28 de mar de 2010

Homem que não vive da glória do passado

Foto: Divulgação

Uma parada na Parada

Hoje é o dia da II Parada de Teatro. Artistas e técnicos da cidade e arredores desfilam pelas ruas da capital convidando as pessoas para pôr “mais teatro no seu cardápio”. Teatro Gaúcho, principalmente. Com isso, querem(os) chamar a atenção das pessoas para o fato de que o teatro que é feito aqui é de qualidade e, por isso, vale a pena. Questionam(os) o fato de que, no Projeto 24 horas de Cultura da Semana de Porto Alegre, em apresentações teatrais gratuitas, cerca de 50 (cinqüenta!) pessoas foram embora por não terem conseguido assistir aos espetáculos do Centro Municipal (Teatro Renascença e Sala Álvaro Moreyra), tamanha era a super-lotação, mas que, quando o ingresso é cobrado normalmente (R$ 10 a R$20 em média), a mesma lotação não se repete. E, mais: avisam que, sendo profissionais, é da bilheteria que os atores e seus familiares vivem. Diferente do que, talvez foi um dia, o teatro não consiste nos sessenta minutos, um pouco mais, um pouco menos, de apresentação, mas, sim, na preparação, nos meses de ensaio, nas horas diárias de treinamento corporal, discussão conceitual, criação. Ações que acontecem antes, durante e depois da estréia. O Teatro Gaúcho que é hoje foco das atenções é aquele feito a partir de estudo, planejamento, dedicação total. E, nisso, o teatro daqui, final e oficialmente declara sua distância do teatro amador/estudantil em que a boa vontade era o principal numa produção cênica.

Infelizmente, isso de todo não é verdade. Apesar dos protestos da classe artística, esses feitos não com gritos ou com passeatas, mas com excelentes projetos que recheiam a grade cultural da semana e uma parada festiva anual na comemoração do Dia Internacional do Teatro (27 de março), ainda há muitas produções (disse produções, não grupos, não artistas) que parecem valorizar unicamente a boa vontade. Há blogs e mais blogs que expressam o orgulho de nunca terem estudado teatro e terem aprendido a fazer fazendo. Ou, então, o que é pior: bradam que, se o público gosta, está bom do jeito que está (figurinos compradas em lojas de fantasia, trilhas sonoras tiradas de filmes, textos sem qualquer conexão, interpretações dignas de programas de televisão (que é outro universo e, por isso, nada tem a ver com o teatro), ausência total de direção e, muito menos, concepção.). A aprendizagem que vem da prática é honrada. Mas não é suficiente. Há mais de dois mil anos se escreve sobre teoria teatral e um pouco de dedicação sobre essa literatura não faz mal a ninguém. E não se estuda durante anos sobre direção de arte e estética, interpretação e direção para uma pessoa entrar sob um foco, contar uma piada e achar que o que está fazendo é válido sócio-artisticamente.

É com essa minha participação no evento de hoje que quero falar do espetáculo “Homem que não vive da glória do passado”, uma produção que não merece nem mesmo a gentileza de um aplauso, apesar de haver nela muito estudo envolvido, mesmo que não saibamos muito bem qual estudo é esse.

Começo por destacar a excentricidade da produção: dividida em duas partes, a divulgação informa que somente 20 pessoas podem participar da primeira parte e é preciso entrar em contato com a bilheteria para reservar seu lugar nesse prólogo. No que ele consiste? João de Ricardo, co-diretor, co-dramaturgo e ator do monólogo, pergunta se sabemos o significado do nosso nome como motivo para uma interessante discussão: “O que é que me faz homem?”. Homem, de fato, é a primeira palavra do título da peça e essa é uma forma de integrar os participantes desse prólogo. João (“Deus é bondoso”), então, muda de assunto, como fará várias vezes durante o espetáculo, contando detalhes (fictícios?) sobre a produção do espetáculo e narra o sonho de um amigo dele (Mister X) que veio ver os ensaios gerais. Somos conduzidos a um túnel escuro com luzes coloridas e onde um espelho é quebrado pelo próprio João. O túnel termina no palco do Teatro, em que as cortinas estão fechadas. Nos sentamos no chão e um debate sobre a origem da vida começa. A conversa é entremeada de luzes coloridas que Carina Sehn e o próprio João vão manipulando lindamente. Douglas Dickel conduz uma sonoplastia carregada de significados que faz desse momento inicial a única parte interessante de toda a peça (que dura mais de duas horas!). A diferença entre homens e animais é outro tema proposto que termina com João ficando nu em cena e prendendo seu órgão genital com fita adesiva. A palavra de ordem dita pelo ator é: “Esse é um espetáculo para ser sentido”. Até, então, senti curiosidade.

João de Ricardo é um dos artistas mais férteis do estado. Cada nova produção que envolve o seu nome desperta o interesse do público porque é reconhecida a sua criatividade e a sua tendência à experimentação. Dentre seus últimos trabalhos está “Teresa e o Aquário”, em que eu não consegui encostar minhas costas na guarda da poltrona tão motivante era cada signo posto ao olhar do público.

Mas signos são lidos a partir de códigos. Não havendo possibilidade de leitura de um código, os signos não são retirados da vida, não se tornam passíveis de leitura, não atingem a secundidade (Peirce), não são estruturáveis (Levi-Strauss e Greimas), não comunicam nada (Eco). Significante e significado (Saussure) são dois lados de uma mesma moeda. Não há como haver um só lado numa moeda. Ela não existe apenas com um lado. O espetáculo de João de Ricardo, até agora, não existe porque não pode ser lido e, pelo que ele mesmo informa, deve apenas ser sentido. E o que se sente é o tédio de ler um livro em japonês sem entender o que significam “aqueles desenhos que parecem letras”.

Fazemos a passagem e, finalmente, ouço um resquício de tudo o que sempre admirei no trabalho desse encenador. O nome de todos os presentes é pronunciado. “Rodriga Monteiro, nascida em 15/01/80 e morta em 27/03/2010.” 1) Saímos do palco e vamos para a platéia. Essa é a passagem de uma vida para outra. Até aqui participamos da encenação. Agora a assistiremos. Qual é a relação entre as duas e a questão vida/morte? 2) Os nomes dos homens são transformados em substantivos femininos. Os nomes das mulheres permanecem como estão. Será a vida uma energia feminina? As respostas não interessam. O que sempre interessou a João foram as perguntas.

Na platéia, no entanto, o que vemos é desolador. O ator, de terno e gravata, corre, faz gracinhas, anda e continua mexendo com luminárias. Sua performance, nesse segundo momento, para a qual não apenas 20 pessoas são chamadas mas todo o público em geral, continua ou é uma infinidade de coisas sem ser nenhuma. Há a proposta de uma dramaturgia e de um personagem. Bruno Gularte Barreto, co-diretor e co-dramaturgo, apresenta o seguinte mote: Um mundo em que todas as mulheres morreram e só há homens. E o personagem: Um homem de 32 anos, que se chama João de Ricardo, que teve uma ou duas experiências sexuais até hoje, que não sai do apartamento a não ser para fazer um estoque de miojo, e a última fez foi há cinco semanas, que usa drogas e vê muita TV. O interesse do mote se dá a partir de seu possível desenrolar (que, de fato, não se desenrola). O que aconteceria num mundo assim? Quanto ao personagem, o interesse vem pela problematização dele, esse um ser que, diferente do que se vende na publicidade do espetáculo, tem pouca relação com o homem moderno comum. A solidão contemporânea, tema já outras vezes tratados em outros espetáculos da Cia. Espaço em Branco, aqui é tratada de forma caricata. Não há sustentação dramatúrgica para o personagem, esse que se mistura com o encenador por terem ambos o mesmo nome e a mesma idade. A solidão vivida pelo homem contemporâneo é interna. O homem se sente só entre muitas pessoas. Alguém que não sai de casa, que não faz sexo e que só come miojo e vê TV em nada se parece comum e que, por isso, para ser um personagem e não apenas a proposta de, precisa de um contexto que dê a ele chance de se estabelecer enquanto elemento de uma narrativa.

A narrativa não acontece apesar de vários elementos serem postos em cena. Imagens belíssimas são dispostas. Um trabalho de luz e uma trilha sonora dignas de elogios efusivos. Mas, em nada um elemento se relaciona com o outro e aqui voltamos à parte em que tratamos sobre a ausência de um código. O Apocalipse, último livro da bíblia e o mais imagético dos 72 (ou 73 dependendo se ela for católica ou protestante), é citado, talvez, como desculpa para a bagunça conceitual ou ausência de conceito. Mas é importante destacar que a carnavalização de Nietzsche e também estudada por Bakhtin nada tem com isso. Lá não há assistência e só participação. Aqui há o histrionismo de um ator e também de seu grupo querendo utilizar elementos da performance art e dos usos de som e de vídeo (já cansados de serem usados lá nos anos 70) para discutir um tema batido e que, podendo como todos ser trazido ao palco de forma inteligente, não é feito nem de forma inteligível.

O pior de toda essa produção é o fato de, em cena aberta, João se desculpar tomando leite no gargalo da caixinha, voltando a solicitar a participação do público inerte, sugerindo que nunca ousem dirigir e atuar no mesmo espetáculo. E a peça termina da forma mais clichê possível, contrariando todos os anos de trabalho interessante que a Cia Espaço em Branco construiu: uma família mascarada sentada num sofá vendo TV, enquanto João fica procurando nervosa e pateticamente a tomada entre um emaranhado sujo de fios e mais fios para desligar uma a uma as fontes de luz da cena.

“Homem que não vive da glória do passado” traz, apesar de tudo, uma coisa boa para o teatro num dia tão especial como o de hoje. É a prova de que não importam os anos de experiência, os títulos que você acumule, as críticas elogiosas e os prêmios recebidos. Ninguém está livre de, um dia, produzir um fracasso.

Mas, sinceramente, eu espero que fracassos como esse não sejam produzidos com o importante e valiosíssimo Prêmio Funarte Myriam Muniz. Porque desperdício de dinheiro público, assim, não merece, como eu disse, nem mesmo a gentileza de um aplauso.

Feliz Dia Internacional de Teatro. Boa Parada a todos!

*

Um espetáculo da Cia Espaço em Branco
Criação e Performance: Bruno Gularte Barreto, Douglas Dickel, Carina Sehn, João de Ricardo e Pedro Karam
Direção e Vídeos: Bruno Gularte Barreto e João de Ricardo
Dramaturgia: Bruno Gularte Barreto e João de Ricardo, baseados no conto original de Bruno Gularte Barreto
Iluminação: Carina Sehn
Sonoplastia: Douglas Dickel
Câmera, Assistência geral e de multimídia: Pedro Karam
Assistência e finalização de vídeos: Caroline Barrueco
Produção e Assistência de Direção: Sissi Venturin
Design Gráfico: João Paulo Tiago e Bruno Gularte barreto
Figurinos: Spirito Santo e Azul Cobalto
Iluminação: Carina Sehn

11 Comentários:

joão de ricardo disse...

tudo bem em não gostar de alguma coisa. agora, tua crítica é destrutiva e rancorosa. "não vale a gentileza de um aplauso" é grosseiro e sei que tu pode mais refletindo do que simplesmente desfiando uma coleção de adjetivos pesados como "fracasso" "gastar dinheiro público " e etc.
Como qualquer trabalho meu ele envolve uma super seriedade desde o projeto até cada ensaio. A equipe é absolutamente comprometida não só com arte enquanto profissão, mas enquanto território de liberdade pessoal.
Eu exijo RESPEITO.
Debater e questionar é uma coisa atacar, desvalorizar e adjetivar um trabalho e os artistas envolvidos nele é outra bem diferente.
Uma vez tu chegou pra mim e me comparou ao Júlio Conte. Me disse que as minhas peças eram repetitivas que eu sempre usava os mesmos elementos. ME perguntou "quando tu vai fazer um realismo"? Bom isso me deu uma noção mais clara sobre os teus parâmetros enquanto "crítico".
Se tu te dá o direito de por não gostar afirmar publicamente que é mau uso de verba pública, se pelos teus parâmetros tu tachar uma peça, uma obra de "fracasso", ou me adjetivar como "patético" eu me dou o direito de te respoder e te dizer pra maneirar no verbo, pois isso além de ser deselegante sôa rancoroso e até digamos que... hmm calunioso. pois acusa a mim e ao meu grupo de "mau usod everba pública".
Muito chato Rodrigo, menos rancor, mais discussão, isso faz crescer, te esconder atrás do posto de crítico, chegar no começo da minha peça falando em "teatrinho" é bem complicado. Pessoalmente complicado.
ah e pra clarear o que é calúnia
Calúnia no Direito Penal brasileiro

No Código Penal Brasileiro a calúnia será qualificada quando for praticada contra o Presidente da República ou chefe de governo estrangeiro; funcionário público, em razão de suas funções; na presença de várias pessoas ou por meio que facilite sua divulgação e se for praticada mediante pagamento ou promessa de recompensa.

A calúnia é tipificada no artigo 138 do Código Penal Brasileiro [1]. Juntamente com a difamação e a injúria constitui o capítulo de "Crimes contra a Honra".

Pelo texto do artigo, será punido também aquele que propagar calúnia que sabia ser informação falsa.
Eu gostaria que tu publicasse essa resposta no teu blogue.

Anônimo disse...

Como assim, essa peça custou alguma coisa???

Anônimo disse...

Um dia ouvi esta frase: “O que seria dos críticos senão houvesse a crítica”. Pensei muito sobre isso e depois eu completei: “O que seria dos artistas senão houvesse a crítica” e “O que seria do público senão houvesse a crítica”, "O que seria do mundo senão houvesse a crítica?" Crítica também é cultura, pois você aprende e conhece muito mais o que o público muitas vezes desconhece. Eu estou amando a chegada do Rodrigo Monteiro em nossa cidade e no nosso meio. Uns falam que é crítico teatral outros mencionam que ele é só um comentarista de teatro e outros vão mais além, dizem que ele não é nada e não entende de nada, não conhece as pessoas da classe artística gaúcha e muito menos teatro. Resumindo: Ele chegou para desacomodar, mexer, acordar, rever, repensar e para aumentar a ira e fazer as pessoas mudarem mais, criarem mais, buscarem mais, conversarem mais.... e muitos outros mais...Na real ele chegou para causar polêmica, e polêmica minha gente é sucesso! Quem tava acostumado a só ouvir elogios ao seu trabalho agora está passando por uma nova fase. E Porto Alegre estava há muito tempo necessitando de um crítico, pois o que temos não esta dando conta. Talvez muitos artistas da nova geração não tiveram contato com um crítico teatral maravilhoso que atuou aqui em Porto Alegre há décadas atrás, o Cláudio Heemann. Ele como todos os críticos eram temidos pela classe e fazia a turma se mexer, rogar pragas... e como tantos outros críticos era amado e odiado. O que seria de Bárbara Heliodora? Com certeza ela já foi insultada e até ameaçada, por pessoas que não compreendem ainda a função e o valor de um crítico. Acredito que o Rodrigo está passando por isso! Um crítico não acaba com um trabalho, pode até trazer mais público a nossas platéias. Desejo vida longa ao Rodrigo Monteiro em sua vida e em sua carreira! Que Dionísio e todos os Orixás lhe tragam proteção!

Anônimo disse...

Não vi o trabalho, mas concordo que a escolha de adjetivos foi pesada. Se eu fosse um leitor ignorante, daqueles que se baseia em uma fonte apenas, teria perdido um pouco a vontade de assistir o espetáculo. Mas contemos com a inteligência do povo... As vezes dá para falar alguma coisa grosseira em palavras tão sutis que dá-se o recado sem passar por grosso ou rude. E uma questão de saber escolher o COMO falar. Mas ok, tens tempo para aprender. E sei que essa é uma forma de obter acessos, pois o povo adora um bafafá. E entendo que, quando vamos no cinema e não gostamos do filme, não gostamos e pronto. Esquecemos ao tomar um sorvete na redenção. Mas quando não gostamos de um trabalho de teatro, aaah, a raiva nos acompanha, eu entendo. Não sei explicar o porque, mas é assim. Mas a sutileza é a melhor saída nessas situações: be sutil and make your point clearly. Não digo ser bonzinho. Ser sutil. Há uma tênue diferença. Mas... dia bonito hoje, né?

Anônimo disse...

E voltando, digo que o Anônimo que não sou eu está errado: um crítico pode sim acabar com a reputação e minimizar um trabalho digno. Muito poder em mãos erradas.

Telma Scherer disse...

Concordo que falta crítica na cena e que a polêmica é positiva. As pessoas têm mania de aplaudir de pé o que viram (não importa o que viram); (como em muitas cidades, aliás); porém aqui os bons laços de superficialidade amigável com o meio tomam proporções destrutivas às vezes. Geram todo tipo de assalto à inteligência. Sim, nesse contexto, que bom termos aí alguém que critique, que proponha reflexões sobre as peças que temos em cartaz. Porque o teatro de Porto Alegre precisa dessas faíscas.
Ainda assim, não concordo com o teor da crítica e, tendo assistido ao espetáculo, pude aproveitar o texto para refletir, discordando cabalmente. Sou uma pessoa da literatura, com um estudo de dramaturgia com enfoque nas relações entre poesia e performance. Penso que a estrutura fragmentária ainda (ainda) incomoda muita gente. Ainda que o Godot tenha sido apresentado a primeira vez em 52, a proposta de uma dramaturgia que se apresenta como imagem poética complexa gera certas dificuldades de recepção e assimilação. A partir da proposta de Octavio Paz em "Signos em Rotação", penso esse espetáculo como ampliação de uma imagem poética (não-narrativa, desafiadora da lógica discursiva, radicalmente plurissignificativa, etc.) Porque não há uma narrativa no sentido aristotélico e realista, há um outro tipo de conexão entre signos ("Mitologias", do Roland Barthes, é bom recurso para pensar isso aqui). Os elementos desse tipo de estrutura se enlaçam num fio de cadeia imagética, soma de imagens, sem facilidades para o espectador (que é ativo mesmo quando parado, sim). Buenas, espero ter contribuido um pouquinho para a discussão.

Rodrigo Monteiro disse...

Olha, preciso dizer uma coisa: por que essa discussão não se estabelece sempre??? Os comentários aqui publicados são riquíssimos! Me fazem pensar, me fazem crescer, são bons para todos. Quero agradecer com toda a minha sinceridade pelas contribuições!

Só penso que nas outras vezes em que falei bem de Teresa e o Aquário e Andy Eddie não recebi nenhum comentário... Não escrevo pensando nos comentários, mas, SÉRIO, por favor, não parem! Está ótimo!!!

VALEUUUUU

Anônimo disse...

Voto para que a Telma Scherer seja crítica de teatro, ela em um comentário conseguiu fazer uma análise mais pertinente do que o Rodrigo no seu longo texto.
O Rodrigo é uma pessoa muito querida, mas quando escreve barbaridades como essa aí acima mostra o quão raza é a sua visão. Não que um crítico não possa (e deva) ser ácido, desde que fale com algum embasamento. Esse texto não analisa nada do espetáculo além do mais superficial, não fala sobre linguagem, não propõe nada. Se limita a descrever as cenas da peça e opinar. Infelizmente me parece uma tentativa de criar polêmica e conseguir conseguir vizibilidade da pior forma possível: denegrindo o trabalho de alguém. Em um estado onde a classe artística já é tão desunida e carente, me parece que o papel de um crítico deveria ser o de propôr questões e apontar caminhos, não simplesmente opinar de forma raza e (por que não dizer) ofensiva sobre as obras.

Anônimo disse...

Eu particularmente acho que o fato de ele não gostar tanto assim dessa peça é ótimo!
Vou ver nesse fim de semana com certeza! Se ele elogiasse é que eu pensaria que deve ser uma bosta! kkkkkk

tatiana rosa disse...

He, me peguei lendo este post num intervalo de estudo e fichamento. Vai aqui em pedaço logo demais de GIL (1997)

O corpo como significante flutuante “pode significar muitas coisas (...) a zona onde se gera o sentido convoca um domínio que ultrapassa o campo semântico: é o corpo, enquanto infralíngua, que o fornecerá. (…) [para] reduzir a polissemia dos gestos (… é necessária) a ação de um fator que intervém fora de qualquer estrutura: o afeto. (…) A 'infra-estrutura' que a afetividade forma não será nunca sistemática, nem nunca se constituirá de linguagem; pelo contrário, sempre pronta a ultrapassar os signos, deslizando sempre para as fronteiras entre os códigos, esta matéria afetiva, estreitamente ligada ao gesto, faz por vezes o que muito bem entende, ora fundindo-se no Mesmo ora dispersando-se em mil sensações diversas (…); no entanto, sem as suas intensidades, sem a variabilidade e a singularidade dos seus elementos, os signos nunca carregariam sentido". (…) O essencial do significante flutuante é manifestar a vida no que ela tem de imprevisível, de variado e de espontâneo. (…) Deste modo, toda a cultura impõe (…) espaços implícitos onde se desenvolvem a criatividade e a expressão individuais. Estas zonas ficam sujeitas ao significante flutuante: não é ele o testemunho de toda a arte, toda a poesia, toda a invenção mítica e estética? (…) Assim, nas sociedades primitivas, as energias circulam e estão presentes em todo o lado. É surpreendente como um autor como Lévi-Strauss tenha quase totalmente abolido da sua obra esse aspecto do pensamento (…) Hoje, no limiar de uma nova perspectiva em que de novo se centrou a atenção sobre os problemas do corpo – a etnologia estruturalista parece ter atingido um tal ponto de abstração que só contam as relações, as complementaridade, as redes de significantes, a lógicas dos códigos". (GIL, José, Metamorfoses do Corpo).

Talvez um (bom) papel da crítica seja o de sugerir e multiplicar sentidos possíveis num mundo que não tem mais nada de primitivo, (mas talvez tenha um tanto de comunitário). Um papel ruim seria o de procurar ocupar o lugar de regulação desses sentidos.

Ao meu ver, a análise do Rodrigo toca em pontos pertinentes, passíveis de discussão (e um dos grandes méritos do trabalho do João de Ricardo é provocar discussões), que também me mobilizaram, mas baseou sua argumentação num pressuposto que considero frágil (e que compreensivelmente sensibilizou o João), o de que a sua experiência interpretativa (declarada aqui como extremamente pobre) era generalizável. Os significados e significantes que não se juntaram para o Rodrigo, se juntaram para mim.

O "Homem..." para mim, suscitou questões estéticas e éticas, me povoou de significados, estímulos e resistências. Se eu não compreendesse que a crítica é um papel construído, como é o dos atores, onde eu colocaria a minha própria sensibilidade?

Quanto à questão do prêmio da Funarte, acho que está toda esvaziada. Por que um encenador que vem acumulando méritos reconhecidos não deveria ganhar o crédito de um prêmio? Que outras credenciais são necessárias para que alguém tenha acesso a recursos públicos? Se houve erros, ou se o trabalho não gerou unanimidade, esse é o ônus (e graças! o bonus) de uma premiação que é sempre uma aposta em um trabalho futuro.
Acho perversa a maneira como foi colocada questão do prêmio, como se ele tivesse sido fruto de alguma forma de má fé ou irresponsabilidade.
Prêmios são construídos pela comunidade artística como um todo, tanto quanto o são os atores e os criticos. Nenhum deles nasce pronto. Cada um de nós legitima, ou não, cada instância.

obrigada pelo espaço de discussão.

Rodrigo Monteiro disse...

Opa, Tatiana!

De nada! Comentários são (quase sempre bem-vindos). Como esse teu, então, mais ainda!! Fico feliz que tenha contribuído e te peço que retorne sempre!

Fiquei sabendo que houve modificações no espetáculo, limpeza de várias ações, ajustes. Isso me deixa muito feliz.

Acompanho o trabalho do João e ele sabe que eu sei e que todos sabemos que ele é um grande diretor. Continuemos discutindo o seu trabalho porque é isso mesmo que espaços como esse e o próprio teatro serve.

Um abraço.

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