29 de jan de 2010

The saga of Jenny


Foto: divulgação

Musicais

The saga of Jenny” é o penúltimo ato de “Lady in the dark”, musical de 1941 que tem o roteiro e a direção de Moss Hart, letras de Ira Gershwin (irmão mais velho de George Gershwin) e música de Kurt Weill, esse último mais conhecido no Brasil pelos espetáculos em que fez dupla com Bertold Brecht, apenas uma pequena parte de sua carreira. Idealizado para ser uma coletânea de músicas de Gershwin e Weill, pela influência da terapia psicoterapêutica de Hart, acabou se transformando numa peça de teatro musical. O mundo estava no meio da Segunda Guerra e os americanos já estavam nela. Do lado de cá do Atlântico, vários nomes internacionais se abrigavam da perseguição nazi-facista promovendo, assim, a rápida saída dos Estados Unidos do grande marasmo econômico em que estava mergulhado desde a queda da bolsa de Nova Iorque em 1929. Havia muito para ler, muito para ver, muito para assistir. Lugares a conquistar, pessoas a entrar em contato, novas culturas a conhecer. Liza Elliot, a personagem protagonista, é uma Miranda Priestly quanto à profissão, mas com um sério problema: ela simplesmente não consegue decidir-se sobre nada. O roteiro, nesse contexto, é desenvolvido a partir de três atos que se configuram em três sonhos. Incorporando tudo aquilo que o musical americano já tinha alcançado – grandiosidade, números acrobáticos, canções inesquecíveis e agilidade em cena com renomados atores-cantores-bailarinos – “Lady in the dark” arrebatou o público apesar de sua história cambaleante. Eliza era interpretada por ninguém menos que Gertrude Lawrence, a principal atriz de musicais tanto em WestEnd como na Broadway na primeira metade do século XX. “The Saga of Jenny” era o principal número do espetáculo pelo colorido do cenário (um circo) que oportunizava ao público assistir a malabaristas, a palhaços e a atos de grande pericolosidade. E tudo isso para dizer que não havia problema nenhum em não se decidir.

Em mais um ato de extrema coragem, Ernani Poeta concebe e dirige um espetáculo em Porto Alegre que, trazendo esse forte título e a proposta de oferecer uma obra recheada das músicas de Kurt Weill, é apresentado por 17 (dezessete) jovens atores e cantores desconhecidos no cenário teatral da cidade, todos concluintes da Oficina de Preparação para Curso de Teatro Musical ministrado pelo próprio Poeta. No site da Escola de Música Cordas & Cordas, ao trazer a agenda do Grupo Coro dos Contrários, Poeta acrescenta que o espetáculo foi inspirado, além de Weill, em Pina Baush.

A peça começa com os atores caminhando em cena: olhos fixos, corpo rijo, pausas. Ouvimos ser tocada lindamente no piano Youcali, que, infelizmente, não é cantada. A sequência é imensa e cansativa até mesmo para quem fica parado – a platéia. Fiquei pensando se foi está caminhada a relação entre Weill e Baush. Não consegui pensar em outra: Weill era um extremo apaixonado pelo teatro comercial e, sempre que podia, se manifestava contra as teorias teatrais que, segundo ele, mais afastavam o público do teatro do que levavam o teatro até ele. (Cf. GREEN, Stanley. The World of Musical Comedy. New York: Barnes & Co, 1960.) Por estar completamente inserida dentro da dança contemporânea, é possível imaginar que Weill dormiria sonhos tranqüilos sentado numa platéia de Pina Baush se ambos, claro, tivessem vivido na mesma época. (Baush tinha dez anos quando Weill faleceu de ataque cardíaco em 1950.)

Contudo, a cena inicial, após a longa promoção de bocejos, belisca Weill. O elenco canta Alabama Song e, logo depois, Janaina Lima faz um solo.

Primeiro: Ernani Poeta opta por fazer seu elenco dar início à peça com uma música cantada em inglês. Excelente opção! Um musical foi feito para ser acessível ao público. Mesmo não dominando o idioma, pelo contexto, se compreende a canção e o que ela faz dentro da narrativa.

Segundo: Janaina Lima mostra ser uma cantora de grande potencial. Com muita concentração, através da música, ela enfrenta o público, apresenta a proposta e estabelece a peça. O musical deixa o público confortável dentro da história, por mais conflitantes que estejam os pensamentos, como é o caso de A Ópera dos Três Vinténs, que Weill musicou para Brecht, como uma releitura de The Beggar’s Ópera, de John Gay. Com esse início de Lima, Poeta nos diz que, exatamente a la Weill, assistiremos a um espetáculo em que a música atinge uma importância superior aos musicais tradicionais.

Por muitos críticos, Weill é apontado como mais um autor de operetas do que de teatro musical. Ao que ele respondeu: “Você ouve muito do que falam a respeito do Ópera Americana que está chegando por aí. Na minha opinião, nós podemos e vamos desenvolver, isso sim, um gênero dramático-musical nesse país, mas eu não acho que isso possa ser chamado de ópera, ou que esse tipo de ópera possa ser separada do teatro comercial. Isso vai se desenvolver a partir do Teatro Americano, ou do Teatro da Broadway, se você preferir. Eu estou convencido de que muitos compositores modernos têm um sentimento de superioridade em relação às suas platéias. Para mim, eu escrevo para o hoje e não estou nem aí para a posteridade.” (GREEN, 1960, p. 236-237) 

O olhar e a força da atriz-cantora encarando firme o seu público é o hoje de que fala Weill, discordando do hoje de Poeta, quem conta a história de uma menina chamada Jenny que é esfaqueada por sonhar alto demais. A Jenny (similar de Geni, de Ópera do Malandro, paródia de Chico Buarque para a Ópera dos Três Vinténs) é uma prostituta com quem Macheath, o protagonista, teve um caso no passado. No musical de Ernani Poeta, Marci Berselli interpreta essa personagem que não é nada além de um motivo em volta de quem giram as músicas de Weill. Poeta, no entanto, acerta em não ter dado um solo à Berselli. A atriz pronuncia a tradução de Pirate Jenny ao invés de cantá-la. E faz muito bem. Não é nenhum defeito não saber cantar ou não ter voz ou afinação para tal. Mas é terrível alguém que não tem desenvolvido esse talento aventurar-se num pesadelo aos ouvidos de quem assiste.

Porém, o mesmo Ernani Poeta, que foi sábio em não ter deixado Berselli cantar, deu aos seus atores homens a Balada do Mackie Messer, para o nosso desespero. Em todos os sentidos, o lado masculino envergonha o espetáculo. São desconcentrados, não sabem as letras das canções (é visível o balbucio de suas bocas tentando acompanhar as atrizes) e se movimentam de um modo tão falso que, não fossem apenas parte da peça, destruiriam o trabalho de Poeta nessa produção. Duas exceções ao menos: Diego Farias destoa dos demais pelo olhar firme e pronto. E Pedro Andrade, embora apresentando uma interpretação rala como bêbado, é afinado e agradável solando sua canção.

O melhor desse espetáculo, porém, é Lilian Rolsenberg. Uma excelente cantora e uma atriz cuja interpretação exibe uma profundidade rara. Sua voz de soprana é lindamente afinada e seu corpo cênico deixa ver que há muita técnica, concentração e preparação. É um prazer assistir-lhe e, com ela, se emocionar. Atrás de Rolsenberg, mas bem próximo da expressão de seu talento, estão Cláudia Rocha e Paula Delazzana, outros dois ótimos momentos desse projeto corajoso e, de um modo geral, bem sucedido de Ernani Poeta, a que se acrescentam vários problemas de iluminação, um adequado uso do espaço cênico, boas opções de figurino e uma ótima utilização do tempo, apesar da longa caminhada inicial. Muito melhor uma hora cheia de espetáculo que cento e vinte minutos de muitas olhadas no relógio.

E, assim, Porto Alegre se abre os musicais ainda engatinhando nos bons momentos desse gênero popular no gosto, caro nas produções, difícil de ser bem feito. Liderado por Cíntia Ferrer, que foi a São Paulo estudar afundo o gênero, o grupo que se preocupa com a boa projeção desse gênero ganha a cada dia novos adeptos.

Em todos os lados, fica sempre a mesma visão: se for fazer, faça bem feito!

E Ernani Poeta está bem próximo disso felizmente!

PS: Super recomendo o filme Star! sobre Gertrude Lawrence em que há uma cena de "The saga of Jenny" .

*

Ficha Técnica:

Elenco: Andréa Almeida, Adenildo Machado, Claudia Rocha, Diego Brasil, Diego Farias, Gabriela Veiga,
Graziela Franco, Janaina Lima, Juliano Fortini, Kelly Sousa, Lílian Rolsenberg, Marcello Azevedo,
Marci Berselli, Paula Delazzana, Pedro Andrade, Roberta Turski, Vanderson Santos
Direção e Concepção: Ernani Poeta
Pianista: Gilson Geiger

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