21 de ago de 2009

Às favas com os homens que as mulheres vão a luta


Foto: ?


Olhar desconfiado: dúvida se há mesmo segredos ocultos

Ontem fui comer sushi num restaurante bem legal que abriu na Cidade Baixa. Ao entrar, reparei na decoração das mesas, nos quadros na parede, do que estava exposto no balcão, no buffet. Lembrei também do que me disseram sobre o lugar, afinal, não nasci na hora em que entrei pela porta. Ao sentar à mesa, notei que não me deu vontade de pedir pizza.

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Fui ver Brüno a convite de um amigo sem ter lido nada sobre o filme. Foi só depois da luz do cinema ter apagado que me contaram que aquele protagonista era o mesmo ator do Borat. E não só ator, mas alguém que é responsável por todo o filme. Como segui sem ter pesquisado, não posso falar muito. Mas reparei que, quanto mais os frames iam passando, menos eu esperava ver algo que não fosse uma tentativa de piada, que não tivesse um contexto irônico, que não fosse um deboxe. Ia acompanhando as cenas e, uma a uma, ia entrando no universo da obra que, embora grande, não abarca todos os universos possíveis: uns sim, muitos outros não.

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Hoje vou a uma missa de sétimo dia. Se o sermão estiver chato, prometo reparar nas paredes se há cartazes de "Não fume!" ou "Desligue o celular!" ou mesmo "Não entre de roupa de banho" ou, então, "Não é permitido entrar no twitter." Tenho a impressão, porque já fui muito igrejero, que essas ordens todas nunca foram postas na parede. Mas, mesmo assim, é difícil encontrar alguém que não as conheça.

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O síndico do meu prédio é um homem como os outros. Como o meu pai. Eu dou um beijo no meu pai quando o vejo. E não beijo o síndico. E nunca encontrei esse senhor, a quem sei pouco além do nome, no corredor do edifício com um cartaz: "Não me beije sem me adicionar no orkut primeiro."

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Com essa seleção de situações metafóricas, quero chamar a atenção para a forma como o mundo e, como ele, uma obra estética existem em paralelo a nossa existência. Tanto a obra como aquele que a percebe existem independente um do outro, mas há um derterminado momento em que se encontram. Esse momento é o da fruição estética: a obra não deixa de ser obra e nem mesmo se apresenta por inteiro ao intérprete, nem o intérprete deixa de sê-lo e também não se apresenta de todo para a obra. A peça de teatro olha a platéia com olhos desconfiados. A platéia olha a peça teatral com olhos igualmente desconfiados. Ambos guardam segredos que, talvez um dia, serão revelados. Talvez, não.

Assim, estando eu sentado no lado da platéia, me importa ler o que me mostra a peça. Por mais que eu saiba que nem tudo será me dado a ver, é pelo que vejo que eu reconheço a peça. O mesmo faz ela, que me vê, utilizando-se, se não for burra, daquilo que eu lhe apresento: o Rodrigo que não nasceu quando entrou pela porta do teatro e, portanto, traz informações de fora, por mais que tenha querido (no meu caso) desfazer-se delas.

Pedro Delgado, que nunca ganha patrocínio nenhum e está sempre em cartaz e simplesmente por isso merece o respeito da classe teatral, apresenta "As favas com os homens que as mulheres vão a luta" guardando segredos que nem eu, nem ninguém jamais conseguirá saber. E isso é natural uma vez que, anos depois, sempre nos damos conta de coisas sobre obras que vimos ontem ou há anos atrás e, até então, não tinha chegado até nós. O que é isso? Nada mais do que a obra cochichando no nosso ouvido coisas sobre as quais, no ato da fruição, não estávamos preparados para saber...

Temos, no ato da apresentação, uma apresentação. E o que me foi apresentado?

Um cenário interessante (pronto para despertar o interesse), mas que aponta para algo sem que esse algo seja visto. É como se você preparasse uma grande festa, semanas e semanas comentando sobre detalhes e, no dia esperado, servisse café com bolachas. O Grupo Cacimba, assim, faz todo um carnaval para uma festinha... São molduras de arame, pedaços de cinzal que desenham formas humanas de casais. Criados mudos suspensos em diferentes níveis. Banquetas e pequenas escadas de alumínio. Um chuveiro ao fundo de onde sai um tule branco. Mas tudo isso, em branco e prata, com seus sentidos estéticos nada ou bem pouco utilizados.

Pedro Delgado gritando muito é outra parte da obra dada a ver. Desde a sua entrada em cena, o ator fala num tom de voz realmente muito mais elevado do que o necessário, fazendo com que também os demais atores levantem seus tons, o que nos ensurdece sem nenhum motivo aparente. E, desde sempre, repetindo personagens já vistos em outros de seus trabalhos, muito bravo, nervoso, pesado. O conflito da peça, percebe-se, é seu personagem. É esse marido que não poupa esforços em criar problemas com sua esposa. Ela, no início, faz um círculo de rosas artificiais (Rosas Artificiais. É isso mesmo! Por incrível que pareça, como perucas apontadas em outro espetáculo, ainda se usam flores artificiais sem jogo com o sentido da artificialidade.) e treina posições de meditação. Chega o marido e as brigas começam. Ela quer transar, ele não fica excitado. E se é ele quem não fica excitado, pensamos: "que culpa tem essa esposa, linda, sensual, simpática?" E a esposa quer o marido e não outro homem. E não nos é dado a ver a relação com o título, esse que expressa uma independência feminina, mofada em termos de temática desde Malu Mulher...

Preto e vermelho nos figurinos, desde os tennis até as roupas íntimas, me faz pensar nas cores da luxúria. E sexo é o tema do espetáculo. Igreja combina com oração, com silêncio. Restaurante Japonês combina com aquário, com molhos shoyo, com hashis. Meu pai combina com beijos. E, nessa união de sentidos, difícil de fazer em quase todos os aspectos no espetáculo de Delgado, mas que aqui é possível, que vamos lendo o espetáculo, que ele vai se abrindo e que nós vamos existindo nele. A opção pelas cores é um dos poucos momentos em que vemos que há, no organismo obra, uma coerência.

Há uma confraria presidida por Carla (Ita Ramires) que consiste em fazer com que as mulheres dominem os homens e não o contrário. Há uma debandada de associadas e a presidente resolve passar uns dias na casa da irmã para ver se ela também não desistirá. A irmã é Telminha (a ótima Daniela Lima), casada com Edgar, personagem de Delgado. Edgar tem um amigo (Raul - Luis Carlos Pretto) e traz ele para sua casa querendo apresentar ele para a cunhada, recém abandonada pelo marido. Carla obriga sua irmã a fazer um juramento de não fazer sexo com o próprio marido e, na mesma intenção, enlouquece o amigo do cunhado. A dramaturgia evolui até que os dois são expulsos e o casal, Edgar e Telminha, se reaproxima. A reaproximação é estranha. Telminha diz para Edgar que, se o marido fosse mulher, ela seria lésbica: num momento bem próprio para nos enternecer como é o que acontece em comédias românticas, um gênero respeitável. Ele, para a nossa infeliz surpresa, responde que, se fosse mulher, ficaria com Raul, um homem que não se joga fora. E aí nossa cabeça gira. "Como assim?" E o final que não vou contar, mas afirmo ser nada além do esperado, acontece de um jeito desnecessário como várias coisas parecem ser: apontam para nada.

E o cenário de criados mudos suspensos e telas transparentes bóia numa dramaturgia realista, dentro do gênero comédia de costumes. É como "Um lugar chamado Nothing Hill" num cenário do Expressionismo Alemão. Ou, usando um exemplo de teatro, "Esperando Godot", do Becket, num cenário próprio para Tennessee Williams. A trilha sonora recortada aleatoriamente de outros lugares coroa uma hora e tanto de apresentação sem que, nem o espetáculo tenha sido conhecido, nem eu tenha sido conhecido pelo espetáculo. Um desperdício do momento mágico que o teatro, ao unir palco e platéia, tem em relação às outras artes.

A ausência de sentido é significativa. Quando a não combinação de elementos é proposital, isso é dado a ver. Já entrei, afinal, em churrascarias com sushi no buffet perto das saladas, o que mostra que ali é um lugar aberto para todos os gostos. Já vi gente falando ao celular dentro de igreja em apresentações teatrais de Grupo de Jovens. E já não beijei meu pai quando estava realmente furioso com ele e queria deixar isso claro. O mundo dos signos sempre se faz significativo à percepção dos intérpretes. Nem sempre, no entanto, se faz coerente.

É uma pena que, nessa produção de Delgado, a coerência na concepção do espetáculo não tenha sido considerada. Nem eu, platéia.

E, se um dia ela vier coxixar ao meu ouvido, já não irei querer ouví-la.


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Texto e Direção: Pedro Delgado

Elenco:
Daniela Lima
Ita Ramires
Luis Carlos Pretto
Pedro Delgado



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