8 de jul de 2009

A arca de Noé


Foto: Gustavo Razzera


Por baixo da toga ou dentro da arca*


Outro dia olhei a foto de um amigo em sua formatura da pré-escola. Diferente da minha que era vermelha, a bata dele era azul.

Menininha, que graça é você
Teu bicho papão

A hora em que Álvaro Vilaverde retira uma criança da platéia e faz com que, sentada no meio do palco, todas as boas energias se convertam para ela é quando nosso coração infla e nos lembramos de que somos humanos. Ao nosso lado, desconhecidos ou não, mas humanos como nós, vivenciamos o teatro, sentindo que é, em instantes como esse, que a arte se torna ritual. Crianças um dia, crianças ainda, crianças. Juntos, olhos nela como se pudéssemos olhar todas, adultos dizemos “cuide-se”, ou “aproveite” ou, quem sabe, “prepare-se”! Juntos na infância vivida, na infância perdida, na infância mantida. Juntos no medo do bicho papão. Juntos na lembrança ou na percepção ou vivência do “começando a viver”. Criança é potência. Dela vem o que virá.

A Arca de Noé”, produção da Laura Leão, da Lívia Perrone e da Patrícia Machado, fez com que, pela primeira vez em dez, onze anos, eu lembrasse de “Uma professorinha muito maluquinha” da Cia. Stravanganza ( infelizmente não há nenhuma foto desse espetáculo no Google Imagens), que me fazia lembrar de mim mesmo, na minha pré-escola, antes de vestir a toga vermelhinha. Volto ao meu passado infantil e, agora, reflito, por que, ao invés de envelhecer as crianças, são os adultos que se infantilizam em momentos como esse? Não é doce, nem colorido ser adulto? Não é leve? Não é mágico e especial ter trinta, vinte e dois, sessenta anos? Sim, acredito que, embora não sempre, às vezes é. Mas é na infância que reside a ingenuidade, que não tem nada a ver com burrice, mas que nos faz pensar sobre a mania de relacionarmos o que já vimos com o que estamos vendo, empregos antigos com o atual, velhas amizades como as que tenho agora. A criança não tem passado, ainda não consegue ver dimensões e não entende sobre o tempo.

“A Arca de Noé” não tem história. Os atores relatam o mito do dilúvio como motivo para as músicas. Daí o principal diferencial desta produção, de Zé Adão Barbosa, dá já citada direção de Adriane Mottola. Lá a dramaturgia era fechada. Aqui é potente. Lá havia potência. Aqui há dramaturgia, mas entendendo o espetáculo enquanto atualização de um sistema, reconhecemos que cada processo consiste em (re)hierarquizar sub-sistemas de acordo com o gênero que se escolhe. Aqui é uma coletânea de músicas infantis compostas e/ou organizadas por Toquinho e por Vinícius de Moraes. Lá era a atualização para o teatro dos desenhos e textos de Ziraldo. Assim, não é pela narrativa da história bíblica que o aqui nos prende. É pela capacidade de produzir (de plantar) em nós nossas próprias histórias. (Seria “A Arca de Noé” um espetáculo infantil pós-dramático?)

Os atores Álvaro Vilaverde, Beto Chedid, Lívia Perrone, Regina Rossi e Simone Rasslan se chamam pelo nome e usam um figurino (Titi Lopes) nada além de muito bonito. O cenário, bastante colorido, é de uma simplicidade imensa: não produz ambientes, mas serve unicamente para colorir o espaço e dar abrigo para elementos que não devem ser vistos em determinados momentos. Da luz (Carlos Azevedo) se diz o mesmo. Ou seja, não é através de elementos técnicos que essa produção nos prende e nos encanta. É, com certeza, pela capacidade do figurino de nos fazer lembrar nos personagens que nos fizeram sonhar; pela força do cenário que nos faz recordar as previsões que tínhamos sobre os lugares que, no futuro, visitaríamos; pela presença da luz que nos (e)leva ao nosso antigo eu. E, sobretudo, traz de volta um tempo em que não nos chamávamos por professor, escritor, mestrando, mas apenas pelo próprio nome.

A experiência “A Arca de Noé” é incomparável. Podemos dizer que ela se aproxima de outras experiências inesquecíveis e nenhum pouco menores, mas é difícil falar sobre a forma como as crianças e os adultos reagem ao que acontece no palco. E aí me lembro do que se vem estudando sobre a performance, o inusitado, o aqui e agora do palco, da cena, do cotidiano. Consigo, pelo menos, observar que a incomparabilidade da experiência coletiva acontece porque é formada de pequenas experiências individuais. A direção musical de Marcelo Delacroix faz-nos contemplar Simone Rasslan, ela só um espetáculo a parte. O exato se vê na docilidade forte da voz de Vilaverde e na graciosidade dos outros três atores já citados. De um modo geral, mas não menos individual, de Noé a São Francisco cada humano chega, nessa assistência, a ficar próximo de Deus, mas não distante do humano. E o que vem a ser isso se não a crença em Jesus Cristo, um Deus que se faz homem?

Eis que olhamos para esse espaço dentro de nós, esse lugar sagrado que reservamos para momentos em que queremos nos abrigar para não sermos vistos porque é hora de não assim sermos. É lá que encontramos os elementos em potência, o que virá a ser o que for, a volta, o retorno, o recomeço, a nova chance.

Afinal, seja azul ou vermelhinha, preta , longa e solene, é o que está dentro que nos faz sermos individualmente plural, protegidos de qualquer dilúvio.

Fique assim, fique assim, sempre assim
E se lembre de mim
Pelas coisas que eu dei
E também não se esqueça de mim
Quando você souber enfim
De tudo o que eu amei.

* Texto também publicado na Revista Informe C3 #6




*
FICHA TÉCNICA
Direção: Zé Adão Barbosa
Direção Musical: Marcelo Delacroix
Elenco:
Álvaro Vilaverde
Beto Chedid
Lívia Perrone
Regina Rossi
Simone Rasslan
Preparação Vocal: Simone Rasslan
Preparação Corporal: Regina Rossi
Figurino: Titi Lopes
Bonecos: Tânia Farias
Luz: Carlos Azevedo
Produção: Laura Leão, Lívia Perrone e Patrícia Machado
Assessoria de Imprensa: Lauro Ramalho

2 Comentários:

Helena Mello disse...

Será que uma crítica pode ser linda? Porque este texto é.

Lívia disse...

Obrigada pela crítica tão linda!
Um abraço
Lívia

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