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8 de jun. de 2009

Platão Dois em Um - O Banquete


Os aplausos da decepção


A segunda parte de “Platão Dois em Um” termina com papel prateado caindo do teto ao som da banda “Sonoros Meliantes” e da coreografia dos “Plato’s boys”. Quando o elenco se reuniu e veio para o proscênio, ouvi cinco segundos de aplausos de uma platéia esburacada (muita gente havia ido embora depois de Górgias) e completamente sentada. O elenco seguiu a combinação e fez uma volta inteira e retornaram para a frente do palco. Em silêncio, algumas pessoas se levantaram para ir embora e as demais ficaram olhando constrangidas para os atores, talvez, mais constrangidos ainda. Nem mesmo os aplausos haviam sido unânimes. Eu, por exemplo, não aplaudi.
Mas deveria ter.
Há quatro momentos na última produção de Luciano Alabarse que valem mais do que aplausos. Mauro Soares, Carlos Cunha, José Baldissera e Sandra Dani merecem gritos de Viva!!. Em meio a uma pasmaceira nonsense, em que o diretor exibe sua excentricidade, querendo fazer com que Porto Alegre engula seu gosto pessoal por Platão e Lacan, esses quatro grandes artistas se levantam e nos fazem retornar ao mundo real que é o mundo do prazer de estar dentro do Teatro de Eva Sopher. São pequenos monólogos. Um por um levanta-se da sua cadeira e deixam com que seus personagens falem sobre Eros. E cada palavra que sai deles tem a profundidade de um personagem construído, de uma imagem, primeiramente vista por eles, de que somos gentilmente convidados a compartilhar, e de um som fértil o suficiente para produzir sons que nossa mente cansada do palavrório há tanto aspirava. Pouco se mexem. Não se esforçam em chamar a atenção. Economizam porque sabem que teatro é, sim, feito de movimento e de presença, mas que um coração batendo num ator em frente ao seu público já é o suficiente para que isso se estabeleça. O mais é exagero e mal gosto. Ao darem-se a ver, Mauro Soares, Carlos Cunha, José Baldissera e Sandra Dani (e repito os nomes propositalmente) fazem valer a pena ter estado ali por quase quatro horas.
Há ainda as atuações de Rodrigo Fiatt e de Marcelo Adams que, apesar dos excessos de caras, bocas, gritos e fricotes, dão vida ao texto de Donaldo Schüller, dramaturgo novo que, infelizmente, não encontrou quem lhe explicasse que, na biblioteca, lugar onde se lê, não se faz teatro. Se lê. E, que no teatro, lugar onde se atua, não se lê. Se atua e se assiste a alguém atuando.
Assiste-se, mas nem sempre se aplaude, se levanta, se grita e homenageia.
Luiz Paulo Vasconcelos, estou ficando convencido disso, sempre interpreta o mesmo personagem ou, talvez, há muito tempo não interpreta nenhum. Tirando o texto muito bem dito, o tom de voz, corpo e expressões são exatamente os mesmos em todos os trabalhos a que tenho assistido. Marcos Contreras, Vika Schabbach e Lutti Pereira poderiam ter ficado sem o (desde Creonte) bêbado, a afetada professora de filosofia e a bicha estilista bem aos moldes do Zorra Total respectivamente. A presença da acima referida banda e o grupo de bailarinos (?!) coroa o desperdício de talento, dinheiro e espaço.
Três dúvidas ficam:
1) o papagaio, boneco manipulado por Lê Souza, no proscênio, era uma referência à Ana Maria Braga (não duvidaria de mais essa) ou só estava ali para dizer o texto aos atores (porque havia um tripé com as páginas dele em frente ao ator) quando esses se esqueciam dele?
2) Por que na última cena, em que o jornalista e Sócrates discutem sobre Lacan, não acendem a luz e nos servem café, uma vez que a peça já terminou ou, quem dera, nunca tivesse sido feita (desse jeito, claro)?
3) Repetindo a pergunta do outro post deste blog: como pode, Luciano Alabarse, com o currículo invejável e reconhecido em todo país, debochar de uma forma tão grosseira do público e dos atores da nossa capital?

Aos atores, fica a certeza de que esse texto serve a quem não viu a peça. Aqui consta, em forma de literatura, o que estava estampado nos cinco segundos mortos de aplausos decepcionados visto por eles mesmos na noite de estréia.
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FICHA TÉCNICA

Texto: Platão

Elenco: Luiz Paulo Vasconcellos, José Baldissera, Marcelo Adams, Vika Schabbach, Carlos Cunha Filho, Alexandre Magalhães e Silva, Lutti Pereira, Marcos Contreras, Rafael Mentges, Fernando Zugno, Eduardo Steinmetz, Rodrigo Fiatt, Fabrizio Gorziza, Daniel Bacchieri, Lê Souza e Vinicius Meneguzzi.

Participação Especial: Sandra Dani

Direção: Luciano Alabarse
Cenário: Sylvia Moreira
Figurino: Rô Cortinhas
Iluminação: Cláudia de Bem e Maurício Moura
Direção Musical: Moysés Lopes
Foto: Julio Appel

Duração: Górgias: 1h e 20 e O Banquete: 1h e 30 Intervalo de 40 minutos

6 de jun. de 2009

Platão Dois em Um - Górgias ou o Discurso da Retórica

Foto: Júlio Appel

Sugestão ao Professor de Matemática*

Geralmente demoro de um inverno ao outro para fazer uma manta de tricô. Não que eu seja ruim, mas é que trabalho não é uma das idéias pertencentes ao meu “sistema tricô”. Dentro dele, está também frio, vontade de não pensar, filme dublado, novela, papo furado, algo quente para beber, insônia. Não sei muitos pontos, então, preciosismo é outra coisa que não está nesse meu sistema. As mantas que eu faço geralmente são cheias de erros que eu não desfaço porque sinto que, assim, o negócio fica “bem do meu jeitão”. Meu “Sistema Tricô” compreende, assim, pontos errados, buracos, falhas.

Qualquer sistema pode ser atualizado. Pierre Levy nos leva a saber que atualizar é mais do que adaptar: é utilizar-se das condições existentes no sistema objetivo, considerando a instabilidade desse sistema nos fatores tempo, espaço e demais idiossincrasias, como forma de re-hierarquizar o sistema fonte. Eu posso, por exemplo, fazer uma peça de teatro sobre tricô. Para tanto, irei rever tudo aquilo que pertence ao sistema tricô e redistribuir, excluir, incluir, modificar coisas a partir do que me oferece o teatro enquanto condição discursiva. O teatro, ao longo dos milênios, acumulou um universo bastante grande de possibilidades. Um universo finito no entanto.

Poderia colocar dois atores vestidos de agulhas a se enroscar em um grande fio de lã. Seria uma coreografia. Ao fundo, poderia ter uma lareira crepitando. Seria lindo. Lindo por apenas alguns minutos. Duas agulhas se enroscando exige muita paciência do espectador. O único conflito é chegar até o fim da carreira e começar uma nova trocando de lado. Sem falar que muito provavelmente só quem sabe fazer tricô é que vai compreender bem isso e até achar engraçado em alguns momentos. A grande maioria vai dormir com o barulhinho do fogo no sétimo minuto. Fazer isso seria o jeito menos aproveitável de atualizar o “Sistema Tricô” para o palco.

Mas tricotar é relacionar. Você, com a ajuda da agulha, relaciona o ponto que está fazendo com o ponto origem e o ponto da carreira de baixo. Disso, nasce o ponto destino que, tão logo é feito, já é origem de outro também. Você, na falta de algo melhor, começa a dar aula em uma escola pública e não ganha tão bem quanto acha que merece. Um dia, numa reunião de organização da Gincana Junina, você fica no turno da tarde e conhece a professora gostosona da terceira série. No recreio, rola um bate papo e você fica sabendo que, na escola privada onde ela trabalha, estão precisando urgente de um professor de matemática. Você é professor de matemática. Pega o email dela, manda o currículo e ainda aproveita para marcar uma ida ao teatro no final de semana. A escola origem faz nascer uma oportunidade destino. As agulhas se relacionam. O ponto nasce. E você não dorme na platéia. Sucesso!

Luciano Alabarse não aproveitou as possibilidades que o teatro oferece ao sistema “Diálogos de Platão”. Todo o palavrório filosófico que funciona muito bem no preto e branco do livro fica muito chato no palco. No teatro, você não pode voltar e reler, há dezenas de outras informações além do texto e, inevitavelmente, você fica tentando unir um ao outro porque é justamente essa a diferença do signo lingüístico e do signo teatral. O texto dito pelos onze atores vira música de lareira e, no sétimo minuto, já não lembramos mais o que foi dito no terceiro e nos preparamos para não ter tempo para pensar na próxima hora e meia. E nos concentramos na imagem e no movimento.

Nada combina. Marcelo Adams, que diz o texto muito bem, está com o cabelo emplastado de algo que tende a deixá-lo grisalho. E aí lembramos de Luiz Paulo Vasconcelos, Mauro Soares e José Baldissera e pensamos, por que o Marcelo Adams e não um deles? Os dez alunos da “Escolinha do Professor Sócrates”, com toda a superficialidade das interpretações, sem nada da profundidade da comédia, são de ruins a péssimos em suas construções. Dá pena de ver Vinícius Meneguzzi fazer uma bichinha afetada e Lutti Pereira repetir seu Tirésias. É constrangedor ver Marcos Contreiras fazer uma bicha velha e chamar Sócrates de “gordinho” para fazer a platéia sonolenta acordar, rir e dormir de novo, talvez consciente de que o que o ator está fazendo é vergonhoso. E o exemplo dado acontece em quase todas as interpretações. Nenhum personagem foi construído para além de um nome e de um texto decorado. Há um bêbado, um irritado, um sonolento... E todos comem, comem e comem... Beber não bebem porque o que o garçom serve, e vemos isso, não encheria uma só colher de vinho.

Sim, há um garçom vestido de terno e gravata borboleta. E não se faz a menor idéia do porquê ele está vestido assim uma vez que todos vestem vestidos tal qual nos quadros que vemos de Sócrates, Platão e a Academia. Roupas brancas que chegam a reluzir de tão limpinhas: um figurino que é não só para o público e para os atores, mas também parece ser falso para os próprios personagens.

Na parede do fundo do palco, grita a frase: “Conhece-te a ti mesmo”. E, nos perguntamos, como Luciano Alabarse, líder de uma grande equipe de artistas e técnicos, coordenador do Porto Alegre em Cena e homem respeitabilíssimo por tudo o que fez nas artes cênicas, pode deixar que isso saísse da sala de ensaios?

Fica o conselho a você, professor de matemática que marcou uma ida ao teatro com a professora da terceira série: prefira “O Exterminador do Futuro”. Por pior que seja, o diretor do filme conseguiu aproveitar bem o que o cinema lhe dispunha.

* Crítica também publicada na Revista Informe C3 #5.

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