30 de mar de 2010

Xaxados e Perdidos

Foto: Cláu Paranhos


Que não se vai


Acho que já disse aqui, mas não custa lembrar: para mim, as categorias são meramente analíticas. Elas não existem e, se um dia existiram, hoje vêm, fazem sentido e vão embora. Se nesse passado era fácil, agora é cada vez mais difícil dizer “isso é teatro”, “isso é dança”, “isso é crítica”, “isso é comentário”, “isso é desabafo”, “isso é verdade”, ... Sinto como se a internet tivesse feito do mundo uma grande sopa. Uma sopa que é oposta ao tempo em que, no prato, se conseguia separar o feijão do arroz, a salada era posta em outro prato, a carne vinha por último. Ainda há códigos felizmente! E são eles que nos fazem olhar para o prato e saber (mais ou menos) o que estamos comendo. Olhar pro evento e ter alguma idéia do que vestir. Olhar para o interlocutor e pensar como falar.

Me parece difícil falar de teatro em “Xaxados e Perdidos”, uma vez que o espetáculo recupera pouco do que tem sido acumulado até hoje dessa arte. Seria mais fácil falar dele como espetáculo de música, mas aí meu conhecimento tão escasso sobre isso não me autorizaria a falar muito. Então, quem sabe se eu não falasse e só lembrasse?

Porque tenho vontade de lembrar: Alvaro Rosacosta e Beto Chedid, liderados por Simone Rasslan, são pessoas de teatro. São pessoas de música. Pessoas de arte. São pessoas de família. Maridos, esposas, pais, mães e filhos. São produtores, motoristas, bebem água e respiram. São isso tudo. E isso tudo os faz humanos. Sendo eu também alguém humano, a lembrança fica singela, mas não significativa. Só a diferença significa. E a diferença é a capacidade do trio de, com um espetáculo, nos fazer sonhar.

De uma forma muito sensível, Lúcia Bendati escreveu:

Terceiro sinal. Senhores passageiros, apertem os cintos. Seremos transportados para outra atmosfera. Aqui e agora, bastando para isso abrir-se e tornar-se disponível para absorver os acordes que do palco irão brotar. E entra em cena o trio - como se não bastasse a competência musical - mais simpático e harmonioso que eu me lembro ter visto nos palcos daqui. Começam à capela um "padabadá" harmônico. E Simone Rasslan se encaminha para o teclado. Beto Chedid e Alvaro Rosacosta colocam-se junto a seus vários instrumentos também. E está feito. Criado um novo mundo, uma nova energia.”

Então, sonhei que era brasileiro.

Há dezessete anos, não vou ao Mato Grosso do Sul. Na última vez em que fui, voltei sem malas. Eu havia dado tudo aos meus primos, parte da minha família que ainda hoje passa por bastante necessidade lá. O registro negativo nunca mais me abandonou e jamais quis voltar. Nunca mais vi o meu avô. E só vi minha vó porque ela, quando viva, vinha frequentemente para Porto Alegre. “Xaxados e Perdidos” me deu vontade de ir ao Mato Grosso, ver meu avô, meus tios e meus primos. Voltar.

Cantei “Num Rio de Piracicaba” e lembrei do meu pai quando tocava violão. Voltar.

Cantei “Calix Bento” e me vi cantando no Coral da Igreja de Gravataí ainda adolescente. Voltar.

Lembrei. Viajei a esse novo mundo, a essa nova energia e descobri ser ela nova somente por estar em oposição à atual. À velha. Porque velha e nova, como também virtual e atual também só são categorias. Também se vão tão logo nos ajudam a fazer sentido. E fazer-nos sentido. E fazer-nos sentir.

Alguém comentou que o registro de mim mesmo aqui é uma demonstração do meu ego elevado. É. Porque a boca que canta na platéia é minha. Porque a mente que voa é minha. Porque quem lembra sou eu. E dizer que cantei, que voei e que lembrei de coisas é agradecer a quem fez “Xaxados e Perdidos” pela oportunidade de voar, de lembrar, de voltar também. E quem fez e faz “Xaxados e Perdidos” não fui/sou eu.

Então, agradeço (sempre em primeira pessoa) aos envolvidos nesse belíssimo espetáculo que haverá de voltar a cartaz muitas vezes para o deleite público. Agradeço pela escolha do repertório ( Pixinguinha , Almir Sater, Egberto Gismonti, Tião Carrero, Giba Giba e Dorival Caymmi, além de preciosos desconhecidos...) que faz conhecer músicas tão belas, tão diferentes da nossa cultura sulista, mas tão brasileiras como nós todos. Agradeço pela delicadeza da luz, do cenário e do figurino: simples, humano, adequado, adjuvante. Pela execução das músicas e pela interpretação dos personagens que através delas cantam e contam suas histórias. Pela acolhida na recepção, por ter atendido ao solicitado Bis, pela participação do Coral do Colégio Santa Rosa de Lima na platéia que deixou-nos (também platéia) ainda mais confortáveis.

E agora só me resta voltar a citar Bendati, outra que voou, que viajou, que deve ter lembrado, e que também agradece.

“Então me resta agradecer, mais uma vez. E desejar vida longa ao "Xaxados...". E que não se percam dos nossos palcos, pois quero viver isso mais vezes.
Muitas vezes!”


E me despedir já acumulado das novas energias, essas que nunca se vão.



*


Ficha Técnica:


Concepção: Simone Rasslan
Arranjos: Simone Rasslan, Alvaro RosaCosta e Beto Chedid
Direção de Cena: Alvaro RosaCosta
Som: Sasandro
Luz: Bathista Freire
Cenário: Álvaro Villa Verde
Figurino (Simone): Madalena Rasslan Fischer
Confecção: Alaci Costa
Flor: Liane Venturella

28 de mar de 2010

Homem que não vive da glória do passado

Foto: Divulgação

Uma parada na Parada

Hoje é o dia da II Parada de Teatro. Artistas e técnicos da cidade e arredores desfilam pelas ruas da capital convidando as pessoas para pôr “mais teatro no seu cardápio”. Teatro Gaúcho, principalmente. Com isso, querem(os) chamar a atenção das pessoas para o fato de que o teatro que é feito aqui é de qualidade e, por isso, vale a pena. Questionam(os) o fato de que, no Projeto 24 horas de Cultura da Semana de Porto Alegre, em apresentações teatrais gratuitas, cerca de 50 (cinqüenta!) pessoas foram embora por não terem conseguido assistir aos espetáculos do Centro Municipal (Teatro Renascença e Sala Álvaro Moreyra), tamanha era a super-lotação, mas que, quando o ingresso é cobrado normalmente (R$ 10 a R$20 em média), a mesma lotação não se repete. E, mais: avisam que, sendo profissionais, é da bilheteria que os atores e seus familiares vivem. Diferente do que, talvez foi um dia, o teatro não consiste nos sessenta minutos, um pouco mais, um pouco menos, de apresentação, mas, sim, na preparação, nos meses de ensaio, nas horas diárias de treinamento corporal, discussão conceitual, criação. Ações que acontecem antes, durante e depois da estréia. O Teatro Gaúcho que é hoje foco das atenções é aquele feito a partir de estudo, planejamento, dedicação total. E, nisso, o teatro daqui, final e oficialmente declara sua distância do teatro amador/estudantil em que a boa vontade era o principal numa produção cênica.

Infelizmente, isso de todo não é verdade. Apesar dos protestos da classe artística, esses feitos não com gritos ou com passeatas, mas com excelentes projetos que recheiam a grade cultural da semana e uma parada festiva anual na comemoração do Dia Internacional do Teatro (27 de março), ainda há muitas produções (disse produções, não grupos, não artistas) que parecem valorizar unicamente a boa vontade. Há blogs e mais blogs que expressam o orgulho de nunca terem estudado teatro e terem aprendido a fazer fazendo. Ou, então, o que é pior: bradam que, se o público gosta, está bom do jeito que está (figurinos compradas em lojas de fantasia, trilhas sonoras tiradas de filmes, textos sem qualquer conexão, interpretações dignas de programas de televisão (que é outro universo e, por isso, nada tem a ver com o teatro), ausência total de direção e, muito menos, concepção.). A aprendizagem que vem da prática é honrada. Mas não é suficiente. Há mais de dois mil anos se escreve sobre teoria teatral e um pouco de dedicação sobre essa literatura não faz mal a ninguém. E não se estuda durante anos sobre direção de arte e estética, interpretação e direção para uma pessoa entrar sob um foco, contar uma piada e achar que o que está fazendo é válido sócio-artisticamente.

É com essa minha participação no evento de hoje que quero falar do espetáculo “Homem que não vive da glória do passado”, uma produção que não merece nem mesmo a gentileza de um aplauso, apesar de haver nela muito estudo envolvido, mesmo que não saibamos muito bem qual estudo é esse.

Começo por destacar a excentricidade da produção: dividida em duas partes, a divulgação informa que somente 20 pessoas podem participar da primeira parte e é preciso entrar em contato com a bilheteria para reservar seu lugar nesse prólogo. No que ele consiste? João de Ricardo, co-diretor, co-dramaturgo e ator do monólogo, pergunta se sabemos o significado do nosso nome como motivo para uma interessante discussão: “O que é que me faz homem?”. Homem, de fato, é a primeira palavra do título da peça e essa é uma forma de integrar os participantes desse prólogo. João (“Deus é bondoso”), então, muda de assunto, como fará várias vezes durante o espetáculo, contando detalhes (fictícios?) sobre a produção do espetáculo e narra o sonho de um amigo dele (Mister X) que veio ver os ensaios gerais. Somos conduzidos a um túnel escuro com luzes coloridas e onde um espelho é quebrado pelo próprio João. O túnel termina no palco do Teatro, em que as cortinas estão fechadas. Nos sentamos no chão e um debate sobre a origem da vida começa. A conversa é entremeada de luzes coloridas que Carina Sehn e o próprio João vão manipulando lindamente. Douglas Dickel conduz uma sonoplastia carregada de significados que faz desse momento inicial a única parte interessante de toda a peça (que dura mais de duas horas!). A diferença entre homens e animais é outro tema proposto que termina com João ficando nu em cena e prendendo seu órgão genital com fita adesiva. A palavra de ordem dita pelo ator é: “Esse é um espetáculo para ser sentido”. Até, então, senti curiosidade.

João de Ricardo é um dos artistas mais férteis do estado. Cada nova produção que envolve o seu nome desperta o interesse do público porque é reconhecida a sua criatividade e a sua tendência à experimentação. Dentre seus últimos trabalhos está “Teresa e o Aquário”, em que eu não consegui encostar minhas costas na guarda da poltrona tão motivante era cada signo posto ao olhar do público.

Mas signos são lidos a partir de códigos. Não havendo possibilidade de leitura de um código, os signos não são retirados da vida, não se tornam passíveis de leitura, não atingem a secundidade (Peirce), não são estruturáveis (Levi-Strauss e Greimas), não comunicam nada (Eco). Significante e significado (Saussure) são dois lados de uma mesma moeda. Não há como haver um só lado numa moeda. Ela não existe apenas com um lado. O espetáculo de João de Ricardo, até agora, não existe porque não pode ser lido e, pelo que ele mesmo informa, deve apenas ser sentido. E o que se sente é o tédio de ler um livro em japonês sem entender o que significam “aqueles desenhos que parecem letras”.

Fazemos a passagem e, finalmente, ouço um resquício de tudo o que sempre admirei no trabalho desse encenador. O nome de todos os presentes é pronunciado. “Rodriga Monteiro, nascida em 15/01/80 e morta em 27/03/2010.” 1) Saímos do palco e vamos para a platéia. Essa é a passagem de uma vida para outra. Até aqui participamos da encenação. Agora a assistiremos. Qual é a relação entre as duas e a questão vida/morte? 2) Os nomes dos homens são transformados em substantivos femininos. Os nomes das mulheres permanecem como estão. Será a vida uma energia feminina? As respostas não interessam. O que sempre interessou a João foram as perguntas.

Na platéia, no entanto, o que vemos é desolador. O ator, de terno e gravata, corre, faz gracinhas, anda e continua mexendo com luminárias. Sua performance, nesse segundo momento, para a qual não apenas 20 pessoas são chamadas mas todo o público em geral, continua ou é uma infinidade de coisas sem ser nenhuma. Há a proposta de uma dramaturgia e de um personagem. Bruno Gularte Barreto, co-diretor e co-dramaturgo, apresenta o seguinte mote: Um mundo em que todas as mulheres morreram e só há homens. E o personagem: Um homem de 32 anos, que se chama João de Ricardo, que teve uma ou duas experiências sexuais até hoje, que não sai do apartamento a não ser para fazer um estoque de miojo, e a última fez foi há cinco semanas, que usa drogas e vê muita TV. O interesse do mote se dá a partir de seu possível desenrolar (que, de fato, não se desenrola). O que aconteceria num mundo assim? Quanto ao personagem, o interesse vem pela problematização dele, esse um ser que, diferente do que se vende na publicidade do espetáculo, tem pouca relação com o homem moderno comum. A solidão contemporânea, tema já outras vezes tratados em outros espetáculos da Cia. Espaço em Branco, aqui é tratada de forma caricata. Não há sustentação dramatúrgica para o personagem, esse que se mistura com o encenador por terem ambos o mesmo nome e a mesma idade. A solidão vivida pelo homem contemporâneo é interna. O homem se sente só entre muitas pessoas. Alguém que não sai de casa, que não faz sexo e que só come miojo e vê TV em nada se parece comum e que, por isso, para ser um personagem e não apenas a proposta de, precisa de um contexto que dê a ele chance de se estabelecer enquanto elemento de uma narrativa.

A narrativa não acontece apesar de vários elementos serem postos em cena. Imagens belíssimas são dispostas. Um trabalho de luz e uma trilha sonora dignas de elogios efusivos. Mas, em nada um elemento se relaciona com o outro e aqui voltamos à parte em que tratamos sobre a ausência de um código. O Apocalipse, último livro da bíblia e o mais imagético dos 72 (ou 73 dependendo se ela for católica ou protestante), é citado, talvez, como desculpa para a bagunça conceitual ou ausência de conceito. Mas é importante destacar que a carnavalização de Nietzsche e também estudada por Bakhtin nada tem com isso. Lá não há assistência e só participação. Aqui há o histrionismo de um ator e também de seu grupo querendo utilizar elementos da performance art e dos usos de som e de vídeo (já cansados de serem usados lá nos anos 70) para discutir um tema batido e que, podendo como todos ser trazido ao palco de forma inteligente, não é feito nem de forma inteligível.

O pior de toda essa produção é o fato de, em cena aberta, João se desculpar tomando leite no gargalo da caixinha, voltando a solicitar a participação do público inerte, sugerindo que nunca ousem dirigir e atuar no mesmo espetáculo. E a peça termina da forma mais clichê possível, contrariando todos os anos de trabalho interessante que a Cia Espaço em Branco construiu: uma família mascarada sentada num sofá vendo TV, enquanto João fica procurando nervosa e pateticamente a tomada entre um emaranhado sujo de fios e mais fios para desligar uma a uma as fontes de luz da cena.

“Homem que não vive da glória do passado” traz, apesar de tudo, uma coisa boa para o teatro num dia tão especial como o de hoje. É a prova de que não importam os anos de experiência, os títulos que você acumule, as críticas elogiosas e os prêmios recebidos. Ninguém está livre de, um dia, produzir um fracasso.

Mas, sinceramente, eu espero que fracassos como esse não sejam produzidos com o importante e valiosíssimo Prêmio Funarte Myriam Muniz. Porque desperdício de dinheiro público, assim, não merece, como eu disse, nem mesmo a gentileza de um aplauso.

Feliz Dia Internacional de Teatro. Boa Parada a todos!

*

Um espetáculo da Cia Espaço em Branco
Criação e Performance: Bruno Gularte Barreto, Douglas Dickel, Carina Sehn, João de Ricardo e Pedro Karam
Direção e Vídeos: Bruno Gularte Barreto e João de Ricardo
Dramaturgia: Bruno Gularte Barreto e João de Ricardo, baseados no conto original de Bruno Gularte Barreto
Iluminação: Carina Sehn
Sonoplastia: Douglas Dickel
Câmera, Assistência geral e de multimídia: Pedro Karam
Assistência e finalização de vídeos: Caroline Barrueco
Produção e Assistência de Direção: Sissi Venturin
Design Gráfico: João Paulo Tiago e Bruno Gularte barreto
Figurinos: Spirito Santo e Azul Cobalto
Iluminação: Carina Sehn

17 de mar de 2010

Sheila Show

Foto: divulgação

Bom, mas não ótimo

“Sheila Show” é um misto de stand up comedy, espetáculo de dublagens e crítica aos programas televisivos de variedades. A estética popular (e não é um crime lembrar da antiga TV Pampa com seus cenários de carpete e seus letreiros em neon azul) se vê em todas as partes do todo: um tecido azul jogado por estrados e três tabelas, em cada um dos lados do palco, um globo de espelhos que causa uma sombra irregular nas paredes laterais, figurinos nitidamente improvisados e sequências dramáticas que só encontram coerência na falta de. Nota-se que, ao contrário do que pode ser pensado a partir disso, Sheila Show não é um espetáculo de todo ruim. O todo exibe uma concepção e, em se tratando de uma obra artística, ela é estética. Sua função máxima é existir. E o que se faz aqui é ver como essa existência se relaciona consigo mesmo partindo da forma como ela se apresenta (a mim).

Bob Bahlis, que assina a direção, parece gostar de coisas improvisadas. No texto sobre essa produção em seu blog pessoal, ele relaciona esse trabalho com um programa de televisão que ele produziu em dez dias. E, na opinião dele, já reforçada em outros trabalhos teatrais (felizmente não em todos!), o resultado parece ser bom. E, de fato, é em alguns momentos.

Sheila Molz, protagonista, é quem tira do público algumas das gargalhadas mais gostosas. Nervosa, a atriz ainda iniciante põe à prova um talento que parece ser nato. Gaguejando aqui e ali, diante de um microfone, a comediante une uma história na outra, usando eficientemente de pausas e modestas expressões faciais. O resultado é ótimo. O texto fala das impressões de uma gravataiense em Porto Alegre. Eu, que tantas vezes usei o Sogil para vir da antiga Capital Nacional do Tempero Verde e, de repente, Capital Estadual da Bromélia, cujas flores só foram plantadas na praça principal no ano desse título, como a personagem, me vi nas mesmas situações. E pensei que o mesmo passam todos aqueles que moram na GPA (Grande Porto Alegre) ou em cidades pequenas. A identificação do público com a história e o carisma da atriz é um casamento perfeito cujo sucesso se vê nas risadas e nas palmas da platéia.

Algo parecido com isso se vê nas dublagens. Caio Prates (Sidney Magal e Fábio Júnior), João Carlos Castanha (Lady Gaga e Maria Helena Castanha) e Rafael Albuquerque (Vanusa) movimentam a cena e tornam o “Sheila Show” uma comédia em que se ri gostosamente, usando e abusando do talento expresso de forma espontânea por Albuquerque e da experiência de Prates e de Castanha adquirida em décadas.

Ao espetáculo, falta direção. Nem só de espontaneidade vive o teatro. E muito pouco mérito tem uma produção que se baseia apenas na experiência de dois profissionais que nem mesmo foram chamados para receber as palmas do público pelos artistas iniciantes. Somente grandes artistas têm seus rascunhos expostos. O quadro que custa milhões quase sempre é aquele que mostra uma técnica, deixa ver o resultado final de um processo concluído, foi pausadamente planejado e, por isso, ganha demoradas reflexões por quem lhe frui. A preferência de Bahlis por improvisações deixa ver em Sheila Show mais um espetáculo em que se percebe que a técnica de produção é a do “cada ator por si e o crítico por todos”.

A direção não é requisito para a existência da atividade cênica como também não o é a crítica. O teatro se define pela existência do público e do ator que interpreta alguém que não ele, embora os nomes possam ser os mesmos. Mas teatro é uma coisa e excelência teatral é outra. Essa segunda é mais facilmente atingida quando há um diretor de pulso firme e coragem para dizer algumas coisas que a crítica, sem sugerir, vê.

Merda, cagada, cu e caganeira são palavras que sobram na boca da personagem Sheila num dos momentos de sua participação. Levar a piada para o escatologismo, além de ser um golpe baixo, torna o resultado da produção num exemplo de mal gosto, como também fica essa parte do texto crítico. O mesmo se repete em toda a participação de Janaina Lima quando interpreta a prostituta. Não há uma única frase sem referência à vulgaridade de um texto sem chance de ser engraçado. Há, no Terça Insana, uma personagem que tem o mesmo papel. Se lá o público ri da atriz, aqui, no dia em que eu assisti, o silêncio foi constrangedor principalmente nas piadas sobre Ball Cat e Palhacinho. Errar o português de repente, numa tentativa de construir o personagem em plena cena (que aliás já tinha começado), expôs a atriz ao ridículo papel preconceituoso que poderia ser evitado tivessem os ensaios servido para isso.

As cenas de Intervalo Comercial arrastam o ritmo e fazem da dramaturgia de Sheila Show algo desnecessário. Torce-se para que esses momentos terminem logo para que se possa, novamente, encontrar-se com Sheila, que não precisa de nenhum assistente homossexual, existência essa que só torna o espetáculo ainda mais preconceituoso e pobre. Os ganhos obtidos na coerência estética da crítica popular e do uso de material artístico trazido de fora e incorporado naturalmente pelo espetáculo fazem dessa produção algo bom de se ver. Todo o resto aqui exposto distanciam, no entanto, esse bom do ótimo.

*

Ficha Técnica:
Direção: Bob Bahlis

Elenco:
Sheila Molz
Jana Lima
Pingo Alabarce
Rafael Albuquerque
Fábio Monteiro
e
Caio Prates
João Carlos Castanha

Iluminação: Marga Ferreira

 

7 de mar de 2010

Não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo


Foto: Cíntia Bracht

Natural

Março de 2010. Estou sozinho em casa como estive durante todo o final de semana. Chove em Porto Alegre. Me recupero da festa de ontem. Penso no que fazer hoje. Planejo a semana que começará. Não choro.

Em março de 2009, eu chorava todos os dias. Durante meses entre o natal e o natal, eu praticamente chorei o Arroio Dilúvio sem deixar nenhum surfista imbecil vir surfar em mim. Lembro que eu, às vezes, estava no computador trabalhando e, do nada, algo me vinha à mente e eu tinha que me deitar e chorar durante uns minutos. Me secava, repunha as energias e voltava para minha cadeira de sempre, my own little chair where I can be whatever I want to be. Saía das aulas do mestrado e vinha a pé pela Redenção olhando a paisagem. Então, começava a chorar e corria pra casa. Me trancava no quarto, me sentava no chão e chorava mais um pouco. Não me privei de nada. Músicas, fotos, lembranças... Não afastei nada de mim porque isso sempre me soou como se eu tivesse protelando sensações. E eu não queria protelar nada. Sabia que eu tinha um caminhão de depressão pra enfrentar, então, como um bom capricorniano, resolvi fazer o que tinha que ser feito. E fiz.

Hoje há uma amiga vivendo exatamente a mesma situação. E já ouvi falar de tantos amigos de amigos na mesma que achei bom começar o texto sobre “Não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo” dessa forma. Sentado dentro da Sala Carlos Carvalho, vi eu mesmo me debatendo com um mundaréu de planos, de sonhos, de desejos que tinham sido inutilizados e todas as memórias que ficavam plantadas ao meu lado como se dissessem: “Estamos sem casa. Dê-nos pouso.” Diego Mac, como até agora tem feito, dirige o espectador para um lugar de paredes muito criativas. O Grupo Gaia inova sempre em termos de fruição. O espetáculo se torna nosso, se torna do público, se torna do ser que já viveu ou já testemunhou as sensações das personagens. A gente olha e ouve o que a dança tem pra dizer. Dito, chega a nossa vez de falar. Então, conversamos com o espetáculo e ele diz: “Olha, eu não disse nada!”. E você responde: “Disse, sim!” E ele: “Estou calado. Você é quem ouviu isso e está me responsabilizando... Seu maluco!” E, com um sorriso escapando, a peça vai embora, termina e você fica pensando se realmente ela disse o que você ouviu ou se foi seu passado que está voltando para se fazer de simpático.

O grupo assume o cansaço. Enfrenta-o. Cansaço é uma sensação tão válida como as outras. Nem tudo pode ser comédia. Nem tudo pode ser drama. Nem todo o teatro pode ser apenas uma narração horizontal com início, meio, ápice e fim. O Grupo Gaia nos deixa cansados se utilizando de signos teatrais apurados e uma técnica invejável. Não é uma sensação do tipo que “não deve ser vista” porque não te leva para o nada a não ser para elogiar o diretor e dizer: “Parabens, você é o cara!”. É uma sensação que te provoca, que te instiga, que te lembra: “Isso é ruim. Proteja-se. Não deseje isso para ninguém. E, quando acontecer com você, faça o que tiver que ser feito.” “Não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo” trata do cansaço da dor. Quando você está sofrendo com tantas roupas pesadas e dias frios e sente saudades da bermuda. Quando seus olhos baixam para a parte de baixo do roupeiro e você vê sua manta nova e fica ansioso para que a temperatura baixe e você possa usá-la. Quando você quer logo que o choro passe, seu coração fique limpo novamente e outras pessoas possam entrar e você volte a ser feliz. Ou seu amigo, ou seu parente, ou o amigo do seu amigo porque você não quer ver ninguém triste.

A dor de uma separação faz parte da vida como também a alegria de um encontro. Com alegria, o grupo de excelentes bailarinas e profissionais que fazem a capital gaúcha de orgulhar encara o sentimento e produz um espetáculo bonito de se ver, interessante de se refletir, saudável para se vivenciar. Com exceção da longa cena em que a personagem de Daniela Aquino” lê um texto (que parece sem fim), o ritmo se mantém firme, constante produzindo no espectador uma certeza que me pareceu inaugural, pelo menos pra mim. Você não precisa olhar para ver. Você pode olhar o reflexo e ele dirá tanto quanto ou mais que a imagem real.

Explico: em vários momentos do espetáculo, me peguei olhando para o chão, para uma rosa vermelha, para o lustre, para o nada. De entediante o espetáculo não tem nada, então, por que é que eu não olhava para as bailarinas? Porque as estava vendo. Na dança, os gestos emanam certas energias que, na proximidade que o espectador fica nesse espetáculo, podem chegar ao público muito rapidamente. Então, eu, olhando para a esquerda, sabia exatamente o que estava acontecendo à direita. Porque a música, o corpo, o movimento, a estética estava em toda parte e era um todo do qual eu também fazia parte. Se a dedicação altamente elogiável desse grupo em pesquisar o que pode ser feito é o primeiro ponto que ressalto, o segundo é, sem dúvida, sua capacidade (e talento) em criar o que não pode ser feito porque se faz ao natural.

Há coisas que se fazem ao natural. O acalmar das emoções é uma delas. Acontece sozinho e é preciso ter paciência para esperar o fim.

Nesse caso, felizmente, eu tive.

*

Ficha Técnica:
Direção Geral e Coreografia: Alessandra Chemello
Direção de Arte: Diego Mac
Elenco: Alessandra Chemello, Daniela Aquino, Fabi Vanoni e Joana Amaral
Figurinos: Raquel Cappelletto
Cenário: Myriam Vanoni e André Eloy Paim
Trilha Sonora: Alessandra Chemello e Diego Mac
Iluminação: Grupo Gaia
Assistente de Produção e Coordenação Técnica: Sandra Santos

4 de mar de 2010

XI Porto Verão Alegre


Em Pé


Acabou-se o que era douce. O 11º Porto Verão Alegre já passou. O carnaval também. Falta só o BBB chegar ao último paredão para o ano, definitivamente, começar, passar pela Copa, adoecer nas eleições, e morrer no natal. Então, começará tudo novamente. E, pelo recomeço, me pego pensando no porquê é bom o Porto Verão.

Por que o Porto Verão Alegre é bom para Porto Alegre?

Tenho cá minhas dúvidas se a cidade realmente se esvazia consideravelmente como dizem. Chego a pensar que não é tanto como era no passado. O fato é que as ruas ficam muito mais vazias, mas isso pode ser porque ainda não existe ar condicionado central no planeta. No dia em que construírem uma imensa bolha ao redor da Terra e ligarem nela um Split, acho que as pessoas, no verão, vão ter uma vida mais normal. Por enquanto, me peguei trancado em casa o dia inteiro, ansioso pela noite que, no fim, não trazia nenhuma frescura a mais. Trazia, isso sim, mais uma sessão de teatro no Porto Verão Alegre. Esse ano foram 50 espetáculos. Olhando para a programação, já tenho registrado 39. E, olhando para as platéias, a cidade realmente não parece vazia. Quem dera se esse vazio se repetisse no inverno também...

Minha conclusão é de que o Porto Verão Alegre é um sucesso porque lembra do público e o agrada. É fácil ir ao teatro na capital gaúcha no verão.

1 – Bilheteria. Você liga e fica sabendo da programação, do valor, de onde compra o ingresso, de onde é o teatro, de quem faz a peça e sobre o que ela é. Pode comprar o ingresso antecipado. Pode obter o programa antecipado também.

2 – Site. A qualquer hora do dia ou da noite, o site informa ao público tudo o que ele precisa saber. A ficha técnica é parcial, sim, mas você pode entrar em contato, obter com facilidade o número de telefone da produção e saber mais a respeito. Quanto tempo dura? Posso levar minha sobrinha de nove anos?

3 – 21h. A grande maioria dos espetáculos começa às 21h. Não tem como se enganar: é um horário standart. As peças não começam no horário marcado, havendo até o absurdo de 20min de atraso. Mas, pelo menos, a produção lembra que, dentro da sala de espetáculo, há ar condicionado e que, na rua, não. Então, abrem a porta e a gente espera no fresquinho o programa começar...

4 – Há espetáculos para todos os gostos: comédias acessíveis, espetáculos mais densos, grupos estudantis (resultados de oficinas), montagens clássicas que você já viu, mas ainda não levou sua dinda do interior que veio te visitar e que vai gostar de rever a peça, porque, sim, ela já viu também! É graças ao Porto Verão que o público tem chance de ver alguns artistas que desaparecem no inverno ou mesmo aqueles que estão sempre aí, mas que, por algum motivo, não conseguiu ver ainda.

5 – Divulgação. Infelizmente não há nenhum site totalmente confiável em termos de programação cultural na cidade fora do Porto Verão. Recomenda-se sempre ligar para confirmar horários e datas. Onde conseguir o número? Nem idéia...

6 – Valores. Não são mais acessíveis. O Porto Verão não é a Liquida Porto Alegre nem a Feira do Livro. Mas, comprando antecipado, em alguns lugares, você consegue pagar o ingresso com cartão. Um luxo!

7 – Crítica. O Porto Verão Alegre investe na Crítica Teatral. Sabe que ela nunca será unânime. Entende que ela é apenas um ponto de vista sobre um trabalho apresentado num dia por um grupo de pessoas. E que vem de uma pessoa que também falha (AINDA BEM!). Mas que é importantíssima pela coragem de ousar fazer o impossível: preservar num texto o que é evanescente. Ninguém gosta de críticas negativas. Nem o crítico. Mas a arrogância maior é a de quem proporciona um espetáculo ruim para o público (e para a classe) e acha que todo mundo tem que “babar o seu ovo” só porque já fez outros trabalhos em tantas décadas ou meses de teatro. O número de pessoas que falam mal de bons trabalhos é reduzido, embora sempre existente. E isso também é maravilhoso! Além do mais, uma crítica negativa não impede que alguém vá ver o espetáculo. Em muitos casos, até ajuda!

Neste espaço, faço crítica teatral. Jamais terei a formação que se espera de um crítico teatral até porque a classe espera uma coisa quando se fala bem e outra quando se fala mal. Meu texto não é, nem foi até agora e duvido que, um dia seja como o da Bárbara Heliodora, do Prof. Antônio Hohfeldt e de tantos outros críticos a quem, eu sei bem!, não estou nem aos pés. Sei que há pessoas que chamam o texto de comentário, outros nem mesmo permitem que eu vá assistir a seus espetáculos (o que é risível...). Parece que há uma escala de valores estando o comentário abaixo da crítica. Então, me pergunto se o mesmo também não há no teatro. Por que eu dou um tom poético ao texto é menos crítica e mais comentário? Em Play-Becket, há pouco diálogo. Então é mais dança que teatro? Em O vendedor de palavras, há um personagem que se chama Milho e outro que se chama Espiga. Então, é mais espetáculo infantil que adulto? Essa discussão não parece ultrapassada? Então, que seja chamado como mais aprouver. Estou convencido de que as categorias só servem para entender melhor o conteúdo, não para usá-lo. E são analíticas: finda a análise, também elas deixam de ser importantes.

Por tudo isso, fico com Bárbara Heliodora, apenas mais um ser humano que ama o teatro a ponto de ir vê-lo sempre que pode, cometendo aqui e ali um exagero, mas que não bate no peito lembrando seus 50 anos como crítica para justificar suas falhas. Apenas falha tanto quanto acerta, ou seja, bastante! É ela quem teme o tempo em que os artistas cênicos, quem constroem parte do teatro, vivem e fazem viver sua arte mais pelas leis de incentivo, financiamento e manutenção do ego do que pelo público, idiossincraticamente, o grande fim do teatro e, ao mesmo tempo, sua outra parte.

O Porto Verão Alegre é um sucesso porque proporciona teatro para o público, vive dele e o agradece dando sempre o seu melhor. E eu sou, orgulhosamente, parte desse público.

Depois do natal, quando tudo recomeçar, haverá mais!
Aplausos! Em pé.

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