9 de ago de 2009

Se meu ponto G falasse


Foto: Myra Gonçalves

Timeless to me

Há uma música em Hairspray que sempre me faz enternecer. Os pais de Tracy Turnblad, a protagonista, casados há anos, cantam o segredo do sucesso de seu casamento. Vou tentar traduzir a primeira parte. Esse texto vai ficar longo, mas tenho certeza de que a leitura da letra (pelo menos dela) vale a pena.

WILBUR
Estilos continuam mudando
O mundo se transformando
Mas, Edna, você é eterna pra mim
As saias estão mais curtas
As cervejas mais caras
Mas o tempo não se mete no que vem sozinho

Você é como um queijo velho e fedido, baby
Se deteriorando com o tempo
Você é como uma doença sem cura, baby
Mas, se não há cura
Então, que a febre queime.

Alguns amigos não entendem
Dizem que o tempo é um bandido
Mas eu vejo de outro modo
Porque quando eu preciso de descanso
O tempo me dá um presente:
Um outro dia com você.
Um twist ou uma valsa
Não importa muito
Só muda o cenário.
Você nunca será um chapéu velho.
É isso!
Você é eterna pra mim.

EDNA
Oh, Wilbur

As notícias mudam toda hora
(Fidel) Castro está invadindo
Mas Wilbur, você é eterno pra mim.
Os penteados estão mais altos
Meu cabelo parece um arame farpado
Mas você diz que eu estou chiquíssima

Você é como uma onda da moda
Algo que não deixaremos de usar
Então, dê-me um acorde bem adolescente
E a gente pode comemorar o fato de não estarmos ainda mortos.

Eu não consigo parar de comer
E logo já não haverá nada mesmo
Então, você vai usar uma peruca
Enquanto eu preparo um porco
Hey! Me passa as vitaminas!

Glenn Miller tinha classe
Aquela gatinha era um estouro!
Mas, na verdade, tudo isso passa.
Você nunca passará
Hip Hooray
Você é eterno pra mim!


(Segue o refrão e a última parte.)

Com essa letra, que não fala de prazeres sexuais, performances atrativas, parceiros que mudam, toco no assunto “Se meu ponto G falasse” a partir da relação de amizade entre Bia (Patsy Cecato) e Ana (Heloísa Migliavacca). Para mim, que não tenho vagina, nem clitóris, e com um ponto G reticente, trata-se de um espetáculo que fala muito mais da relação de duas mulheres que optam por desvendar o mundo juntas do que sobre a sexualidade. “Se meu ponto G falasse”, entrando no seu décimo segundo ano desde a sua estréia, é, antes de tudo, um espetáculo amigo de Porto Alegre e revê-lo pela quinta vez foi um prazer.

Júlio Conte, que assina a direção e a dramaturgia, faz com que quatro momentos sejam mostrados: quando solteiras e esperam o namorado que um dia vem e aquele que até agora não apareceu; quando recém-separadas e sofrem pela expulsão do marido ou pela fuga dele; quando na balada e entendem que é melhor serem companheiras de si mesmas; e quando, de novo, apaixonadas, assumem-se com uma pessoa mais velha ou mais nova, mas, antes, assando seu “próprio churrasco”. Em cada etapa, é no diálogo que se encontram com a gente e monólogos masturbativos felizmente não aparecem. Se nosso namoro com essas “gatinhas” durou doze anos, é porque a relação entre nós é timeless to us.

Timeless com porquês e apesares, separados e juntos. Porque o texto é muito bem estruturado, a sonoplastia é ótima, a luz é linda! O cenário entra nesse conjunto, com espaços criativos, elementos que favorecem diferentes níveis de leitura e proporcionam a identificação necessária a uma comédia realista tal como é vendida. A direção luta o tempo inteiro para não deixar o discurso se transformar em panfletário, e vence na medida em que homens e mulheres se encontram, seja de que idade for, em algum lugar da narrativa cênica. O jogo é rápido e traz sempre uma surpresa que encanta, prende e convida para continuarmos.

Apesar da existência de certas datas que o texto não faz esquecer: um tempo em que agendas escritas, celulares e endereços eletrônicos não eram partes de DNA e quando a expressão “básico”, já nem me lembro mais de onde ela vinha, era acompanhada com uma virada de cabeça e uma risada. A própria expressão “ponto G”, hoje, já não tem a mesma graça que dez anos atrás, assim como a discussão sobre mulheres mais velhas com caras mais novos. Reparei que várias piadas já não fazem mais sentido.

Porque e apesar, os dois juntos, das diferentes interpretações de Cecato e Migliavacca. Enquanto a segunda desde sempre usa do seu carisma para nos trazer para a sua história, Patsy demora para nos “pegar”, fria até a metade da apresentação. Praticamente não há expressões faciais e seu corpo se restringe a uma movimentação de braços e pernas sem muita agilidade. Bia se deixa ver apenas pela voz, em várias entonações e num ritmo alternadamente bastante rápido ou bastante lento. É quando nos acostumamos com ela que percebemos que a diferença das construções das duas personagens acrescenta ao trabalho. No final, estamos apaixonados pelas duas, cada uma do seu “jeitão”. E aí Bia olha para Ana e diz “Foi bom ter chegado contigo até aqui” e a peça chega quase no fim.

Então, olhei para meu lado e vi uma pessoa que conheci há seis meses e outra que não via há dez anos. Ao longo da vida, sempre preferi contar com a fiel presença de amigos fiéis, do que contar comigo mesmo. Com eles, foi bom chegar até aqui.

E esse até aqui nem sempre precisa ser o ponto g.

*

Com:
Patsy Cecato
Heloísa Migliavacca

Texto e Direção:
Júlio Conte

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