24 de out de 2009

Stand upah!

Foto: Henrique Geremia

Papo de crítico

Há um elogio que gosto muito de receber em relação ao meu blog: “eu vou ver tudo.” Sim. Não tenho qualquer tipo de preconceito e fico triste quando artistas o manifestam. Aparte o que gostamos e o que não nos dá prazer, procuro salientar o valor estético de cada obra com que entro em contato. O valor estético é objetivo, isto é, está no objeto, pertence a ele enquanto condicionamentos materiais e independe da percepção. Tem mais valor artístico aquela obra que, independente do olhar, do espaço e do tempo, conserva-se com objeto estético. O salientar, por sua vez, é subjetivo. É o meu olhar que identifica tal e tal valor (ou desvalor), sendo esse olho suscetível à mudanças constantes. Daí que Zorra Total e Pânico são programas de humor diferentes, mas ambos com valores (e desvalores) estéticos. Ficar no “eu gosto” é achar que o valor está no olho. E, só pra terminar essa parte chata, o olho só serve mesmo para olhar.

Stand upah! é um espetáculo de Stand up comedy produzido por Luini Nerva e interpretado por Eduardo Mendonça e Rafael Pimenta com seus convidados. No dia em que eu fui ver, os convidados eram Francisco de los Santos (ou Chico Perereca) e Patsy Cecato. Alex Barbosa integrava o elenco na função de Mestre de Cerimônias. Tudo é muito simples: quase sem cenário (há um abajur), uma iluminação geral, um microfone. A “concepção” que norteia a escolha da trilha age no sentido do local, do espaço: o OX, do Ocidente: barulho de garrafas de cerveja e torneira aberta de pia, freezers, porta de banheiro, cigarros e mesas. Dessa forma, o ambiente construído é de pura leveza e descontração.

Em cada arranjo descrito acima está a proposta de leveza e descontração, além de outras. Essa em específico surge da união com as demais: o som das garrafas, com as mesas, o cigarro com a iluminação, a música com o palco limpo... Nem sempre consciente, cada sensação é traduzida em conjunto com as demais. O sistema stand up comedy, aqui atualizado em “Stand Upah!”, começa a ganhar força. O mesmo acontece com Molière, Shakespeare, Diones Camargo ou Jurandyr Pereira. O processo é o mesmo.

Incluindo o Mestre de Cerimônias como parte do elenco, a mim chega a sensação de que Francisco de Los Santos apresenta um ato diferente dos outros quatro. O primeiro a assumir o microfone da noite não vem de “cara limpa”. Santos apresenta um personagem, o professor Isaías. Há um figurino bem marcado, o ator usa um flipchart como auxiliar e sua apresentação tem um início, um meio e um fim bem definidos. Por ser um quinto da programação, ou seja, por ser parte de um todo, essa parte, por apresentar-se como é, é a que menos colabora com o sentido. Leia-se: enquanto todas as flechinhas objetivas apontam para um lado, meu olhar nota e chama a atenção para o fato de que as flechinhas de Isaías apontam para outro.

Embora haja uma quebra de Francisco de Los Santos para Patsy Cecato, é possível (pela existência de valor) notar que há um crescente na forma como o espetáculo, um todo, se apresenta. Um crescente com relação à coerência, à convergência dos sentidos, o que não tem nada a ver com avaliar um melhor do que o outro. Cecato conserva um figurino vermelho e um encerramento bem marcado. Mas sua personagem, “a Mulherzinha” (?) já não está presa a uma narrativa e se movimenta na relação ator-público de forma muito mais direta. Alex Barbosa, ao anunciar o intervalo, apresenta o personagem “Nerd” que já é construído em cima da roupa que o ator veste, óculos e camisa, numa apresentação quase acidental. Rafael Pimenta chega sem um dos tennis e já começa como um personagem. Um personagem que dá lugar a outro, e outro e muitos outros, às vezes, todos ao mesmo tempo. Eduardo Mendonça termina a noite sem personagem nenhum, ocupando a parte que lhe cabe no espetáculo apenas com piadas e comentários soltos. Embora não haja uma assinatura de direção, é muito interessante perceber essa evolução.

Se utilizarmos a questão inicial de leveza e descontração como filtro para os quadros que se apresentam, chegaremos à coerência apontada. As expressões faciais e a movimentação (bastante importantes para Pimenta e Cecato, nem tanto para Mendonça e Barbosa), a coesão dramatúrgica (notória em Cecato, menor em Pimenta, inexistente em Mendonça) e a relação plena com o público (incrivelmente requisitada em todos os “números”) definem o gênero e amparam a produção como cheia de qualidades por sua coerência. Em se tratando de um stand up comedy, no entanto, coerência é mais papo de crítico do que um conteúdo a ser visto. Interessa mesmo é ser divertido e isso todos os atores, para mim, foram.

Como ser divertido é um elogio que quase nunca eu recebo em relação ao blog, sugiro que assistam a“Stand Upah!” para dar uma balanceada na vida.

Rsrsrsrs

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