14 de jan de 2010

Aurora da minha vida


Foto: divulgação

Boletim

Preciso dizer, nesta introdução, que estava com medo de rever “Aurora da minha vida”. Já tinha visto o mesmo texto ser encenado três vezes por grupos do interior de teatro estudantil e nunca tinha realmente gostado dele. Sempre me lembrou “Liberdade, liberdade”, do Millôr: lindo texto, mas que mofou com o tempo se estivermos falando em teatro e não em literatura. Mas fui assistir à peça tentando fugir de qualquer lembrança ou conceito construído anteriormente à produção da Cia de Teatro Gato e Sapato que nada tem a ver com as minhas experiências com esse clássico da dramaturgia brasileira. Dito isso, passamos aos elogios, iniciando a crítica.

Montar esse texto é de uma coragem aplausível porque “Aurora da minha vida” é de uma chatice quase insuportável: não é uma narração. Naum Alvez de Souza, em 1981, criou uma dissertação dramática sobre a escola e o ensino brasileiro a partir das memórias dele até aquele ano quando a LDB nº 5692/71 completava dez anos. Essa foi a lei militar que seriou o ensino, excluiu filosofia, sociologia, latim e psicologia do currículo e incluiu Educação Moral e Cívica, OSPB e Técnicas Agrícolas, Comerciais, Industriais e Domésticas no lugar. Foi a lei que criou o ensino técnico (normal passou a se chamar magistério, por exemplo) e excluiu o famoso “vestibulinho” que era feito por quem saia do primário (então, quarta série) e ia pro ginásio (hoje, ensino fundamental- séries finais). No texto, os alunos e os professores, marcados como tipos (Menina Birrenta, Aluno Bajulador, Professora de Canto Orfeônico, Diretor, Padre, Aluno Quieto, etc), aparecem e desaparecem sem que haja uma linha narrativa que dê ritmo à história. O texto expressa, de forma cruel, as relações que se estabelecem na escola entre alunos, entre alunos e professores, e entre famílias. É um texto pesado cuja montagem geral e infelizmente ganha feições de Malhação ou de Carrossel, ao invés de se aproximar de Apareceu à Margarida, com quem faz uma excelente dupla. A Cia de Teatro Gato e Sapato, através do jovem diretor Leandro Ribeiro, enfrentou o desafio e, de um modo geral, deixou a encenação doce: abusou da poética, assumiu a jovialidade dos envolvidos na produção, construiu um tempo narrativo em que os personagens sejam fixos e seja possível prever o fim: quando todos os atores-alunos tiverem interpretado também professores, a peça acabará. Ao meu ver, a constituição de personagens fixos foi o maior ganho de Ribeiro ao texto de Naum.

Os figurinos são limpos e comportados expressando uma concepção que abrange toda a obra: há muito pouco aprofundamento em todos os setores, o que dá a ver uma coerência tão faltante em tantos espetáculos a que se assiste. Ao invés de uniformes, as cores ratificam a criação de personagens que se mantém em suas construções os mesmos. E, quando uma opção estética ratifica outra, estamos falando de drama felizmente.

Douglas Carvalho é o melhor em cena principalmente ao interpretar o Padre e o Aluno Louco. Seus gestos expressam uma corporalidade que diz muito sobre os personagens dentro da superficialidade adotada. É engraçado, interessante ao olhar do espectador e emprega um ar de naturalidade que acrescenta valores à obra, cativando a atenção de quem a assiste.

É muito interessante também assistir ao trabalho de Mari Freitas e de Gabriel Aquino, Aluna Gorda e Aluno Quieto respectivamente. São leves e espontâneos, convidando para lhes assistirem entrando no jogo que eles mesmos criaram com seus pares em cena. A forma como se movimentam no palco e agem através de diálogos está impregnada de uma verossimilhança que só faz bem à contagem dessa história não-história de Naum.

Não fosse um espetáculo participante num festival comercial, que cobra entrada do público e ocupa uma vaga na grade de programação que muito bem poderia ser aproveitada por outros espetáculos profissionais que, como “Aurora da minha vida” ganhou apenas três dias de apresentação, esse texto terminaria aqui desejando sucesso na carreira de todos que nesse espetáculo trabalham. Mas não é esse o caso. O parâmetro de análise aqui deve ser o mesmo de grupos profissionais.

Por isso, não dá pra fechar os olhos e dizer: “são novos... estão começando...”.

Sapatilhas pretas são visíveis. Não são sapatos e, por isso, não combinam com o figurino.

Gorda é uma coisa. Grávida é outra. O figurino de Mari Freitas é de uma aluna grávida que nunca ganha o bebê que espera.

Não se entende porque o tecido verde e amarelo que cobre o tarol usado na cena da banda de música aparece minutos depois no pescoço do professor de inglês.

A trilha sonora, que inclui trechos de musicais (I Will follow him, de Sister Act; With a little help from my friends, de Across the universe; Mamma Mia, de Mamma Mia; Somewhere over the rainbow, de The Wizard of Oz; Aquarius, de Hair) traz para “Aurora da minha vida” um clima que vai em direção oposta ao texto tão carregado de crueldade: “crianças boas morrem cedo”, “mãe morta”, “reprovação”, “racismo”... Além disso, nenhum ator tem preparação vocal para os vários números vocais constantes no espetáculo. Por isso, cantam muito mal, o que torna assistir a essas cenas algo bastante constrangedor. Não são afinados, não têm potência vocal e a letra das paródias às melodias já conhecidas é de gosto duvidoso. Há apenas um número musical interessante: o cantado por Douglas Carvalho, em que o ator obtém um resultado aceitável pelo colorido que dá à voz na canção que executa.

Reações que antecedem ações são, a olhos vistos, resultado de interpretações inexperientes e de uma direção mal cuidada. Os atores construíram personagens usando máscaras corporais (ombros tensos, voz infantilizada, braços presos) e partituras de movimentos que aprisionam e evitam a espontaneidade esperada em personagens crianças ou pré-adolescentes. O resultado é desconexão, silêncios, tempos mortos e ritmo rareado.

Duas horas e quinze minutos de espetáculo é um pouco demais para uma peça sem outros atrativos que não o texto.

“Aurora da minha vida” termina com a formatura de alguns alunos. Com diploma na mão enfrentarão cobranças profissionais. Aqui se lembra disso.


*


Ficha Técnica:
Texto: Naum Alves de Souza
Direção: Leandro Ribeiro
Elenco: Douglas Carvalho, Gabriel Aquino,
Igor Ramos, Ketti Cardozo, Marelize Obregon,
Mari Freitas, Márjori Moreira e William Molina

1 Comentário:

1ana disse...

Olha, por um lado achei que não ficaram muito infantilzados. De outro algumas observações como as que tu fizeste: muita música para pouca voz;muito comprido;eu achei inclusive chato ficar mudando de personagem toda hora; sem falar na barriga da "Gorda"-que nem sumiu quando ela virou professora :o

No mais, assisti no "Novas Caras", e não acho que mereça desconto por serem "novos". Achei uma construção interessante, e eles têm muito a aprender. E certamente vão, potencial ali tem!

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