27 de jun de 2009

Gueto Bufo


Foto: Marian Starosta


Quando o aplauso é de despedida

De quase três anos de estudo, hoje eu só lembro de uma música e ainda assim minha memória é falha. Eu tinha entre onze e treze anos, quando minha mãe quase analfabeta (se tudo correr bem, ela termina o ensino fundamental no final desse ano!) e meu pai, um administrador sem curso superior e quase se aposentando, resolveram colocar o filho único da família moradora do interior de Gravataí para estudar Piano Clássico. Todas as terças e quintas-feiras, às quinze horas em ponto, eu ouvia a Professora Eunice Hoerning trancar a porta da saleta onde só cabia um velho piano e eu. De ouvidos atentos ao som que deveria vir das pequenas salas, ela batia na porta quando não ouvia música. Ou algo que deveria ser música. Sozinho, na companhia do pentagrama, das claves e das bolinhas pretas, no Conservatório que ficava no sótão do Colégio Dom Feliciano, eu sempre ouvia uma outra música. Palmas, gritos e alegria. Era o barulho do recreio do colégio de freiras da cidade que me tirava do...

Se essa rua, se essa rua fosse minha,
Eu mandava, eu mandava ladrilhar
Com pedrinhas, com pedrinhas de brilhante
Para o meu, para o meu amor passar.

Um gueto. Um gueto é um lugar de encontro. Onde acontece a identificação, o reconhecimento do outro e a construção de si como indivíduo coletivo, membro por sua vez de uma coletividade. Não precisa ser um lugar específico, mas corresponde à esfera de socialização humana que, separada por alteridade de outras esferas, se manifesta no todo e na parte através da construção de limites que ratificam a separação, mas constituem, ao mesmo tempo, um modo de anunciar que este grupo é tão importante como os demais. Revisitei Gueto Bufo, espetáculo mais antigo da Cia do Giro, depois de oito anos na última sexta-feira.

Sem dúvida é um dos espetáculos mais lindos a que eu já assisti e um dos mais importantes para o teatro porto-alegrense. É o típico exemplo que faz com que eu me irrite quando reclamam da constante volta aos palcos de antigas montagens. Uma juvenil e boboca sede pelo novo toma conta, às vezes, das pessoas que deveriam se preocupar com literatura, vídeo ou qualquer coisa que não teatro porque parecem esquecer daquilo que é cerne nas artes cênicas: a efemeridade do momento de encontro, de gueto, de identificação, de facilização (de face, não de fácil) entre o humano que faz algo para outro humano a que assiste. Se teatro é irreprodutível por excelência, é maravilhoso ter a oportunidade de (re)ver um espetáculo tão bonito, tão bem feito, tão premiado que dispensa qualquer análise.

Duas estruturas quero lembrar como fundantes do gueto cênico proposto por Daniela Carmona e Cláudia Sachs:

1) No figurino de Filó, há um xale. Um xale cinza que parece ser de lã. Pequenas flores bordadas decoram essa peça de figurino. Uma peça de um conjunto propositalmente feio, escuro e violento.

2) Tanto Daniela Carmona como Cláudia Sachs são artistas que empreenderam, como projeto de vida, não só o fazer teatral, mas o estudo desse fazer, para que esse último evoluísse e fizesse evoluir. Ambas estudaram aqui e na Europa. As duas estudam e fazem divulgar seus conhecimentos através de cursos afora.

Se 1) lembra a parte, o 2) lembra o todo. As pequenas flores bordadas no figurino são um detalhe que exibe o cuidado mínimo ao máximo. É a sobrancelha bem colocada, é o balde escolhido, é a voz pesquisada, é o texto decidido. São fagulhas que fazem uma fogueira incendiar. Sozinho, um jornal não queima inteiro. A coisa se dá letrinha após letrinha, pixel após pixel. Até o fim. E eis que teatro, o fim, não se faz, caridosamente, de qualquer jeito. Você pode fazer uma oficina, entrar no DAD, na Uergs, no Tepa e na Escola Sarcáustico e marcar esse dia como início de uma carreira. Mas não encha o saco do crítico que te xinga nos teus primeiros dez anos se tu não parar de estudar. Há que se louvar quem vai a fundo, quem torna a arte, além de trabalho, estudo, mas que sobretudo torna tanto um como outro, um bem cultural de valor considerável. E, como é o caso desse espetáculo, aplaudível.

Essa semana recebi um email de uma pessoa que , lá pelas tantas, me dizia:

“Sabe uma outra coisa que tem me deixado chocado? A falta de respeito do público. Não sei se é só nessas peças gratuitas, mas como é desconfortável!! No Gasômetro (Gordos ou somewhere beyond the sea), um telefone tocou bem alto durante a peça... E o pior: o cara atendeu!! Disse alô e que ligaria depois! Deveria haver uma multa para isso... Ontem (Projeto 1: Desejo, no Teatro de Câmara) tinha uma retardada que ria alto toda hora. Era constrangedor. E algumas pessoas, quando ela soltava aquilo que parecia ser uma gargalhada, riam dela. Chegou a tal ponto que acho que, se a peça durasse mais meia hora, alguém mandaria ela calar a boca, talvez eu mesmo...”

Pois minha reflexão é que até mesmo o aplauso pode te atrapalhar. Quando Gueto Bufo acabou e a luz elétrica foi desligada deixando apenas a experiência humana do contemplar o fogo tomar conta da assistência absorta, uma pessoa começou a aplaudir. Insistente, as palmas dela seguiram. Por segundos, lutou-se contra aquele barulho, tentando, ao máximo, segurar o momento, segurar as personagens, não deixar que o gueto construído se desfizesse. Mas as palmas, fortes como celulares e gargalhadas estridentes, venceram. O coro aplaudiu chateado pela despedida daquele momento que se repetirá sabe Deus quando, triste porque a peça tinha terminado.

Em minha cabeça de menino, as palmas do recreio me tiravam do solfejo. As palmas da professora me prendiam a ele. E eu só queria que a música durasse um pouco mais.

Nesta rua, nesta rua, tem um bosque
Que se chama, que se chama Solidão.
Dentro dele, dentro dele mora um anjo
Que roubou, que roubou meu coração.
*

Direção Geral e Texto: Daniela Carmona
Encenação: Élcio Rossini
Atuação: Daniela Carmona e Cláudia Sachs

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