29 de jun de 2009

Gordos ou somewhere beyond the sea

Foto: Kiran



Daniel Colin: 5 em 1

Falsa Unidade Dramática: Quero fazer uma peça em que tudo seja branco verde e laranja.

Por que não azul, preto e vermelho? Ou cinza e amarelo? Ou roxo e marrom? Qual é a intenção estética dessa escolha? O que essas cores contribuem? E por que não todas as cores?

Primeiro vem as cores, depois o resto.

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Falsa Unidade Dramática: Quero fazer uma peça em que todas as interpretações sejam exageradas.

Por que não interpretações contidas? Ou realistas? Ou com máscaras? Ou todos parados em cena só dizendo as falas? Ou por que não uma dança sem fala nenhuma?

Os atores (Daniel Colin, Felipe Vieira de Galisteo, Aline Grisa e Tatiana Mielczarski) constroem imagens muito interessantes. Têm corpos bastante seguros, as vozes são bem colocadas e tons cheios de significados. Todos eles, sem exceção, são, em potencial, tão cheios de talento quanto de técnica. Mas a que todo esse gasto energético se refere? A história contada não tem nenhuma ligação com esse tipo de interpretação. Chego a pensar que, em construções realistas como o que se vê na grande maioria dos filmes de Katherine Hepburn, o resultado seria muito mais positivo. Repito: por que essa escolha e não outra?

Primeiro vem a opção pela construção mais engraçadinha, depois o resto.

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Falsa Unidade Dramática: Quero fazer uma peça em que não haja cenário.

Por que não haver cenário? Por que uma mesa que vira várias coisas? Por que o chão limpo se as botas estão sujas de areia? Por que o tablado de madeira preta e não um chão verde?

Também: primeiro vem a decisão do cenário, depois vem o resto.

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Falsa Unidade Dramática: Quero fazer uma peça em que haja uma cena de musical.

E por que não uma cena de balé? Ou de palhaços e trapezistas? Ou um coro de tragédia grega? Ou por que não simplesmente um intervalo real? A gente sai, escolhe tomar um café e assistir ao segundo ato ou ir embora pegar a sessão das dez num cinema real e não num palco onde os atores querem porque querem meter o cinema dentro do teatro assim porque é do “jeitão” deles ser jovem e mostrar que têm talento? Linda a coreografia, a música é ótima, os rostos estão bem, mas por quê? Pra quê?

Eles querem. Querem porque querem e pronto. Depois, decide-se o resto.

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Falsa Unidade Dramática: Quero fazer uma peça em que haja projeção de filmes clássicos.

Vídeo clipe? Novelas? Um programa de rádio? Um trote do Willmutt? Uma gravação da aniversário da vovó? Hummm... A história tem a ver com uma estrela de cinema e faz uso de situações bem típicas de filmes... Será? Tou achando que, como tudo...

A projeções vão aparecer, depois se pensa no resto.

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Falsa Unidade Dramática: Quero fazer uma peça em que o humor seja vendido como “negro”.

Por que não aventura? Terror? Romance? Os três temas tem tudo a ver com a história tanto quando Humor Negro... Uma opção mais comercial?

Será de humor negro. Depois a gente vê como fica o resto.

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Falsa Unidade Dramática: Quero fazer uma peça em que os personagens se apresentem em primeira pessoa.

Eles precisam mesmo de nome? Ou é só para haver mais uma informaçãozinha desconexa que, no máximo, vincula os nomes em inglês aos filmes de Hollywood e ratifica a vontade de fazer algo moderninho? Também pode ser que alguém pense que essa dramaturgia é norte-americana, o que deixaria a produção com uma cara de pesquisadora de textos interessantes...

Os nomes serão em inglês. Os personagens ricos. Todo o resto sobre eles a gente constrói depois disso estabelecido.


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Falsa Unidade Dramática: Quero colocar seis peças na roda cênica de Porto Alegre!

Uma bem feita não basta? É preciso mesmo repetir exatamente os mesmos erros de outras? E se é para colocar seis (vi cinco até agora) por que não pensar em pesquisa cênica? Há outro grupo na cidade com o mesmo evento: comemorar aniversário trazendo todo o repertório... Em um mês, o público pode ver uma montagem de Clown, outra de Mimo Corpóreo, outra de Shakespeare e outra de Bufos.

Somos jovens e temos talento. Seis peças em cinco anos e, assim, vamos poder usufruir da Lei de Fomento a ser votada hoje. Somos um grupo que temos trabalho continuado (mesmo que os erros continuem tanto quanto a gente...).

Daniel Colin, enquanto diretor, precisa entender que direção não é aproximar sistemas diferentes, mas utilizar-se de informações diferentes num sistema único, coeso e coerente se quiser mesmo fazer bem o teatro dramático que até agora tem feito.


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FICHA TÉCNICA


Direção: Daniel Colin

Roteiro: Andressa de Oliveira, Daniel Colin, Maico Silveira e Tatiana Mielczarski (livremente inspirado em textos e idéias de T. Willians, F. Bacon, N. Silver, G. Arraes e M. Pena).


Elenco:

Aline Grisa

Daniel Colin

Felipe Vieira de Galisteo

Tatiana Mielczarski


Luz: Carina Sehn

Som: Patrícia Salge

Vídeo: Ricardo Zigomático


Produção: Palco Aberto Produtora


Realização: Teatro Sarcáustico

5 Comentários:

Phoenix disse...

Realmente há aqui uma contribuição para a crítica "errada",para o "teste" da obra.Tantos "por quês"...

Mare disse...

Em qual outro blog você faz crítica?
Cada grupo em cada peça deve escolher um rumo a seguir.Se o Grupo Sarcáustico escolheu uma cena que haja musical na peça é porque é uma característica do grupo,mesmo que não fosse o grupo poderia ter escolhido uma cena que tenha ballet,você iria continuar perguntando o por quê de eles não terem escolhido palhaços e trapezistas?
O que digo é que não vejo aqui um comentário sobre a peça em si mas sim sobre as opções que o grupo poderia ter optado e não quis.E quais são os erros que são sempre cometidos por eles?As projeções?A falta de cenário?Ou seria a cena de musical?É isso que tenho a comentar e se possível me mande o link de seu outro blog com suas críticas.
Grata desde já.

Rodrigo Monteiro disse...

Olá! Não, não faço crítica em nenhum outro blog. Algumas críticas minhas são publicadas em outros espaços mas que não são coordenados por mim.

Quanto aos erros, vou te contar uma coisa e, tentar, ser mais claro.

Ouvi como repercussão da minha crítica a Gordos que o espetáculo surgiu num momento em que Colin estava embuído de Extinção, espetáculo da Cia Espaço em Branco, dirigido por João Ricardo (mesmo diretor de Teresa e o Aquário). Não sei se é verdade e isso não importa. O que importa é que, fazendo a relação entre os dois trabalhos, talvez eu consiga chegar ao meu objetivo nesse comentário.

Como em Gordos, em Extinção, os atores construíram seus personagens de forma exagerada (a construção exagerada foi uma opção da produção que levantei na minha última crítica ao Sarcáustico). Lá, como aqui, o exagero levava à animalização dos personagens.

Mas...

Havia um imenso esqueleto bidimensional de dinossauro grudado em toda a extensão da rotunda da Álvaro Moreyra. Nem a construção dos personagens, nem o dinassauro eram informações soltas. Havia algo que os unia: A NARRATIVA.

Um jovem homossexual descobre em Nova Iorque está infectado pelo vírus HIV e resolve voltar para o Brasil onde mora sua família. O doente vem para juntos dos sãos.

Quem são os sãos? Pai (lisandro Beloto), mãe (Evelyn Ligocki), irmã (Sissi Venturin) e empregado (acho...)(Rodrigo Scalari). O doente (Marcos Contreiras) vai desvendando a família a partir de sua aproximação a cada um dos membros. A interpretação exagerada e todos os outros elementos adequadamente dispostos constroem uma sistema em que, na verdade, todos são doentes e o único são é mesmo o filho "aidético". Como os dinossauros (animais), a família morre. No final, apenas o filho permanece vivo. É a humanidade que entra em...

... extinção (nome do espetáculo).

As opções do grupo (seja qual grupo for) só interessam ao público se justificam o trabalho, se acrescentam. Em outro post do blog, tratei sobre "Ainda Orangotangos", em que o formato vem primeiro.

Quando você quer cozinhar, você pensa: "Hummm quero fazer uma massa com molho de tomate " Então você pica a cebola, o tomate, etc... Ninguém pensa "Hummm quero fazer uma comida em que eu possa picar cebola e tomate!". Pôr cebola e tomate é consequência e causa ao mesmo tempo. A massa justifica.

Tudo isso eu já tinha falado em Intencidade e em Macacos.

Mas, como você me mostra, assim como o Sarcáustico, eu tenho também muito o que aprender enquanto analista.

Obrigado pela visita e, principalmente, pelo comentário.

Abraços!

Mare disse...

Obrigada pela resposta,Rodrigo.
Até mais!

Julio Conte disse...

Me metento sem querer muito no tempero dos outros - que sempre dá bolao - eu posso dizer que já fiz comida a partir da cebola picada. A forma pode surgir antes do conteudo do mesmo modo que se pode buscar a forma a partir do conteudo. Talvez a questão mais delicada na relação entre a arte e a crítica seja que de fato tanto faz o que os artistas pensam que pensam, mas sim o que do seu pensamento é tempero, sabor e partilhamento. Ai temos de volta a questão demasiado humana: a narrativa. As vezes ela conteúdo, as vezes é forma. Mas aí o argumento circular retoma ao início. Cebola picada...

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