4 de out de 2009

O hipnotizador de jacarés

foto: Kiran

Onde está o jacaré?

Às vezes penso que a vida é um grande ponto de interrogação. Eu e Fellini, aliás. E um monte de gente. Eu e os palhaços dos circos afora. Eles, no entanto, gostam disso. Eu, certinho mas não muito metódico, acharia muito mais tranqüila uma vida cheia de pontos finais, desde que nunca reunidos em grupos de três. Escrevo esse texto logo depois de acordar e tomo um Toddy gelado pra iniciar o dia.

Meu primeiro contato com palhaços foi tomando Toddy. Não sei se o copo era maior ou minhas mãos eram menores: eu tinha uns quatro ou cinco anos e via pela TV o programa do Atchim e do Espirro. E como a gravação era na frente da minha casa, de vez em quando, minha irmã e eu íamos no estúdio ver ao vivo. Mais de duas décadas depois, a platéia do São Pedro, lotadinha de crianças sem Toddy, se divertem com a bagunça e a poética clownesca do Circo Girassol. Mãos pequenas, risos largos. Sem vergonha de gritar e exigir o jacaré.

Mas o jacaré não vem. Pode gritar à vontade.

Como a Cabíria de Fellini em busca da Rosebud de Welles, os adultos já não exigem jacarés que não vêm, mas aprendem a se conformar. Bonitos, eu e uma amiga sentamos confortável e silenciosamente na platéia para mais esse espetáculo do Circo Girassol. Mas Farinha, Farofa e Serragem e, antes deles, um quarto nariz vermelho surge disposto a, com um rosto branco de quem não tem idade, acabar completamente com nossa pose de sabichões.

“O Hipnotizador de Jacarés” é um espetáculo que se apresenta como a vida e não como a ficção: não tem curvas, não tem tramas aqui e ali, nem desafios emocionalmente indestrutíveis. Ele começa quando começa e termina quando aplaudimos. O recheio é composto de idas e vindas, paradas e corridas. Mudanças. Débora Rodrigues, Heinz Limaverde, Tuta Camargo e Jéferson Rachewiski recuperam todas as gags clássicas do gênero, bem como sua estrutura dramática, para nos profetizar que a não vinda do jacaré de papo amarelo será uma constante na vida. E é com sorriso que isso tem que ser encarado porque lagartos passarão, lagartixas correrão e até jacarés de outros papos se mostrarão. E todos devem ser bem recebidos: o figurino excepcional de Daniel Lion, que confere unidade aos personagens e se une perfeitamente à concepção do grupo, que não quer dar idades aos unicogonistas, nem seriedade, tampouco desorganização, é uma ótima e agradecida forma de dizer “Bem-vindo em minha vida seja lá que bicho você for!”

Duas das características do Jacaré de Papo Amarelo valem a pena ser lembradas: Têm esse nome porque, quando na época do acasalamento, ficam com a área do papo amarelada. E são conhecidos por ter uma mordida bastante forte a ponto de quebrar o casco de uma tartaruga facilmente. Considerando a habilidade de se enfeitar para obter companhia e a força de sua presa, acho que o recado está dado: nós mesmos somos os jacarés hipnotizados pela cena Girassol.


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Diretor e autor: Dilmar Messias

Elenco: Débora Rodrigues, Heinz Limaverde, Tuta Camargo, Jéferson Rachewski

Cenografia: Marco Fronkoviack e Dilmar Messias

Figurino: Daniel Lion

Iluminação: Anderson Balhero

Produção: Circo Girassol

Arte Gráfica: Frederico Messias

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