8 de dez de 2009

Play-Beckett

Foto: Rafael Avancini



Humanidade inalcançável


Para mim, só há um motivo que explique o fato de que, cada vez que eu leio ou assisto a “Esperando Godot”, é como se fosse a primeira vez que eu estivesse me relacionando com esse clássico de Samuel Becket (1906-1989). É de mim que a história fala e nunca sei o bastante sobre mim mesmo. A estrutura, a forma como o autor organizou a narrativa (a narrativa sobre mim, leitor, platéia) é propícia pra isso. Poderíamos inverter a obra. Começar pelo fim, trocar as falas de lugar, mudar os diálogos de personagens. Acredito que muito pouco se modificaria. Não é o tipo de história que você pode dizer que “começa assim”, “tal coisa acontece” e “termina assado”. Não há linha de tempo nem definição de espaços. Não há significado proposto, muito menos, garantido. Não há nada para ser entendido. Vale o encontro, a vivência da experiência, o silêncio do olhar. Vale o não movimento, a respiração, a ausência de desejo. Já ouvi dizer ,e concordo com isso, que está em Becket a tragédia contemporânea: a desolação humana, a descrença nas instituições, a solidão diante da multidão, o vazio, a fome na fartura. Gogo (Estragon) e Didi (Vladimir) não podem nem mesmo se enforcar porque não têm uma corda.

Vladimir:
Então, vamos embora.

Estragon:
Vamos lá.

Não se mexem.

Pois o Grupo Jogo utiliza esse texto de 1949 como fio condutor de seu novo espetáculo chamado “Play-Beckett”. Como utilizar “Esperando Godot” como fio de algo? – me perguntei enquanto lia o programa. Godot, na sua inexistência, nem mesmo tem um fio condutor para si. Quando perguntaram para o dramaturgo quem era Godot, ele respondeu: “Se eu soubesse, eu teria posto na peça.” Godot tem muitas origens prováveis: Pode ser God (Deus), pode ser Charlot (Carlitos do Chaplin, ou o chapéu côco), pode ser Godilot (cuturno, bota militar), pode ser Godeau (a quem o individado Mercedet clama em Le Faiseur, de Balzac), pode ser a morte (no espetáculo Cacilda!, de Zé Celso Martinez Corrêa). E, sobretudo, é aquilo que eu espero enquanto sentado na platéia do teatro ou diante do texto dramático. Então, como utilizar esse pântano caudaloso como base?

O resultado pode e deve ser conferido nesse trabalho cuja responsabilidade maior está sobre Alexandre Dill e Igor Pretto, que assinam a direção, o roteiro e a concepção. Não há nenhum movimento que seja simbólico, nenhum gesto que faça sentido com outros signos do palco. A própria idéia de signo, aliás, é colocada em xeque, uma vez que essa se constrói sobre a hipótese da união sistêmica. O Grupo Jogo apresenta a desunião becketiniana, a solidão das informações, a ausência de vontade de informar, certos de que não está na percepção humana a responsabilidade da existência. Mesmo que se separem todos os elementos postos em cena, paira sobre o todo uma união intocável, imperceptível, não apreensível pelos sensores humanos. E, não é incrível?, é aí que está, em Becket, o DNA humano. Nossa humanidade está em sermos incapazes. Essa é a nossa tragédia.

Outros textos de Becket servem para o Grupo nesse espetáculo. Fim de Jogo (1957) é um deles, em que a relação familiar (?) entre Nagg, Hamm e Clov nos faz pensar sobre laços, esses tão sensíveis e, ao mesmo tempo, tão fortes entre Didi e Gogo. Músicas também. Movimentos também. Cores também. Dill e Pretto partem de Becket, mas com olhos sobre e além do texto. Chegam, ironicamente, nele mesmo, engrandecendo-o. Não vemos a hora passar, não sentimos a pressão de entender o que não deve ser compreensível, nada é mais interessante do que acontece em cena, essa construída também por Gustavo Susin que, com Dill, leva o teatro para o limite com a dança, e a dança para o limite com o teatro. Becket é mesmo o limite da arte, ou a crítica a qualquer arte que cruze esse limiar.

Movimentos absolutamente precisos, luzes e figurinos em cena pontualmente adequados e perfeitos ao que se pretende. Tempo e dramaturgia postos, junto a seus pares, para a dilatação, para o infinito, o difícil, mesmo que vulgar, nada. Tudo organizado para me desorganizar. A humanidade que eu não alcanço sou eu mesmo.

Que aplaudo e agradeço.

*

Intérpretes:
Gustavo Susin e Alexandre Dill

Direção:
Alexandre Dill e Igor Pretto

Coreografia:
Igor Pretto

Maquiagem:
Alexandre Dill

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