24 de ago de 2011

Tartufo

Foto: Jorge Scherer

O Grupo Farsa volta à Farsa!

E são bem vindos! “Tartufo” é o segundo espetáculo da trilogia “As três batidas de Molière”, que começou com “O Avarento” e terminará com “O doente imaginário”, espetáculo que celebrará os dez anos de atividades desse grupo que se caracteriza por produções extremamente bem cuidadas. Não há espetáculo do Grupo Farsa sem programa, sem pessoas que te recepcionem bem à portaria, sem divulgação ampla, sem projetos paralelos que acrescentem à classe artística portoalegrense e aqueles envolvidos com ela. “Tartufo” pode não ser o melhor espetáculo da companhia, mas fica bem próximo do saudoso “A Roupa Nova do Rei.” Eis novamente uma Farsa!

O gênero farsa, que, embora dê nome ao Grupo, não é sua prisão, é o que melhor organiza os sentidos numa peça de Molière, como aqui, mais uma vez, é o caso. Na produção dirigida por Gilberto Fonseca, muitos elementos que fazem parte do repertório do gênero foram aproveitados a começar pelas construções de personagem. Em Ariane Guerra (a empregada Dorina), Marcos Chaves (Oregon, o dono da casa) e Laura Leão (a mãe de Oregon), as melhores construções em cena, é possível identificar a máscara farsesca, elemento que mais proporciona ao público o riso, a comédia, a piada em montagens desse tipo. Os três atores, ao carregar suas “tintas” em movimentos compartimentados (num simples gesto de mão, facilmente se reconhece vários estágios previamente planejados), deslocam os personagens do realismo, do público, e , com isso, instauram, uma realidade narrativa que acontece em dois níveis: o nível do personagem e o nível do ator. Ao espectador é dado ver, assim, Guerra e Dorina, ao mesmo tempo, em cena, num duelo cômico tão rico na farsa molineresca. Laura Leão ri de sua personagem, se diverte com ela e nos deixa livres para pensar que a Mãe que ela interpreta reprova a atriz. Os personagens de tão codificados (a empregada enxerida, o patrão ingênuo, a sogra fanática) se reproduzem no universo cultural de diferentes lugares e histórias ao longo do tempo, sempre sendo fonte de muitas anedotas contadas de pai para filho,de quadro em quadro, de romance em romance. Guerra, Chaves e Leão não perdem oportunidades de se exercitar, de nos divertir e, sobretudo, de se divertir. Quando isso fica claro para o público, a plateia responde ao riso sem fazer força. Apesar de alguns momentos de exceção, Tefa Polidoro (A filha de Oregon ou “a mocinha”da história) e Carlos Azevedo (o cunhado de Oregon ou “o cunhado aproveitador”) acompanham o trio e conseguem, assim, grandes momentos.

Em termos de encenação, Gilberto Fonseca dá duas contribuições ao gênero, particularizando a produção. Uma delas diz respeito à interpretação de Elison Couto ao personagem protagonista. O Tartufo de Couto/Fonseca ultrapassa o realismo e é apresentado quase sem expressão, muito próximo do neutro e seria possível dizer, embora se saiba impossível, que não há teatralidade nele. A negação da máscara torna-se sua afirmação e é como se a peça dissesse à assistência: “esse personagem pode ser encontrado, assim como ele está, entre vocês!” – o que é extremamente rico. O jogo que a produção estabelece com a produção de “O Avarento”, cujo protagonista Harpagão também foi interpretado por Elison Couto, garante gargalhadas, atinge o alvo em cheio, é diversão pura. Os movimentos, como apontado acima, bastante neutros não escapam a uma certa malícia própria do discurso verbal do personagem. O resultado é sarcasmo: chave para o conflito que o personagem propõe à situação dramática. Tartufo é um enganador que é acolhido por Oregon, que vê nele uma espécie de novo profeta, um homem cujas palavras devem ser ouvidas e postas em práticas com cega devoção. A vida dupla de Tartufo na casa de Oregon encontra paralelo na vida dupla de sua concretização cênica: personagem e ator convivem na cena farsesca, o que, séculos depois, será politicamente rediscutido no distanciamento brechtiano. Mas se, em Brecht, causa reflexão, em Molière, por primeiro, causa riso. Fonseca e a maior parte do seu elenco consegue isso. Os senões estão em Lúcia Bendati, Plínio Marcos Rodrigues, Vinícius Meneguzzi e Bruno Hypólito que exibem construções realistas e, por isso, não exploram a farsa a consenso.

Outra grande contribuição dessa produção ao repertório de Molière está a profícua aproximação do texto “Tartufo” com o universo das igrejas evangélicas/renovação carismática católica. As músicas iniciais, por explorar as possibilidades desse arcabouço estético, investem na ironia, na brincadeira séria, na crítica. Lembrando o quadro “Tim Tones”, personagem de Chico Anysio, a plateia se diverte, sobretudo na cena do “Vamos passar a sacolinha”. Uma vez que a adaptação do texto é recheada de palavrões, as cenas musicadas, com exceção das duas últimas, se afastam das comportadas marcações vistas em “O Avarento” e dão ao todo um saldo extremamente positivo.

A concepção estética que traz os personagens, em termos de figurino (Daniel Lion), ao século XX, também é positiva por proporcionar ao espectador o aprofundamento do nível de linguagem, isto é, permite pensar na produção como alusiva à hipocrisia da classe média contemporânea. Em questão, está o julgar pelas aparências, a fé desmedida, a corrupção, temas que, em tudo, encontram resposta nos elementos estéticos escolhidos, sejam eles plásticos, como o caso do figurino, ou da ordem do movimento e do conjunto da interpretação. As repetidas e, por isso, positivas ocasiões de convergência fazem de “Tartufo” um espetáculo que merece ser assistido e valorizado pelo bom público gaúcho e, quiçá, de outras paragens.

*

Ficha técnica:
A partir da obra de Moliére
Direção: Gilberto Fonseca

Elenco:
Elison Couto
Ariane Guerra
Carlos Azevedo
Laura Leão
Lúcia Bendati
Marcos Chaves
Plínio Marcos Rodrigues
Tefa Polidoro
Vinícius Meneguzzi
Bruno Hypólito

Assistência de Direção: João Pedro Madureira
Stand by: Fernanda Petit
Figurinos: Daniel Lion
Trilha Sonora, Preparação Vocal e Direção Musical: Marcos Chaves
Banda Cênica: Rimel in color
Iluminação: Gilberto Fonseca e Carlos Azevedo
Cabelos e Maquiagem: Elison Couto
Produção: André Oliveira e Rodrigo Ruiz
Assessoria de Imprensa: Sandra Alencar

2 Comentários:

Morpheus disse...

Valeu pelas palavras, Rodrigo. Estaria tu mudando teu paladar ou eu estou assando um churrasco melhor (piada interna)?
Abraços.

Rodrigo Monteiro disse...

Isso eu não sei, mas acho que nós dois já entendemos que a sobremesa é sempre ótima!!!!

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