16 de set de 2008

Ópera de Sangue


Real de menos


Se eu fosse um criado de vampiro que ama o seu mestre, eu o aconselharia dessa forma. Se eu fosse uma vampira, que, no fundo, morre de ciúmes do seu mestre, eu me movimentava assim. Se eu fizesse parte de uma corja de seguidores de uma vampira de segundo escalão, eu andava assim. Se eu fosse um vampiro cansado da imortalidade minha voz seria assim. Se eu fosse uma donzela que estivesse super afim de ficar com um vapirão, eu me entregaria a ele desse jeito. Se eu estivesse num musical a la Broadway, eu cantaria assim. Se eu tivesse tarefa de ritmar uma cena chata, eu bateria minhas baquetas dessa forma. Se eu tivesse que expressar cavernice, esconderijo, sombridão, eu roncaria num microfone com essa intensidade. Minha maquiagem, se eu estivesse numa peça a la Expressionismo Alemão no melhor jeito Macdonalds de ser, seria dessa maneira que eu estou te mostrando. É. Se eu fosse... Porque eu não sou. Eu sou “Ópera de Sangue”, produção da Companhia Teatro Novo.
Christian Metz, lá nos anos sessenta, traça um paralelo bem interessante entre cinema e teatro. Diz o seguinte: “É talvez por ser o teatro excessivamente real que as ficções teatrais dão apenas uma leve impressão de realidade; ou então o contrário: conforme Jean Leirens, a impressão de realidade que o filme nos dá não se deve de modo algum à forte presença do ator, mas sim ao frágil grau de existência destas criaturas fantasmagóricas que se movem na tela incapazes de resistir à nossa constante tentação de investí-las de uma “realidade” que é da ficção (noção de “diegese”), de uma realidade que provém de nós mesmos, das projeções e identificações misturadas à nossa percepção do filme.” (METZ, 1977)
Assim, “Ópera de Sangue” é um bom ensaio para um filme. É fácil imaginar planos, cortes, movimentos. E efeitos! As lutas sem toque, as facas sem sangue, as mordidas sem feridas... Convenções que são aceitas no teatro, mas que não se justificam nos paradigmas que o espetáculo mesmo se propõe a construir, e não consegue, da primeira à última cena. Para quê os andaimes? É uma convenção que significa o quê? Se de um lado a direção de Radde nos pede uma participação no jogo teatral para aceitar certas ausências, de outro nos impõe sobretudos, meneios de mãos e choro.
Andrew Lloyd Weber, em Londres, ou Charles Moeller, no Rio-São Paulo, fariam de “Ópera de Sangue” um espetáculo de algumas semanas. Ingressos a R$80 e R$120 reais lhes dão o poder de construírem bolsos falsos e facas que simulam o enterro em fracos corações. Rios de fumaça, cenários que sobem e desce, e uma orquestra que seja: a produção mínima exigida por um texto sydfieldiano estruturalista ao extremo. Mas também não dariam a dramaturgia que interessa ao público de hoje. Como musical, os números de "Ópera de Sangue" são anteriores à Singing in the Rain (1951) quando a ação passou a participar das músicas tanto quanto a emoção dos personagens. (Moulin Rouge (2001) moderniza ainda mais gênero trazendo para a música, além da emoção e da ação, a hipertextualidade!) Assim, como filme, a história protagonizada por Leonel Radde e Letícia Paranhos seria um musical cuja agradabilidade dependeria unicamente da quantidade de dólares investida na distribuição/divulgação.
Os atores são afinados. Os figurinos bonitos. Mas do programa à narração, não é de teatro que estamos falando e isso justamente porque falta de nós, público, responsabilidade na constituição dos sentidos, esses todos já fechados e entregues, disponíveis apenas para a relação de identificação de que Metz falava (mal) quando teorizava sobre os filmes de cinqüenta anos atrás.
Há uma exceção nos sessenta minutos desse espetáculo tão caro ao seu grupo: João Acir, o ilumindor, faz teatro quando, no fim de tudo, nos pede para acreditarmos na luz do sol que ilumina primeiro o castelo de Cristan e, depois, nós mesmos. E nos convida a acreditarmos no poder do amor como aquele que nos liberta de todas as maldições. Eu acredito.
(METZ, Christian. A significação no cinema. São Paulo: Perspectiva, 1977. p.23)
ELENCO
Leonel Radde
Letícia Paranhos
Dejayr Ferreira
Ellen D'àvila
e
Álvaro Rosacosta
Aline Jones
Gustavo Razzera
Daciara Collor
FICHA TÉCNICA
Texto e Direção: Ronald Radde
Direção de Atores: Lúcia Bendati
Diretora de Produção: Ellen D'ávila
Trilha Sonora e Preparação Vocal: Simone Rasslan
Letras: Ronald Rahde e Simone Rasslan
Banda: Calibre
Preparação Corporal: Letícia Paranhos
Coreografias: Jussara Miranda
Maquiagem: Cláudia Etchel e Dayse Pilla.
Figurinos e Direção de Arte: Daniel Lion
Cenário: Ronald Rahde e Hildemar Cavalheiro
Iluminação:João Acir

15 de set de 2008

Os Saltimbancos


Crianças de 40 minutos


Há lugares onde animais não podem entrar. Em outros, o acesso de adultos não é permitido. No primeiro, os bichos têm que adquirir funções de humanos, essas externas a eles. Na segunda situação, nós, adultos, temos uma ótima desculpa para tirarmos de dentro de nós mesmos uma criança que, entre várias idades, às vezes, fica meio perdida na quantidade de roupas que usamos. Shorts, conga e camiseta listrada. Bonequinho do Comandos em Ação e, na cabeça, transação ultra secreta sobre uma rolimã que eu estou muito afim, mas que deusolivre minha mãe saber: fui eu ver “Os Saltimbancos”!
Um toque de campainha. Gritos. Palmas. Excitação. Outro toque seguido de um segundo. Wow! Um medo misturado com alegria. Uma narração e... Outro toque acompanhado de outro e mais outro terceiro. Meldeuz! A peça vai começar! Susto e louca vontade de que tudo aconteça logo! E, então, começa.
A euforia das crianças que esperam a história chegar me fez pensar sobre o medo dos toques de campainha, que são três, sempre num clima de pavor do novo e de prazer da aventura, tudo isso misturado como num milkshake doce e gelado. No fundo, eu também estava louco para ver, mais que ouvir, as músicas de Chico Buarque.
A Companhia Teatro Novo já tinha quase dez anos quando Chico Buarque (e, se Álvaro Rosacosta não se engana, Sérgio de Carvalho) produziu e adaptou as músicas de Luiz Enriques Bacalov e as letras de Sérgio Bardotti Bardotti para a história inspirada no conto “Os Músicos de Brehmem”, dos Irmãos Grimm. E já tinha trinta anos quando montou o espetáculo pela primeira vez. No aniversário de quarenta anos, temos o espetáculo de novo em cartaz, mostrando que são quatro, e não três, os toques que dão início ao espetáculo. Burro, Cachorro, Galinha e Gata são as campainhas dessa história que já nasce com a gente.
Afeição. Doçura. As interpretações são simples. Álvaro RosaCosta, Leonel Radde, Suzana Schoellkopf e Lucia Bendati incorporam gestos já cristalizados na convenção dos animais: a galinha que bota o rosto para frente, a gata que é leve, o cachorro com a parte superior das mãos viradas para cima, o burro pesado, lento e duro. Não precisa mais que isso para que os identifiquemos como bichos e os deixemos entrar. Os barões e bailarinos, por sua vez, cobram de nós infantilidade suficiente para termos medo nas cenas de batalha e alegria nas danças que executam. Se passamos no teste, podemos nos divertir. Em, sim!, passamos pela prova e curtimos a montagem dirigida por Ronald Radde.
Mas tudo dura muito pouco... Quarenta minutos se passam e somos de novo adultos chatos e moribundos a nos perguntar o porquê de uma iluminação que deixa tantas vezes a história no escuro e a razão, ou falta dela, de um figurino que deixa tanto a desejar. Tecidos que não refletem a luz e têm tamanho apropriado ao personagem e aos atores melhorariam muito! Sem falar na beleza plástica da peça (cenário, luz e maquiagem), com cores e brilhos que estão tão aquém do musical de Chico e das interpretações dos seis heróis (faltou citar Gustavo Curti e Aline Jones) - atores que nos divertem com o sua agilidade em fazer tanto em tão pouco.
Se as notas são sete, todas elas devem entrar na pauta. Para isso, precisa-se que elas deixem de ser meras bolas e passem a ser tons! Se Ronald Radde, de história teatral indiscutível, é a clave e os atores dão o ritmo, onde está melodia que encheria de graça e de alma não só as crianças de sempre, como também as crianças de quarenta minutos?
Se me tornei criança para entrar no Teatro do DC e me divertir a beça, esquecendo até mesmo do rolimã, vai o recado de que não quero sair de lá tão cedo.
__________

ELENCO:

Álvaro RosaCosta
Susana Shoellkopf
Lúcia Bendati
Leonel Radde
FICHA TÉCNICA
Direção: Ronald Radde
Direção de Produção: Ellen D'ávila
Coreografias: Jussara Miranda
Figurinos: Titi Lopes
Cenografia: Rodrigo Lopes
Bonecos: Paulo Balardin
Iluminação: João Acir

9 de set de 2008

Comédia dos Erros - Cia Stravaganza

foto: divulgação


Comédia dos nossos Erros



Então, Lauro Ramalho, ou Laurita Leão, ou seja lá que mulher, homem, travesti ou personagem que for faz um círculo pela cena olhando muitos de nós nos olhos. Senta-se em sua cadeira, a luz escurece sobre nós e aumenta sobre ele. É ele quem dá a ordem: somos o que somos, vivemos onde vivemos, moramos onde moramos e assistimos ao que assistimos. Será?

Eu fui para ver uma comédia. Eu fui para um teatro. Eu fui para ver Shakespeare. Não lembro de Wim Wenders, autor do texto de abertura, fazer comédia no cinema e, muito menos, no teatro. O Studio Stravanganza é um galpão onde as cadeiras, embora branquinhas, são do tipo “praia”. E Shakespeare? Shakespeare não estava lá.

A história começa com um caminho sendo traçado no chão. Um caminho construído com textos, ou restos deles, que foram usados pelos atores na composição do espetáculo. Uma rua. Uma viela. Um caminho que se desfaz na tempestade do mar. Os atores entram e pegam novamente os textos do chão e batem as folhas já gastas umas contra as outras. O texto se perde na tempestade que gera o conflito que gera a ação que, nessa peça, gera o espetáculo. Dois pares de bebês gêmeos, um par de patrões e um par de escravos, se perdem de seus pais que também, por sua vez, são separados para sempre. Crescidos são bem conhecidos nas cidades inimigas onde moram: Éfeso e Siracusa. O Antífolo de Siracura, para conhecer o mundo, resolve partir até chegar clandestinamente na cidade onde, sem nem saber que ele existe, tem um irmão. O pai, sem saber também para onde o segundo filho foi, resolve trilhar o mesmo caminho e chega ao mesmo lugar. É em Éfeso que o nó talvez se desfaça.

O gêmeo não sabe que é gêmeo. O filho não sabe onde estão seus pais. Os pais não sabem onde estão seus filhos. A esposa espera pelo marido que não chega. A cunhada não sabe o que é o casamento. O escravo não sabe o que é a liberdade, mas nós sabemos que estamos vendo, já conformados por não estarmos vendo uma comédia, num teatro, escrita por Shakespeare.
Eis que vem o riso solto de quem caminha na rua e vê ou ouve algo que simplesmente lhe desperta a vontade de rir. Eis que entramos na história sem moldura de palco italiano, o conforto de cadeira de veludo também italiano e nos divertimos com um grupo de atores que, embora gaúchos e não italianos, estejam tão bem em suas performances. Eis que nos damos conta de que a pessoa de Shakespeare a quem, elitistas e intelectualóides que somos, nos gabávamos querer encontrar, morreu há séculos, mas o seu texto está vivo em rima e em verso, em ritmo e em imagem, em trama, em sentimento e em pensamento. E aí vem o resto.

A gente pode ter começado com a dúvida “eu sou quem eu sou?”, mas saímos com alguma certeza: não há o que destacar de “A Comédia dos Erros”, produção que faz parte dos 20 anos da Companhia Stravanza. Se for falar do figurino, há que se falar dos objetos e da maquiagem. Se da luz, teremos que falar do cenário, parte do qual somos, figurantes de um mercado em que nós mesmos podemos comprar. Se da trilha, seja a música de Monica Tomasi, ou da sonoplastia incidental, incluindo as vozes dos atores sem coxia que participam integralmente da história o tempo todo, teremos que falar das vozes dos atores. Se dos atores, somos obrigados a falar da direção de Adriane Mottola. Então, essa crítica se tornaria outro texto, cheio de tramas e honras, de detalhes e chatices. Por hora, convém apreciar os movimentos de Gustavo Curti e Rodrigo Mello, o deboxe de Lauro Ramalho, ele mesmo um personagem, os olhos de Carlos Alexandre, Sofia Salvatori e Janaina Pelizzon e todas as cores com que Anita Coronel, Kike Barbosa e Adelino Costa ajudam a pintar essa Comédia dos Erros, que, só é boa por não ter pensado em acertar nada além do alvo.

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Ficha Técnica:

Direção: Adriane Mottola
Tradução: Bárbara Heliodora
Elenco: Sofia Salvatori, Gustavo Curti, Carlos Alexandre, Lauro Ramalho, Fernando Kike Barbosa, Adelino Costa, Janaina Pelizzon e Anita Coronel
Iluminação: Fernando Ochôa.
Trilha sonora original: Mônica Tomasi.
Preparação corporal: Jezebel de Carli.
Preparação vocal: Gisela Habeyche.
Figurinos: Coca Serpa.
Cenário: Élcio Rossini.
Programação visual: Rodrigo Mello

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