Abajur lilás
Quando a falta de ousadia é bem vinda
Antes, a velha cantilena tantas vezes repetidas nesse blog: Plínio Marcos escreve realismo naturalismo. Os personagens são animais, guiados pelo próprio extinto, sem moral, sem ética, sem bonzinhos e malzinhos na dramaturgia. A situação é um ecossistema opressor, angustiante, sufocante. É possível adaptar a versão teatral de muitas formas, mas me parece sempre meio burrice não se utilizar das propostas do texto quando elas só o ajudam a se organizar enquanto sistema de signos. Leandro Ribeiro, diretor da Cia Gato & Sapato, não ousou e, por isso, acertou em cheio, isto é, recebe do crítico aqui uma ótima avaliação.
A assistência consegue identificar em todos os personagens algo de muito ruim e algo de muito bom. Não há um protagonista bem definido e toda a peça pode ser vista a partir de todas as construções. Três prostitutas são trazidas a um quarto: cada uma delas têm um quê de humanidade que as aproxima e um quê de animal que as distancia. O quarto, por sua vez, é personificado pelo seu dono, Giro, o proprietário do Mocó. Também ele tem em si a maldade e a bondade na sua construção.
Dilma é má para Giro, não contando pra ele o que sabe sobre o que acontece no quarto, mas é mãe e faz tudo por seu filho. Célia é má para Giro, agindo contra ele em vários momentos, mas é mulher e não suporta a própria vida sem estar bêbada. Leninha é egoísta, mas colabora com as companheiras, não contando que quebrou, afinal, o abajur lilás que dá nome ao espetáculo. As três atrizes (Júlia Marsiaj, Kelly Gil, Laura Becker) investem nas suas personagens atingindo, cada uma, de bons a ótimos resultados. Vemos a raiva de Célia, a maternidade de Dilma, o veneno de Leninha.
Giro, interpretado por Anildo Michelotto, entre todas as construções, é a figura menos bem acabada. O ator gagueja em vários momentos e usa pouco das nuances de que disporia se observasse as propostas de Plínio Marcos com mais cuidado. O personagem, no entanto, sendo o mais forte por representar não apenas a si mesmo, mas a própria situação, não deixa a desejar, embora permita que se espere dele um pouco mais. Oswaldo, interpretado pelo carioca (com fortíssimo e inquebrantável sotaque seja em que peça for) Gabriel Aquino, é, em contrapartida, a figura que melhor se encontra nesse grupo. O peso do personagem contrasta diretamente com a figura do ator, não promovido de grande porte e de músculos avantajados. O resultado dessa construção confere à peça a sensibilidade necessária para mostrar ao público uma história que é real pela naturalidade humana das suas estruturas.
Leandro Ribeiro orquestra os sentidos para, em ascendência, nos sufocar nessa situação limite para quem a história conta e para quem a assiste. Com um elenco sem a experiência que conferiria mais organicidade à produção, seus méritos são ainda maiores. Em todos os sentidos, Abajur lilás é uma produção que acrescenta valores ao teatro gaúcho e, em especial, ao Departamento de Arte Dramática da UFRGS, lugar de origem dessa equipe.
*
Ficha Técnica:
Direção: Leandro Ribeiro
Elenco: Anildo Michelotto, Júlia Marsiaj, Kelly Gil, Laura Becker e Gabriel Aquino.
Participação: Jordan Maia
Criação de Luz: Lucca Simas
Figurinos, Cenários, Produção e Realização: Cia de Teatro Gato&Sapato
Duração: 60 minutos
Faixa Etária Mínima: 16 anos












