23/11/2009

Dentrofora

Foto: Gilberto Chaves



Como o azul

Encontrar é um verbo de ação. Quando você encontra algo, você está num lugar. O objeto ou a pessoa encontrada estabelece ou mantém uma relação com você. Isso tudo acontece num ritmo, num tempo. Encontrar não é necessariamente um ponto fixo. O encontro dura um segundo, uma hora, uma vida... E uma vida nem sempre é uma ação. Encontrar não só representa uma ação.

“– Você acha que vamos encontrar?"

Hide and Seek, ou “Dentrofora”, começa com essa frase. Um casal de personagens presos em caixas envidraçadas. Modelos, manequins, estereótipos? Que personagens são esses que nunca se vêem porque estão em caixas separadas, sem comunicação visual entre elas? Que espécie de encontro é esse que um deles almeja perguntar isso no início, e outro no fim? "Dentrofora", novo espetáculo do Grupo In.co.mo.de-te, não é, talvez até nenhum seja, um espetáculo de respostas. Mais que tudo, estão claras as perguntas. Perguntas feitas à nós, cujas respostas fazem com que Jimmy veja Marie. Sem elas, o casal não é um casal. Há tempos que não se via uma história que depende tanto dos ouvintes, mais do que dos contadores, mais do que dos fatos. “Dentrofora” não tem ação dramática. E não é chato. Nada chato.

O mérito de Carlos Ramiro Fensterseifer, o diretor, não está em cuidar de todos os detalhes e levá-los ao potencialmente máximo sem burramente almejar o inalcançável todo. Isso é dever cumprido. O seu melhor é permitir que nós, a platéia, aproximemos o todo de quem a ele se refere. Cada signo (cor, forma, movimento, intenção manifesta) está arregimentado: azul que é tão azul que está em todas as cores, como diz, mais ou menos assim, Paul Auster, nesse texto de 1976. Nesse sentido, a peça, de um modo geral, fala de tudo, de todos, de mim e de vários eus. Você se indentifica e vê outras pessoas também, novas situações, pensa e sente. E atualiza, por indicação do autor, “Dias Felizes”, de Becket. A história que se conta sobre o prazer/desprazer de outras histórias.

Liane Venturella e Nelson Diniz são dois dos melhores atores da capital gaúcha. Praticamente parados em cena, atraem nossa atenção pela forma dinâmica com que usam a voz bem pontual e cheia de movimentos. As intenções faciais, mínimas, ganham vida nos corpos tão experientes, talentosos e estudados desses dois grandes artistas. Adequada e lindamente vestidos, sob focos de luz extremamente interessantes e bem usados, Venturella e Diniz são os fatos da história sem ação quem contam. Interpretações inesquecíveis, num texto célebre, numa montagem tão bem dirigida, produzida e oferecida ao público daqui.

A trilha, apesar de tudo ter sido tão bom, merece um destaque pela força que dá não na história que sai do palco, mas na história que chega a platéia. Coordenada (composta?) por Álvaro RosaCosta, os acordes sublinham o que virá e o que veio, sem ocupar o espaço do que está. Entradas certas, volume adequado, tons que grudam ao ouvido e que arrastam as palavras de Auster e de Fensterseifer. Se algo lidera todos os elementos, para mim, é a música, quem embala o tempo que dura esse encontro nesse espetáculo que não fala sobre como ele ocorreu, nem como ele deixou de ocorrer. Mas dele.

- A vida segue conosco ou sem nós.

*

Direção: Carlos Ramiro Fensterseifer

Elenco:
Liane Venturella
Nelson Diniz

Iluminação: Cláudia De Bem
Trilha Sonora: Álvaro RosaCosa
Figurinos e Maquiagem: Rodrigo Nahas
Produção e Assistência de Direção: Denis Gosch
Divulgação: Léo Sant’Anna
Design Gráfico: Rodrigo Nahas

O vendedor de palavras (por Helena Mello)

Foto: Vilmar Carvalho


Teatro de rua, a princípio, não é confortável. Pode ser ótimo, pode ser divertido, mas confortável não é. Porém, de nada adianta estar na melhor poltrona do teatro perfeito se o espetáculo não presta. Vamos acabar dando a qüinquagésima olhada no lustre para nos distrairmos. Aliás, era este o número de apresentações de O Vendedor de palavras, espetáculo de rua a que fui assistir no Parque Farroupilha.

Para mim, estar ao ar livre é sinônimo de liberdade. É verdade que, em Porto Alegre, não é difícil o clima não atrapalhar. Se não é a chuva, é um calor úmido bem desagradável. Pior ainda para os atores que, até o último minuto, não sabem se vai ser possível apresentar o espetáculo. Mas eles estavam lá. E, diferente do que eu imaginara, com cenário a ser montado. Poucas coisas, mas com uma característica que eu aprecio muito: objetos que se transformam em outros. Então, em poucos minutos, estávamos olhando para uma estante cheia de livros que iria se transformar em um píer. Outros pequenos detalhes e as cenas estavam completas.

O nome do espetáculo, para mim que sou jornalista, já me atraia muito. Atiçava minha curiosidade. Haveria um jeito de pagar minhas dívidas só com palavras? Não precisaria ser contratada por uma grande empresa? Ser escritora? Bem, teria que pagar para ver, quer dizer, neste caso, só ficar para ver já que não cobravam nada. A peça é baseada na crônica de Fábio Reynol, jornalista também. Provavelmente por isso eu tenha gostado da idéia.


Levei o afilhado de minha irmã comigo. Ele não tem ainda o hábito de ver teatro, então, me perguntou quando começaria o show. Eu expliquei que não era um show. Que era um espetáculo. Uma palavra que também serve para show. Mas que nós íamos ver uma peça. É... Usar as palavras não é assim tão fácil. Ainda mais quando, logo no início, um dos atores fala justamente que vai fazer um “show de teatro”. Fui desmentida.

O Vendedor de palavras começa com certa improvisação, chamando o público com música. Uma melodia agradável e comunicativa. Aos poucos, vai sendo contada a história. Uma? Não, várias. A dos avós, a dos pais e a do menino protagonista e sua amada. Dois atores fazem todos os personagens: Carlos Alexandre e Fernanda Beppler. E é um prazer ver que nenhum se destaca. Ambos são ótimos em cena. Confesso que me divirto muito com o sotaque alemão da Fernanda. Com certeza, não é fácil manter esta fala diferenciada de um jeito tão bem feito, ainda mais quando se faz mais de um personagem. Já conhecia Carlos Alexandre da Comédia dos Erros, então, quando o vi, sabia o que podia esperar. Seus personagens são carismáticos e convincentes. Desculpem. Não sei falar de atuação sem usar adjetivos. Talvez, se eu pudesse comprar algumas palavras... Pronto! Nem achei clientela para vender as minhas e já estou pensando em comprar! Era só no que eu pensava quando começaram a oferecer o significado de “histriônico” a cinqüenta centavos. Claro que eu queria. Ainda bem que, lá pelas tantas do espetáculo, a palavra foi revelada. Por isso, passo adiante também de graça. Histriônico é engraçadinho!

As mudanças de figurino acontecem diante de nós. Nem por isso, eles deixam de nos convencer. Ao contrário, todos os personagens estão definidos. São divertidos e inteligentes. Preciso dizer que adoro esta combinação. Algo que faça rir e pensar ao mesmo tempo. Não é perfeito? E é justamente o que fazem algumas falas como: “Por que eu sozinho vou ler para o mundo se o mundo inteiro pode ler sozinho?”

A coordenadora do Instituto Estadual de Artes cênicas, Rosa Campus Velho, estava lá e agüentou firme os 40 minutos de espetáculo. Espero que ela tenha achado que valia a pena. Eu saí com uma palavra a mais e com certeza muito mais pensamentos. Bom, acho que devo dizer que histriônico pode ser também bobo, ridículo, comediante, charlatão...Desta vez, vou doar as minhas palavras, mas na próxima...

O vendedor de palavras é o primeiro espetáculo do Grupo Mototóti e foi contemplado com o Prêmio FUNARTE de Teatro Myriam Muniz 2008 – Ministério da Cultura.

* Crítica publicada no blog Palcos da Vida.

*

Concepção e Atuação: Carlos Alexandre e Fernanda Beppler
Direção: Arlete Cunha
Dramaturgia: Rodrigo Monteiro
Trilha Sonora Original: Fernanda Beppler
Cenografia: O Grupo com a colaboração de Zoé Degani
Máscaras e Boneco - criação e confecção: Paulo Martins Fontes e Eduardo Custódio - Cia Gente Falante Teatro de Bonecos
Figurinos: Coca Serpa
Desing Gráfico: Carlos Alexandre
Produção e Realização: Grupo Mototóti

19/11/2009

Lady Day


Foto: La Photo

Sapatos na porta

Eu gosto de teatro por causa de sensações como a que vivencio ao assistir espetáculos como “Lady Day”.

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Outro dia estava lendo sobre o costume oriental de tirar os sapatos antes de se entrar na casa alheia. Lembro que, quando me mudei para o Rio Grande do Sul, achava muito interessante os sapatos do lado de fora da porta, deixados por quem não queria manchar os pisos encerados das casas de madeira. Várias famílias de colegas meus mantinham pares de feltros a disposição dos visitantes para que andassem de meias sem sujá-las. Eu e minha mãe, paulistas, resistíamos a esse hábito: nossa casa é toda com piso de cerâmica. Mas dizia o texto que o costume de entrar descalço é um sinal de aceite da hospitalidade. É dizer “É com muito respeito que eu piso descalço nesse chão que foi limpo para me receber”. O anfitrião oferece. Com humildade, o visitante usufrui.

Melissa Arievo não só entra descalça no piso vermelho do cenário, mas joga-se nele. Serve-se dele. Com muito respeito, usufrui. Vestimos uma roupa legal, nos dirigimos ao teatro, sentamos e esperamos a luz apagar. Limpamos a casa, enceramos o chão. Ela é bem-vinda.

Interessante, e difícil, reconhecer como se dá a construção dessa relação com a atriz. Geralmente, são os atores que preparam o teatro para o público. De alguma forma, os espectadores é que se sentem bem vindos. Em “Lady Day”, fico pensando naquilo que faz com que a tradição se inverta. Talvez porque Melissa Arievo seja uma atriz jovem com uma força que me faz lembrar (e muito) de Evelyn Ligocki em “Borboletas de Sol de Asas Magoadas”. Talvez porque seja negra, como Billie Holiday. Talvez porque seja linda e provida de uma voz também naturalmente linda e tecnicamente bela. Talvez porque “Lady Day” seja um monólogo e todos sabemos da dificuldade que é fazer (bem) um. Na mesma busca, fico me perguntando se não será pelo vermelho do palco, pela música, pelo espaço que já é aconchegantemente livre, libertador e libertário. O bom de escrever uma crítica é o desafio de, na busca aos porquês, chegar perto do prazer vivido como forma de pedir que fique mais um pouco.

A dramaturgia começa por uma não-dramaturgia, se é que isso é possível sob um refletor. Melissa se apresenta e nos toca pela relação dela com a personagem. Então, abaixa-se e, ao subir, estamos com Billie Holiday (1915-1959), ou Lady Day, a maior cantora de jazz da história. Com isso, entendemos que não importa se Melissa não tenha a idade de Billie, se conserve suas próprias reações (sorriso largo, olhos ágeis, corpo ereto) não se mascarando com supostos movimentos colhidos em vídeos tardios da cantora personagem, ou se nunca tenha sido mãe, não seja cantora profissional e nunca tenha sentido preconceito. O que vale é que, em retribuição à acolhida, Arievo nos faz conhecer sua relação de amizade com essa senhora, cujo nome verdadeiro nem se conhece. Amizade sua, mas também da equipe, essa brilhantemente dirigida por Marco Mafra: mão forte em acariciar cada cena desse monólogo tão repleto de boas qualidades. Como quem não se sente dado à falta de hospitalidade, recebemos o que a visitante nos traz com um sorriso e outras provas de efeto. Gratos pela visita e, depois, pelo que isso nos trouxe.

Figurino e luz solicitam nossa abertura de olhos a fim de registrar o momento, mas é na ação que se encontra o teatro. Vestir-se, cantar, sentar e fumar são gestos cuja mediocridade foi muito bem escondida pelo grupo. É com dor que Melissa se desveste, é com prazer que ela se senta e seu fumar num contra-luz laranja surpreende, ratifica, e concorda como se não houvesse aí uma contradição. Todos os usos são ricos e potentes.

Em se tratando de um monólogo sobre uma cantora da primeira metade do século XX, era de se supor que o microfone antigo exposto desde o início fosse cansativamente usado. Não é. O detalhe é que cada signo teatral é resgatado apenas num único momento, naquele que é seu. É nesse sentido que se encontra a carícia do diretor, o valor da dramaturgia, a inteligência dessa equipe. Se por aí dizem que são fracos os sensíveis, há que se forte para manipular os sentimentos próprios e, quem sabe, os alheios.

Mas por mais que eu tenha me empenhado em pedir que Melissa e Billie fiquem um pouco mais, a luz se apaga. Seus sapatos estão na porta. E ela se vai.

*

Direção: Marco Mafra
Atuação: Melissa Arievo
Iluminação: Mariana Terra

Concepção Sonora: André Paz
Maquiagem: Sibele Garroni
Fotos: Studio La Photo - Produção Ângela Martins
Produção: Marco Mafra e Melissa Arievo

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