17 de mar de 2010

Sheila Show

Foto: divulgação

Bom, mas não ótimo

“Sheila Show” é um misto de stand up comedy, espetáculo de dublagens e crítica aos programas televisivos de variedades. A estética popular (e não é um crime lembrar da antiga TV Pampa com seus cenários de carpete e seus letreiros em neon azul) se vê em todas as partes do todo: um tecido azul jogado por estrados e três tabelas, em cada um dos lados do palco, um globo de espelhos que causa uma sombra irregular nas paredes laterais, figurinos nitidamente improvisados e sequências dramáticas que só encontram coerência na falta de. Nota-se que, ao contrário do que pode ser pensado a partir disso, Sheila Show não é um espetáculo de todo ruim. O todo exibe uma concepção e, em se tratando de uma obra artística, ela é estética. Sua função máxima é existir. E o que se faz aqui é ver como essa existência se relaciona consigo mesmo partindo da forma como ela se apresenta (a mim).

Bob Bahlis, que assina a direção, parece gostar de coisas improvisadas. No texto sobre essa produção em seu blog pessoal, ele relaciona esse trabalho com um programa de televisão que ele produziu em dez dias. E, na opinião dele, já reforçada em outros trabalhos teatrais (felizmente não em todos!), o resultado parece ser bom. E, de fato, é em alguns momentos.

Sheila Molz, protagonista, é quem tira do público algumas das gargalhadas mais gostosas. Nervosa, a atriz ainda iniciante põe à prova um talento que parece ser nato. Gaguejando aqui e ali, diante de um microfone, a comediante une uma história na outra, usando eficientemente de pausas e modestas expressões faciais. O resultado é ótimo. O texto fala das impressões de uma gravataiense em Porto Alegre. Eu, que tantas vezes usei o Sogil para vir da antiga Capital Nacional do Tempero Verde e, de repente, Capital Estadual da Bromélia, cujas flores só foram plantadas na praça principal no ano desse título, como a personagem, me vi nas mesmas situações. E pensei que o mesmo passam todos aqueles que moram na GPA (Grande Porto Alegre) ou em cidades pequenas. A identificação do público com a história e o carisma da atriz é um casamento perfeito cujo sucesso se vê nas risadas e nas palmas da platéia.

Algo parecido com isso se vê nas dublagens. Caio Prates (Sidney Magal e Fábio Júnior), João Carlos Castanha (Lady Gaga e Maria Helena Castanha) e Rafael Albuquerque (Vanusa) movimentam a cena e tornam o “Sheila Show” uma comédia em que se ri gostosamente, usando e abusando do talento expresso de forma espontânea por Albuquerque e da experiência de Prates e de Castanha adquirida em décadas.

Ao espetáculo, falta direção. Nem só de espontaneidade vive o teatro. E muito pouco mérito tem uma produção que se baseia apenas na experiência de dois profissionais que nem mesmo foram chamados para receber as palmas do público pelos artistas iniciantes. Somente grandes artistas têm seus rascunhos expostos. O quadro que custa milhões quase sempre é aquele que mostra uma técnica, deixa ver o resultado final de um processo concluído, foi pausadamente planejado e, por isso, ganha demoradas reflexões por quem lhe frui. A preferência de Bahlis por improvisações deixa ver em Sheila Show mais um espetáculo em que se percebe que a técnica de produção é a do “cada ator por si e o crítico por todos”.

A direção não é requisito para a existência da atividade cênica como também não o é a crítica. O teatro se define pela existência do público e do ator que interpreta alguém que não ele, embora os nomes possam ser os mesmos. Mas teatro é uma coisa e excelência teatral é outra. Essa segunda é mais facilmente atingida quando há um diretor de pulso firme e coragem para dizer algumas coisas que a crítica, sem sugerir, vê.

Merda, cagada, cu e caganeira são palavras que sobram na boca da personagem Sheila num dos momentos de sua participação. Levar a piada para o escatologismo, além de ser um golpe baixo, torna o resultado da produção num exemplo de mal gosto, como também fica essa parte do texto crítico. O mesmo se repete em toda a participação de Janaina Lima quando interpreta a prostituta. Não há uma única frase sem referência à vulgaridade de um texto sem chance de ser engraçado. Há, no Terça Insana, uma personagem que tem o mesmo papel. Se lá o público ri da atriz, aqui, no dia em que eu assisti, o silêncio foi constrangedor principalmente nas piadas sobre Ball Cat e Palhacinho. Errar o português de repente, numa tentativa de construir o personagem em plena cena (que aliás já tinha começado), expôs a atriz ao ridículo papel preconceituoso que poderia ser evitado tivessem os ensaios servido para isso.

As cenas de Intervalo Comercial arrastam o ritmo e fazem da dramaturgia de Sheila Show algo desnecessário. Torce-se para que esses momentos terminem logo para que se possa, novamente, encontrar-se com Sheila, que não precisa de nenhum assistente homossexual, existência essa que só torna o espetáculo ainda mais preconceituoso e pobre. Os ganhos obtidos na coerência estética da crítica popular e do uso de material artístico trazido de fora e incorporado naturalmente pelo espetáculo fazem dessa produção algo bom de se ver. Todo o resto aqui exposto distanciam, no entanto, esse bom do ótimo.

*

Ficha Técnica:
Direção: Bob Bahlis

Elenco:
Sheila Molz
Jana Lima
Pingo Alabarce
Rafael Albuquerque
Fábio Monteiro
e
Caio Prates
João Carlos Castanha

Iluminação: Marga Ferreira

 

1 Comentário:

Semíramis Alencar disse...

Oi, Obrigada pela visita e comentário ao Ne quid nimis!
realmente o mar não é do Rio de Janeiro, mas creio que isso em minuto nenhum foi falado. Ainda acredito no valor das idéias, essas que faz com que pessoas que nunca se virão antes visitem a página de outras e coloquem lá suas impressões. Isso é valioso!aproveito para convidá-lo a conhecer a página do projeto Teatro Espírita do Ator e Diretor Renato Prieto. Como vc é da àrea tenho certeza de que gostará muito de conhecer um pouco da cena teatral carioca.
Um abração para ti e o povo maravlhoso do RS

abraço fraterno

Semíramis Alencar

http://renatoprieto.wordpress.com
http://nequidnimis.wordpress.com

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