26 de jan de 2011

Abajur lilás


Foto: divulgação

Quando a falta de ousadia é bem vinda

Antes, a velha cantilena tantas vezes repetidas nesse blog: Plínio Marcos escreve realismo naturalismo. Os personagens são animais, guiados pelo próprio extinto, sem moral, sem ética, sem bonzinhos e malzinhos na dramaturgia. A situação é um ecossistema opressor, angustiante, sufocante. É possível adaptar a versão teatral de muitas formas, mas me parece sempre meio burrice não se utilizar das propostas do texto quando elas só o ajudam a se organizar enquanto sistema de signos. Leandro Ribeiro, diretor da Cia Gato & Sapato, não ousou e, por isso, acertou em cheio, isto é, recebe do crítico aqui uma ótima avaliação.

A assistência consegue identificar em todos os personagens algo de muito ruim e algo de muito bom. Não há um protagonista bem definido e toda a peça pode ser vista a partir de todas as construções. Três prostitutas são trazidas a um quarto: cada uma delas têm um quê de humanidade que as aproxima e um quê de animal que as distancia. O quarto, por sua vez, é personificado pelo seu dono, Giro, o proprietário do Mocó. Também ele tem em si a maldade e a bondade na sua construção.

Dilma é má para Giro, não contando pra ele o que sabe sobre o que acontece no quarto, mas é mãe e faz tudo por seu filho. Célia é má para Giro, agindo contra ele em vários momentos, mas é mulher e não suporta a própria vida sem estar bêbada. Leninha é egoísta, mas colabora com as companheiras, não contando que quebrou, afinal, o abajur lilás que dá nome ao espetáculo. As três atrizes (Júlia Marsiaj, Kelly Gil, Laura Becker) investem nas suas personagens atingindo, cada uma, de bons a ótimos resultados. Vemos a raiva de Célia, a maternidade de Dilma, o veneno de Leninha.

Giro, interpretado por Anildo Michelotto, entre todas as construções, é a figura menos bem acabada. O ator gagueja em vários momentos e usa pouco das nuances de que disporia se observasse as propostas de Plínio Marcos com mais cuidado. O personagem, no entanto, sendo o mais forte por representar não apenas a si mesmo, mas a própria situação, não deixa a desejar, embora permita que se espere dele um pouco mais. Oswaldo, interpretado pelo carioca (com fortíssimo e inquebrantável sotaque seja em que peça for) Gabriel Aquino, é, em contrapartida, a figura que melhor se encontra nesse grupo. O peso do personagem contrasta diretamente com a figura do ator, não promovido de grande porte e de músculos avantajados. O resultado dessa construção confere à peça a sensibilidade necessária para mostrar ao público uma história que é real pela naturalidade humana das suas estruturas.

Leandro Ribeiro orquestra os sentidos para, em ascendência, nos sufocar nessa situação limite para quem a história conta e para quem a assiste. Com um elenco sem a experiência que conferiria mais organicidade à produção, seus méritos são ainda maiores. Em todos os sentidos, Abajur lilás é uma produção que acrescenta valores ao teatro gaúcho e, em especial, ao Departamento de Arte Dramática da UFRGS, lugar de origem dessa equipe.

*

Ficha Técnica:
Direção: Leandro Ribeiro
Elenco: Anildo Michelotto, Júlia Marsiaj, Kelly Gil, Laura Becker e Gabriel Aquino.
Participação: Jordan Maia
Criação de Luz: Lucca Simas
Figurinos, Cenários, Produção e Realização: Cia de Teatro Gato&Sapato
Duração: 60 minutos
Faixa Etária Mínima: 16 anos

4 Comentários:

Victor Matheus disse...

Olá Rodrigo!
Como faço para entrar em contato contigo? Gostaria de trocar algumas ideias sobre o mestrado em Cênicas na UFRGS, se possível.
Tens meu e-mail, se puderes, entra em contato. Abraço!

Rodrigo Monteiro disse...

Olá, Victor! Não achei o seu endereço de email... Meu email é csonakos@hotmail.com . Espero o seu contato no meu email, então. Abraços, Rodrigo

Alo disse...

Achei o espetáculo meio "morno". Talvez pq os atores nao tiveram um contato real com o submundo podre e perverso da periferia. Plínio Marcos é marginal, underground e para fazê-lo tem que ter um bocado disso dentro de si.

Pra mim, a melhor atuação, sem dúvida é da atriz que interpreta a prostituta Célia.

André disse...

Eu não achei palavra melhor pra definir esta peça se não essa (me desculpe): tosco, muito tosco! Me senti desrespeitado por ter gasto 20 reais por uma peça que não tem o mínimo de profissionalização que se pede num Porto Verão Alegre. Se fosse numa mostra de teatro universitário, amador, novas caras, etc, tudo bem, mas agora colocar esta peça ao lado de trabalhos como A Lição, O Urso, Isaías in Tese, etc, isso sim eu acho um absurdo. A curadoria do Porto Verão alegre tinha que selecionar seus espetáculos, ter algum critério, porque do contrário o público se sente um palhaço. 20 reais, mais quase 10 de estacionamento, são quase 30 reais jogados fora.

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