26 de out de 2009

Filhote de cruz credo

foto: Marcelo Nunez

Cruz credo!


Meu nome não é Fabrício, mas é Rodrigo. Quanto à beleza, a única coisa que me faz lembrar com prazer da minha infância é de que ela já passou e hoje eu sou menos feio do que era quando criança. Tive, além e por causa disso, dezenas de apelidos. Quando bem pequeno, morava na Paulista e estudava no Ibirapuera, ou seja, nem um pouco perto de nenhum coleguinha/amigo meu. Depois, fui morar na Represa do Guarapiranga, na saída de São Paulo, mais longe ainda de tudo e de todos, o que me fez crescer bastante sozinho. Quando achei que teria vida social, minha família me trouxe para o interior de Gravataí. Tudo ótimo, não fosse o fato de que o único esporte que eu praticava bem dependia de uma piscina que só fui ter dois anos depois no fundo do pátio. Sempre odiei futebol e sempre gostei de ler e de assistir a “teatrinho” e era, nos finais de semana, coroinha na igreja do bairro. Tudo isso junto às minhas excelentes notas no colégio não faziam de mim um cara muito popular... O pior mesmo era o sotaque, pelo qual levava tapas dos meus meio-irmãos sempre que eles vinham me visitar. Enfim, achei que ia gostar muito de “Filhote de cruz credo”, direção de Bob Bahlis, por ser potencialmente um espetáculo que me faria lembrar dos dissabores da infância que graças a deus já passou. Mas não foi o caso.

Me tornei professor aos dezessete anos e, até os vinte e cinco, sempre dei aula para crianças do pré à quarta série, além dos maiores algumas vezes. Considerando o fato de fazer trinta em janeiro, esse período não é muito distante de agora. E fiquei assustado com a imagem que o grupo apresenta da infância. Espetáculo infantil, de um modo geral, é sempre bastante complicado como conversávamos no interessantíssimo Bate Papo com Orlando Miranda no Teatro São Pedro, que infelizmente teve um público bastante reduzido. O problema maior dessas concepções é que são embasadas sempre numa criança imaginária. A criança é, sem exceção, uma construção de um adulto. Fica-se sempre no tentar imaginar como uma criança veria a obra. O mesmo não acontece com um espetáculo adulto, quando o grupo produz aquilo que quer e que gosta. Pois fiquei com medo da criança imaginária de Bahlis e seu grupo. Cruz credo!

O cerne do problema está no julgamento. A infância, mesmo que cada vez menor, sendo engolida pela adolescência como também tem sido a adultez, continua como sempre: desprovida de capacidade de julgar. A criança descobre, não julga. Ela experimenta, sente, vive. O adolescente de dez anos de hoje também não julga: ele forma grupo. O bullying, que é mais utilizado como chamariz pro espetáculo (mal comercial) do que proposta de reflexão, não acontece na infância como acontece entre os jovens. Uma criança não chama outra com apelidos ofensivos porque realmente acha o colega feio, efeminado, ou burro. Faz isso porque 1) quer saber (descobrir) como é a reação do outro e como ele mesmo reage ao pronunciar a ofensa; e 2) quer acompanhar os demais colegas, formar grupo, assumir a liderança. Não se trata de maldade, porque também não se trata de bondade. Um aluno das séries iniciais não traz maçãs e flores para o professor porque é querido e bonzinho. Não elogia ninguém para agradar. Assim, como não é mal, também não é bom. É apenas criança.

A paleta de cores é horrivelmente escura: cinza e preto até no vestido da professora. O irmão mais velho do protagonista, o personagem Rodrigo (Marcelo Naz) traz a camisa aberta até o meio do peito numa estética que é de terrível mal gosto. O mesmo se dá com o cenário que nunca se modifica composto de espelhos quebrados, com a trilha musical dublada pelos atores, e com a iluminação que muito mais prejudica do que ilumina.

Olhando para as interpretações, esquecendo por hora a dramaturgia, vamos encontrar, se fecharmos os ouvidos para a imensa e inútil quantidade de cacos inadequados enfiados no texto, construções superficiais que não chegam a desagradar. Fabrício e Alice (Guto Szuster e Rafaela Cassol) são os que obtém o melhor resultado pela força que têm seus personagens: o protagonista e a antagonista que, depois, vira musa. Ambos conquistam o público, o que não deixa de acontecer também com a mãe/ professora e com a narradora (Laura Medina e Daniele Fogliatto), o que é bastante bem-vindo e grato. Marcelo Naz, no entanto, presta um desserviço à obra, e ao teatro infantil, pelo excesso de ironia e histrionice.

O pior de tudo está no texto e na paupérrima construção coreográfica. Vi três meninas conversando sobre o espetáculo na saída e resolvi parar e apostar no que eu tinha percebido. Confirmei: não se entende, ou não se quer entender, a que o espetáculo vem. Refletiam as meninas: “a peça quer dizer que Fabrício se achava feio, mas que, no fundo, não é”. Errado, avalio eu, que perdôo as meninas por considerar difícil de aceitar a realidade. Na concepção dramatúrgica apresentada, Fabrício é mesmo feio, ele não só se acha. E essa é justamente a frase da última música do espetáculo: “Fabrício é feio!”

Sem pensar em Fabrício Carpinejar, autor do livro que foi inspiração para o espetáculo cênico e a forma como o poeta tratou sua própria infância na literatura (que eu não li e nem fiquei com vontade de ler), quero lembrar o que disse no início. A frase “Fabrício é feio!” só pode ser considerada em seu sentido denotativo como uma fala de adulto. Uma criança só é realmente feia aos olhos de quem tem senso crítico para julgar. Tanto a criança como o pré-adolescente, me repetindo, só usaria uma expressão como essa pela forma, pelo efeito e, impossivelmente, pelo conteúdo. Minha mãe gorda e o fusca do meu pai sempre, durante toda a minha infância, foram melhores do que qualquer mãe e qualquer carro de pai! Assim, “Filhote de cruz credo” teria outra recepção no horário da noite, entre os espetáculos adultos e longe dessa proposta dema-pedagógica que entristece, empobrece e prejudica o teatro infantil gaúcho.

E aqui estou falando de adulto para adultos.

De novo: cruz credo!

*

Ficha técnica:

Direção e adaptação: Bob Bahlis
Peça adaptada do livro de Fabrício Carpinejar: Filhote deCruz-Credo: A Triste Historia Alegre de Meus Apelidos

Elenco:
Gutto Szuster
Laura Medina
Daniele Fogliatto
Marcelo Naz
Rafaela Cassol

Direção Musical: Bruno Suman
Figurinos: Rô Cortinhas
Cenário: Marco Francoviaki
Produção: Beto Mônaco e Bob Bahlis
Iluminação: Marga Ferreira e Carol Zimerman


25 de out de 2009

Como emagrecer fazendo sexo

foto: divulgação

Permitir

Acho que ninguém tem o direito de não se permitir. Você pode não querer fazer algo, não precisar viver that experiência ou até detestar pressão alheia sobre coisas que não fazem parte do seu universo. Mas achar que não tem direito a algo é looser. Abdicar de ter prazer, quando em termos saudáveis, é burrice. E ofensa ao @ocriador. Não vamos magoar nós mesmos, ok?

Dona Teresa abdicou várias vezes do chopp, da sobremesa e, pior!, da polentinha frita. Substituiu tudo isso por dietas, remédios, treinamentos, vômitos forçados. A magreza objetivo acabou nunca sendo alcançada. O limite caminha, anda, muda de lugar. Fica sempre mais distante. O prêmio? A opinião de uma amiga, um comentário de um rapagão, bibibi, enquanto outras amigas e outros rapagões semi-calados podem pensar bem o contrário dos falantes. Quando, no teatro porto alegrense, a história de Teresa começa a nos ser contada, já não estamos no início do fim dela, nem no fim dele dela. No meio, talvez. Ela está indo atrás de um médico que pode lhe explicar sua teoria sobre “Como emagrecer fazendo sexo”. E a peça, essa sim, começa aí.

Para a comédia dirigida por Airton de Oliveira, o texto de Cláudio Benevenga coloca três personagens num consultório médico a discutir sobre os benefícios contra-calóricos da prática sexual. Dr. Carlos (Pablo Capalonga), Dona Teresa (Luciana Marcon) e o assistente Rogério (Cláudio Benevenga) ocupam o tempo dramático com a construção de situações que consistem em provocações, avanços e recuos no assunto: sexo. Se quisermos buscar, nessa proposta, uma curva dramática, um aprofundamento de emoções e/ou teorias filosóficas a respeito da relação humana, vamos nos privar do riso fácil de que necessita a obra para ser. Quanto mais insistirmos, menos nos permitiremos divertir.

Uma peça que se chama “Como fazer tal coisa” não se propõe a ser um espetáculo de grande valor estético. Ao contrário do que possa parecer, isso não é preconceito. É leitura mesmo. O cenário proposto informa sobre um tempo e um lugar específico nessa passagem de milênio. Os personagens e tudo o que se refere a eles dizem sobre uma classe social, atendem a uma demanda de público pagante. O discurso estabelecido se afasta de vários itens e se aproxima de outros, relacionando-se com algo que, em alguns anos, se tornará mofado, em décadas será ridículo. “Como emagrecer falando sexo” é nosso, é do agora, é dessa época. E funciona, de um modo geral, muito bem, chegando onde queria chegar. Por que diabos alguém poderia se privar do agora, mesmo que fácil?

Pablo Capalonga, como o médico gostosão, está “duro” em cena e isso não é nenhum comentário fálico. A masculinidade de Dr. Carlos, seu personagem, não parece ser natural, mas ensaiada. Com o peito sempre aberto, os ombros rijos e quase nenhum movimento facial, o personagem parece representar um outro personagem para Dona Teresa e, consequentemente para nós, representados nela.Cláudio Benevenga, que ganhou Açorianos de Melhor Ator Coadjuvante 2005 pela construção de Rogério, está ótimo em cena, embora seu personagem apresente-se, em alguns momentos, de forma sexualmente ambígua, próximo até do animalesco. Estão, apesar de ser Teresa a protagonista, em Benevenga os melhores momentos do espetáculo. Luciana Marcon, encerrando a ficha técnica, nos ganha pelo carisma e pela linda voz, mas nos perde pela cristalização de sua personagem: reações anteriores às ações, marcações caprichosas ao invés de caprichadas, excesso de obviedades. Airton de Oliveira amarra o texto com um cenário bem funcional e uma luz suficiente ao teatro comercial que propõe. A superfície é tão valiosa como o fundo do mar. Em termos de luz, é até melhor.

Qualquer “Como” só é “Como” sendo também “Agora”. E o agora já vai passar. Sem querer levantar a bandeira do “viver a vida intensamente, cada momento, ou cinquenta e cinco minutos, como se fosse(m) o(s) único(s), me pergunto sobre que tal nos permitir permitir?

Fikadika!

*

Ficha Técnica:

Texto: Claudio Benevenga
Direção: Airton de Oliveira

Elenco:
Luciana Marcon (Teresa);
Pablo Capalonga (Dr. Carlos);
Claudio Benevenga ( Rogério)

Figurinos: Zélia Mariah
Cenário: Airton de Oliveira e Benevenga
Iluminação: Anilton Souza
Trilha Sonora: Gabriel Souza
Produção Executiva: Marcela Meirelles
Realização: Telúrica Produções

24 de out de 2009

Stand upah!

Foto: Henrique Geremia

Papo de crítico

Há um elogio que gosto muito de receber em relação ao meu blog: “eu vou ver tudo.” Sim. Não tenho qualquer tipo de preconceito e fico triste quando artistas o manifestam. Aparte o que gostamos e o que não nos dá prazer, procuro salientar o valor estético de cada obra com que entro em contato. O valor estético é objetivo, isto é, está no objeto, pertence a ele enquanto condicionamentos materiais e independe da percepção. Tem mais valor artístico aquela obra que, independente do olhar, do espaço e do tempo, conserva-se com objeto estético. O salientar, por sua vez, é subjetivo. É o meu olhar que identifica tal e tal valor (ou desvalor), sendo esse olho suscetível à mudanças constantes. Daí que Zorra Total e Pânico são programas de humor diferentes, mas ambos com valores (e desvalores) estéticos. Ficar no “eu gosto” é achar que o valor está no olho. E, só pra terminar essa parte chata, o olho só serve mesmo para olhar.

Stand upah! é um espetáculo de Stand up comedy produzido por Luini Nerva e interpretado por Eduardo Mendonça e Rafael Pimenta com seus convidados. No dia em que eu fui ver, os convidados eram Francisco de los Santos (ou Chico Perereca) e Patsy Cecato. Alex Barbosa integrava o elenco na função de Mestre de Cerimônias. Tudo é muito simples: quase sem cenário (há um abajur), uma iluminação geral, um microfone. A “concepção” que norteia a escolha da trilha age no sentido do local, do espaço: o OX, do Ocidente: barulho de garrafas de cerveja e torneira aberta de pia, freezers, porta de banheiro, cigarros e mesas. Dessa forma, o ambiente construído é de pura leveza e descontração.

Em cada arranjo descrito acima está a proposta de leveza e descontração, além de outras. Essa em específico surge da união com as demais: o som das garrafas, com as mesas, o cigarro com a iluminação, a música com o palco limpo... Nem sempre consciente, cada sensação é traduzida em conjunto com as demais. O sistema stand up comedy, aqui atualizado em “Stand Upah!”, começa a ganhar força. O mesmo acontece com Molière, Shakespeare, Diones Camargo ou Jurandyr Pereira. O processo é o mesmo.

Incluindo o Mestre de Cerimônias como parte do elenco, a mim chega a sensação de que Francisco de Los Santos apresenta um ato diferente dos outros quatro. O primeiro a assumir o microfone da noite não vem de “cara limpa”. Santos apresenta um personagem, o professor Isaías. Há um figurino bem marcado, o ator usa um flipchart como auxiliar e sua apresentação tem um início, um meio e um fim bem definidos. Por ser um quinto da programação, ou seja, por ser parte de um todo, essa parte, por apresentar-se como é, é a que menos colabora com o sentido. Leia-se: enquanto todas as flechinhas objetivas apontam para um lado, meu olhar nota e chama a atenção para o fato de que as flechinhas de Isaías apontam para outro.

Embora haja uma quebra de Francisco de Los Santos para Patsy Cecato, é possível (pela existência de valor) notar que há um crescente na forma como o espetáculo, um todo, se apresenta. Um crescente com relação à coerência, à convergência dos sentidos, o que não tem nada a ver com avaliar um melhor do que o outro. Cecato conserva um figurino vermelho e um encerramento bem marcado. Mas sua personagem, “a Mulherzinha” (?) já não está presa a uma narrativa e se movimenta na relação ator-público de forma muito mais direta. Alex Barbosa, ao anunciar o intervalo, apresenta o personagem “Nerd” que já é construído em cima da roupa que o ator veste, óculos e camisa, numa apresentação quase acidental. Rafael Pimenta chega sem um dos tennis e já começa como um personagem. Um personagem que dá lugar a outro, e outro e muitos outros, às vezes, todos ao mesmo tempo. Eduardo Mendonça termina a noite sem personagem nenhum, ocupando a parte que lhe cabe no espetáculo apenas com piadas e comentários soltos. Embora não haja uma assinatura de direção, é muito interessante perceber essa evolução.

Se utilizarmos a questão inicial de leveza e descontração como filtro para os quadros que se apresentam, chegaremos à coerência apontada. As expressões faciais e a movimentação (bastante importantes para Pimenta e Cecato, nem tanto para Mendonça e Barbosa), a coesão dramatúrgica (notória em Cecato, menor em Pimenta, inexistente em Mendonça) e a relação plena com o público (incrivelmente requisitada em todos os “números”) definem o gênero e amparam a produção como cheia de qualidades por sua coerência. Em se tratando de um stand up comedy, no entanto, coerência é mais papo de crítico do que um conteúdo a ser visto. Interessa mesmo é ser divertido e isso todos os atores, para mim, foram.

Como ser divertido é um elogio que quase nunca eu recebo em relação ao blog, sugiro que assistam a“Stand Upah!” para dar uma balanceada na vida.

Rsrsrsrs

21 de out de 2009

A menina das estrelas

foto: Lisa Ross

Pedidos

Há um curta-metragem rodando na internet chamado “Nós estamos aqui: o pálido ponto azul” cujo texto e narração são de Carl Sagan, biólogo, astrônomo e astronauta norte-americano falecido em 1996. Começa assim:

“De Saturno, a Terra apareceria muito pequena para a Voyager apanhar qualquer detalhe. Nosso planeta seria apenas um ponto de luz, um "pixel" solitário, dificilmente distinguível de muitos outros pontos de luz que a Voyager avistaria: planetas vizinhos, sóis distantes. Mas justamente por causa dessa imprecisão de nosso mundo assim revelado valeria a pena ter tal fotografia.”

Um ponto de luz, um pixel solitário é a Terra do ponto de vista de Saturno. Nós, um ou dois, entre mais de seis bilhões, dividimos esse grãozinho de pó com animais, oceanos e montanhas, florestas e nossas próprias construções. E, por mais guerras, doenças, choros e lamúrias, somos um ponto de luz e não um traço de escuridão. Para um habitante de Saturno ou planetas não descobertos além, somos estrela. E só somos enquanto Terra.

Não é preciso ter visto o filme para saber disso. Quando assisti "A meninas das estrelas", da Cia. Teatro Novo, não tinha entrado em contato com a mensagem do astronauta ainda. Mas fiquei pensando no pastorzinho Patu (Cassiano Fraga) que quer ter uma estrela só para ele. Haverá também um partorzinho em Saturno nos querendo como sua estrela também? Se ele apontar para a Terra irá (terrível) nascer-lhe uma berruga no nariz? Sendo Pilí (Fernanda Santos) a estrela pedida, não será ela também um planeta inteiro, cheio de mares e bichos, vidas e ausências? Sem dúvida, o curta nos ajuda a dar continuidade para o sentido levantado pelo excelente espetáculo infantil (mas não só para crianças) dirigido por Ronald Radde, sua produção mais bem acabada a que tive o privilégio de assistir esse ano (e para o qual convido os leitores). Busquemo-nos no palco como estrelas pedidas, e peçamos nós também uma estrela, se acaso já não temos uma.

Gipogá, porém, já tem a sua. Ele é o morador da floresta que pensa já não haver seres humanos no mundo. Vive para seus animais, para a suas plantas e passa o dia plantando sementes raras. É ele quem nos recebe, nós, donos dos olhos que talvez sejam, nessa ficção de Jurandyr Pereira, as estrelas de que falam os personagens. Mas estrelas não falam. E Gipogá, como ele mesmo lindamente diz, sente. "Sente mesmo!" Sente falta de companhia, sente falta de um amigo, de um filho, de alguém que possa completar-lhe as frases, caminhar junto, responder-lhe no mesmo ou noutro ritmo. Gipogá não pede uma estrela, agradecendo a que tem. Pede, sem fazer complicação, alguém como ele.

Lúcia Bendati, e ninguém faria melhor do que ela, interpreta Gipogá. Doce e brincalhona, a atriz constrói esse "mestre de cerimônias da narrativa" como alguém que, por si só, já pode ser considerado uma estrela. Seu personagem tem cor, tem peso, tem graça. É forte o bastante para conduzir, humilde o necessário para amparar. Não é o protagonista, mas faz protagonizar a história. Sendo ele uma criação textual de Pereira e de direção cênica de Radde, está no carisma da atriz a responsabilidade final para esse personagem tão marcante.

Não há, é preciso ressaltar, um só personagem sem lugar nessa história tão bem contada. Além de Gipogá, o espantalho Dundé (Karen Radde) quer algo. E o que quer, mesmo para um personagem de cabelos verdes, não se alcança assim facilmente, o que enaltece a qualidade do texto, também composto pelo vilão Bolé (Vinícius Caurio). Embora sem força em alguns momentos, quando o ritmo cai, esses divididos com Fernanda Santos, o ator, bem como atriz, deixam-se levar pelos personagens dando a eles uma agilidade física e graça. O protagonista Patu, Cassiano Fraga, concentra, por sua vez, a delicadeza que marca toda a concepção, e confere ao seu personagem, o carisma de um herói sem ambições: doce, leve e interessante.

Cheia de elogios que se repetem, "A menina das estrelas" chega ao universo dos olhares da Sala Carmen Silva anelado por um lindo cenário (Júlio Freitas) que homenageia a produção do mesmo espetáculo em 1974 (Alfredo Radde). A concepção, apesar da constante luz azulada dos refletores e das canções dubladas, deixa claro que não é atoa que a Cia. Teatro Novo comemora 41 anos. É nítido, nesse espetáculo, o esforço em dar ao público o melhor elenco, além de soluções estéticas adequadas que, apesar das margens, investem pesado na significação incialmente proposta pelo texto.

Como é (e era) de se esperar, nem todos os personagens conseguem o que querem e o objetivo disso, numa boa, velha e segura obra dramática, nada mais é do que dar continuidade e existência para novas histórias. Não somos estrelas de qualquer um. Nem, como o pastorzinho, queremos qualquer estrela. Queremos a que nasceu para nós, a que foi produzida, ensaiada, concebida e apresentada especialmente para nós.

Uma que, quando caia, possa realizar nosso desejo.

Fechei meus olhos. Fiz.

*

Ficha Técnica:

Texto: Jurandyr Pereira
Direção: Ronald Radde
Direção de Produção: Ellen D´Ávilla
Trilha sonora original: Álvaro RosaCosta
Figurino: Titi Lopes
Preparação Corporal: Letícia Paranhos
Coreografia: Saionara Sosa
Cenários: Júlio Freitas, Alfredo Radde.
Iluminação: Osmar Montiel

Elenco:
Lúcia Bendati
Karen Radde
Fernanda Santos
Vinícius Cáurio
Cassiano Fraga

17 de out de 2009

Para F. K.

Sempre um milagre

Outro dia li (lembrei) a origem etimológica de “compartilhar”. A palavra “pão” está dentro dela. Como também em “repartir”.

- Eu dou uma metade do pão para você. E fico com a outra parte.

Dei a outra metade do pão já. Às vezes, por burrice, inocência, falta de controle, dei o pão inteiro. Ou quase todo. Teve vezes, também, que, por medo, por bocabertice, por simples falta de vontade, não dei nenhuma migalhinha. Mas o pão, que se multiplica como peixes, esse todos temos: com açúcar, bem assado, seco ou até de laranja. Compartilhar não é dar algo de si, mas é dar algo consigo. Não é uma parte de nós que sai, mas somos nós quem vamos juntos numa parte. E vamos sem retorno, sem futuro planejado, sem certeza nenhuma a não de ser estar indo. Indo nesse algo escolhido, palpável, mão a mão. E alguém viaja para dentro de nossa vida. Um colega que divide apartamento, um amigo com quem tomamos um café após o cinema, um grupo que assiste e comenta uma peça conosco. O gaúcho toma chimarrão, a vovó faz tricô com a amiga, a minha mãe me liga pra dizer que me ama. O pão se multiplica assim, cestas e cestas, sem contagem possível que não o vislumbre da mente e do coração aberto.

Caio Fernando Abreu me dá o seu pão a cada vez que eu o leio. Eu o sinto apagar a luz, mas deixar uma vela acesa ou abrir a cortina para vermos o pisca-pisca da cidade noturna. Ele senta no chão sobre as pernas e coloca minhas mãos sobre os joelhos como eu cansei de fazer nos sacrários em que rezei olhando para amigos queridos, alguns deles que já nem vejo mais. Caio tem DRs com desconhecidos, me mostra que o pão é um, mas que se come em dois. E dois juntos: não se pode guardar para provar depois. Suas mãos são honestas. Suas palavras são puras, apesar das impurezas de sua alma. Um, ou quatro, conto(s) de Caio se ouve(m) com fé. São contos compartilhados.

Pablo Damian entende que, em se tratando dos contos de Caio F., não se atualiza para o palco a história, mas a situação de partilha. De compartilhamento. De repartição. Os personagens não interessam, o passado e o futuro também pouco importam. O que sustenta o projeto é o olho no olho, as mãos pousadas, o corpo sobre os pés. O que sustenta é a honestidade no teatro, como também na literatura. O mais belo na versão literária é o derramar de impulsos. O mesmo deve estar no palco. E, em certa medida, está.

Sofia Ferreira, Luísa Herter, Vivian Salva e Francine Kliemann assumem, cada uma, o universo disposto num conto do escritor gaúcho. Cada uma tem um pão para compartilhar. O trabalho de dramaturgia consiste em pôr esses pães numa mesma cesta, numa mesma mesa, numa única celebração, pois todos são partilhados e comidos juntos. E aí surgem os problemas da montagem que ganhou o nome de “Para F.K.”.

É nos discursos que as quatro figuras se encontram. E se constroem. Na produção de Damian, as quatro funcionam como lados de um mesmo desabafo, quatro momentos de uma mesma vida talvez. Ver o espetáculo dessa forma justifica e engrandece as idiossincrasias de cada atriz: quem partilha põe a si numa parte a ser dada. Podemos dizer que uma personagem se dá a ver por oposição a outras três. Uma é o que as outras não são. A dificuldade é que nem todas são.

Sofia Ferreira é. É plena em cena. Seu corpo se movimenta com o peso de quem está presa dentro de si, o que faz com que as palavras saiam como que em fuga. Há gritos, há sussurros. Há pausas e corridas. E sempre há intenção. E sempre há força. É discreta quando, na dramaturgia em jogral de Damian, não é sua vez de falar, mas puxa o foco e não nos permite olhar para mais nada quando está para brilhar.

Vivian Salva não é. Isolada das demais, o discurso lhe é equívoco. Não há energia na expressão, verdade no corpo. Como acontece algumas vezes com Luísa Herter e (menos) com Francine Kliemann, Salva anda pelo cenário como se não soubesse para onde andar, deixando claro que apenas espera a deixa para dizer o texto. O olhar é vago e a expressão indefinida.

Não fosse Caio, diríamos que a indefinição do cenário (Um bar? Uma sala? Um jardim?) e os graves erros na iluminação, bem como a presença nada contribuitiva do músico no palco, atrapalhariam a produção de sentido no espetáculo “Para F. K.”. O discurso, no entanto, é forte o bastante para sustentar e manter cativa a fruição para a qual nos convida o elenco e os figurinos. Sim, o cenário é um problema para as atrizes que usam ele porque usam, sem nenhum outro motivo. Sim, a iluminação deixa as atrizes no escuro, ilumina tardiamente, acende em lugares errados. Sim, o músico não funciona como ator interagindo com as atrizes e participando da marcação. Mas o texto é dito como em confidência e o pão é dado, verdadeiramente ou não. E nós o comemos com o gosto da fome.

É certo que a fome sempre deixa os sabores mais aguçados e, consequentemente, os pratos mais saborosos. A fome é humana. E é ela quem realça a beleza da cena final, o melhor momento da direção, tão acanhada até aqui, de Pablo Damian. Respeito às palavras, respeito aos sentimentos, respeito à fruição. Respeito ao humano cujo deus faz o milagre. E partilha, quando quer, o pão que lhe é oferecido por primeiro. Quatro lados, quatro espelhos, quatro formas de terminar. Mas todas elas muito humanas, muito fortes, bastante profundas e, graciosamente, simples.

Aqueles a quem dei meu pão, ou o neguei, já foram embora expulsos ou por seus próprios pés. Um que outro ficou e fica. Outros virão.

Caio e, agora, Pablo são fermento.

*

Ficha Técnica:
Texto: Caio Fernando Abreu

Elenco: Francine Kliemann, Luisa Herter, Sofia Ferreira e Vivian Salva

Direção: Pablo Damian
Orientação de Luciana Éboli.
Músico Convidado: Léo Apratto
Trilha Sonora: Léo Apratto e Ian Ramil
Criação de Luz: Ian Ramil e Cláudia de Bem


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