17 de out de 2009

Para F. K.

Sempre um milagre

Outro dia li (lembrei) a origem etimológica de “compartilhar”. A palavra “pão” está dentro dela. Como também em “repartir”.

- Eu dou uma metade do pão para você. E fico com a outra parte.

Dei a outra metade do pão já. Às vezes, por burrice, inocência, falta de controle, dei o pão inteiro. Ou quase todo. Teve vezes, também, que, por medo, por bocabertice, por simples falta de vontade, não dei nenhuma migalhinha. Mas o pão, que se multiplica como peixes, esse todos temos: com açúcar, bem assado, seco ou até de laranja. Compartilhar não é dar algo de si, mas é dar algo consigo. Não é uma parte de nós que sai, mas somos nós quem vamos juntos numa parte. E vamos sem retorno, sem futuro planejado, sem certeza nenhuma a não de ser estar indo. Indo nesse algo escolhido, palpável, mão a mão. E alguém viaja para dentro de nossa vida. Um colega que divide apartamento, um amigo com quem tomamos um café após o cinema, um grupo que assiste e comenta uma peça conosco. O gaúcho toma chimarrão, a vovó faz tricô com a amiga, a minha mãe me liga pra dizer que me ama. O pão se multiplica assim, cestas e cestas, sem contagem possível que não o vislumbre da mente e do coração aberto.

Caio Fernando Abreu me dá o seu pão a cada vez que eu o leio. Eu o sinto apagar a luz, mas deixar uma vela acesa ou abrir a cortina para vermos o pisca-pisca da cidade noturna. Ele senta no chão sobre as pernas e coloca minhas mãos sobre os joelhos como eu cansei de fazer nos sacrários em que rezei olhando para amigos queridos, alguns deles que já nem vejo mais. Caio tem DRs com desconhecidos, me mostra que o pão é um, mas que se come em dois. E dois juntos: não se pode guardar para provar depois. Suas mãos são honestas. Suas palavras são puras, apesar das impurezas de sua alma. Um, ou quatro, conto(s) de Caio se ouve(m) com fé. São contos compartilhados.

Pablo Damian entende que, em se tratando dos contos de Caio F., não se atualiza para o palco a história, mas a situação de partilha. De compartilhamento. De repartição. Os personagens não interessam, o passado e o futuro também pouco importam. O que sustenta o projeto é o olho no olho, as mãos pousadas, o corpo sobre os pés. O que sustenta é a honestidade no teatro, como também na literatura. O mais belo na versão literária é o derramar de impulsos. O mesmo deve estar no palco. E, em certa medida, está.

Sofia Ferreira, Luísa Herter, Vivian Salva e Francine Kliemann assumem, cada uma, o universo disposto num conto do escritor gaúcho. Cada uma tem um pão para compartilhar. O trabalho de dramaturgia consiste em pôr esses pães numa mesma cesta, numa mesma mesa, numa única celebração, pois todos são partilhados e comidos juntos. E aí surgem os problemas da montagem que ganhou o nome de “Para F.K.”.

É nos discursos que as quatro figuras se encontram. E se constroem. Na produção de Damian, as quatro funcionam como lados de um mesmo desabafo, quatro momentos de uma mesma vida talvez. Ver o espetáculo dessa forma justifica e engrandece as idiossincrasias de cada atriz: quem partilha põe a si numa parte a ser dada. Podemos dizer que uma personagem se dá a ver por oposição a outras três. Uma é o que as outras não são. A dificuldade é que nem todas são.

Sofia Ferreira é. É plena em cena. Seu corpo se movimenta com o peso de quem está presa dentro de si, o que faz com que as palavras saiam como que em fuga. Há gritos, há sussurros. Há pausas e corridas. E sempre há intenção. E sempre há força. É discreta quando, na dramaturgia em jogral de Damian, não é sua vez de falar, mas puxa o foco e não nos permite olhar para mais nada quando está para brilhar.

Vivian Salva não é. Isolada das demais, o discurso lhe é equívoco. Não há energia na expressão, verdade no corpo. Como acontece algumas vezes com Luísa Herter e (menos) com Francine Kliemann, Salva anda pelo cenário como se não soubesse para onde andar, deixando claro que apenas espera a deixa para dizer o texto. O olhar é vago e a expressão indefinida.

Não fosse Caio, diríamos que a indefinição do cenário (Um bar? Uma sala? Um jardim?) e os graves erros na iluminação, bem como a presença nada contribuitiva do músico no palco, atrapalhariam a produção de sentido no espetáculo “Para F. K.”. O discurso, no entanto, é forte o bastante para sustentar e manter cativa a fruição para a qual nos convida o elenco e os figurinos. Sim, o cenário é um problema para as atrizes que usam ele porque usam, sem nenhum outro motivo. Sim, a iluminação deixa as atrizes no escuro, ilumina tardiamente, acende em lugares errados. Sim, o músico não funciona como ator interagindo com as atrizes e participando da marcação. Mas o texto é dito como em confidência e o pão é dado, verdadeiramente ou não. E nós o comemos com o gosto da fome.

É certo que a fome sempre deixa os sabores mais aguçados e, consequentemente, os pratos mais saborosos. A fome é humana. E é ela quem realça a beleza da cena final, o melhor momento da direção, tão acanhada até aqui, de Pablo Damian. Respeito às palavras, respeito aos sentimentos, respeito à fruição. Respeito ao humano cujo deus faz o milagre. E partilha, quando quer, o pão que lhe é oferecido por primeiro. Quatro lados, quatro espelhos, quatro formas de terminar. Mas todas elas muito humanas, muito fortes, bastante profundas e, graciosamente, simples.

Aqueles a quem dei meu pão, ou o neguei, já foram embora expulsos ou por seus próprios pés. Um que outro ficou e fica. Outros virão.

Caio e, agora, Pablo são fermento.

*

Ficha Técnica:
Texto: Caio Fernando Abreu

Elenco: Francine Kliemann, Luisa Herter, Sofia Ferreira e Vivian Salva

Direção: Pablo Damian
Orientação de Luciana Éboli.
Músico Convidado: Léo Apratto
Trilha Sonora: Léo Apratto e Ian Ramil
Criação de Luz: Ian Ramil e Cláudia de Bem


2 Comentários:

Fernando disse...

Assisti na ultima quarta-feira. A interpretação das meninas estava sensacional e a essência do Caio Fernando abreu foi bem captado. Não sou nenhum expert, nenhum critico. Ou gosto, ou não gosto. E eu gostei tanto que to recomendando pra todo mundo e se eu conseguir, vou rever no último dia. Parabéns.

1ana disse...

Fui assistir, na última apresentação, depois de ler a resenha. Procurei ver o que tu informava e vi que discordei em termos. A Luisa eu já tinha assistido em O Médico à Força, com um bom desempenho e esperava o mesmo,mas a atuação era equivocada e pesada.Vivian não me chamou a atenção de maneira alguma, sequer realmente notei a presença dela no palco. A Sofia, que você destaca como grande presença achei a segunda mais equivocada, deslocada, perdida, menos que a Vivian. A Francine foi quem me chamou a atenção, mas a atuação era ainda irregular, arrancava risadas da platéia (Caio,humor?). Bem, eu tento ir além da dicotômica escolha do Gosto/Não gosto. Penso que uma parte do meu desapreço pela montagem deve-se ao fato de adaptações de Caio nem sempre sejam adaptações. Algumas parecem simplórias leituras dramáticas,que poderiam ser melhor aproveitadas em um sarau.De súbito dei-me conta: nas adaptações do Caio tem muita imagem, muito blasée,da figura com o cigarro aceso. E falta quase sempre o sentimento de não-pertencimento,de falta, de angústia, que parecem mais quietas do que teatrais. Enfim, e também influenciada por uma montagem do DAD, de dois anos atrás, chamada "Margaridas Enlatadas", a única vez que escolhi o "Gosto" numa adaptação de Caio F., talvez pq ele me seja caro e inteligível, parece insuportável assistir a canastrices como essa. Opa, me passei. Belo Blog!

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