29 de mar de 2009

O Estado da Crítica


Lançar alicerces!*

Na última sexta-feira, aconteceu, na Sala P.F. Gastal, uma noite de debates sobre a Crítica Teatral e foi realmente uma pena que o Diretor de Redação da Zero Hora e o Editor do Segundo Caderno do mesmo jornal não estavam presentes. O resultado foi uma exposição massacrante do jornalista cultural e artista Renato Mendonça que assina a responsabilidade de Editor de Teatro no principal jornal do Estado.

Compuseram a mesa, ao lado de Mendonça, os professores Antônio Hohfeldt e Luiz Paulo Vasconcelos e o diretor de teatro Júlio Conte. De um lado, dois grandes estudiosos e críticos de teatro, com larga experiência e reconhecido profissionalismo. De outro, a classe artística, representada por Conte e acompanhado de uma platéia pequena, mas com representantes de vários segmentos do teatro gáucho, e os interessados em discutir o tipo de comportamento do jornalismo com relação ao teatro no Rio Grande do Sul. Fechando o triângulo, Renato Mendonça, que eu não conhecia pessoalmente, mas cujo trabalho eu admiro ainda mais depois de sexta-feira. Não deve ser nada fácil ter que participar de um constrangimento como o que foi aquela mesa para alguém que representa o maior jornal do Estado.

A falta de uma crítica especializada que, ao mesmo tempo, cative o leitor para o assunto e o direcione para o espetáculo que ele deve ver ou que já viu e quer discutir com alguém, deixa perplexo quem gosta de teatro aqui no sul do país. O teatro, nas palavras de Júlio Conte, "vive a emergência de existir" e, a crítica impressa, o diálogo, o aponte para novos conceitos, idéias, meandros e suportes é uma excelente maneira de tentar perpetuar um pouco mais a delícia de "existir" no palco, coisa que o teatro faz com ou sem crítica há mais de três mil anos. É um prazer que tenhamos a página semanal de Hohfeldt no Jornal do Comércio e a página mensal de Vasconcelos na Revista Aplauso porque, através delas, a peça parece que dura um pouco mais. Mas, como assinante da Zero Hora, e, ciente de que está com o Grupo RBS a possibilidade de chegada de discussões na maior parte dos lares gaúchos, me pergunto algumas coisas:

1) Por que a Zero Hora fez essa opção jornalística de privilegiar o envio de fotos tiradas pelo celular com famosos à entrevistas e debates com artistas locais, discussões mais sérias e conteúdo nas poucas quatro páginas do Segundo Caderno?
2) Por que há todos os dias uma coluna social com eventos da alta sociedade e não há uma coluna específica de teatro nem mesmo mensal, lembrando que, a meu ver, tudo é teatro, só que o segundo se assume como tal?
3) Por que os jornalistas culturais da Zero Hora, a exemplo do que acontece com Mendonça, escrevem sobre tudo (shows, piadas, fotos com modelos, moda, fofocas, teatro, eventos, clips, filmes, quadros, abertura de restaurantes,...), comentam sobre tudo, fazem o serviço sobre tudo, mas não há a apresentação de uma discussão uma pouco mais séria sobre a arte como acontece em todas as grandes capitais do mundo, como Curitiba?
4) Até quando a Zero Hora vai utilizar os termos "estréia" e "temporada" para a Marília Gabriela e outros que vêm para a capital fazer duas únicas apresentações e ganham a capa do Segundo Caderno, enquanto, disputando o mesmo espaço e o mesmo valor artístico, quatro espetáculos se apresentaram gratuitamente na Redenção na Semana de Porto Alegre e nem uma nota houve?

Dispenso dos meus pensamentos argumentos do tipo Lógica de Mercado, Falta de Espaço e Cumprimento de função informativa.

1) Lógica de Mercado? 60% da Zero Hora são de anúncios. Há dias em que temos a nítida impressão de que, ao invés de comprar o jornal, adquirimos um panfleto do Big que tem, aqui e ali, uma notícia. A Zero Hora, braço do Grupo RBS, é o jornal com mais assinantes, mais anunciantes, enfim, o mais rico. Não acho que devem parar com as fotos tiradas do celular e as outras miudezas, mas acho que há que se acrescentar conteúdo, no que diz respeito às artes cênicas. Os anunciantes estão satisfeitos, falta satisfazer uma camada de leitores que já gostam de crescer com a leitura de um jornal, sem falar naquela camada que ainda não está acostumada com isso, mas que poderá, um dia, ficar. Mendonça falou que há leis que impedem que esse tipo de discussão se estabeleça no jornal impresso, na edição. Que leis são essas? Que leis são essas que atingem a Zero Hora, mas não atingem o “Jornal do Comércio”, bem menor, e o "O Globo", bem maior?

2) Falta de Espaço para falar de teatro? Tenho um blog na internet com críticas de teatro assinadas por mim, mestrando em Artes Cênicas, nem um décimo do conhecimento e experiência teatral e jornalística de Hohfeldt e Vasconcelos. Não há um único anúncio no meu blog. Os textos têm, em média, uma página e um quarto em tamanho 12, espaço simples, ou seja, não textos tão curtinhos assim. Só se fala única e exclusivamente das peças que vejo, um texto para cada peça, já passando dos 35 espetáculos lá registrados desde que abri o espaço. De outubro pra cá, já somei mais de 3000 (três mil) acessos. Isso sem falar nos outros blogs, como, por exemplo, o de Júlio Conte (que traz um texto sobre o encontro de sexta também), presente na mesa ao lado de Mendonça. Ou seja, falar que não há público leitor de teatro é uma falácia. Se há público para um blog, imagina o que não haveria para um jornal com a qualidade de impressão que a Zero Hora tem, chegando quentinha em casa todos os dias de manhã, diferente de uma página tosca do Google em que é preciso ter banda larga para acessar? Já passou o tempo de platéias vazias no teatro da capital. Já passou o tempo em que atores precisavam ir morar no Rio-São Paulo para viver. Mesmo que estreando poucas novas peças e repetindo muitas produções antigas, os palcos da nossa capital sustentam muita gente e isso é graças a uma evolução do público, também leitor, apesar da ausência da Zero Hora.

3) Serviço? Muito Obrigado! A Zero Hora, através do Mendonça, publica uma foto e um breve texto sobre os espetáculos da cidade. Diz onde é a peça, do que se trata, quem é que faz e, às vezes, quem é que fez. Ótimo. Isso deve continuar. Não é disso que falamos na mesa de sexta-feira. O que falamos é o que diferencia um "Sonho de uma noite de verão" de Patrícia Fagundes do de Daniela Carmona. Um figurino de Rô Cortinhas e de Coca Serpa de um amontoado de roupas tiradas de casa em outras produções locais que, igualmente, enchem a platéia. O teatro de rua do Grupo Mototóti que estreou o seu primeiro espetáculo domingo passado e do Grupo Terreira da Tribo com uma longa história. Para mim e para as pessoas que dividiram comigo a noite de sexta, isso é levar arte a sério. E é esse o trabalho que a Zero Hora, infelizmente não faz e deveria, por ser rica, por ter uma qualidade técnica e por ser uma concessão pública, fazer.

Foi realmente uma pena que os responsáveis por essa triste realidade na Zero Hora não estiveram lá presentes, como também não estão presentes nas platéias do Câmara, do Stúdio Stravaganza, do Ocidente, da Álvaro, da Amrigs, da Cia de Arte e do pó da Redenção. Mas fica o convite para que mudem essa realidade para que Renato Mendonça, cansado depois de 8 horas seguidas de trabalho, com um olhar visivelmente chateado (e com toda a razão!), tenha que ficar tentando explicar coisas sem explicação para uma platéia que não quer jogar pedra para machucar, mas para que elas virem alicerce.

Alicerce de algo que a Zero Hora ainda pode fazer.
* Carta enviada à Zero Hora.

23 de mar de 2009

O Bairro


A fragilidade*

Há um personagem que tem uma janela com cortinas. As duas partes da cortina se encontram no meio da janela. Em uma parte, há botões. Em outra, há as respectivas casas. Esse personagem, quando quer ver o mundo através de sua janela, abre a cortina, desabotoando casa por casa. Então, abre uma parte. Depois, outra. E vê.
Fica mais claro falar sobre o ritual de ir ao teatro, falando sobre ir ao cinema. Não é possível ver teatro em casa, mas é possível ver bons filmes na TV 60 polegadas da sala. Mesmo assim, vai-se ao cinema. É arrumar-se. Sair. Transportar-se. Chegar. Pegar ingresso. Escolher lugar. Sentar e esperar. Casa por casa, o corpo prepara-se para o que vai ver e exige, por isso, algo que lhe agrade tanto na tela, como no palco. A mente repousa. O espectador faz um pacto. E as luzes se acendem.
“O Bairro”, cuja direção é de Marco Fronchetti, oferece uma visão para quem, pacienciosamente, desabotoa a cortina. Engana-se quem pensa que só se vê quando as duas partes da cortina já estão abertas. Desde o primeiro botão, já sabemos que um bom espetáculo está por vir: a luz na parede negra de tijolos, a música ambiente, o cartaz, as fotos, o boca-boca. Ver e visualizar não são tão distantes assim.

*

Há um personagem que anda carregando uma vara paralela ao chão. Ele pega bem no meio da vara e é hábil em mantê-la paralela. Quem consegue o feito merecia ganhar um milhão. Sim, não é fácil manter uma vara paralela ao chão. Num suspiro, ela faz um ângulo e, deixando de ser paralela, torna-se perpendicular.
O que mais me chama a atenção em termos de linguagem teatral, de especificidade do teatro é a fragilidade que ele oferece ao seu público. A fragilidade de um corpo exposto. Um corpo vivo e em movimento num espaço e num tempo. E, de alguma forma, dizendo algo a você. O ator está paralelo ao público e, quando é hábil, não está perpendicular a nós. Direções que conseguem manter o acordo feito do início ao fim, fazendo que mantenhamos nossa atenção presa no palco sem que duvidemos da encenação, ou que recorramos ao ar condicionado, ao ajuste na poltrona ou ao relógio de pulso, mereciam um milhão. Com exceção da cena do Absinto em que as repetições tornam evidente um palavrório sem corpo, o espetáculo “O Bairro” desfila levemente pela tortuosa linha da palavra presa ao corpo de forma sublime. Fruto da literatura de Gonçalo Tavares, a teatralidade dessa produção não recusa a literariedade, mas anda em paralelo a ela, tanto quanto a nós.

*

Há um personagem que, todos os dias, sai à rua com um balão de ar. A diferença entre o ar de dentro e o ar de fora do balão é que o primeiro está envolto por uma cor. A cada novo dia, o personagem veste uma parte do nada de uma cor diferente. No sábado, era azul.
A arbitrariedade da palavra que veste a imagem é a cor azul. O teatro bem pode ser outra cor que veste uma parte do nada. A outra parte anda nua nas nossas cabeças a interpretar, a reagir, a receber o que é dito pelo grupo de atores vestidos impecavelmente num palco também belamente composto. A fragilidade, tema da peça, está na cor. E quando falo em peça, lembro que peça significa parte. O todo do teatro seria, talvez, a união do que acontece em cena com o que acontece em cada uma das pessoas do público. Eu só vejo uma peça. E uma peça que me fala de uma parte de mim.

*

Há um personagem que construiu uma ponte. Mas, segundo ele, faltaram dois metros para que o que saiu de um lado chegasse ao outro. Mesmo que, para mim, ponte só é ponte quando une dois lados, o que não é o caso, é assim que ele chama o feito. Se o que escrevo é crítica ou comentário, se o que se vê em cena é mais ou menos teatro, se o que fazemos é melhor ou pior pra nós, isso só quem sabe é quem vive. Não se pára para viver quando se vive em paralelo. Na platéia de Fronchetti, eu olho para o paralelo. Olho e vejo outro personagem.

* Crítica também publicada na Revista Informe C3 #2.

*

Há um personagem que carrega terra de um lugar para o outro numa colherinha de chá.
*
*
Ficha técnica:
Roteiro e direção: Marco Fronchetti:
Adaptação livre da obra de Gonçalo M. Tavares
Elenco: Sérgio Lulkin, Valéria Lima, Marco Sório e Andrei Dorneles:
Figurinos: Rô Cortinhas:
Iluminação: Acosta
Apoio: Casa de Cinema de Porto Alegre

20 de mar de 2009

Negros Dias




Quando nasce uma bolha

Tenho lido sobre a diferença existente entre o conceito de separar e o de distinguir. O primeiro me passa a idéia de espaço, de distanciamento físico, de exclusão. O segundo de (re)afirmação de identidade(s), de qualificação, de aprofundamento. É possível distinguir o amor da amizade, mas não se consegue, de todo, separar um sentimento doutro, por exemplo. Em questões de raça, ao ver um afro-descendente de olhos verdes, distinguimos as origens, mas não separamos seu sangue. Há muito de masculino numa mulher. Confundir os gêneros, no entanto, é uma discussão para outro momento. Voltando ao banal, eu, no chão do box do meu banheiro, refletia a respeito da água ensaboada. Até que ponto eu conseguiria separar o sabonete derretido da água quente? O mundo é cada vez mais híbrido nos seus diversos aspectos, respeitadas as diferenças e asseguradas as distinções.
Marcelo Adams, autor do espetáculo “Negros Dias”, escreve uma comédia baseada no que se sabe sobre melodrama. Uma imagem: em lados opostos, um casal corre para os braços um do outro numa areia de praia ao entardecer. A música romântica da cena divide espaço com as risadas que já damos na platéia. Os olhos brilhantes dos personagens não ofuscam o tom de deboxe que exalamos. O que emocionava nas novelas da TV há trinta anos atrás, hoje, nos faz rir. Melodrama nunca foi comédia, assim como comédia nunca foi melodrama. No texto de Adams, no entanto, podemos distinguir os dois gêneros, mas não separá-los. Em 1888, no Brasil, os escravos foram libertos, mas, por muito tempo, a fazenda permaneceu sendo seu lugar de trabalho.
A direção, firme como sempre, de Margarida Leoni Peixoto organiza o que se constrói no palco em termos de gênero. De um lado, entradas afetadas da Senhora de Mont´Serrat, uma chuva de cuspes, chicotadas e mais chicotadas. Altas risadas e choros exagerados são música para grandes intrigas burguesas numa produção que conta com belíssimos figurinos e adereços dispostos entre quatorze atores. De outro, uma trilha que conta com Michel Jackson como base para uma marcação de entrada de uma escrava, além de uma sequência de inserções a la “Globo Ciência” e um forte apelo sexual que culmina com a defesa da liberdade, inclusive, sexual. A ferrenha manutenção dos valores tradicionais do melodrama se encontra com a originalidade da comédia, tal qual o sabonete quente com a água também quente do chuveiro. Quem, em sã consciência, vai ficar pensando sobre gêneros teatrais dentro do box do banheiro ou mesmo sentado na platéia de uma peça que se mostra tão bem cuidada?
É de boas interpretações de que se serve a produção. Micaela (Cláudia Rocha), Tonhão (Rafael Fagundes) e as Senhoras de Mont’Serrat e Passo D’Areia (Carla Gasperin e Cláudia Lewis) são fortes figuras cênicas, cujos olhos são distintos, mas nunca separados de seus corpos presentes. Jacó (Tiago Cristóforo) e Feitosa (Alcione Rosa), mas, sobretudo, Esaú (Lorenzo Fontana) e Marta (Luana Rodrigues) constroem imagens resultantes de construções visíveis de seus personagens. Entre todos, é interessantíssimo o trabalho de Márcia Ilha Marques, a Bá, que, ao mesmo tempo, é naturalmente forte e sustenta uma personagem muito bem construída que provoca na assistência o riso da comédia e o enternecimento do melodrama.
O início das intrigas e o fechamento particular de cada uma delas nos lembra que chuveiro gasta muita luz e é hora de parar de refletir. Uma vez baseado num gênero que se sustenta sobre a hipótese de que todos sabemos, no início, como tudo vai terminar e não nos interessa saber o quê mas o como as coisas vão acontecer, Marcelo Adams, Margarida Leoni Peixoto e seu grupo integrante do Projeto Novas Caras, sabem que o final se arrasta um pouco além do preferível. De dedos murchos, saímos do teatro com a certeza de termos conseguido distinguir uma ótima produção, ainda melhor porque se apresenta como uma negativa em separar-se das demais da capital, mesmo sendo resultado de uma oficina de construção de espetáculos.

Nem sempre isso ocorre, mas, nesse caso, o encontro da água com o sabonete, virou uma leve bolha colorida!



Ficha Técnica

Texto de Marcelo Adams
Direção por Margarida Leoni Peixoto
Assistente de Direção e Sonoplastia: Silvana Sílvia
Iluminação: Carlos Azevedo
Figurinos: Rô Cortinhas
Trilha Sonora ao Vivo: o grupo
Maquiagem e Trilha Sonora: o grupo e Margarida Leoni Peixoto

Elenco:

Alcione Rosa
Alvides Puerari
Carla Gasperin
Claudia Lewis Nicotti
Cláudia Rocha
Fernanda Martins
Lorenzo Baroni Fontana
Luana Rodrigues
Luana Terribile
Mafalda Guerreiro da Costa
Márcia Ilha Marques
Rafael Fagundes
Sibele Barão
Tiago Cristóforo

15 de mar de 2009

Peter Pan e a Terra do Nunca



Mais saudosos


A diferença entre Miguel e Peter Pan não é a coragem, a pouca idade, a baixa estatura. Tampouco a alegria, a agilidade e a desenvoltura. O que separa o irmão mais novo da Wendy do líder dos Meninos Perdidos da Terra do Nunca é a saudade. Um vai crescer e o outro não. Acho que, como Miguel, a gente cresce na medida em que as lembranças se acumulam. É o sentimento que cresce, não nós. Mais distante da Terra do Nunca ficamos quando dela sentimos falta.
A Cia Teatro Novo não pede que os adultos desliguem seus celulares antes da estréia de Peter Pan acontecer no DC Navegantes, mas solicita, num ato de confiança, que as crianças peçam isso a seus pais. Da mesma forma, que tenham pensamentos bons porque, como Peter ensina, é só disso que precisamos para voar. Não é, pois, a idade que separa a multidão de crianças do pequeno grupo de adultos sentados na platéia. É, sim, também a saudade, pois é daí que vem as nossas lembranças de como se comportar em um ambiente público, de como esconder emoções, de como ponderar antes de reagir, de como calar. Crianças não viveram o suficiente essas experiências e vão se comportando conforme o presente age com elas. Cá ficamos nós, às vezes incomodados com os gritos e choros, mas, em todos os momentos, emocionados com a espontaneidade do público que ainda não cresceu. Talvez estejamos, platéia de dois espetáculos simultâneos, saudosos do tempo em que as regras eram unicamente externas à nós e não, como agora, provenientes dos nossos medos e inseguranças.
Para nós e para eles, a montagem dirigida por Ronald Radde é um presente. Um presente aos olhos que se colorem pela beleza e adequação dos figurinos e acessórios e pela grandiosidade dos três cenários (quarto, árvore e navio), mas, sobretudo, pelos efeitos imagéticos produzidos pela técnica empregada: o voar de Peter Pan, a distante Terra do Nunca em miniatura, o portal que se estabelece na janela do quarto de Wendy. Perfeita é a trilha sonora e a iluminação, resultados de um compromisso da Companhia em oferecer o que se pode de melhor para o seu público. O que fica é um espetáculo que enche os sentidos de sentidos, aguça a nossa percepção, enaltece a nossa visão, possibilita o nosso sonhar.
Capitão Gancho, empolgado com a batalha que se aproxima, solicita sua roupa de gala. Borracho, tripulante do navio, oferece-lhe nada menos que exatamente a mesma casaca virada do lado avesso. Concretamente, o resultado visual é o mesmo. No campo simbólico, a roupa é completamente outra. Borracho dá galhardia à usada casaca do capitão. Karen Radde, Lucia Bendati e Álvaro RosaCosta fazem brilhar seus corpos de atores experientes ao construir, nos mínimos detalhes, os personagens de Peter, Miguel e Barrica respectivamente. Não é de um tronco e umas folhas que se faz uma árvore, como também não é de uma voz empolada e gestos largos que se constrói um Capitão Gancho. Ou, então, de um tom de voz irritado, para Red; ou verbos não conjugados para uma índia. O empenho da produção, que se preocupa tanto naquilo que é macro como naquilo que é micro, não acontece nas interpretações de Leonel Radde, Ellen D´Ávilla e dos Meninos Perdidos. Falta corpo, agilidade, concretude. O ritmo cai vertiginosamente nas seqüências do navio, essas apenas sustentadas pelo carisma do personagem do vilão. A música que sobra na cena do quarto da Wendy (cantada, diegeticamente, por quem?), talvez, falta na narração de sua própria vida por Gancho. Bom seria se o efeito da música final se repetisse também no início e no meio da história contada.
A coragem do grupo em produzir um espetáculo com dez atores em cena num período de crise não é maior que a nossa, platéia adulta, de ir ver uma peça infantil e enfrentar os nossos problemas do dia a dia e dizer-lhes que se acalmem porque agora é hora de sonhar. As duas coragens são grandiosas e dignas de aplausos. Mas devo dizer que, no encontro dessas duas coragens, sai ganhando a nossa porque, entre as coisas boas em que poderemos pensar para voar durante a semana, nos dias que seguem, certamente, estarão os pequenos e muitos prazeres que o espetáculo “Peter Pan e a Terra do Nunca” nos proporcionou durante apenas uma hora de apresentação.

Se se cresce quando sentimos saudades, então agora poderei dizer que não estou mais velho, mas mais saudoso. E, por isso, obrigado!
Texto de James Matthew Barrie
Direção: Ronald Radde
Direção de Produção: Elle D'avila
Assistente Administrativo: Bernardo Altenbernd
Trilha Sonora Original: Simone Rasslan e Álvaro Rosacosta
Letras: Simone Rasslan e Álvaro Rosacosta
Coreografias: Sayonara Sosa
Figurinos: Ellen D'avila e Titi Lopes
Confecção de Figurinos e Acessórios: Titi Lopes
Cenografia e Adereços (criação e execução): Julio Freitas
Apoio/Execução: Joaquim Fiúza e José H. Cavalheiro
Contrarregra: José Hildemar Cavalheiro
Iluminação e Operação de Luz: Osmar Montiel
Equipe TNDC: Cristiane Cavalheiro, José H. Cavalheiro, Joaquim Fiúza e Osmar Montiel
Bilheteria: Hamilton Dias
Programação Visual: Rogério Araújo
Fotos: Sérgio Souza
Assessoria de Comunicação: Ansila Ferreira
Espaço de Artes Zoravia Bettiol: Ane Marie Kranen
Web Designer: Rosana Almendares
Projeto A Escola vai ao Teatro: Ronald Radde
Realização: Cia Teatro Novo
ELENCO:
Peter: Karen Radde
Wendy: Aline Jones
João: Cassiano Fraga
Miguel: Lúcia Bendati
Capitão Gancho: Leonel Radde
Barrica: Álvaro Rosacosta
Borraccio e Crocodilo Tic Tac: Vinícius Cáurio
Red: Ellen D'avila
Esperto e Índia raio de Sol: Daiane Oliveira
Marcha Lenta e Cacique: Cassiano Souza

5 de mar de 2009

Platero e Eu


O silêncio personagem

Já faz um século que os atores quebram a quarta parede, se abrindo para o público no sentido de incluí-lo quase fisicamente no palco. Significa estender o palco para além das poltronas, ir para a platéia. Em Porto Alegre, é bem difícil lembrar de uma produção que não faça isso. Sonho de uma noite de verão, Bailei na Curva e Pílulas de Vatapá são alguns poucos exemplos de produções que mantém o público no lugar de público, os atores onde a história é exposta. Taís Ferreira e Thiago Colombo não quebram a quarta parede em “Platero e Eu”. Nós o fazemos.

O silêncio.

O silêncio é um personagem, mas eu já não saberia dizer se do que acontece no palco ou se do que não acontece na platéia.

No palco, Taís corporifica os poemas de Juan Ramón Jimenez (1881 – 1959), bailando ao construir imagens, pulsando ao sustentar movimentos. Com uma voz grave, mas um corpo tecnicamente ensaiado, a atriz faz ver o que vê: o campo, o burro Platero, a vila, os personagens. Veste verde e contrasta com vermelho (Raquel Capelletto), como uma macieira carregada, um gramado florido, um quadro bucólico de quem pintou a elegia mais famosa deste importante escritor andaluz. Colombo traz a sonoridade de Mario Castelnuovo-Tedesco (professor de quem fez Victor ou Vitoria (Henry Mancini) e Simplismente Millie (Bernstein)) que nos coloca naquele lugar onde, talvez, sempre cosmopolitas, nunca estivemos: uma varanda iluminada por um lampião a ouvir grilos e causos enquanto se fuma um bom palheiro. Voz e Violão ocupam seu espaço que não é o todo, como também se comporta a luz de Fernando Ochoa num dos trabalhos mais bonitos que eu vi nesse verão porto-alegrense. Com cores e focos, Ochoa valoriza a escuridão. Com ritmo e vibração, atriz e músico valorizam o silêncio.

Na platéia, a paz se instala. O sono quer entrar, embora não tenha recebido convite. O sono estabelece o sonho e é de sonho que vive a ação de “Platero e Eu”. O sonho de um louco a conversar com um burro, a ler para esse burro, a viver com ele. De visitar paisagens, de ouvir a filha do carvoeiro a cantar para irmão, de ver as crianças vestidas em fantasias de carnaval. Um sonho feito de muitos, sem ligação um com o outro. Um sonho de silêncios, sem interrogações. Não queremos saber o que vai acontecer, apenas estamos ali. A coisa acontece. A platéia não reage porque sua reação é a não-reação. “Platero e Eu” é um espetáculo de se contemplar, como uma cachoeira que dá gosto de olhar, mesmo que o cair d’àgua seja o mesmo de manhã até a noite e o dia seguinte. Nossos movimentos levemente barulhentos nas poltronas do Câmara ofendem o silêncio. O silêncio nosso que quebra a quarta parede e invade o palco, torna platéia o tablado, torna assistência aqueles que só queriam ser atores. É de se ver o Platero trotando e trotando e trotando na sua vida de trotar e nada mais.

É pelo silêncio que reconhecemos as sílabas. É por ele que as palavras se formam e a poesia, tão bem vinda, abandona a literatura e vira corpo, teatro, primeira e quarta parede, tablado e poltrona, luz e sombra. Silêncio.


FICHA TÉCNICA
Texto: Juan Ramón Jiménez (1881-1959)
Título original 1ª edição: Platero y Yo (1914)
Narradora: Taís Ferreira
Composição: Mario Castelnuovo-Tedesco (1895-1968)
Título original composição: Platero y Yo, op. 190 (1960)
Violonista: Thiago Colombo
Figurinos: Raquel Cappelletto
Concepção iluminação: Fernando Ochôa
Operação luz: Fernando Ochôa e Fernando Pecoits
Programação gráfica: Daniel Ferreira da Silva
Fotografias: Daniel Ferreira da Silva e Kiran
VTs: Catraca Filmes
Gravação DVD: Estúdio MóvelProdução e divulgação: Taís Ferreira

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