Stand up drama
Foto: Marcelo Nunes
Tristeza pela tristeza?!
Achei que nunca escreveria isso, mas dessa vez eu preciso:
“Stand up drama” é um espetáculo que não deve ser visto.
- Por quê?
Os atores são reconhecidamente bons: Margarida Leoni Peixoto e Patsy Cecato são experientes e, ao longo dos anos, sempre receberam críticas positivas. Nesse espetáculo, no que diz respeito às interpretações, nada pode ser dito em contrário. Não conhecia o trabalho de Léo Ferlauto, mas Bob Bahlis, quem assina a direção, merece ser aplaudido por trazê-lo ao palco. O Prof. Dr. Clóvis Massa, o mais contido entre os quatro, também não deixa a desejar.
O trabalho de ambientação é excelente. A forma como o desenho de luz risca o palco é um dos melhores usos do instrumento que eu tenho visto nessa última temporada. Não consegui achar quem é o responsável pela iluminação, mas aqui afirmo que o resultado fica à altura da qualidade do elenco. Alia-se a isso a discrição dos figurinos, a composição das letras DrAMA, a trilha sonora.
- Por que, então, não deve ser visto? Por que é triste?
Sim. Porque é inutilmente triste.
- Inutilmente, como assim?
Abandona-se do teatro sem energia alguma. Não se chora. Não se emociona. Não se comove com nenhuma das primeiras sete histórias. Apenas a última fica, marca, permanece. E o único motivo desse privilégio da oitava história triste é o fato de ser a última. É tão bem contada como as outras. É triste como as demais. Mas só ela fica.
- Por que ela fala da morte de uma mãe e todos temos mãe, não?
Não. Todas as histórias são boas, são fortes, são pesadas. Escritas por Paul Auster e Mario Benedetti, a direção dada individualmente a elas por Bob Bahlis é muito sensível. Se a das ervilhas fosse a última, pensaríamos nela. É na estrutura da dramaturgia onde está o problema.
- São oito dramaturgias.
Não. Cada espetáculo tem uma dramaturgia só. A síntese faz com que o homem receba o objeto artístico como um todo. E como é organizado esse todo? Todas se apresentam exatamente da mesma forma:
1) O ator entra e arruma o microfone à altura de sua boca;
2) O ator dá um passo para trás e, logo depois, um passo para a frente, dando início à contagem de sua história;
3) A história começa descontraída. O ator olha para o público e diz algo que tem uma cara (falsa) de improvisação;
4) A história avança e o ator dá ao seu personagem-narrador um tom emocionado;
5) A história termina com uma frase de efeito. A luz morre, a trilha sobe e o ator sai.
E esquecemos, assim, a primeira história quando começa a segunda. E a segunda com a descontração da terceira. A sétima com a última. E, como não há nona, saímos com a oitava. Uma hora de espetáculo hermeticamente previsível, duas histórias para cada ator. Todas elas são baseadas em temas diferentes, embora se consiga perceber que o que rege a sua união é a faixa etária dos personagens. Na primeira, o protagonista tem 8 anos. Na última, a mãe da narradora tem noventa.
- Mas qual é o problema da tristeza? Porque você não gosta de histórias tristes não recomenda a assistência do espetáculo?
Em primeiro lugar, gosto de histórias tristes. Realmente, adoro chorar no cinema e me encanta o desafio de fazê-lo no teatro. Vi Titanic oito vezes e chorei em todas as sessões. Tenho me mantido longe das imagens do Haiti porque já chorei um par de vezes com o que vi. Chorei três vezes em “Agora eu era” e duas vezes em “Arca de Noé”, só para citar algumas provas de que eu sou chorão.
Em segundo lugar, aqui não se trata de gostar e não gostar. Se trata de tentar entender por que, numa platéia cheia como a que eu fiz parte, ninguém ficou emocionado, à guisa do relato do diretor na sua entrevista para o Sated/rs quando narra o ensaio na cozinha do seu apartamento. Lá, Margarida Leoni Peixoto estava sozinha. Grande atriz que é, tenho certeza, mesmo sem ter visto, que, como ela (e os demais) fez também no palco, deu colorido para história. Sem mexer nada além dos braços e da face, colocou toda a sua interpretação no ritmo, na contagem, na respiração. Todo o ambiente era para essa história, para esse momento, e é isso que difere do que acontece em “Stand up drama”.
A união das histórias deixa claro uma intenção negativa: “tentaremos, a todo custo, fazer você chorar.” E, justamente por isso, não conseguem. O clima é para choro e não para a história contada. As histórias contadas, assim no plural, nos tiram a energia, nos deixam cansados e suscetíveis. Não sensíveis.
Respondido?
*
Em tempo, ontem (24/03/2010) revi o espetáculo.
Antes, quero dizer que é muito importante, em todas as críticas, os leitores lembrarem que o referente (nunca o todo do objeto, mas apenas parte) é sempre a encenação recém vista e não a temporada inteira, o espetáculo inteiro e muito menos o histórico das pessoas envolvidas. Minha assistência de ontem não resultou nas mesmas impressões da vez anterior.
O espetáculo me pareceu bem menos rígido, bem menos formal o que é um ganho. As interpretações continuam ótimas, com destaque para Áurea Batista, que ainda não tinha visto nesse elenco. As histórias continuam as mesmas: todas muito bonitas. E a produção continua ótima: é o único espetáculo bem acabado de Bob Bahlis. A luz está excelente, a música entra na hora certa, tudo converge para um resultado positivo. Até o ritmo, como eu disse, que antes era feito de oito pausas e também oito reproduções exatas de contagem de oito histórias diferentes, agora, é levemente ascendente numa única linha, quase sem pausa nenhuma.
Mas continua-se saindo do teatro com a sensação de que um caminhão veio e passou por cima, levando embora todas as energias da gente. Parece-me que essa foi a intenção e, por isso, o espetáculo atinge o seu objetivo.
Mas volto a mesma pergunta inicial: precisamos disso? Ficar sem energia serve para quê?
*
Ficha Técnica:
Tristeza pela tristeza?!
Achei que nunca escreveria isso, mas dessa vez eu preciso:
“Stand up drama” é um espetáculo que não deve ser visto.
- Por quê?
Os atores são reconhecidamente bons: Margarida Leoni Peixoto e Patsy Cecato são experientes e, ao longo dos anos, sempre receberam críticas positivas. Nesse espetáculo, no que diz respeito às interpretações, nada pode ser dito em contrário. Não conhecia o trabalho de Léo Ferlauto, mas Bob Bahlis, quem assina a direção, merece ser aplaudido por trazê-lo ao palco. O Prof. Dr. Clóvis Massa, o mais contido entre os quatro, também não deixa a desejar.
O trabalho de ambientação é excelente. A forma como o desenho de luz risca o palco é um dos melhores usos do instrumento que eu tenho visto nessa última temporada. Não consegui achar quem é o responsável pela iluminação, mas aqui afirmo que o resultado fica à altura da qualidade do elenco. Alia-se a isso a discrição dos figurinos, a composição das letras DrAMA, a trilha sonora.
- Por que, então, não deve ser visto? Por que é triste?
Sim. Porque é inutilmente triste.
- Inutilmente, como assim?
Abandona-se do teatro sem energia alguma. Não se chora. Não se emociona. Não se comove com nenhuma das primeiras sete histórias. Apenas a última fica, marca, permanece. E o único motivo desse privilégio da oitava história triste é o fato de ser a última. É tão bem contada como as outras. É triste como as demais. Mas só ela fica.
- Por que ela fala da morte de uma mãe e todos temos mãe, não?
Não. Todas as histórias são boas, são fortes, são pesadas. Escritas por Paul Auster e Mario Benedetti, a direção dada individualmente a elas por Bob Bahlis é muito sensível. Se a das ervilhas fosse a última, pensaríamos nela. É na estrutura da dramaturgia onde está o problema.
- São oito dramaturgias.
Não. Cada espetáculo tem uma dramaturgia só. A síntese faz com que o homem receba o objeto artístico como um todo. E como é organizado esse todo? Todas se apresentam exatamente da mesma forma:
1) O ator entra e arruma o microfone à altura de sua boca;
2) O ator dá um passo para trás e, logo depois, um passo para a frente, dando início à contagem de sua história;
3) A história começa descontraída. O ator olha para o público e diz algo que tem uma cara (falsa) de improvisação;
4) A história avança e o ator dá ao seu personagem-narrador um tom emocionado;
5) A história termina com uma frase de efeito. A luz morre, a trilha sobe e o ator sai.
E esquecemos, assim, a primeira história quando começa a segunda. E a segunda com a descontração da terceira. A sétima com a última. E, como não há nona, saímos com a oitava. Uma hora de espetáculo hermeticamente previsível, duas histórias para cada ator. Todas elas são baseadas em temas diferentes, embora se consiga perceber que o que rege a sua união é a faixa etária dos personagens. Na primeira, o protagonista tem 8 anos. Na última, a mãe da narradora tem noventa.
- Mas qual é o problema da tristeza? Porque você não gosta de histórias tristes não recomenda a assistência do espetáculo?
Em primeiro lugar, gosto de histórias tristes. Realmente, adoro chorar no cinema e me encanta o desafio de fazê-lo no teatro. Vi Titanic oito vezes e chorei em todas as sessões. Tenho me mantido longe das imagens do Haiti porque já chorei um par de vezes com o que vi. Chorei três vezes em “Agora eu era” e duas vezes em “Arca de Noé”, só para citar algumas provas de que eu sou chorão.
Em segundo lugar, aqui não se trata de gostar e não gostar. Se trata de tentar entender por que, numa platéia cheia como a que eu fiz parte, ninguém ficou emocionado, à guisa do relato do diretor na sua entrevista para o Sated/rs quando narra o ensaio na cozinha do seu apartamento. Lá, Margarida Leoni Peixoto estava sozinha. Grande atriz que é, tenho certeza, mesmo sem ter visto, que, como ela (e os demais) fez também no palco, deu colorido para história. Sem mexer nada além dos braços e da face, colocou toda a sua interpretação no ritmo, na contagem, na respiração. Todo o ambiente era para essa história, para esse momento, e é isso que difere do que acontece em “Stand up drama”.
A união das histórias deixa claro uma intenção negativa: “tentaremos, a todo custo, fazer você chorar.” E, justamente por isso, não conseguem. O clima é para choro e não para a história contada. As histórias contadas, assim no plural, nos tiram a energia, nos deixam cansados e suscetíveis. Não sensíveis.
Respondido?
*
Em tempo, ontem (24/03/2010) revi o espetáculo.
Antes, quero dizer que é muito importante, em todas as críticas, os leitores lembrarem que o referente (nunca o todo do objeto, mas apenas parte) é sempre a encenação recém vista e não a temporada inteira, o espetáculo inteiro e muito menos o histórico das pessoas envolvidas. Minha assistência de ontem não resultou nas mesmas impressões da vez anterior.
O espetáculo me pareceu bem menos rígido, bem menos formal o que é um ganho. As interpretações continuam ótimas, com destaque para Áurea Batista, que ainda não tinha visto nesse elenco. As histórias continuam as mesmas: todas muito bonitas. E a produção continua ótima: é o único espetáculo bem acabado de Bob Bahlis. A luz está excelente, a música entra na hora certa, tudo converge para um resultado positivo. Até o ritmo, como eu disse, que antes era feito de oito pausas e também oito reproduções exatas de contagem de oito histórias diferentes, agora, é levemente ascendente numa única linha, quase sem pausa nenhuma.
Mas continua-se saindo do teatro com a sensação de que um caminhão veio e passou por cima, levando embora todas as energias da gente. Parece-me que essa foi a intenção e, por isso, o espetáculo atinge o seu objetivo.
Mas volto a mesma pergunta inicial: precisamos disso? Ficar sem energia serve para quê?
*
Ficha Técnica:
Direção e texto: Bob Bahlis
Elenco: Léo Ferlauto, Margarida Leoni Peixoto, Clóvis Massa e Patsy Cecato.
Elenco: Léo Ferlauto, Margarida Leoni Peixoto, Clóvis Massa e Patsy Cecato.












