurinos de Lucia Panitz, a luz maxi mega multipixel boa de Jô Fontana. Mas o blá blá blá geral mesmo é em torno de João Ricardo com aqueles rodopios todos com a câmeras, com os corpos, com os cigarros, com as perucas, com as músicas, com os vídeos, com o show todo que é Andy/Edie e, enfim, com os nossos sinceros aplausos.
* Ainda não consegui escrever sobre "Tereza e o Aquário".

13 de dez de 2008

Jogo da Memória


Jogo da Memória: um jeito de lembrarmos de Conta Comigo

As regras de Jogo da Memória são simples. Várias cartas estão viradas com a face para baixo e embaralhadas sobre a mesa. O jogador escolhe uma e põe a face dela para cima. Depois, deve escolher outra e fazer o mesmo. Se as faces forem gêmeas, então, ambas são retiradas da mesa e contam um ponto para o jogador dando-lhe o direito de repetir o processo. Se forem as faces diferentes, o jogador ganha a chance de memorizar a posição das duas cartas na mesa e a ordem de virar para baixo as cartas escolhidas passando a vez para o outro jogador que também viu a posição das cartas. Esse jogo dá nome a um dos espetáculos produzidos pelo Teatro Sarcáustico.
Viremos, pois, a primeira carta: o espetáculo teatral.
Dirigido por Daniel Colin, que também assina a dramaturgia e atua na produção, o trabalho reúne um grupo de jovens artistas: Aline Grisa, na assistência de direção; Rodrigo Marquez e Guadalupe Casal na produção; além dos atores Ariane Guerra (Ju), Felipe Vieira de Galisteu (Cabelo), Ricardo Zigomático (Prego), Rossendo Rodrigues (Leleco) e Colin (Buchecha). Isso sem citar demais colaboradores, todos nominados no programa que é entregue antes da apresentação e que ajudam, cada um na sua função, a transformar uma idéia num projeto concreto de teatro. Por ser efêmero, o teatro confere um desafio diferente aos seus seguidores: tornar-lhe o menos esquecível possível até que a impressão de eternidade desse seja forte o suficiente para parecer concreta. Da produção teatral, fica a ágil movimentação dos atores bem dirigidos, a econômica utilização de painéis móveis como cenários, e a discreta e adequada participação dos figurinos, recursos de iluminação, de sombras e de trilha sonora. Também, as bem-vindas interpretações de Guerra e de Zigomático, cheias de energia, direção e surpresas; e a destoante de Colin que, embora não seja o protagonista, e por ser um grande ator, puxa o foco não só por ter um figurino diferenciado dos demais, mas por todo um mise-en-scène que não encontra acompanhantes no grupo de colegas.
Viremos, agora, a segunda carta.
“Conta Comigo” (Stand by me, Rob Reiner, 1986, EUA, 89min) é inacreditavelmente a adaptação de um conto de Stephen King chamado “Outono da Inocência: O Corpo” (The Body) lançado em 1982. Quatro meninos, todos por volta de 12 anos, moram numa pequena cidade do nordeste dos Estados Unidos no verão de 1959, época da provável despedida do narrador deles, Gordie (Wil Wheaton), que vai ser transferido para uma escola de fora da cidade. No início da história, Gordie, Chris Chambers (River Phoenix), o garoto rebelde, e Teddy (Corey Feldman), que usa óculos imensos, filho de um antigo herói militar que atualmente é tido como maluco, estão jogando cartas quando um quarto menino chama pelo nome deles ao lado de fora da porta porque não lembra a senha de acesso ao esconderijo. Vernon (Jerry O’Connell) entra e divide com os três amigos que sabe onde está o corpo de Ray Brown, garoto também de doze anos, que está sumido há três dias. Decidem dizer aos pais que estão acampando e partem a pé por trinta quilômetros em busca desse motivo que os tornará famosos. Uma medalha é prometida a Vernon, garoto gordinho que um dia escondeu alguns níqueis no porão de casa e fez um mapa para encontrá-los, o que não acontece porque o mapa foi perdido.
Gordie leva um cantil encontrado no quarto do irmão mais velho, jogador de futebol, falecido há três meses. O garoto vive a triste sensação de ser invisível pelos pais que o comparam com o irmão até mesmo na escolha dos amigos. Os garotos não levam comida nem dinheiro e andam pela linha do trem até chegarem a um Ferro Velho. O local é guardado por um cão chamado Bocarra que quase morde Teddy, o garoto do óculos. O dono do Ferro Velho aparece e, xingando os quatro meninos, ofende o pai de Teddy.
Chega a noite. Reunidos em uma floresta, Chris, o mais velho de todos, estimula Gordie a contar uma história. Todos ouvem um conto do amigo sobre um menino gordo chamado Bola de Sebo que participa de um concurso de grandes comedores de tortas. O evento é organizado pelo prefeito da cidade que não viu que o garoto, estreante na competição, tomara óleo de rícino e comera ovo cru antes de entrar em cena. O candidato estreante resolve se vingar da cidade que o humilha pelo excesso de peso vomitando e promovendo um espetáculo em que todos os presentes vomitam uns sobre os outros. Teddy é o único que não gosta da história contada por Gordie e sugere um outro fim. Vernon gosta, mas tem dúvidas sobre a forma de inscrição de Bola de Sebo no concurso.
No dia seguinte, os meninos chegam ao seu objetivo, mas não conseguem ficar com ele. Voltam para a casa com as mãos abanando. Décadas depois, Gordie, um escritor famoso, escreve a história desse verão em que conheceu o valor da amizade.
Chega a hora de ver o quão parecidas são as duas cartas:
Do ponto de vista da materialização, uma carta usa o código teatral para contar a história. A outra utiliza-se do código cinematográfico. (Há ainda uma terceira carta, que materializa a mesma história com o código literário.) Ambas fazem isso de forma bastante eficiente. Quanto à narrativa, está claro que Vernon é bastante próximo de Buchecha, assim como Teddy de Prego, Chris de Cabelo e Gordie de Leleco. Bola de Sebo é o exato Bolo Fofo, assim como Bocarra é Mandíbula. E o dono do Ferro Velho, tanto de uma carta como de outra é o mesmo, apesar de em uma estar creditado e em outra não. O corpo que buscam no filme é uma casa mal assombrada na peça. Ju, a menina, não está no filme. O irmão de Vernon não está na peça. King e seu conto constam nos créditos do filme. Nada consta sobre isso no programa da peça, nem no blog do grupo Teatro Sarcaustico.
Cabe agora a nós, demais jogadores desse Jogo da Memória, decidir se marcamos o ponto do Teatro Sarcáustico ou não. O meu voto é sim.
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Links para o filme:
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ELENCO:
Ariane Guerra
Daniel Colin
Felipe Vieira de Galisteo
Ricardo Zigomático
Rossendo Rodrigues
FICHA TÉCNICA
Direção e Dramaturgia: Daniel Colin
Assist. Direção: Aline Grisa
Figurinos: Valquíria Cardoso
Iluminação: Felipe Vieira de Galisteo
Direção de Produção: Rodrigo Marquez Fernandes
Assist. Produção: Guadalupe Casal
Produção: Palco Aberto Produtora
Realização: Teatro Sarcústico

9 de dez de 2008

XIII FESTIL DE GRAVATAÍ


DISCURSO DE PREMIAÇÃO: Política Cultural

Durante 30 anos, a pasta pública responsável pela educação em Gravataí se chamou Secretaria Municipal de Educação e Cultura.Há alguns anos, a última palavra saiu do pomposo nome e a sigla ficou apenas SMED. Pois, por que não, ao invés de Fundação Municipal de Arte e Cultura, também apenas FUNDARTE, sigla também sem a palavra “cultura”?
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O FESTIL – Festival de Teatro Estudantil de Gravataí chega ao dia da premiação de sua 13ª edição. Reunidos, o corpo de jurados assistiu a 16 espetáculos produzidos por estudantes de Gravataí e cidades que vieram nos honrar com suas histórias. Fadas que tinham idéias, retratos que falam, palhacinhos que conhecem Shakespeare, cigarras e formigas. Grupos de Movimento de resistência, de vilas populares, de escolas municipais, estaduais e particulares e,também, de oficinas. Crianças da Educação Infantil e jovens do Ensino Médio. Cenários de cetim, flores de TNT, palco vazio e cenas na platéia. Na platéia quase vazia.
Se são estudantes, onde estão as escolas? Professores, diretores, funcionários... Se são crianças, onde estão as palmas, o choro, a baba e as fotos dos pais e parentes? Se são jovens, cadê os olhares invejosos dos amigos? Se são de Gravataí, onde estão os governantes (Presidente da FUNDARC, Secretário de Educação,Coordenador Estadual de Educação, Prefeito, Presidente da Câmara e delegados do OP? Se são artistas, cadê os atores de Gravataí? Cia de Atores Independentes,Grupo Teatrar, Grupo Vivências, Grupo 100 Limites, Associação de Artes Cênicas? Se são notícia, por que não a programação no Correio de Gravataí, entrevistas no Diário da Cidade, fotos e depoimentos para a posteridade?
Cá ficamos na 1ª semana de dezembro de 2008 a lembrar de FESTIS com 8 mil espectadores, quando os alunos-atores ganhavam transporte, camiseta, lanche e prestígio fora do palco, assim como aplausos sobre ele. Quando as escolas, mais que estudantes independentes, valorizavam o teatro, se preparavam durante o ano e coroavam o projeto GRUPO DE TEATRO ESTUDANTIL no FESTIL: evento que iniciou tantos artistas de agora e deu graça à vida de tanta gente.
Vale lembrar do 1º FESTIL, em 1996. Uma lona de circo, uma arquibancada suja, um tablado de madeira e serragem no chão. O 13º FESTIL só foi melhor que o primeiro por causa da cortina, da luz e do palco? E quanto ao que aconteceu ao redor dele? E sobre ele? Com exceção de alguns alunos da Profª Lilia, os grupos vieram, apresentaram e se foram. Que argumentos terão para comparar os resultados que aqui serão divulgados a seguir? Concordar, discordar, aprender e crescer?O FESTIL não é um evento de estudantes? Como estudantes, qual a nota que daríamos para tudo isso?
Sirmar Antunes, Evandro Fernandes e eu, as únicas três pessoas que assistiram aos 16 trabalhos apresentados gostaríamos de falar sobre o quê a cidade perdeu em não vir, em não ter disponibilizado a vinda, em não ter valorizado a vinda: o prazer de ver:
· Aconteceu no natal
· Romeu e Julieta
· Assunto: Mulheres
· Você é muito especial
· Ação direta é a arma que nós temos
· A palhaçada dos relacionamentos
· O baile
· A roupa nova do Rei
· Os Cigarras e os Formigas
· O retrato
· A farsa da esposa muda
· O medo do papãozinho
· A fada que tinha idéias
· O olheiro
· O velório
· Humberto, Doisberto e Tresberto...

Fica, enfim, o pedido a todos, mas sobretudo ao futuro presidente da FUNDARC e à futura Secretária Municipal de Educação, por favor, façam o 14º FESTIL melhor que os 13 anteriores e somente pior que o 15º. Mas, também, que venham aqui olhar no olho e no brilho de cada aluno-ator para ter a certeza de que estão fazendo algo para a evolução do ser humano, já que esse é o motivo principal da existência da arte.

Quanto à CULTURA, ela, de fato, não é tarefa exclusiva da Secretaria de Educação. Tampouco da Fundação de Arte. A Cultura é tarefa, dever e tema de casa de todos nós. OBRIGADO!

* Com licensa do autor de falar sobre teatro em Gravataí num espaço para o teatro de Porto Alegre.

27 de nov de 2008

A vida sexual dos macacos




Quem disse que para ser bom de cama é preciso ser alguém tipo Gianechinni?


Se desde Adão e Eva os homens fazem sexo, por que revistas pornôs ficam tão feias quando envelhecem? Sim, porque qualquer um que pegue uma revista de 10 anos atrás, com certeza, vai achar ela uó do zê. Como as gírias, as revistas pornôs envelhecem. Mas o sexo não!
Quando se trata de fotografia, o objeto fotografado passa a ser apenas um elemento mínimo (de novo Christian Metz presente aqui no blog!). O fotógrafo Mauro Holanda que o diga, ao fotografar partes de animais mortos pronto para serem consumidos por não-vegetarianos (ainda). O porquinho é só um elemento, mas há outros: a luz, o enquadramento, a fitinha que o envolve, a palheta de cores... O teatro, quando coloca sua mão sobre o sexo, torna ele apenas um elemento. Mas há outros: o ator, a direção de arte, a produção, o espaço...
Com texto e direção de Felipe Vieira de Galisteo, Daniel Colin entra em cartaz com “A vida sexual dos macacos”. O tema, nada mais é do que fazer com que a gente entre na cozinha do restaurante, o que eu acho muito desagradável. Mas, como eu disse, o tema pode ser olhado apenas como um elemento mínimo. Há outros, felizmente!
Daniel Colin, antes de ser comediante, é ator. Já o vi em Medusa de Rayban, em Médico à força e agora nessa. A gente sente que ele tem técnica. Seus olhares são repertorizados, seus movimentos ensaiados, seus objetivos bastante definidos. A voz é projetada na medida adequada, a energia solta em doses homeopáticas segundo a proposta do personagem. Ele não é Gianecchini, mas faz sexo muito bem. ( NÃO! Eu nunca fiz sexo com Gianecchini. Ele é muito gordo pra mim...) É carismático, porque sabe prender a atenção de uma platéia. E tem ritmo: sente quando a bola (?) está caindo. Nisso consiste seu maior talento: ele sabe dialogar com o público independente do texto propor a quebra da quarta parede ou não.
Houvesse quarta parede, seríamos voyeristas no monólogo de Galisteo. Como não há, a relação do personagem com o público nos leva a pensar sobre a utilização do código teatral no espetáculo.
Há quem pense que um filme de duas horas em que um filho e sua mãe conversam dentro de uma casa com câmera parada é menos cinema do que Indiana Jones, qualquer que seja o subtítulo. Não seria incomum ouvir que uma peça em que o ator expressa que está perdendo foco para algo que concorre com sua performance ou que faz perguntas para o público sobre sua intimidade é menos teatro que “Balei na Curva”, em que você nem mesmo é consultado, ou “A Comédia dos Erros”, em que os atores sabem que você está ali e, vez em quando, piscam para você. Mas seria um equívoco. Teatro não é teatro pela forma como o ator (ou seu personagem) se relaciona com o público, mas por todo um conjunto de articulação de códigos que, utilizando-se da linguagem teatral, se materializa em vários elementos, sendo imprescindível, a presença do ator. “A vida sexual dos macacos” pode até parecer uma palestra, em alguns momentos, mas é teatro sem qualquer dúvida.
Resta pensar sobre a forma como o monólogo se apresenta ao público, dada a certeza de que é de teatro que estamos falando. Começa como uma palestra, uma aula, faltando, como o próprio anfitrião percebe, um projetor de power point. Pequenas histórias vão sendo contadas como exemplos das teses que estão sendo lançadas. Inicia-se um jogo de vai e vem. Vamos pra narração, voltamos pra dissertação e assim por diante. De repente, vemos que a peça está dividido em capítulos, uma aula em períodos: “Felipe em... sua primeira aventura sexual com o sexo oposto”, por exemplo. Mas a aula continua como carro chefe. Aí, perto do final, o esquema parece ser abandonado. Alguém bate o sinal e o recreio começa, embora a professora continue sentada na sua cadeira a nos espionar: a quarta parede continua não existindo, o ator continua falando com a gente, mas não espera mais nossas respostas. Uma longa e interessante história começa a ser contada. “Felipe vai a Londres...” É uma história cheia de aventuras, energias e desafios. A luz diminui na platéia e o sol brilha no pátio do colégio. Um vendedor vende doces lá e é claro que todos iremos até ele! E aí o recreio termina. E voltar pra palestra é tão chato como voltar pra sala de aula. A narração acabou. Felizmente, a aula é curta e saímos de novo, mas agora não é mais recreio. É hora de ir pra casa!
Na saída, o vendedor de doces abana pra gente e diz que nos espera até o próximo recreio, o que só acontecerá amanhã: um corpo, um resquício de narração está deitado. Fica o sentimento de que nem falamos bem de sexo, nem fizemos algo bom. Nem fomos à cozinha, nem jantamos. Demos apenas um oi pro dono do restaurante, esse, sim, muito solícito em nos atender. Um lugar com uma decoração simples e caseira, uma luz suficente e uma disposição bem convencional, com tudo para nos deixar a vontade. Mas que não nos diz a que veio no bairro, nem o que viemos fazer ali.
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ELENCO:
Daniel Coline participação especial de Rossendo Rodrigues
FICHA TÉCNICA
Texto: Daniel Colin e Felipe Vieira de Galisteo
Direção: Felipe Vieira de Galisteo
Iluminação e Instalação Cênica: Felipe Vieira de Galisteo
Figurinos: Daniel Colin e Felipe Vieira de Galisteo
Trilha Sonora Original: Leônidas Rübenich
Produção: Palco Aberto Produtora
Realização: Teatro Sarcáustico

26 de nov de 2008

As Bufa


Donada.

(Guimarães Rosa começou com Nonada. Por que eu não posso começar com Donada?)

Você anda na rua e alguém “donada” lhe aparece. Você anda na rua e alguém “donada” desaparece. Você anda com alguém e uma rua, “donada”, aparece e desaparece quando você pára de olhar. Donada lhe vêm pensamentos sobre alguém nessa rua em que você caminha. Um caminho surge em seus pensamentos na rua. Nessa longa estrada da vida, vou correndo e não posso parar. Na esperança perdida, porque algo, donada, lhe faz perder a esperança. Donada, duas gurias montam uma peça e desmontam uma história, desmontam seus pensamentos, desmontam um caminho, uma rua donada. Fui convidada pruma festa da pesada no castelo de cristal e, donada, vi alguém me contar coisas sem pé nem cabeça, nem início nem fim, com coisas donada saindo e donada entrando. E gargalhadas chegando, uns bocejinhos também, encantos indos, saci pererê. “As bufa” começam no danada querendo começar comtudo. Só que contudo fica muito longe de donada e nem o avião da Calipso as ajudaria. O irmão sem nome da Sandy Júnior se prepara para críticas diz o Terra, mas as gurias conseguem superar essa fase inicial de uma jornada sem história, nem nada, sem início, nem fim, com alguns meios donada que aparecem e desaparecem logo após o nada também. Uma coisa surge aqui e outra ali, uma contagem se emenda na outra e quando Simoni De Dordi e Aline Marques, donada, vêem que isso é o legal da coisa, “As Bufa”, donada, fica legal também no balancê balancê quero casar com você. Porque a rua é assim. Com mapa, só Nova Iorque e São Leopoldo. O resto é donada. Uma casinha aqui, uma mansão lá, um nada ali e um Shopping da Barra (da Tijuca ou do Cristal?) acolá. Donada a música da Xuxa que faz rir pacas. Pronada o medo de alguém que pode chegar. Alguém lembrou de Anne Frank trancada no anexo? Donada Celói falando alemão. Donada o rap, Deus e Ventania assando um rato. Pronada um fim pra algo que não teve começo. Donada é um bombom. Uma surpresa boa. Trilha (Original), luz, performances (Tatiana Cardoso!!), tudo é bom. Amy Winehouse vai vir pro Brasil? Mais donadas que pronadas nas bufona. Vou que vou, vamo que vamo. Mas não pronada que pronada é ruim.

(Guimarães Rosa terminou com Travessia. Por que eu não posso terminar com um VT?)


Vale Transporte agora é tri.

27 de out de 2008

Médico à força



Relatório Médico

O paciente se encontrava em estado bastante interessante quando chegou à nossa clínica. Os atores estavam bastante firmes no texto de Moliére, o cenário linda e inteligentemente pronto, os figurinos do melhor jeito possível, a luz afinada e o material de divulgação organizado e limpo. Mas, imaginem só, tudo era tal qual um comerciante que arranja um espaço e enche a loja, mas mantém as portas fechadas. O que seria isso, então? Um depósito apenas. Sem dar lucro, sem graça, escuro e poeirento. Essa era a triste situação em que se encontrava o paciente quando procurou ajuda “médica”. Um feroz lenhador havia lhe batido fortemente por três vezes com o cabo de um machado. O atendimento, como se esperava, foi de urgência.
Os produtos viraram mercadoria. O ensaio tornou-se apresentação. E, num acender de luzes, tudo fez sentido. O tratamento utilizado foi o recomendado pelos estudiosos no gênero farsa: a coisa acontece rapidamente, de forma simples, leve e eficaz. Rápido porque nos identificamos sem delongas com o contexto da história, com os personagens e, também, com as situações. Simples porque o conflito e a resolução dele não exigem quase nada do seu público. Eficaz porque fica a dica: não faça nenhum mal a sua mulher porque ela poderá se vingar de você (e não se cure nenhuma donzela que estiver, felizmente, fadada à mudez, porque ela falará até que tenhamos vontade de lhe fazer mal!). O paciente, adequadamente tratado por seu público, nós!, curou-se do mal que o atormentava: teatro só é teatro quando tem público.
O figurino deixou de ser uma roupa do melhor jeito possível e passou a, como, também, a luz e o cenário, ser um código da cena, um sistema cheio de significados (alguns se relacionam com o teatro por nos remeterem à época, ao lugar, às características dos personagens, etc), mas que não têm o poder de construir significado algum e, por isso, como bem lhes cabe, desaparece. Os atores, esses sim, além de serem significados (seus corpos, faces, máscaras), são, antes de tudo, significantes (energia, intenção, emoção provocadora e provocada) e aparecem como grandes contadores de uma história secular. E isso tudo só aconteceu porque lá estávamos nós, corpo médico, a atribuir a cada elemento este e aquele valor.
Marcelo Adams destaca-se dentre todos os demais atores não só pelo personagem protagonista, mas por protagonizar (ação essa que qualquer coadjuvante, como bem são exemplos Nilson Asp, Daniel Colin e Cláudia Lewis, poderia fazer) a naturalidade de olhos mais velozes que as marcas, de ação mais fruto de reação do que de burocratização cênica. Os demais, protegidos pelo gênero, pela qualidade da produção, pela mão firme e experiente da diretora Margarida Leoni Peixoto, que lhes apresenta como bons intérpretes, parecem, em alguns momentos mais, em outros menos, não esquecer do tempo em que a loja era depósito, de que ensaio não era apresentação, ou seja, quando o tratamento hospitalar, esse oferecido por nós, platéia real e presente, ainda não havia chegado. Porta aberta, poeira entra. O brilho do novo logo desaparecerá.
Recomenda-se, como posologia, mais vindas ao hospital. Esse, por sua vez, só o será quando médicos houver. Assim, cabe a nós, público, tornar-mo-nos médicos à força, mas não com pauladas e, sim, com aplausos sinceros aos pacientes da vez: Cia. Teatro ao Quadrado.
ELENCO:
Marcelo Adams
Anna Fuão
Cláudia Lewis
Daniel Colin
Eduardo Steinmetz
Luísa Herter
Nilson Asp
Thales de Oliveira
FICHA TÉCNICA
Autor: Molière
Direção: Margarida Leoni Peixoto
Cenário: Elcio Rossini
Figurino: Rô Cortinhas
Iluminação: Fernando Ochôa
Produção: Cia. Teatro ao Quadrado

15 de out de 2008

Apareceu a Margarida

Esclarecimento:
1) Dona Margarida, na minha leitura, é a rubrica dos professores de sempre (não dos anos 60, não de agora, não de amanhã. De sempre.) Rubrica é o texto que informa pro ator como deve ser dita a fala, qual é a intenção. Eu, como professor, muitas vezes tive vontade de mandar alunos à merda, mas dizia: "Volte para o seu lugar!". Ir à merda era a rubrica que estava na minha fala, mas, como "ator", eu não podia dizer a rubrica. Eu dizia a fala. Dona Margarida, por isso, é tão interessante: ela torna a rubrica fala. E a fala rubrica. No texto abaixo, há duas vozes. Uma é fala e a outra é rubrica. Pra mim, como platéia, a melhor coisa da montagem foi isso. Renato Campão, melhor do que muitos outros que fizeram o papel, deixa isso claro com sua força. Rubrica, normalmente, é escrita em itálico. Assim, leiam, por favor, abaixo, as rubricas.
2) Quando um texto precisa ser explicado é porque ele é um texto mal feito. Não me dêem crédito, então, se acharem que não devem. Há outros textos logo abaixo desse último. Obrigado pela visita!


Sub-texto: se rubrica é o que se sente na hora do diálogo, por que não ler elas ao invés do texto oficial?


Não venham me falar de “Apareceu a Margarida”. Odiei o espetáculo. Muito mesmo. Não quero nem ouvir falar. Não vou escrever uma linha e nem publicar! Perda de tempo... Não quero saber nada sobre a peça. Se alguém souber de outras montagens dessa peça, por favor, me avisem! Cheguei em casa e corri pro Youtube pra ver tudo o que havia. Tem motagens de todos os tipos. Com homem, com mulher, com homens e com mulheres. Falam muito da versão da Marília Pêra que estreeou o texto. E de produções internacionais. Monólogo, quando não é chato, é ótimo! É um texto desconhecido de Roberto Athayde. Passei horas e horas lendo e lendo as mil coisas que se tem publicadas sobre ele. Trabalhos e mais trabalhos. A coisa da inversão, de tornar texto que é sub-texto, de tornar fala o que é pensamento é quase tornar prática a teoria da enunciação e teoria o que blablablabeamos vida a fora quando queremos dizer outras coisas... O texto é chato. É monótono. De dormir e roncar envoltos em encharpes e óculos escuros pra manter a pose de crítico... Dona Margarida não deixa a gente se quer se mexer na cadeira. E não é pela ameaça da palmatória!! É que não há tempo para pensar em nada. Seria pensar ou fruir, e ficamos com o fruir... Ela fisga nossa atenção, nosso olhar, nossa mobilidade.
O cenário é um horror! Mal usado, sabe? O ator usa todos os objetos de cena, desfila por cada cadeira, folheia livros, passa a mão em móveis, enfim, não faz nada de útil! Um absurdo constrangedor! O sentido se constrói em todos os espaços e se atualiza em todos os momentos da peça. Há utilidade em tudo e o sentido foge da mera prisão utilitária e vai para a crítica. Crítica do tempo, das relações, da época, dos comportamentos. A luz... Pufssss! Pífia! Ridícula. Inexistente. Inexpressiva. Atrapalhante. Rítmica e por rítmica quero dizer que acompanha cada momento de tensão ou de distensão do drama. Um emaranhado de refletores cada um com uma função estrategicamente pensada como se “Apareceu a Margarida” fosse um espetáculo de teatro. Ora essa! Façam-me o favor de não me falar dessa peça! (sem a rima ridícula que entrou aqui não sei como...) A luz não é uma iluminação. A luz é um recurso que olha para o ator, o teatro, e diz: "E aí? Vai encarar?!"
Continuando o check-list barbaraheliodoriano: figurino. Tem coisa mais dispensável do que aquilo? Pra quê vestir um ator daquele jeito, meldelz! Alinhado ao personagem, à época dele, ao estilo, agregando valor... Como se tivesse realmente valor? Nã-nã-nã-nã-não! E a trilha? Sem comentários de tão ruim! No ponto, como mais um elemento que pretendia fazer algo de bom... Exigente, específica, acrescentante. Isso tamanha a incompetência de uma produção que não pensa em nada, que deixa tantos furos, que destrói a história da arte teatral al al al al.
O pior de tudo é esse ator aí, desconhecido... Como é mesmo o nome do garoto? Ainda bem que tem programa, né... Um horror! Renato Del Campão: dispensa-se comentários. A cancha de palco de quem tem que prender a atenção, chamar a atenção, ser a atenção. A coisa de ritmo, de sustância, de energia, de emoção. O trabalho constrói o ator. E o ator se torna espetáculo. Guri bom até... Mas por que tão ruim, né? Complemente sem foco: o olhar dele, sério!, fica perdido. E ele olha o tempo inteiro pra gente, fixo, duro, pontual. Braços e mãos e pernas e pés desajeitados. Vê-se de longe que o pobre nunca ouviu falar em ensaio. Quase uma coreografia de tão certinho, de tão gráfico ou caligráfico. De novo e sempre: constrangedor. O corpo em si como um ovo mole sem forma: uma expressão corporal que não pára de expressar fazendo com que os 105minutos de peça sejam completos e cheios de significado sempre. Nada é gratuíto.
O diretor deveria se envergonhar dessa produção bem dirigida como poucas. Orgulhante!
Enfim, é isso. Corram! Fujam! Não vão ver. Não indiquem. Fica até dois de novembro ali na Álvaro Moreira. Sábados às 21h e Domingos às 20h. Afinal de contas, o que eu digo é o que eu digo e não o que eu penso ou o que eu sinto ou o que eu tenho vontade de dizer. Eu não sou Dona Margarida. Eu sou alguém decente, puta que pariu!

Dois Idiotas



Cartinha

Olá, Jeffie!

Tudo bem com você? Espero que sim! Estou te escrevendo porque assisti a uma peça tão boa no último findissemana... Sim! Justo no dia da criança... Estava um mormaço daqueles, nublado, ar pesado, dia feio! E, além de tudo, um domingo de feriado: tem coisa mais desanimadora do que isso? Um feriado cair num sábado até vá lá, mas logo num domingo!! Enfim, fui! E você deveria ter estado lá também, amigo...
É a adaptação, ou tradução, ou transposição (depende do teórico...) de Ruth Rocha para o teatro. Chama-se “Dois Idiotas”. E é uma historinha bem simplinha: dois idiotas, cada um vizinho do outro, que brigam o tempo inteiro, sem pausa, mas com amenidades vezenquandeiras, sem motivo específico algum. Eles se identificam enquanto personagens enquanto brigam. Se pararem de brigar, deixam de ser quem são. Entende?
Na verdade, é uma peça bem boba. Mas dentro da palavra boba, está a palavra BOA. A produção, e isso não é tão comum assim, é muito bem cuidada. Você, Jeffie, não encontraria lá um barril de qualquer jeito, uma casaca qualquer, um chapéu aleatório. Não! Temos a impressão de que tudo foi pensadinho, foi pesquisadinho, foi planejadinho. E se alguém pensa que inho é depreciativo, então, deveria olha para seus próprios filhos ou sobrinhos e pensar porque, às vezes, chamamos as crianças de criancINHAS. Apenas porque são pequenas, ora essa! Sim! INHO e INHA é um sufixo de diminuitivo e tamanho é um dos fatores comuns que justificam o uso desse adjetivo. Não tem nada a ver com qualidade.
A peça é pequena, é curta. Tem 45min! E o nosso envolvimento com ela é curto também. Não é para pensar, se identificar, refletir, aprender. É para divertir. E a diversão é tão boa que a gente acaba Identificando as grandes nações que brigam sem pausa por suas próprias vaidades financeiras, Pensando sobre quantas vezes enchemos o saco do vizinho sem motivo, Refletindo sobre como é bom quando a ingenuidade era maior do que a adultez e Aprendendo que isso tem que fazer mais parte da nossa vida do que, talvez, venha fazendo... Os dois atores pesquisaram em Chaves e em Chapolim, em Chaplim, em o Gordo e o Magro, em Os Trapalhões e por aí vai... E existe alguém que não sorria ao ver esses personagens em cena nas suas repetições, nas suas caras e bocas, no seu raso de sempre a nos dizer que a vida é cíclica e que o mundo dá voltas e de novo volta ao mesmo lugar? Se, em alguns momentos, as crianças só sorriram é porque havia muitos adultos presentes. Mas fiquei imaginando uma platéia só de crianças... Nossa! Um gargalheiro certamente deve acontecer!
A trilha sonora é um espetáculo a parte, sem dúvida! Há um pianista em cena que narra a história com o texto de Ruth e com várias músicas conhecidas. Até Psicose entra na jogada! É realmente um ótimo divertimento.
Há algumas exceções, amigo Jeffie. Mas estou certo de que, se você for lá ver, conseguirá fechar os olhos para esses pequenos detalhes... O pianista é muito bom, mas fala muito alto! E até meio assustador, sabe? E a luz não contribui tanto pra história como faz a música, os figurinos e a maquiagem. Bom, há que se levar em consideração de que o teatro é equipado com lâmpadas pares que só banham o palco sem favorecer tantas coisas que poderiam ser destacadas ali. É uma pena!
Então, Jeffie, sugiro que você vá assistir à peça. E escrevi essa carta para isso e também para te desejar, atrasado, um feliz dia da criança. O Zé Adão Barbosa, diretor, me fez sentir saudades do tempo em que eu era criança e escrevia cartas para as pessoas de que gostava. Só não escrevi essa cartinha à mão porque acho que não sei mais fazer isso. E você?
Meus beijos e abraços para sua família. Que tal um jogo de taco num domingo qualquer?
Abraços, do amigo Rodrigo.

5 de out de 2008

O Gordo e o Magro vão para o céu


Lembra, logo existe


O texto é também nesse mesmo sentido. Indica algo que não é. Que pode ser tudo, mas que não é. A luz vem afinada de cima, mas, ao invés de iluminar, reflete. Bate e volta para o alto novamente. O acúmulo de expressões faciais e gestos empilhados corporalmente um sobre o outro não significam nada, não apresentam nada. O excesso chega exatamente no ponto de encontro da falta. Tudo isso porque “O Gordo e o Magro vão para o céu”, do já citado autor, apresenta o tema do nada.
Chega a vez do Magro levantar uma pedra que completará o muro. Ouvem-se batidas de palma. Incentivo? O ator Heinz, numa licença poética, olha para a platéia e faz bandeiraço pela nossa participação. Incentivamos o Magro. A seqüência termina, mas logo recomeça: ouvimos as palmas novamente. Sem precisar nós mesmos de estímulo, aplaudimos, incentivamos. Entendemos que o sinal sonoro clap-clap vindo da trilha, é a nossa sirene para estimular o personagem a fazer o seu trabalho, behavioristas que somos. Não questionamos o porquê, nem se vale a pena aplaudir. Ouvimos a trilha e executamos a ação. Os dois personagens chegam a um lugar sem saber onde e fazem o que está escrito no livro de tarefas sem saber porquê tão logo ouvem a sirene, o sinal, a trilha.
A magia da história vem pela ausência de. A dupla Heinz Limaverde e Carlos Ramiro Fensterseifer, dirigidos pela dupla Nelson Diniz e Liane Venturella, fogem da dupla “O Gordo e o Magro” do cinema e se aproximam das duplas de Becket (Esperando Godot e Fim de Partida). No entanto, visualmente discutindo, se aproximam da dupla cômica e se aproximam da dupla absurda. Não tem importância. Nada tem importância. Se destruirmos o muro, eles não se importarão. A peça ainda estará em cartaz. E o muro, talvez, nunca seja concluído.
Eles fazem o seu trabalho, colocam as pedras onde indica o livro de tarefas. E desaparecem. A produção desaparece tão eficiente é o suporte que faz aparecer o ator, a dupla, a energia que sai do dedo e aponta para lua (Yoshi Oida), fazendo com que apareçam o dedo e a lua, mas que se sinta apenas a dita energia. E o tempo acaba. Escurece novamente. A energia fica e recebe as lembranças do mundo que voltam quando vamos embora . Paul Auster, na boca do Magro, diz que, se temos lembranças, vivos estamos. E, se você não lembra como começou esse texto e acha que ele vai terminar agora, é bom duvidar se está realmente vivo.

*

ELENCO:
Carlos Ramiro Fensterseifer
Heinz Limaverde

FICHA TÉCNICA
Texto: Paul Auster
Direção: Nelson Diniz e Liane Venturella
Iluminação: Nara Maia
Produção: Marco Mafra
Trilha Sonora: Álvaro RosaCosta
Cenário, Figurino e Design Gráfico: Rodrigo Nahas

2 de out de 2008

O Balcão



O nascer de chifres e rabos


Contam as más línguas da minha família que, quando eu era pequeno, eu subia ao terraço munido de um copo de Sunday que eu comprava no MacDonalds que ficava ao lado do meu prédio. Eu tinha uns cinco anos e olhava com curiosidade lá pra baixo: a Avenida Paulista, aquele movimento todo, as pessoas passando apressadas, bem vestidas, com seus problemas alheios a mim, criança que assistia à Turma do Balão Mágico diariamente. Eu era pequeno, mas via todo mundo. Todo mundo era grande, mas ninguém me via. Então, o meu copinho de Sunday ficava com uma vontade louca de voar. E eu deixava ele voar. Atirava ele todinho (isto é, a metade não comida) nas pessoas lá de baixo e ria delas como um pequeno demônio sem chifres, nem rabo (ainda...).
Todas as noites um grupo de pessoas sem importância se encontra num bordel famoso e finge ser os cargos mais representantes da sociedade que, lá fora, se destrói em guerra. Sobem ao terraço (Le Balcon – O terraço, em francês), onde podem ver todos os reais importantes se movimentando, sem que por eles sejam vistos. Com isso, os de cima conquistam a liberdade de dizer o que pensam dos de baixo, matar, ter prazer, vencer, torturar, rir e sonhar suas ilusões sem que ninguém os lembre de que, no fundo, não são nada. Música e cortinas de veludo aquecem o dentro, enquanto o fora se decompõe.
Em todas as quartas-feiras de outubro, ao meio-dia e à noite, um grupo de estudantes de teatro da Ufrgs se encontra na Sala Qorpo Santo. Lá, fingem ser atores profissionais. Exigem senha sem que tenhamos pagado por elas, começam o espetáculo na hora, escurecem a platéia e iluminam o palco. Há luz, trilha, figurino e maquiagem. E há composição de personagem e direção. Se movimentando dentro de um texto de Jean Genet, escrito nos anos 50, sobem no seu palco e olham para baixo. Uma platéia considerável (Viva!!) lhes assiste derramar Sunday nos palcos comportados da vizinhança e a rir de nós, que, muitas vezes, pensamos ser cargos representativos na sociedade, autores de blogs e managers de comunidades do Orkut.
A luz é uma sucessão de ausências e pobreza criativa: não fortalece os momentos, não cria clima e não diz nada. O cenário inexistente é melhor que o existente. A trilha se é boa, fica muito ruim com uma execução tão cheia de más entradas e más saídas. A locução é absolutamente imprópria, sem dicção, sem motivo, sem acrescentar nada a não ser pontos de interrogação. Crianças que sobem ao terraço e ficam atirando sorvete nos outros mereceriam uma tunda de laço para aprender a respeitar o que não lhes cabe. Mas, no escurinho da saída de incêndio, merecem um beijo por não andar na linha, até porque quem anda na linha é trem de ferro, já diria minha avó. Então, começamos a ver a montagem, dirigida por Ana Paula Zanandréa, de um modo diferente e muito mais interessante apesar daqui e dali. As boas interpretações, aquelas que têm a sabedoria de esperar o tempo, de entender o ritmo e, principalmente, de que o melhor do teatro é que vemos sempre o todo e nunca as partes, vão chegando aos poucos ao longo da peça. A certeza de que voz e membros, expressão e olhar são coisas diferentes num texto único, num personagem único fazendo ações convergentes e significando o mesmo vôo do sorvete começa a aparecer da metade pro fim. Isso se vê em Soraia Pancadão ou Priscilla Colombi por quem vale a pena ver mais de uma vez essa produção despretenciosa e agradável desde o seu início. Um pouco disso, é possível encontrar em Douglas Carvalho, com movimentos medrosos, mas sorriso corajoso e em Kayane Rodrigues, com voz destemperada, mas olhar certeiro.
Chantal, a Satine-Moulin-Rouge da Casa de Ilusões, abre, uma noite, a porta e desce do Balcão se doando ao Christian-Paris-Revolução in the name of love. Leva, por isso, uma sorvetada na testa de quem ainda está lá em cima olhando, e rindo, para ela e para nós. Elas (ou eles) nos dizem que só há uma única diferença entre os que estão no alto e nós, na platéia. Embora estejamos todos representando alguém, os alunos do DAD assumem (e muito bem assumido!) que são demônios ainda sem chifres nem rabos, enquanto nós ficamos nos mexendo na cadeira e escondendo o nosso garfo a todo custo.

16 de set de 2008

Ópera de Sangue


Real de menos


Se eu fosse um criado de vampiro que ama o seu mestre, eu o aconselharia dessa forma. Se eu fosse uma vampira, que, no fundo, morre de ciúmes do seu mestre, eu me movimentava assim. Se eu fizesse parte de uma corja de seguidores de uma vampira de segundo escalão, eu andava assim. Se eu fosse um vampiro cansado da imortalidade minha voz seria assim. Se eu fosse uma donzela que estivesse super afim de ficar com um vapirão, eu me entregaria a ele desse jeito. Se eu estivesse num musical a la Broadway, eu cantaria assim. Se eu tivesse tarefa de ritmar uma cena chata, eu bateria minhas baquetas dessa forma. Se eu tivesse que expressar cavernice, esconderijo, sombridão, eu roncaria num microfone com essa intensidade. Minha maquiagem, se eu estivesse numa peça a la Expressionismo Alemão no melhor jeito Macdonalds de ser, seria dessa maneira que eu estou te mostrando. É. Se eu fosse... Porque eu não sou. Eu sou “Ópera de Sangue”, produção da Companhia Teatro Novo.
Christian Metz, lá nos anos sessenta, traça um paralelo bem interessante entre cinema e teatro. Diz o seguinte: “É talvez por ser o teatro excessivamente real que as ficções teatrais dão apenas uma leve impressão de realidade; ou então o contrário: conforme Jean Leirens, a impressão de realidade que o filme nos dá não se deve de modo algum à forte presença do ator, mas sim ao frágil grau de existência destas criaturas fantasmagóricas que se movem na tela incapazes de resistir à nossa constante tentação de investí-las de uma “realidade” que é da ficção (noção de “diegese”), de uma realidade que provém de nós mesmos, das projeções e identificações misturadas à nossa percepção do filme.” (METZ, 1977)
Assim, “Ópera de Sangue” é um bom ensaio para um filme. É fácil imaginar planos, cortes, movimentos. E efeitos! As lutas sem toque, as facas sem sangue, as mordidas sem feridas... Convenções que são aceitas no teatro, mas que não se justificam nos paradigmas que o espetáculo mesmo se propõe a construir, e não consegue, da primeira à última cena. Para quê os andaimes? É uma convenção que significa o quê? Se de um lado a direção de Radde nos pede uma participação no jogo teatral para aceitar certas ausências, de outro nos impõe sobretudos, meneios de mãos e choro.
Andrew Lloyd Weber, em Londres, ou Charles Moeller, no Rio-São Paulo, fariam de “Ópera de Sangue” um espetáculo de algumas semanas. Ingressos a R$80 e R$120 reais lhes dão o poder de construírem bolsos falsos e facas que simulam o enterro em fracos corações. Rios de fumaça, cenários que sobem e desce, e uma orquestra que seja: a produção mínima exigida por um texto sydfieldiano estruturalista ao extremo. Mas também não dariam a dramaturgia que interessa ao público de hoje. Como musical, os números de "Ópera de Sangue" são anteriores à Singing in the Rain (1951) quando a ação passou a participar das músicas tanto quanto a emoção dos personagens. (Moulin Rouge (2001) moderniza ainda mais gênero trazendo para a música, além da emoção e da ação, a hipertextualidade!) Assim, como filme, a história protagonizada por Leonel Radde e Letícia Paranhos seria um musical cuja agradabilidade dependeria unicamente da quantidade de dólares investida na distribuição/divulgação.
Os atores são afinados. Os figurinos bonitos. Mas do programa à narração, não é de teatro que estamos falando e isso justamente porque falta de nós, público, responsabilidade na constituição dos sentidos, esses todos já fechados e entregues, disponíveis apenas para a relação de identificação de que Metz falava (mal) quando teorizava sobre os filmes de cinqüenta anos atrás.
Há uma exceção nos sessenta minutos desse espetáculo tão caro ao seu grupo: João Acir, o ilumindor, faz teatro quando, no fim de tudo, nos pede para acreditarmos na luz do sol que ilumina primeiro o castelo de Cristan e, depois, nós mesmos. E nos convida a acreditarmos no poder do amor como aquele que nos liberta de todas as maldições. Eu acredito.
(METZ, Christian. A significação no cinema. São Paulo: Perspectiva, 1977. p.23)
ELENCO
Leonel Radde
Letícia Paranhos
Dejayr Ferreira
Ellen D'àvila
e
Álvaro Rosacosta
Aline Jones
Gustavo Razzera
Daciara Collor
FICHA TÉCNICA
Texto e Direção: Ronald Radde
Direção de Atores: Lúcia Bendati
Diretora de Produção: Ellen D'ávila
Trilha Sonora e Preparação Vocal: Simone Rasslan
Letras: Ronald Rahde e Simone Rasslan
Banda: Calibre
Preparação Corporal: Letícia Paranhos
Coreografias: Jussara Miranda
Maquiagem: Cláudia Etchel e Dayse Pilla.
Figurinos e Direção de Arte: Daniel Lion
Cenário: Ronald Rahde e Hildemar Cavalheiro
Iluminação:João Acir

15 de set de 2008

Os Saltimbancos


Crianças de 40 minutos


Há lugares onde animais não podem entrar. Em outros, o acesso de adultos não é permitido. No primeiro, os bichos têm que adquirir funções de humanos, essas externas a eles. Na segunda situação, nós, adultos, temos uma ótima desculpa para tirarmos de dentro de nós mesmos uma criança que, entre várias idades, às vezes, fica meio perdida na quantidade de roupas que usamos. Shorts, conga e camiseta listrada. Bonequinho do Comandos em Ação e, na cabeça, transação ultra secreta sobre uma rolimã que eu estou muito afim, mas que deusolivre minha mãe saber: fui eu ver “Os Saltimbancos”!
Um toque de campainha. Gritos. Palmas. Excitação. Outro toque seguido de um segundo. Wow! Um medo misturado com alegria. Uma narração e... Outro toque acompanhado de outro e mais outro terceiro. Meldeuz! A peça vai começar! Susto e louca vontade de que tudo aconteça logo! E, então, começa.
A euforia das crianças que esperam a história chegar me fez pensar sobre o medo dos toques de campainha, que são três, sempre num clima de pavor do novo e de prazer da aventura, tudo isso misturado como num milkshake doce e gelado. No fundo, eu também estava louco para ver, mais que ouvir, as músicas de Chico Buarque.
A Companhia Teatro Novo já tinha quase dez anos quando Chico Buarque (e, se Álvaro Rosacosta não se engana, Sérgio de Carvalho) produziu e adaptou as músicas de Luiz Enriques Bacalov e as letras de Sérgio Bardotti Bardotti para a história inspirada no conto “Os Músicos de Brehmem”, dos Irmãos Grimm. E já tinha trinta anos quando montou o espetáculo pela primeira vez. No aniversário de quarenta anos, temos o espetáculo de novo em cartaz, mostrando que são quatro, e não três, os toques que dão início ao espetáculo. Burro, Cachorro, Galinha e Gata são as campainhas dessa história que já nasce com a gente.
Afeição. Doçura. As interpretações são simples. Álvaro RosaCosta, Leonel Radde, Suzana Schoellkopf e Lucia Bendati incorporam gestos já cristalizados na convenção dos animais: a galinha que bota o rosto para frente, a gata que é leve, o cachorro com a parte superior das mãos viradas para cima, o burro pesado, lento e duro. Não precisa mais que isso para que os identifiquemos como bichos e os deixemos entrar. Os barões e bailarinos, por sua vez, cobram de nós infantilidade suficiente para termos medo nas cenas de batalha e alegria nas danças que executam. Se passamos no teste, podemos nos divertir. Em, sim!, passamos pela prova e curtimos a montagem dirigida por Ronald Radde.
Mas tudo dura muito pouco... Quarenta minutos se passam e somos de novo adultos chatos e moribundos a nos perguntar o porquê de uma iluminação que deixa tantas vezes a história no escuro e a razão, ou falta dela, de um figurino que deixa tanto a desejar. Tecidos que não refletem a luz e têm tamanho apropriado ao personagem e aos atores melhorariam muito! Sem falar na beleza plástica da peça (cenário, luz e maquiagem), com cores e brilhos que estão tão aquém do musical de Chico e das interpretações dos seis heróis (faltou citar Gustavo Curti e Aline Jones) - atores que nos divertem com o sua agilidade em fazer tanto em tão pouco.
Se as notas são sete, todas elas devem entrar na pauta. Para isso, precisa-se que elas deixem de ser meras bolas e passem a ser tons! Se Ronald Radde, de história teatral indiscutível, é a clave e os atores dão o ritmo, onde está melodia que encheria de graça e de alma não só as crianças de sempre, como também as crianças de quarenta minutos?
Se me tornei criança para entrar no Teatro do DC e me divertir a beça, esquecendo até mesmo do rolimã, vai o recado de que não quero sair de lá tão cedo.
__________

ELENCO:

Álvaro RosaCosta
Susana Shoellkopf
Lúcia Bendati
Leonel Radde
FICHA TÉCNICA
Direção: Ronald Radde
Direção de Produção: Ellen D'ávila
Coreografias: Jussara Miranda
Figurinos: Titi Lopes
Cenografia: Rodrigo Lopes
Bonecos: Paulo Balardin
Iluminação: João Acir

9 de set de 2008

Comédia dos Erros - Cia Stravaganza

foto: divulgação


Comédia dos nossos Erros



Então, Lauro Ramalho, ou Laurita Leão, ou seja lá que mulher, homem, travesti ou personagem que for faz um círculo pela cena olhando muitos de nós nos olhos. Senta-se em sua cadeira, a luz escurece sobre nós e aumenta sobre ele. É ele quem dá a ordem: somos o que somos, vivemos onde vivemos, moramos onde moramos e assistimos ao que assistimos. Será?

Eu fui para ver uma comédia. Eu fui para um teatro. Eu fui para ver Shakespeare. Não lembro de Wim Wenders, autor do texto de abertura, fazer comédia no cinema e, muito menos, no teatro. O Studio Stravanganza é um galpão onde as cadeiras, embora branquinhas, são do tipo “praia”. E Shakespeare? Shakespeare não estava lá.

A história começa com um caminho sendo traçado no chão. Um caminho construído com textos, ou restos deles, que foram usados pelos atores na composição do espetáculo. Uma rua. Uma viela. Um caminho que se desfaz na tempestade do mar. Os atores entram e pegam novamente os textos do chão e batem as folhas já gastas umas contra as outras. O texto se perde na tempestade que gera o conflito que gera a ação que, nessa peça, gera o espetáculo. Dois pares de bebês gêmeos, um par de patrões e um par de escravos, se perdem de seus pais que também, por sua vez, são separados para sempre. Crescidos são bem conhecidos nas cidades inimigas onde moram: Éfeso e Siracusa. O Antífolo de Siracura, para conhecer o mundo, resolve partir até chegar clandestinamente na cidade onde, sem nem saber que ele existe, tem um irmão. O pai, sem saber também para onde o segundo filho foi, resolve trilhar o mesmo caminho e chega ao mesmo lugar. É em Éfeso que o nó talvez se desfaça.

O gêmeo não sabe que é gêmeo. O filho não sabe onde estão seus pais. Os pais não sabem onde estão seus filhos. A esposa espera pelo marido que não chega. A cunhada não sabe o que é o casamento. O escravo não sabe o que é a liberdade, mas nós sabemos que estamos vendo, já conformados por não estarmos vendo uma comédia, num teatro, escrita por Shakespeare.
Eis que vem o riso solto de quem caminha na rua e vê ou ouve algo que simplesmente lhe desperta a vontade de rir. Eis que entramos na história sem moldura de palco italiano, o conforto de cadeira de veludo também italiano e nos divertimos com um grupo de atores que, embora gaúchos e não italianos, estejam tão bem em suas performances. Eis que nos damos conta de que a pessoa de Shakespeare a quem, elitistas e intelectualóides que somos, nos gabávamos querer encontrar, morreu há séculos, mas o seu texto está vivo em rima e em verso, em ritmo e em imagem, em trama, em sentimento e em pensamento. E aí vem o resto.

A gente pode ter começado com a dúvida “eu sou quem eu sou?”, mas saímos com alguma certeza: não há o que destacar de “A Comédia dos Erros”, produção que faz parte dos 20 anos da Companhia Stravanza. Se for falar do figurino, há que se falar dos objetos e da maquiagem. Se da luz, teremos que falar do cenário, parte do qual somos, figurantes de um mercado em que nós mesmos podemos comprar. Se da trilha, seja a música de Monica Tomasi, ou da sonoplastia incidental, incluindo as vozes dos atores sem coxia que participam integralmente da história o tempo todo, teremos que falar das vozes dos atores. Se dos atores, somos obrigados a falar da direção de Adriane Mottola. Então, essa crítica se tornaria outro texto, cheio de tramas e honras, de detalhes e chatices. Por hora, convém apreciar os movimentos de Gustavo Curti e Rodrigo Mello, o deboxe de Lauro Ramalho, ele mesmo um personagem, os olhos de Carlos Alexandre, Sofia Salvatori e Janaina Pelizzon e todas as cores com que Anita Coronel, Kike Barbosa e Adelino Costa ajudam a pintar essa Comédia dos Erros, que, só é boa por não ter pensado em acertar nada além do alvo.

*


Ficha Técnica:

Direção: Adriane Mottola
Tradução: Bárbara Heliodora
Elenco: Sofia Salvatori, Gustavo Curti, Carlos Alexandre, Lauro Ramalho, Fernando Kike Barbosa, Adelino Costa, Janaina Pelizzon e Anita Coronel
Iluminação: Fernando Ochôa.
Trilha sonora original: Mônica Tomasi.
Preparação corporal: Jezebel de Carli.
Preparação vocal: Gisela Habeyche.
Figurinos: Coca Serpa.
Cenário: Élcio Rossini.
Programação visual: Rodrigo Mello

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