6 de dez de 2009

Agora eu era

Foto: Romi Pocztaruk


Agora

Eu não sei como o casal (lindo) de idosos sentados atrás de mim interpretou os quatro atores vestindo saias compridas e girando sobre seu próprio eixo. Mas, para mim, eles eram ventiladores de teto numa manhã quente de verão, como na abertura de “Apocalypse Now”. A modorra de acordar depois de uma noite de sono cansativa... A preguiça de enfrentar o dia que grita lá fora.

Eu não sei o que a pessoa ao meu lado pensou quando viu os tigres brigando no palco na primeira cena de “Agora eu era”. Eu, on my boots, me vi discutindo com meu pai sobre a larga diferença entre as coisas que ele queria que eu fosse e fizesse e as coisas que eu era. O medo de decepcionar ele, de não o agradar. Ele, o meu pai, um homem admirável, meu primeiro herói, aquele por quem me apaixonei e quem eu queria ser já desde criança. E eu, tentando conciliar, tentando fugir, tentando unir. Me vieram muitas histórias na cabeça. E lágrimas também. A peça só tinha começado.

Não sei como é a família do rapaz que estava próximo a mim, mas a minha não tinha nada a ver com a da peça. Minha irmã estava longe de querer ser bailarina. Meu pai nunca praticou nenhum esporte. Minha mãe parou de fumar quando eu era bem pequeno... Mas éramos uma família e ver uma só me faz pensar, antes de tudo, na minha própria: Seu João, Dona Francisca, a Lu.

De repente, pra menina que estava sentada no fundo da platéia à direita, uma borboleta tatuada seja só um desenho. Mas, acredito que para o grupo da esquerda que assistiu à peça e pra mim, borboleta significa prazer em mudar, em descobrir o mundo e seus novos desafios. Tatuar uma borboleta é anunciar-se como alguém disposto em descobrir e descobrir-se. É para mim, que não sou nem a menina, nem o grupo. Ninguém além de mim. (E ainda há gente que acha que escrever uma crítica é ser impessoal...)

Não perdi meu tempo tentando imaginar no que quem mais viu “Agora eu era” no mesmo dia que eu pensou quando viu os pais de Camilo dialogando, um falando sobre a vida e o outro sobre os japoneses e as montadoras de automóveis. Mas eu lembrei que meus pais fizeram 32 anos de casados e, que eu saiba, tiveram apenas duas grandes brigas. E que eu, num casamento de 4 anos, pouco as tive também. De resto, muita coisa sempre ficou para ser dita enquanto eu falava de algo e a outra pessoa dissertava sobre algum assunto qualquer. Ou enquanto minha mãe reclama e meu pai pensa no mensalão. Bem conviver não é engolir sapos. É mantê-los o máximo possível na lagoa. Dentro dela, de preferência. Girinos.

Acho que muita gente achou linda a cena em que Marilyn Monroe é projetada em Vinícius Meneguzzi. Mais que linda, eu refleti sobre o como as pessoas nos vêem, nas imagens que construímos na cabeça delas. Também nas imagens nossas que vivem dentre nós. “Há um ser que vive dentro de mim como se eu fosse sua casa”, já dizia Clarice Lispector. Pior que, às vezes, esse ser aparece mais que gostaríamos, mais que percebemos, mais que deveria.

“A vida é cheia de surpresas!” E os quatro atores se reúnem numa roda única, não mais quatro pequenos círculos como no início. Um por um, os atores saem do grupo e eu chorei novamente. Pouco me importa o que isso significou para o restante da platéia. Lembrei que não sou mais criança, que meu pai já está bastante velho, minha mãe bastante gorda e que, mesmo assim, talvez seja eu quem parta dessa vida primeiro. Lembrei que minha irmã pode engravidar de novo, que eu possa ganhar na MegaSena, que meu pai pode voltar a trocar emails comigo. Só o que não pode é pessoas partirem sem que eu tenha dito a elas o quanto foram importantes pra mim. (Saudades do Zé Mário...)

Cada ator, envolto na narrativa dirigida por João Pedro Madureira e roteirizada pelo Grupo Vai!, conta uma história que, me pareceu, ser sua própria ao longo da peça. Sem dúvida, é uma das melhores partes dessa produção uma vez que eu também, como expus, contei as minhas baixinho, sentado em silêncio e imóvel na escuridão do público. Pensei nas pegadas que eu desenho para os outros pisarem, naquelas que desenham para que eu pise. Imagens que só um elenco tão interessante como esse, mais que talentoso, mais que preparados, poderia propor.

Talvez, se tivesse poder, talento e vontade, teria encerrado cada cena de um jeito mais sutil, deixando a narrativa mais fluída e menos nervosa. Em “Agora eu era”, é tudo tão poético que bateu mal em mim uma sequência de passagens tão rápida. Mas isso talvez seja porque eu estava pensando em tudo, lendo tudo, imaginando muito. Estava eu contando a minha história enquanto a de outrem me fazia convites. E, se não for isso o tal teatro pós-dramático de Lehmann, cuja hierarquia dramatúrgica é de responsabilidade do espectador, então eu não sei nada sobre o assunto. Mas me parece que sei. Mais que o meu pai queria. Mais que eu já soube um dia.

“Agora eu era” me lembra que, agora, eu sou eu. Ainda bem.

*

Elenco: Lucas Sampaio, Rafael Régoli e Sofia Ferreira e Vinícius Meneguzzi

Direção: João Pedro Madureira
Assistência de Direção: Vinícius Meneguzzi
Roteiro: o grupo
Dramaturgia: Maria Luiza Sá e Madureira
Produção: Laura Leão
Produção executiva: Patrícia Machado
Assistente de produção: Diego Bittencourt
Trilha sonora: Felipe Catto
Cenário: João Pedro Madureira
Figurino: Francisco de Los Santos
Operação de câmera: Ângela Alegria
Vídeos: Romy Pocztaruk
Iluminação: Mariana Terra

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