20 de abr de 2009

Larvárias


Ver a forma e não se importar com ela

Então, me contaram o caso de Ainda Orangotangos.

Gustavo Spolidoro, roteirista e diretor, queria porque queria fazer um filme em plano sequência, o primeiro longa gaúcho e brasileiro sem cortes: U-Uh! Depois veio a história. Depois vieram os atores. Primeiro veio o plano sequência. Primeiro veio a negação do corte, depois a cena. Quando a cena veio, de tanto medo de não ser cortada, acabou não crescendo. Está lá o não corte. E o não bom resultado. Gustavo Spolidoro (e a Clube Silêncio) queria fazer. E fez.

E aí eu fui ver Daniela Carmona e Adriano Baségio no barbaraheliodoriano “Larvárias”.

Carmona e Baségio queriam fazer uma peça com o que aprenderam na França (Gaulier, Lecoq*, bibibi). Queriam porque queriam uma peça sem falas, uma peça com máscaras, uma peça onde se aprofundava a pesquisa sobre o mimo corpóreo. Acabou a história não vindo. Acabou os atores sendo os dois mesmos. Acabou tudo girando em torno de uma imensa bola no palco. Quando veio a estréia, de tanto querer, acabaram conseguindo. Carmona e Baségio queriam fazer. E fizeram. As larvas estavam ali.

E aí eu gostei.

Ok. O figurino é da Rô Cortinhas, a luz é do Ochôa e o cenário é do Élcio Rossini e não se precisa dizer mais nada. Estou convencido que esse trio nunca vai fazer algo que não seja bom, isto é, adequado, limpo e producente. Mas não é isso, e também é. É o todo. O todo na partícula, o ser humano na larva, o corpo em uma só parte dele, a luz geral na esfera plástica, as cores no branco, a voz no silêncio. É a intenção na economia, a face na máscara, é Lecoq no Brasil.

Estudar os franceses, ir à Europa (com letra maiúscula) e apresentar aqui o que se aprende lá não é forçar um conteúdo a uma forma, mas, diante de um algo a dizer, ver que “opa! Isso tem uma forma!”.Uma e várias.

Uma e várias.

E aí eu me lembrei de Júlio Conte na noite do Açorianos. “Uma Porto Alegre para todo tipo de teatro”.

Se “Larvárias” é um tipo de teatro, eu não gostaria que ninguém dissesse que eu disse isso. Para mim, é uma peça para um dia da minha vida. Um dia da vida de qualquer um que assista. Porque tive a impressão de que, num dia, eu poderia achar a peça uma chatice só e dormir um bocado... No outro, eu poderia estar tão ocupado com ela que minhas costas não conheceriam a guarda da poltrona. Numa noite, o fim me pareceria belo. Em outra, o início me tocaria mais que tudo. Porque, para mim, “Larvárias” fala disso. Para você, fala, se é que te falou hoje, daquilo.

Elas estão no meio do caminho entre o que não é humano e o que é humano (?). O sentido fica, também, no meio do caminho entre o seu próprio organizar e o nosso interpretar. Mas, como as larvas, tudo está ali, incluindo todos nós.

E aí, não vale o que eu sei, o que eu pensei, o que eu recebi, o que a Cia do Giro emitiu. Mas vale o estar. E o resto não existe.
O resto não existe.
* Vale a pena ler a dissertação de mestrado de Cláudia Sachs sobre Jacques Lecoq clicando aqui e aqui.

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