12 de jul de 2009

Eu me faço simples por você


Foto: Marcelo Pacheco

Rotação


O palco é o mundo e os atores são também pessoas. Só do palco ou das pessoas é que vêm os obstáculos. Só deles também é que vêm os estímulos. Uma zona escura aqui, outra ali. Cena aberta. Uma mais gordinha aqui, outra mais alta ali. Um único bailarino homem. Linhas horizontais na camiseta, vestido acolá. Malha com camisa de botão. Cabelo curto. Cabelo liso. Há os que fumam. E Airton Tomazzoni, diretor do Grupo Experimental de Dança da Cidade, nos apresenta o cruzar.

O teatro não está no ator, na zona clara, na trilha bem escolhida. O mundo está no movimento: rotação e translação.

E você caminha. Do sul para o norte. E outro alguém caminha do leste para o noroeste. E outro ainda do sudeste para o sul. E ela corre. Aquela outra engatinha. Uma se arrasta. Eu nem olho para os lados. Uma teia de gente cruzando, andando em volta do sol com a lua envolta da gente. E, de repente, numa festa ou na fila da banquinha de bergamotas, você olha para o lado e vê que alguém vai para o oeste como você, no mesmo ritmo ou quase, rubicundo talvez. “Eu vou pra lá também.” “Vamos juntos, então.” E dois cruzando juntos faz parecer que os dias correm mais rápido.

Mas o cruzar não é, não esqueçamos disso (por favor!), um privilégio do ator bailairino, único entre as mulheres em cena. Um belo dia, o oeste já não lhe cheira bem talvez pela proximidade, talvez porque talvez. O sudoeste parece mais colorido. “Mudei de idéia. Beijomeliga!”

Só.

E o cruzar continua. O oeste também. A bailarina mais lenta, por alguma carga d’água, agora anda mais rápido. E vamos juntos.

Juntos.

O palco escurece e a tartaruga some do nada, num acidente ou num ataque fulminante.
Alguém mais novo, ou mais velho, ou com peitos maiores, ou com orgasmos mais prolongados surge e, embora o oeste continue brilhante, é você quem não faz mais sentido.
Nada acontece, ou tudo continua acontecendo, mas a tartaruga cansou de correr e quer ir mais devagar. Então, ela pára e você segue.

Você segue.

E olha pra trás. Há quem faça solos no palco. Há quem faça duos. Há quem não faz quase nada. E há quem só faz sentido em grupo. O que é mais importante: o oeste ou a companhia?

E aí chegamos ao fim de “Eu me faço simples por você”. Começamos a entender que não há muito o que entender e que é bom fazer-nos simples para nós mesmos.

Os movimentos da Terra, quem sabe, explicam a constância da vida. E tudo isso sem dizer nada.

Dança.






*




FICHA TÉCNICA


Direção: Airton Tomazzoni
Figurino: Airton Tomazzoni e Marcelo Pacheco
Iluminação: Karrá
Seleção Musical: Airton Tomazzoni e Roberta Savian
Produção: Airton Tomazzoni, Marcelo Pacheco, Jane Carvalho, Maria Aparecida Simões e Ana Paula Silva dos Reis.

Intérpretes Criadores:
Aline Brustolin
Alessandro Rivellino
Bibiana Alterbernd
Fani Vasconcellos
Joana Vieira
Juliana Rutkowsky
Muriel Vieira
Raquel Purper




1 Comentário:

Robson Rogers disse...

"Começamos a entender que não há muito o que entender e que é bom fazer-nos simples para nós mesmos"

E isso é, sem dúvidas, talvez o mais difícil de se compreender. Há de se trilhar um bom caminho pela frente. N basta saber. Há de se vivenciar...

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