12 de out de 2009

Monoton


Presente


Sou uma pessoa simples. Sem muitos amigos, mas muitos conhecidos. Amizades de anos, roupas de anos, sonhos de décadas. Cultivo os mesmos hábitos, os mesmos gostos, sento nos mesmos lugares. Conheço os vendedores pelo nome, a dona do bar sabe o que significa o meu “O de sempre”. Não me apaixono facilmente, não me desapaixono assim no mais. E, quando quero, quero. Não faço rodeios, não gosto de jogos, não uso de meias palavras, embora adore metáforas porque elas são inteligentes. Acho que sou Mono tom.

Cores únicas cansam olhos superficiais. Minhas rotinas e minha clareza não são para qualquer um, nem para qualquer lugar. É preciso uma pausa nas novidades de vez em quando. Eu diria que a escuridão faz ver a luz. Os seres humanos se entendem por contrastes. Se eu sou mono tom, é bom que sejas, você leitor, de outra cor, ou de outras cores. Você será visto. Eu também.

“Monoton”, com n, é um espetáculo de dança dirigido por Heloísa Bertoli e Beto Russo. Quatro bailarinas vestidas de branco, sobre um linóleo branco, com branco ao fundo, dançam ao som de músicas diversas. Não há narratividade. Não há personagens. As coreografias, partituras de movimentos repetidos e repetidos e repetidos, reproduzem entre originalidades uma série de clichês do que se tem como a rotular “dança contemporânea”: mãos batendo no peito e braços que esticam, pernas que desenham círculos no chão, duplas que continuam a partitura de outra dupla. Muitas vezes é como um velho exercício de educação física que eu fazia nos tempos de escola. Cada aluno executava um exercício numa roda. Ao apito, você ia para o lugar do colega e tinha que fazer o exercício que ele estava fazendo. E eu, já na quinta série querendo ser professor, via nisso uma bela maneira docente de matar um período de aula sem planejamento.

Eis que vêm as cores. Azul, principalmente, amarelo e vermelho: cores primárias. O grupo homenageia Yves Klein (1928-1962), pintor que se celebrizou por suas obras monocromáticas. E acho que ele ficaria feliz em ver o trabalho desses bailarinos. Eu, no entanto, na segunda cena, já estava cansado. E com medo de haver pessoas que se cansam de mim pela minha monocromia.

Avançamos no espetáculo. Um retroprojetor é trazido e uma linda, a mais bela, aliás, cena começa. Bailarinas dançam à luz da máquina que amplia o gesto de outras duas artistas: pingam num recipiente de vidro com água cores. As sombras coloridas (mono cores) dos pingos pintam as bailarinas. E não são de pingos que são feitas nossas cores, nossa cor, essa(s) que identifica(m) nossa vida?

Cada rotina deve ser vista com cuidado. Ela é útil, afinal de contas. Tão útil quanto a aventura, porque essa é o seu oposto. Se olhar muito tempo para o azul, quem sabe, aqui e ali nossos olhos já não identificam um azul mais claro, ou uma nuance mais escura? Eu, embora repetindo os exercícios do meu colega, confesso que sempre fazia a sequência do meu jeitão. Meu ritmo sou eu.

Na última cena, Miguel Sisto Jr., o único bailarino homem, entra nu de costas. Mas não é aproveitado, mesmo sendo um importante elemento novo nesse repetir sem fim. As bailarinas sujam-se de azul como um simulacro performático de Klein e o espetáculo termina com o sério convite para que pesquisemos sobre o pintor, caso queiramos fruir mais o espetáculo que, ora veja, já terminou. Sentidos aguçados, fim de papo.

E tremo só de pensar que minha constância, seja no ir ou no vir, seja no parar ou no não-querer sair, não desperte, como acontece com esse espetáculo de Bertoli e Russo, nada além de sensações, como o fazem um bonito pôr-do-sol ou o barulho da chuva que não precisaram de humanidade para acontecer. Mas tremer já é um passo a mais e, se repito a fórmula de terminar um texto como o comecei, é só porque talvez ainda não evoluí o bastante para oferecer a você o que não sei fazer.

E te dou só o que eu faço bem.

*

Direção e coreografia: Heloisa Bertoli
Direção cênica: Beto Russo

Bailarinos: Alice Meditsch, Gabriela Seger Camargo, Karen Ibias, Miguel Sisto Jr. e Teté Furtado.

Cenário e figurino: Margarida Rache
Iluminação: Bathista Freire
Pesquisa de trilha: Heloisa Bertoli
Produção: Miguel Sisto Jr.

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