6 de ago de 2016

O mal entendido (RS)

Foto: Adriana Marchiori

Fernanda Petit
Texto de Albert Camus ganha excelente versão brasileira

O excelente “O mal entendido”, um dos espetáculos de maior destaque em 2015 na capital gaúcha, está de novo em cartaz em Porto Alegre. A peça, com dramaturgia e direção de Daniel Colin, é uma adaptação do original homônimo do franco-argelino Albert Camus (1913-1960) escrito em 1943 e que ganha, com essa montagem, sua primeira versão no Brasil. Na história, um homem pretende fazer as pazes com seu passado, reencontrando-se com a mãe e a irmã com quem há muito tempo não tem contato, mas elas não o reconhecem. Por causa disso, confundido com mais um hóspede, ele acaba participando dos terríveis meios que elas encontram para alimentar o sonho de sairem dali e verem o sol. Pedro Nambuco, Carla Cassapo, Elison Couto estão no elenco, mas Gabriela Grecco e principalmente Fernanda Petit brilham em excelentes atuações. A peça pode ser vista até o dia 14 de agosto no Teatro de Arena, no alto do Viaduto da Borges de Medeiros, na zona central de Porto Alegre.

O expressionismo na direção de Daniel Colin
A história se passa em uma hospedaria abandonada em um distante lugarejo próximo a uma represa e longe do mar. A peça começa com a chegada de Jan (Elison Couto) que vem, vinte anos depois, para retomar o contato com sua Mãe (Gabriela Grecco) e com Marta, sua irmã mais nova (Fernanda Petit). O problema é que ele não é reconhecido por elas e, com medo de uma recepção negativa, posterga a apresentação de sua verdadeira identidade para o espanto de sua esposa Maria (Carla Cassapo). Ao se hospedar escondendo a verdade, acaba despertando a cobiça das duas que percebem que ele é um homem de posses.

Marta, como o irmão da parábola bíblica do filho pródigo, permaneceu com a Mãe em sua velhice, mas alimenta o desejo de partir, conhecer o mar, o amor e o sol. Para realizar esse sonho, as duas costumam assassinar os hóspedes solitários mais ricos, jogando seus corpos na represa e engordando suas economias. Jan é uma vítima em potencial, embora a Mãe, por algum motivo que ela desconhece, relute em praticar o mesmo crime tantas vezes feito anteriormente.

Escrito, no meio da ocupação nazista na França, com influências do expressionismo, o texto “Le Malentendu” recebeu, ao longo das décadas, análises que o associam ao existencialismo e ao absurdo. Além do trecho do evangelho (Lc 15, 11-32), o texto se associa às tragédias “Electra”, de Eurípedes, e “Antígona”, de Sófocles. A adaptação de Daniel Colin mudou, na dramaturgia, o ritmo das cenas, mantendo sua força positivamente.

Na direção, o encenador confortavel e de modo excelente privilegiou o tom expressionista. Desse modo, é possível perceber sua versão também a partir dos olhos de Jan: a esposa amada, a mãe e a irmã assustadoras e o criado (Pedro Nambuco) enigmático. O clima solar de onde o protagonista vem é uma referência longínqua à umidade da região onde ele se encontra. Tudo é enegrecido, podre, doente.

Ao longo da peça, o fato dos atores não sairem de cena confere à fruição o aspecto sufocante em que a fluidez do texto se pauta positivamente. O público, que tem informações privilegiadas em relação aos personagens, consegue ler, a partir disso, o todo das relações que se estalecem na narrativa. O modo como a direção de Colin organiza a estrutura da cena e a articulação dos quadros, além de oferecer belos panoramas ricos em experiências sensoriais, nutre, apresenta e defende uma estética potente ao todo.


Gabriela Grecco
O brilho de Gabriela Grecco e de Fernanda Petit
Carla Cassapo, apresentando a Esposa Maria, consegue alguns méritos no pouco espaço possível no contexto narrativo positivamente. Ela representa o presente de Jan e serve, em termos de função na dramaturgia, para questioná-lo sobre os motivos que o levam a se esconder da própria família. Elison Couto, com melhores oportunidades no início da peça, permite-se sucumbir ao protagonismo de Marta durante o desenvolvimento da história. Em outras palavras, a narrativa começa em Jan, mas não é nele que está seu melhor. Com afinco e dedicação, o intérprete mobiliza um conjunto de expressões sutis que oferecem profundidade ao todo, sem se opor à hierarquia dos sentidos, o que é elogiável. Pedro Nambuco, no seu Criado quase silencioso, defende com ótima participação a figura forte de seu pequeno personagem.

Gabriela Grecco, em mais um belíssimo trabalho de interpretação, oferece um conjunto enorme de níveis diversos à personagem da Mãe. Em excelentes contracenas, com presença fulgurante nos silêncios e voz imponente nos diálogos, sua colaboração assina boa parte dos melhores méritos da produção. Um a um, os desafios são ultrapassados com galhardia em um quadro cheio de méritos.

Fernanda Petit, de novo, está excelente! Como Grecco, mas com maior número de desafios devido ao protagonismo de sua personagem, vê-se, em seu trabalho aqui, nobre pesquisa no interior de cada intenção, resposta e movimento. Suas expressões, nesse sentido, são claras, mas não óbvias, em tempos inteligentes e fortes. O melhor é reparar o jeito como sua Marta, de vilã, assume o precioso aspecto humano que é capaz de manter as narrativas trágicas e o conceito expressionista próximos da contemporaneidade. Isso sem falar na importância do personagem do irmão na parábola do Filho Pródigo, através do qual, toda a história faz sentido há dois mil anos. Uma performance destacável!

Montagem exuberante que merece viajar pelo país
“O mal entendido” tem ótimas colaborações do cenário de Marco Fronckowiak e de Rodrigo Souto Lopes, da luz de Carlos Azevedo, da trilha sonora de Beto Chedid, do figurino de Antônio Rabadan e do visagismo de Elison Couto. Ao longo da apresentação, o palco vai sendo inundado por água que banha os intérpretes, afogando os personagens em suas buscas pelo passado (Jan) e pelo futuro (Marta). O feito, tecnicamente complicado e em ótimo uso aqui, além de ser visualmente impactante, é, na ordem do conteúdo, bastante inteligente. Mãe e Marta se distanciam de Jan e Maria quanto ao guarda-roupa, oferecendo, com brilhantismo ao panorama, espaço fértil para o reconhecer das relações além do que já faz a dramaturgia. Tons mais escuros de verde e de vermelho oferecem respiro enquanto as lentes de contato e os cabelos prendem a atenção. A iluminação de Carlos Azevedo e a trilha sonora de Beto Chedid ampliam as possibilidades do espaço cênico, alargando a experiência estética com diagonais e fontes espalhadas de som. 

A produção brasileira de “O mal entendido” ganhou dez indicações em nove categorias do Troféu Açorianos de Teatro Gaúcho de 2015, vencendo nas de Melhor Iluminação, Cenário, Atriz Coadjuvante (Carla Cassapo) e de Atriz (Gabriela Grecco). Trata-se de uma montagem exuberante a qual se deseja que viaje para outras regiões do país a fim de que outros públicos, e não só os gaúchos, tenham acesso à sua enorme qualidade estética. Aplausos!

*

Ficha técnica:
Texto: Albert Camus
Dramaturgia e Direção: Daniel Colin
Atuação: Fernanda Petit, Gabriela Greco, Elison Couto, Carla Cassapo e Pedro Nambuco
Iluminação: Carlos Azevedo
Trilha sonora: Beto Chedid
Figurinos: Antonio Rabadan
Maquiagem e Cabelos: Elison Couto
Cenário: Marco Fronckowiak e Rodrigo Souto Lopes
Registro fotográfico: Jorge Scherer e Adriana Marchiori
Produção: Fernanda Petit

28 de jun de 2012

A opinião sobre teatro na internet



A crítica desautorizada? 

            No jornal, o Bonequinho que vai ao cinema aplaude sentado ou em pé. O Bonequinho também pode pular ou dormir dependendo do filme. E tem também a polêmica figura do Bonequinho indo embora da sala de exibição. O leitor vê e sabe, assim, se o filme foi considerado bom ou ruim. Se, na opinião do jornal, vale a pena assisti-lo ou não. Mas, quando quer explicações sobre o motivo do aplauso, da cochilada, dos pulos ou do abandono da obra, ou mesmo das quatro, cinco, três ou nenhuma estrelinha, a análise crítica se faz necessária. A crítica torna-se um grande passo além da mera nota.
            Analisar uma obra, descrevê-la a partir do seu ponto de vista, identificar marcas, fazer ver problemas, méritos, dificuldades vencidas e tentativas fracassadas só não são desafios maiores do que reunir todas essas informações em um só texto e publicá-lo. Se, no primeiro momento, a opinião fica entre amigos, mesas de bar, conversas ao telefone e trocas de inboxes no Facebook, no segundo, sabe Dionísio onde as palavras vão parar, porque uma vez impresso, virtualmente ou não, a possibilidade de leitores do tal texto aí não tem fim.
            Não houve e não há uma faculdade de crítica de teatro, tampouco de música, de cinema, de literatura ou de artes visuais. Se quem escreve é alguém ligado unicamente à teoria, ele corre o risco de ser acusado de desconhecer a maquinaria teatral profundamente. Se for alguém da área, o problema fica ainda maior, pois “Como é possível falar mal da peça X se nela está o meu amigo ator, o meu futuro diretor, o meu ex-figurinista?” ou “Se a esposa dele está na peça Y, como ele vai falar mal do diretor?”. A autoridade para escrever a crítica ganha, a cada dia, mais força na própria crítica nesse tempo em que todos escrevem e publicam suas opiniões ou podem simplesmente desenhar bonequinhos, oferecer “curtires” ou usar de qualquer outra forma para divulgar sua avaliação sobre determinada obra de arte.
            Houve um tempo em que um determinado grupo de pessoas ditava o cânone a ser visto: os livros a serem lidos, um jeito certo de pintar, os programas de televisão censurados, os textos teatrais que poderiam ser produzidos. A igreja, o governo civil, a ditadura militar: o povo preguiçoso tinha guias “qualificados” para andar na selva sem pecar. Nos jornais, os editores escolhiam os críticos de teatro entre os jornalistas que se interessavam pelo tema e, ainda hoje, quem escreve sobre arte no Caderno de Cultura, também corre o risco de escrever sobre futebol durante a Copa, sobre política nas Eleições, sobre a Rihanna no Rock In Rio. No maior país da América Latina, há apenas duas pessoas que escrevem críticas de teatro em jornal e não escrevem mais nada além disso. Uma está no Rio de Janeiro e a outra está em São Paulo. Na exata linha oposta, Porto Alegre, Brasília, Fortaleza, Curitiba e Belo Horizonte têm importantes festivais com produções locais de altíssima qualidade. De Manaus a Florianópolis, hoje há mais salas de espetáculos e mais grupos de teatro e de dança do que nos últimos trinta anos. Cursos livres, cursos de formação técnica, graduação, mestrado e doutorado são abertos e se espalham e a Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-graduação em Artes Cênicas, a ABRACE, realiza encontros nacionais que reúne pesquisadores e artistas das cinco regiões do Brasil. Ou seja, na mesma medida em que o teatro perde espaço na mídia impressa, ganha-o nas ruas, na academia, nos shoppings, nos prédios restaurados pelo governo e pela iniciativa privada e, sobretudo, na internet.
            Depois de 40 anos escrevendo sobre teatro no jornal, o crítico Macksen Luiz saiu do Jornal do Commercio, seu último local de trabalho, e abriu um blog, dando assim continuidade ao seu trabalho. Com Lionel Fischer (Tribuna da Imprensa), Edgar Olímpio de Souza (Diário Popular) e com Ida Vicenzia (Jornal do Commercio), aconteceu o mesmo. Por outro lado, Luciano MazzaMarcelo Aouila Dinah Cesare nunca escreveram em jornais, mas abriram sites ligados ao tema mesmo assim. Em todos esses, há a necessidade de ir além do Bonequinho e compartilhar suas reflexões de forma mais profunda. Para eles, se o Gosto/Não Gosto válido é apenas o primeiro degrau, o último é o debate acerca da peça em cartaz. Nesses espaços, cada um é o seu próprio patrão, o seu próprio editor e, nesse sentido, a sua própria autorização. No Facebook, no Twitter ou por email, os links dos textos são compartilhados. Quando positivas, as críticas ganham printscreens e se tornam cartazes em portas de teatro. Quanto negativas, viram inboxes privados distribuídos em segredo. Em ambos os casos, os contadores de acesso marcam o crescente aumento do número de leitores, do número de leituras, do número de textos e o batido “Se gostaram, avisem aos amigos e, se não gostaram, avisem aos inimigos” continua valendo. O crítico que só fala bem pode até ser desacreditado por quem o lê com frequência, mas a produção da peça ruim sente no seu texto um carinhoso alento quando dela todos falam mal, já que o que ele escreveu vai engrossar a pasta a ser entregue nos órgãos competentes a fim de solicitar mais patrocínio, de ganhar editais de ocupação, de receber apoio para viajar. O crítico que só fala mal não existe, embora existam aqueles que, já de antemão, não gostam de determinado diretor, gênero, ator ou de tipo de teatro, honestamente parcializando a sua avaliação. Longe de terminar a tipologia, existem ainda aqueles que não falam nem bem, nem mal das peças a que assistem, procurando mais descrever as obras do que valorá-las, propondo reflexões que ganham corpo, principalmente, na investigação da linguagem artística e da sua recepção. Com isso, se chama a atenção para o fato de que há, felizmente, críticos para todos os gostos e críticas capazes de acompanhar a crescente malha cênica brasileira.
            Desde 2008, a jornalista Helena Mello pesquisa a crítica teatral em espaços virtuais na internet, apresentando, no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da UFRGS, a dissertação Aspectos da Crítica Teatral Brasileira na EraDigital. Após entrevistar cerca de 80 pessoas ligadas ao teatro, incluindo críticos teatrais, o trabalho é referência por apontar questões relevantes com embasamento teórico, tais como, entre outras: a autoridade do crítico teatral da internet e a linguagem utilizada nesse tipo de texto. Sobre o primeiro ponto, entram na pauta dois temas – a necessidade humana de compartilhar experiências e a manutenção da verdade como uma estrutura sólida. A internet possibilita ao homem comunicar-se com desconhecidos do mundo todo em uma relação que cruza fronteiras geográficas e temporais. Afinal, uma foto sua publicada no Fotolog em 2005 pode ser acessada ainda hoje por alguém que nasceu em 2006 e isso está livre de acontecer na sua cidade ou do outro lado do mundo igualmente. Nesse sentido, pairam na rede, pontos de vista bastante diferentes e também bastante iguais sobre acontecimentos de qualquer tipo. As verdades, cada vez menos sólidas e mais fluídas, são questões que estimulam a maneira de pensar a arte, modificando, com certeza, a velha crítica, mas apresentando uma nova à qual, segundo a pesquisadora, é “pura perda de tempo resistir”.
            Orientada por Edélcio Mostaço, Helena Mello cita o caso recente da publicação de críticas teatrais anônimas em Santa Catarina, que causaram um alvoroço feroz entre a classe artística de lá naquela ocasião. “É natural que uma pessoa que escreve de modo desrespeitoso, aparentemente sem critério, questionando aspectos pessoais daqueles que fazem arte não seja bem aceita no meio artístico. Acho que fizeram bem aqueles que procuraram buscar sua identidade, reclamaram do espaço que ela ocupou, etc. Mas, também achei extremamente pertinente a colocação do ator  Daniel Olivetto ao perguntar se é preciso realmente saber QUEM fala. Afinal, diz ele, os textos bíblicos provocam profundas discussões sem que a autoria seja posta a prova. Além disso, é bem verdade que os artistas costumam dizer que o que importa é o diálogo aberto com o público, a troca. Então, por que preciso saber quem fala para dar importância ao que está sendo dito?” É natural, sem dúvida, que seja dado mais valor às opiniões de pessoas que conciliam a formação acadêmica com o envolvimento artístico, mas desconsiderar os demais pontos de vista é, sem dúvida também, fechar-se para o desconhecido. Participando de encontros nacionais e internacionais de artes cênicas, (em maio, por exemplo, houve a IV Jornadas Nacionales de Investigación y CríticaTeatral, na Argentina) Helena Mello afirma que “o público, os leitores, o mercado se encarrega de dar ou tirar espaço daqueles que se intitulam críticos. E, considerando que, hoje, na virtualidade, não há mais a chancela de um jornal, isso acontece ainda mais facilmente. O resto são perguntas e não respostas, embora eu não veja nisso um problema. É a partir das primeiras que aguçamos a nossa sensibilidade e fortalecemos a nossa capacidade de refletir.”
            Sobre a questão da linguagem, a internet possibilita mais liberdade a quem nela escreve, não só em relação ao tamanho do texto. Fotos e vídeos podem ser anexados facilmente ao texto, assim como o recurso do hiperlink pode ser um importante aliado tanto do autor como do leitor. Enquanto lê o texto, é possível conhecer o site do grupo, ver cenas da peça, ouvir sua trilha sonora. Ao fazer relação com quadros, livros, filmes, lugares, ou qualquer outra fonte, a análise crítica publicada na internet pode proporcionar o acesso a essas informações de modo rápido e fácil.
            Lionel Fischer diz só ver vantagens ao escrever para o próprio site. “No blog, escrevo o que quero e sem nenhuma preocupação, por exemplo, com o tamanho dos artigos ou das críticas. Como sou o patrão de mim mesmo (pela primeira vez na vida, diga-se de passagem), desfruto de uma deliciosa e imensa liberdade. Tenho, no momento, 385 seguidores, mas sei que há um número muito maior de pessoas que lê o que escrevo, pois, muitas vezes, pessoas que não são seguidoras comentam comigo - pessoalmente ou por e-mail - os artigos e as críticas que posto.” Ida Vincenzia concorda com ele e, sobre a repercussão que a internet proporciona, acrescenta: “Recebo muitos e-mails comentando as críticas, além de convites para escrever sobre teatro. São pessoas aconselhando ao público de teatro a assistirem às peças por mim criticadas, ou indicando a leitura das críticas. A repercussão me surpreende. Outras afirmam a importância que tiveram, em suas carreiras, as observações feitas por mim. Isso tudo me faz perceber como os blogs são um veículo efetivo de comunicação, e como são recebidos pela classe teatral.” Marcelo Aouila, que diz não escrever críticas, mas opiniões pessoais, conta que “existe um link entre o blog e o Facebook. As pessoas curtem, criticam minha opinião e comentam sobre os espetáculos. Surpreendentemente, algumas vezes, já me pararam em locais públicos para dizer que lêem o que eu escrevo. Como também sou produtor cultural, sei das dificuldades de se produzir um espetáculo e do sofrimento que é quando alguém fala mal do seu trabalho sem saber as condições de produção. Procuro apontar coisas que possam melhorar, e evito falar mal. Mas nem sempre dá para não falar mal. Quando não gosto de nada da peça, eu não escrevo. Sempre tem algo de bom para comentar. Às vezes, eu nem gosto, mas tenho a consciência de que funciona para um tipo de plateia. Então, se funciona, tem q ser valorizado. É melhor ser sincero para quem lê do que agradar a quem está trabalhando e ser incoerente com o que penso.” Para, Edgar Olímpio de Souza, da revista virtual Stravaganza, “abrir um site de cultura, com espaço também para outras áreas culturais, é uma maneira de não ficar sujeito aos critérios nem sempre artísticos que orientam a cobertura teatral feita pelas revistas e pelos jornais tradicionais. Ou seja, tenho plena autonomia para abordar uma peça no meu blog, não importando se o espetáculo seja estrelado ou não por um(a) “artista da Globo”, alguma figura midiática ou esteja amparado por ampla publicidade.”
            Uma iniciativa bastante interessante é a Revista Questão de Crítica, um site dedicado a publicação de críticas e de estudos sobre o teatro. Dinah Cesare, uma das coordenadoras do projeto juntamente com Daniele Avila, conta que a ideia surgiu no final de seu curso de graduação em Artes Cênicas com habilitação em Teoria do Teatro na UNIRIO. “Nós finalizávamos o curso de teoria e a Daniele lançou um projeto para novos críticos na antiga edição do riocenacomportanea, que foi como um laboratório para nossa revista. Assistíamos aos espetáculos do festival e escrevíamos as críticas em tempo de publicação. A experiência nos possibilitou vislumbrar a criação de um espaço para a prática reflexiva sobre o teatro. Nós havíamos estudado a criação de perspectivas e de categorias novas para pensar a cena teatral e queríamos exercitar o olhar e a escrita em atrito com as produções artísticas. Sempre acreditamos que existe um público que está interessado na crítica, assim como na arte, ou seja, interessado em novos modos de ver e de construir o mundo.” Sobre aos acessos ao site, ela garante que “a repercussão da revista é pensada como um todo. Temos um índice significativo de visitas, considerando que se trata de conteúdo sobre teatro. Recebemos sistematicamente emails das assessorias dos espetáculos em cartaz no convidando para ver os trabalhos das pessoas. Em alguma medida, recebemos também retorno de artistas interessados em dialogar. Também recebemos comentários pela web. Isso tudo está crescendo. Cada vez mais pessoas que se dedicam ao teatro, tanto para pensá-lo quanto para fazê-lo mais propriamente. Estamos planejando o Segundo Encontro Questão de Crítica. Realizamos uma premiação em 2012 e já estamos no processo para 2013.”
            Talvez, para o futuro, o melhor benefício da crítica teatral nos espaços virtuais seja a potencialidade que ela tem de ser um arquivo aberto e constantemente alimentado de textos e de imagens dos espetáculos teatrais. Para conhecer as produções teatrais do Rio de Janeiro nos anos 80 e 90, para não irmos muito longe, o pesquisador deverá recorrer aos jornais e revistas. Haverá algumas críticas, algumas matérias e o serviço, contendo o título e alguns nomes da ficha técnica. Felizmente, depois do boom da internet, as ferramentas de busca oferecem um arsenal muito maior. Testemunhas de uma encenação, os críticos partilham o seu olhar por sobre as obras, colocando suas análises em lugar próximo às peças. Graças ao aumento do número de textos, é comum encontrar mais de dois pontos de vista por sobre o mesmo espetáculo, estando no leitor a tarefa de separar “o joio do trigo” e confiar nesta ou naquela opinião. Finalizando com uma frase de Antonio Costella, trazida pela pesquisadora Helena Mello, fica o valor da crítica disposta na internet: "Mas a roda faz andar a ambulância e o canhão, o avião serve para avizinhar cidades e para atirar bombas sobre elas, a energia nuclear contém o poder quase mágico de alavancar a humanidade e, ao mesmo tempo, o de destruí-la. Os meios de comunicação serão aquilo que o ser humano fizer deles". Abordado na saída, o Bonequinho pode agora se explicar (se quiser).

Rodrigo Monteiro
Revista de Teatro da SBAT, número  530, março e abril de 2012


3 de dez de 2011

Mulheres Pessegueiro


Foto: divulgação

Final alongado


Argumento vencedor do Prêmio FUNARTE Myriam Muniz, “Mulheres Pessegueiro” é o novo espetáculo da Cômica Cultural. Escrito, dirigido e produzido por Patsy Cecato, essa produção segue a linhagem das demais: divulgação ampla e acessível, clareza no atendimento, pontualidade, capricho nos detalhes, em suma, respeito ao público e, consequentemente, à classe teatral porto-alegrense. O resultado é o esperado: plateia cheia, o que alegra qualquer um que torce pelo teatro gaúcho. A peça consiste em uma comédia de costumes que se passa na sala da casa da Família Pessegueiro. Ione Pessegueiro (Lourdes Kauffmann) é mãe de Maria Lúcia/Lucinha (Laura Medina), avó de Manuela/Manu (Catharina Conte) e tia de Betinha (Áurea Baptista), todas pensionistas do Exército Militar Brasileiro, e envoltas ao desafio de resolver seus conflitos próprios e ajudar umas as outras a seguir em frente.

Dando início à análise crítica, “Mulheres Pessegueiro” se divide em duas partes. Antes de tratar sobre cada uma delas, vale ressaltar os aspectos, todos positivos, que são comuns a ambas. Ler a peça a partir do gênero “comédia de costumes” significa entender a narrativa como um recorte em que as tramas (a principal e as secundárias), apesar de não aprofundadas, têm grande importância; em que as construções dos personagens são claras e em que todos os recursos plásticos beiram à ilustração pelo seu alto grau de convergência. Nos dois lados da encenação, sobre um dos pontos comuns, há que se dizer que cenário (Valéria Verba), figurino (Alice Comassetto), trilha sonora (Nando Endres) e iluminação (Gabriel Lagoas) cumprem de forma adequada os seus papéis: ressaltam os momentos narrativos, caracterizam os personagens e o ambiente, ratificam as intenções. Outro ponto em comum é a interpretação dos personagens. As quatro atrizes fazem um bom trabalho, oferecendo bons resultados à produção como um todo. Dirigidas por Cecato, elas são responsáveis pelas variações de ritmo que estruturam as situações cômicas e os momentos dramáticos, mantendo construções que, bastante próximas do real, propiciam a rápida identificação, essa tão cara ao gênero utilizado aqui como chave de leitura.

A divisão (negativa) em duas partes é em função da dramaturgia e vai ser difícil dar cabo a uma análise sem revelar pontos importantes do espetáculo, o que pode frustrar os leitores que ainda não assistiram à peça.

No primeiro momento, temos Maria Lúcia como protagonista. É ela quem entra indignada na primeira cena porque não conseguiu o emprego de hostess que desejava. Ela é o centro das preocupações de sua mãe Ione e, de certa forma, a culpada pela adultez precoce de sua filha Manu. Entre uma conquista sentimental e outra, sua prima Betinha envia currículos e portifólios seus para empresas via internet. Embora haja carência de variação de tonalidade na interpretação de Laura Medina, de forma que, em um determinado momento, os arroubos emocionais (gritos, pulos, gestos largos) de sua personagem já não tenham tanta força como poderiam ter, é em sua personagem que se concentram todas as forças do espetáculo nessa primeira fase da peça, estando, em suas participações, os momentos mais cômicos (os comentários de Ione sobre seu vício de fumar maconha e o diálogo com Betinha sobre as esposas) e, também, os mais tensos (a briga com Manu e a briga com Ione). O conflito (a trama) principal é: Lucinha precisa encontrar um emprego e, quando isso acontecer, ela estará mais calma. As histórias secundárias são importantes porque: 1) auxiliam na apresentação dos personagens; 2) oxigenam a evolução da trama principal. No caso de “Mulheres Pessegueiro”, são elas: a doença de Ione, o vestibular de Manu (a trama menos desenvolvida infelizmente) e a relação entre Jacques, que resolve se separar de sua esposa para assumir o relacionamento com Betinha (Áurea Baptista), e a própria. Eis que uma carta do Acre chega e, com ela, finda a primeira parte do espetáculo que, aliás, acontece quando a encenação completa sessenta minutos.

O segundo momento de “Mulheres Pessegueiro” nem de longe alcança os mesmos resultados positivos da primeira parte. Maria Lúcia sai de cena e, em seu lugar, ficam as histórias secundárias que, porque não foram desenvolvidas como a principal, não têm força e, por isso, se estruturam parcamente. Jacques traz sua mudança para o edifício (Betinha mora um andar acima do de Ione, Lucinha e Manu.) e uma inexplicada briga entre ele, o porteiro, o síndico e o zelador acontece. Também inexplicadas ficam as convenções criadas na primeira parte da peça: de repente, não se sabe mais se a saída da esquerda do palco é na segunda ou na primeira bambolina, bem como se perde a relação do que é janela e porta, onde estão os homens brigando e por que não se usa o interfone, dúvidas essas que atrapalham na fruição de um espetáculo cuja proximidade com a realidade além da narrativa é essencial. Os problemas não param por aí. Tendo ido ao seu apartamento para pegar um bolo, ao retornar para a casa de Ione, Betinha cai na escada e se machuca. Sua primeira aparição depois do acontecido é em uma cadeira de rodas, uma imagem extremamente forte e pesada mesmo que se explique logo em seguida que a queda não a deixou paralítica. Por fim, em um dos piores momentos da dramaturgia, o texto se utiliza da morte de uma das Pessegueiro para construir o epílogo, em que se informa “o que aconteceu” com os demais personagens” e terminar a peça.

“Mulheres Pessegueiro” não é o tipo de comédia em cuja assistência o público ri durante o tempo inteiro da apresentação. A força da trama, que se movimenta de forma crescente em favor do ápice que antecede o fim, exige personagens menos aprofundados e situações mais leves, mas não menos capazes de fazer refletir e, quem sabe, emocionar. Apesar do final arrastado, com a clara intenção de resolver todos os personagens no sentido de apagar as marcas de protagonismo de um deles, essa nova produção gaúcha tem o seu lugar no mercado cultural pelo visível profissionalismo de sua produção e por trazer Lourdes Kauffmann de volta à cena teatral.

*
Ficha Técnica

Texto: Patsy Cecato

Elenco:
Dona Ione Pessegueiro....................Lourdes Kauffmann
Maria Lucia Pessegueiro........................Laura Medina
Betinha Pessegueiro..................................Áurea Baptista
Manuela Pessegueiro................Catharina Conte

Iluminação: Gabriel Lagoas
Cenografia e Produção de Objetos: Valéria Verba
Produção de figurinos: Alice Comnassetto
Trilha Sonora: Nando Endres
Criação Visual: Pingo Alabarce
Produção: Cômica Cultural
Direção Geral: Patsy Cecato

  ©Template Blogger Green by Dicas Blogger.

TOPO