21 de out de 2009

A menina das estrelas

foto: Lisa Ross

Pedidos

Há um curta-metragem rodando na internet chamado “Nós estamos aqui: o pálido ponto azul” cujo texto e narração são de Carl Sagan, biólogo, astrônomo e astronauta norte-americano falecido em 1996. Começa assim:

“De Saturno, a Terra apareceria muito pequena para a Voyager apanhar qualquer detalhe. Nosso planeta seria apenas um ponto de luz, um "pixel" solitário, dificilmente distinguível de muitos outros pontos de luz que a Voyager avistaria: planetas vizinhos, sóis distantes. Mas justamente por causa dessa imprecisão de nosso mundo assim revelado valeria a pena ter tal fotografia.”

Um ponto de luz, um pixel solitário é a Terra do ponto de vista de Saturno. Nós, um ou dois, entre mais de seis bilhões, dividimos esse grãozinho de pó com animais, oceanos e montanhas, florestas e nossas próprias construções. E, por mais guerras, doenças, choros e lamúrias, somos um ponto de luz e não um traço de escuridão. Para um habitante de Saturno ou planetas não descobertos além, somos estrela. E só somos enquanto Terra.

Não é preciso ter visto o filme para saber disso. Quando assisti "A meninas das estrelas", da Cia. Teatro Novo, não tinha entrado em contato com a mensagem do astronauta ainda. Mas fiquei pensando no pastorzinho Patu (Cassiano Fraga) que quer ter uma estrela só para ele. Haverá também um partorzinho em Saturno nos querendo como sua estrela também? Se ele apontar para a Terra irá (terrível) nascer-lhe uma berruga no nariz? Sendo Pilí (Fernanda Santos) a estrela pedida, não será ela também um planeta inteiro, cheio de mares e bichos, vidas e ausências? Sem dúvida, o curta nos ajuda a dar continuidade para o sentido levantado pelo excelente espetáculo infantil (mas não só para crianças) dirigido por Ronald Radde, sua produção mais bem acabada a que tive o privilégio de assistir esse ano (e para o qual convido os leitores). Busquemo-nos no palco como estrelas pedidas, e peçamos nós também uma estrela, se acaso já não temos uma.

Gipogá, porém, já tem a sua. Ele é o morador da floresta que pensa já não haver seres humanos no mundo. Vive para seus animais, para a suas plantas e passa o dia plantando sementes raras. É ele quem nos recebe, nós, donos dos olhos que talvez sejam, nessa ficção de Jurandyr Pereira, as estrelas de que falam os personagens. Mas estrelas não falam. E Gipogá, como ele mesmo lindamente diz, sente. "Sente mesmo!" Sente falta de companhia, sente falta de um amigo, de um filho, de alguém que possa completar-lhe as frases, caminhar junto, responder-lhe no mesmo ou noutro ritmo. Gipogá não pede uma estrela, agradecendo a que tem. Pede, sem fazer complicação, alguém como ele.

Lúcia Bendati, e ninguém faria melhor do que ela, interpreta Gipogá. Doce e brincalhona, a atriz constrói esse "mestre de cerimônias da narrativa" como alguém que, por si só, já pode ser considerado uma estrela. Seu personagem tem cor, tem peso, tem graça. É forte o bastante para conduzir, humilde o necessário para amparar. Não é o protagonista, mas faz protagonizar a história. Sendo ele uma criação textual de Pereira e de direção cênica de Radde, está no carisma da atriz a responsabilidade final para esse personagem tão marcante.

Não há, é preciso ressaltar, um só personagem sem lugar nessa história tão bem contada. Além de Gipogá, o espantalho Dundé (Karen Radde) quer algo. E o que quer, mesmo para um personagem de cabelos verdes, não se alcança assim facilmente, o que enaltece a qualidade do texto, também composto pelo vilão Bolé (Vinícius Caurio). Embora sem força em alguns momentos, quando o ritmo cai, esses divididos com Fernanda Santos, o ator, bem como atriz, deixam-se levar pelos personagens dando a eles uma agilidade física e graça. O protagonista Patu, Cassiano Fraga, concentra, por sua vez, a delicadeza que marca toda a concepção, e confere ao seu personagem, o carisma de um herói sem ambições: doce, leve e interessante.

Cheia de elogios que se repetem, "A menina das estrelas" chega ao universo dos olhares da Sala Carmen Silva anelado por um lindo cenário (Júlio Freitas) que homenageia a produção do mesmo espetáculo em 1974 (Alfredo Radde). A concepção, apesar da constante luz azulada dos refletores e das canções dubladas, deixa claro que não é atoa que a Cia. Teatro Novo comemora 41 anos. É nítido, nesse espetáculo, o esforço em dar ao público o melhor elenco, além de soluções estéticas adequadas que, apesar das margens, investem pesado na significação incialmente proposta pelo texto.

Como é (e era) de se esperar, nem todos os personagens conseguem o que querem e o objetivo disso, numa boa, velha e segura obra dramática, nada mais é do que dar continuidade e existência para novas histórias. Não somos estrelas de qualquer um. Nem, como o pastorzinho, queremos qualquer estrela. Queremos a que nasceu para nós, a que foi produzida, ensaiada, concebida e apresentada especialmente para nós.

Uma que, quando caia, possa realizar nosso desejo.

Fechei meus olhos. Fiz.

*

Ficha Técnica:

Texto: Jurandyr Pereira
Direção: Ronald Radde
Direção de Produção: Ellen D´Ávilla
Trilha sonora original: Álvaro RosaCosta
Figurino: Titi Lopes
Preparação Corporal: Letícia Paranhos
Coreografia: Saionara Sosa
Cenários: Júlio Freitas, Alfredo Radde.
Iluminação: Osmar Montiel

Elenco:
Lúcia Bendati
Karen Radde
Fernanda Santos
Vinícius Cáurio
Cassiano Fraga

1 Comentário:

Jeffie disse...

Parapsicopoesia.

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