2 de ago de 2009

Abobrinhas Recheadas

Foto: Cíntia Bracht

Três moedinhas e uma abóbora

Foi minha capricornianisse aguda que me fez estudar Semiótica. O PRAZER DE DESCOBRIR novos significados, novos sentidos, vinhos novos em odres velhos. Odres. Vinagres.

Foi meu amigo Charles Peirce e meu amigo Alexandre Silva quem me ensinaram que, na teoria do primeiro, o mundo real é inapreensível e tudo o que existe nele é mundo. Não há referentes que não interpretantes. Quando eu toco em uma xícara, ou mesmo olho pra ela, já não é xícara, mas a imagem, a sensação do toque que tenho dela. E, heraclitianamente falando, quando eu olhar pra ela novamente, já não será a mesma. O mundo é sempre uma novidade.

Assim, “Abobrinhas Recheadas*” ganha lugar na existência humana quando faz ver a troca de sentidos. O diretor solicita a dois bailarinos – no total, são quatro: cada um sentado no meio do quadrado formado pelo público. Como em tudo, o espaço de dentro é o espaço cênico. – que executem uma ordem dada. A ordem é obedecida e a coreografia (É um espetáculo de dança!) se dá a ver. Entra uma música de filme. “E o vento levou...”, por exemplo. Os movimentos se repetem, os sentidos, no entanto, nunca são os mesmos. O significado é outro.

O diretor fala ao microfone um texto sobre abobrinhas e como recheá-las. Então, a fala continua mesmo após a boca de Diego Mac, o próprio, já estar fechada. Não era ele quem ditava, mas um playback. Quase no final, voltamos pro início. Nesse espetáculo que não deveria sair de cartaz tão cedo, ou o espectador se acostuma com as mudanças de significado, ou abandona a própria vida. A terra era plana quando a percepção dela fazia crer que era assim. Mudou-se a percepção, mudou-se a definição. Nem redonda ela é mais hoje...

Um longuíssimo (pra mim, até demais!) solo a partir de referências sonoro-musicais do pop acontece. A relação com “abobrinhas”, expressão que usamos como sinônimo de bobagem, faz ver que o tema é a valorização daquilo a que valor não deve ser dado. Aí vem “Construção”, de Chico Buarque, reproduzida na íntegra do primeiro ao último som, desconstruindo proparoxítona por proparoxítona cada referência pop do solo anterior.

Tchaikovsky entra dançado com pantufas dizendo, talvez, que os cisnes enfeitiçados do lago somos nós muito mais em momentos do dia a dia que no estofado peludo de um sapato de salto raro. E Macarena, com apenas meia dúzia de passos, acaba sendo potência para mais que dúzias de movimentos tanto de bailarinos clássicos como de faxineiras ajoelhadas no chão dos nossos banheiros frios.

Em época em que o Aquecimento Global foi desligado no Rio Grande do Sul, o Grupo Gaia veio mostrar sua existência. Um ato que se modifica a cada novo olhar, mostrando que o I Ching estava certo quando, há quarenta séculos atrás, dizia que a constância está na mudança.

E que o recheio da abobrinha pode ser, dependendo do teu olhar, a própria e incrível abobrinha.


* Espetáculo de dança contemporânea resultante da pesquisa "Reprocessamentos Coreográficos: traduções estético-culturais entre dança e vídeo."




FICHA TÉCNICA:

Direção: Diego Mac
Projeto Coreográfico: Alessandra Chemello e Diego Mac

Intépretes:
Daniela Aquino
Fabi Vanoni
Nilton Gaffree
Roberta Savian

Design gráfico: TUPAX pindoramogràphïco
Assessoria de Imprensa: Lauro Ramalho

3 Comentários:

dannica_aquino disse...

Muito legais as tuas palavras a respeito do nosso trabalho.
Valeu, mesmo.
Só fiquei com uma dúvida: Por que três moedinhas e uma abóbora?

Abração.
Dani.

Rodrigo Monteiro disse...

Oi, Dani! Eu é que agradeço!

Três moedinhas é como se joga I Ching.

Olha aí uma foto delas...

http://www.simbolika.com.br/detalheprod.asp?produto=271

beijos!

e voltem a cartaz logo!

dannica_aquino disse...

Ahahahaha!
Eu não sabia!
Valeu.
Votaremos com o espetáculo "Mulheres fortes em corpos frágeis" no Em Cena.
Vai lá ver também.

Beijão.

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