8 de out de 2009

Pé de Pilão

Foto: Eneida Serrano

Elas estão lá

O que é o teatro se não uma folha em branco a preencher? Um preencher que leva tempo no processo e ocupa espaço na pasta, na memória, no coração... Em minha vida, acumulei muitas memórias e já me sentei em muitas platéias (só em setembro foram 21!) pra pensar nelas e, ao mesmo tempo, produzi-las. Em cada momento desses, me encanto com a forma como o universo, que um dia foi entendido como uma separação, se compõe de junções, de união, de aproximações. Se o mundo é pequeno como dizem (e, talvez, cada vez menor), é porque mais próximos de tudo estamos. Ou mais tudo aproximamos.

Quando Cláudio Levitan, Ed Lannes, Eduardo Mendonça, Pâmela Amaro e Melissa Arievo entraram no palco do São Pedro vestidos com fardas coloridas, rapidamente aproximei deles minha lembrança da Banda Marcial do Colégio Dom Feliciano, da qual tive a honra de participar tocando lira quando era ainda adolescente. Quem nunca assistiu à apresentação de uma Banda Marcial desse talvez não entenda a música do Chico naquele trecho que diz: “A moça feia debruçou na janela pensando que a banda tocava pra ela.” Os músicos todos fardados, instrumentos bem polidos em punho, olhar filme e passos fortemente marcados enchem a rua, enchem a praça, impõem o som como mais forte que o barulho do ônibus, do vendedor ambulante, que a tristeza. Dirigidos por Mário de Ballentti, a turma do Pé Quente faz, por alguns momentos em separado, faz as crianças, alheias as regras da convivência social e preocupadas com o lustre escurecido e os três toques da campainha, silenciarem e focarem-se no palco. A entrada é o primeiro, mas não único, convite.

E eu sou convidado para mais uma história, para mais uma aventura, para mais um espetáculo. Para mais uma aproximação. Consigo, de uma forma não muito aprofundada (e filosoficamente ultrapassada), visualizar dois jeitos de amarrar o que aproximamos: ou é pelo sentimento ou é pela razão. Minha proposta, para não ficar no que já passou, é ver as cordas, as amarras que aproximam nossas atenções, unindo elas aquilo a que essa Turma me (nos?) convida.

É pelo sentimento que me aproximo das fardas coloridas, pois as cores enchem os meus olhos de alegria. Também é por lá que me encanto com as lindas melodias tão bem interpretadas pelos atores-músicos-cantores. O cenário, por sua vez, usando formas que me pareceram nuvens, dá a sensação de leveza, de amplidão, de aconchego. Os bonecos se movimentam junto aos atores, e esses expressam corporalmente intenções materializadas em gestos que confirmam a presença dos primeiros. Ocorre, no entanto, que as cores leves das nuvens e que a quase ausência de iluminação pontual não ofereçam novidades que preencham o tempo na mesma medida em que ocupam o espaço. A movimentação do grupo como um todo repete a mesma marcação a cada novo momento: saem do fundo, vêm à frente, cantam uma música ou apresentam uma ação, retornam. Os elementos cênicos usados para compor os personagens apresentados se perdem na riqueza dos figurinos básicos. Os bonecos, pequenos demais, se perdem na grandiosidade do palco, situados ao fundo, distantes. Enfim, tudo aquilo que aguça os sentidos não mantém presa a atenção.

É pela razão que me aproximo da história contada e, a partir disso, dos personagens que contam essa história. Mario Quintana nos traz um pato que queria tirar retrato para dar para a sua avó. Da câmera, sai um passarinho que quer aparecer na fotografia. Os dois brigam e surge um milícia montado num cavalo que os leva presos. Antes, porque a história começa pela metade, conhecemos a avó, uma fada enfeitiçada que não envelhecia. Também surgem uma aluna e um professor, todos retirados de “Pé de Pilão”, livro de Quintana publicado em 1976, depois de ter ficado trinta anos censurado. É Levitan quem gratamente nos aproxima do poeta, do poema, da dramaturgia, da musicalidade. Mas o resultado obtido na página escrita não chega a ser o mesmo no palco. Os personagens, presos à rima, não são fortes o suficiente para conduzir a história. E são muitos. Não é possível dizer que o Pato é o protagonista porque o grande acontecimento da história se dá com sua Avó que desfaz, com a ajuda de Nossa Senhora, o feitiço que a condenava a eternidade. Ed Lannes, como o professor, e Melissa Arievo, em absolutamente todas as construções, oferecem ao público grandes figuras que tornam encantadora a história, auxiliados, sem dúvida, pelos demais atores-músicos-cantores. Mas seus melhores momentos acontecem e desacontecem sem que consigamos nos manter firmes na narrativa. A dicção do elenco, de um modo geral, a exceção de Arievo, não permite que tenhamos clareza das palavras que formam as letras das músicas. Sem elas, não temos história porque também não temos rima e, consequentemente, não temos personagens. Adulto que sou invisto no currículo dos atores e da direção e me esforço. As crianças, no entanto, sem uma dramaturgia que as prenda, poluem a platéia de conversas e mais conversas.

As margens da folha em branco é a boca de cena do teatro. As letras (signos arbitrários) são os elementos, o movimento, as cores, os tons, os ritmos, os diálogos, as melodias, os objetos (signos icônicos, indiciais e simbólicos). As cordas, laços de emoção, de razão, outros laços que talvez nem tenham sido pensados ainda, são os olhos que lêem, os corpos que assistem, as mãos que aplaudem, as mentes que voam. “Pé de Pilão”, que é bom, mas que não é forte o suficiente para emocionar, nem organizado o bastante para contar, me faz pensar em quão unidos estão esses laços num mesmo ser, num mesmo corpo, num mesmo espetáculo ou texto. Seja para unir, seja para distanciar, elas estão lá.

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Ficha Técnica

Texto: Mário Quintana
Direção: Mário de Ballentti

Elenco: Cláudio Levitan, Ed Lannes, Eduardo Mendonça, Pâmela Amaro e Melissa Arievo.

Música: Cláudio Levitan, Nico Nicolaiewsky e Vitor Ramil
Direção Musical: Cláudio Levitan
Direção de Arte: Maíra Coelho
Cenário: Patrícia Preiss
Bonecos e Adereços: Florencia Beber, Maíra Coelho e Patrícia Preiss
Figurinos: Margarida Rache, Maíra Coelho e Florencia Beber.
Criação de Luz e Iluminação: Bathista Freire
Produção: Cíntia Betina

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