15 de ago de 2009

O Avarento


Foto: Luciana Mena Barreto

Churrasco e Sushi. Roupa Nova e Casamento.



1956. Você conseguiria imaginar Julie Andrews, perfeita como Eliza Doolittle, olhar com ironia para o que vê ou mesmo piscar para o público questionando os sonhos que manifesta ao cantar no mercado “Wouldn’t be loverly? em “My fair lady” ?

1957. Você conseguiria imaginar Anita, Chita Rivera, após a inesquecível cena de “América” de “West Side Story”, ver a protagonista Maria se afastar e, olhando pro público, dizer: “Vamos ver até quando vai durar esse sonho...” ?

1959. Você conseguiria imaginar a noviça Maria, Mary Martin, na segunda cena de “The Sound of Music”, no meio de "The hills are alive” sentar no chão e não ter nenhuma paisagem, nenhum tronco de árvore (como diz o texto), absolutamente nada além dela e o figurino, com os atores todos a vista, fora apenas do espaço cênico?

Não.

O Musical, gênero essencialmente norte-americano, é um misto de teatro de revista e circo que iniciou na metade do século XIX, cresceu nos primeiros anos do século XX na ilha de Manhattan e atinge o seu apogeu, não por nada, na Grande Depressão pós 1929. O musical serve para fazer encher a alma do público, arrebatá-lo da cadeira. Daí uma grande quantidade de bailarinos e coreografias complicadas, cenários que caem do teto e figurinos não menos que explêndidos, lindas vozes que começam a cantar do nada deixando bem acertado que o mais importante é a música e não o texto. A trilha, num musical, protagoniza. E só, num musical, atores cantam. Fora disso, cantarolam, assobiam um tema qualquer, usam a música para ilustrar.

Seria desperdiçar o gênero colocar Eliza Doolittle duvidando de si mesma quando justamente seus olhos não piscantes prendem a nossa atenção. Da mesma forma, ao identificar-se com Anita, vê-la como outra pessoa, falando com a gente, a platéia. E não menos pior: não oferecer à voz forte de Maria ainda não Von Trapp a imagem dos Alpes Austríacos. Se o gênero oferece isso ao encenador, por que não usá-lo?

A farsa é um gênero consolidado por Molière que, junto com Racine e Corneille e outros, no século XVII, retomaram na França, o melhor do clássico grego: as ações externas à cena e, principalmente, o virtuosismo da palavra. Acrescenta-se a isso a crítica travestida de narratividade, com utilização da platéia como cúmplice e não meros ouvintes do belo texto, e com a limpeza da cena. Um texto neoclássico quase não tem rubricas, há poucas indicações de cena e o encenador é, com isso, avisado de que só o bom dizer já é suficiente. Se o gênero oferece isso ao encenador, por que não usá-lo?

Apesar do nome Farsa, o Grupo Farsa trai a Farsa utilizando o Musical como amante. Embora com boas letras, lindas melodias e ótimas interpretações, coreografias e palavras em forma de tons me lembraram, e muito, Rolling Stones em Édipo Rei: uma teimosia do encenador em comer sushi com churrasco, os dois no mesmo prato. Não dá pra comer picanha com pauzinhos, tampouco colocar algas num espeto. A maravilhosa ilusão do musical fica perdida na maravilhosa ironia farsesca. E, pra acrescentar, num par de cenas, há aventuras no melodrama, com lágrimas e olhares enternecidos da dupla romântica de “O Avarento” (Lucas Krug e Daiane Oliveira), novo espetáculo dirigido por Gilberto Fonseca.

Com exceção das calças de lycra de Frosina (Lúcia Bendati), o figurino de Daniel Lion é perfeito. Com exceção das banquetas de metal forjado e o cabideiro do mesmo material, o cenário (o tapete e a proposta das banquetas) é rico em tudo aquilo que o gênero escolhido possibilita como potência. Com exceção no nervosismo e da falta de ritmo da estréia (Bárbara Heliodora uma vez disse que “se a peça não está pronta, então, que não seja apresentada. O público da última semana tem o mesmo direito de ver um bom espetáculo que o do primeiro dia.” Sempre acho que sessões de ensaio aberto e apresentações na periferia deveriam anteceder estréias no eixo Centro – Bom Fim – Cidade Baixa.), pode se ver grandes interpretações, textos muito bem ditos como convém, e momentos ora de leveza e ora de sarcacidade como prevê o clássico francês.

Em suma, se conseguirmos o impossível: esquecer o equívoco da trilha sonora, temos em cena, sob o texto de um dos maiores dramaturgos da história, as excelentes interpretações de Ariane Guerra e João Pedro Madureira, em papéis secundários, mas cheios de riqueza e profundidade, exibindo corpos treinados para o olhar do público e, principalmente, prazer em estar ali; e a não menos, mas talvez um pouco mais, excelente contribuição de Elison Couto: ótima dicção (base para o clássico), experiência mostrada em figura corporal pesquisada, treinada e mantida; e a graça de estar em meio a uma história que, embora os desperdícios da direção, diz muito para os dias de hoje.

Ficam ainda Lúcia Bendati, ainda trêmula com os leques; Marcos Chaves, trêmulo num alto sapato alto; Zé Mário Storino, trêmulo com chapéus, aventais e colher. Objetos externos aos corpos, como também é externa a trilha, como foi dito no início.

Em se tratando de Gilberto Fonseca, mesmo diretor do diferente espetáculo “A Canção de Assis” e outros trabalhos, sempre cuidadoso com aquilo que é plástico, num elenco que, por contar com Couto, Bendati, Madureira e Krug, quatro nomes do que há de melhor no teatro porto-alegrense, podemos dizer que a avareza de economizar na ironia e na crítica, gastando naquilo que não é farsa, será um dia punida.

Por hora, Gilberto Fonseca ganha roupas novas e alguns casamentos.

*

FICHA TÉCNICA

Texto: Molière
Direção: Gilberto Fonseca
Prep. Vocal, Trilha e Direção Musical: Marcos Chaves
Figurinos: Daniel Lion
Cenário: Gilberto Fonseca e Lucas Krug
Iluminação: Gilberto Fonseca
Maquiagem e Cabelos: Elison Couto
Projeto Gráfico: Adriana Sanmartin
Fotografia: Luciana Mena Barreto
Divulgação: Sandra Alencar
Assist. Produção: André Oliveira
Direção de Produção: Inês Hübner

ELENCO:

Elison Couto
Marcos Chaves
Daiane Oliveira
Lucas Krug
Ariane Guerra
Lúcia Bendati
Zé Mário Storino
João Pedro Madureira


5 Comentários:

Morpheus disse...

Hahahaha!
Por hora, Rodrigo Monteiro ganha essa risada. Quando me sobrar tempo eu comento a minha "traição".
Hehehehe...

Lu Bendati disse...

Por hora, de minha parte, Rodrigo Monteiro ganha uma sova, nada atrapalhada, com os leques de Frosina, pela indelicadeza de não ter nem ao menos agradecido pessoalmente pelo convite no dia da estréia. Demais observações farei ao vivo. Depois de conseguir entender o que tu esperavas, é claro.

Rodrigo Monteiro disse...

Lu, queridona!

Desculpa não ter ido te abraçar. Quase nunca vou, preferindo cumprimentar depois, o que sempre faço e ninguém pode dizer que não incluindo você.

E pra Frosina casamenteira diga-lhe apanhar dela será um prazer.

Beijos!

Laín disse...

Fala sério! Você não gostou do Avarento?! A adaptação ficou ótima cara. Eu to lendo algumas criticas suas... vc não gosta de muitas peças né? Vai vc fazer algo melhor então.

Viviane Falkembach disse...

Para o comentário sobre apresentações prévias na periferia, a Frosina vai ter que caprichar na sova, pois, ao que parece, para quem lá mora, os comentários de Bárbara Heliodora não são válidos...

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