17 de fev de 2009

Rainha do Lar



Uma Rainha Absoluta

Uma tia minha sabiamente dizia que a diferença entre ricos e pobres não é existência de dinheiro. Daí o fato de tanta gente arrotar aspargo e comer azeitona e, da mesma forma, algumas pessoas usarem calças apertadas com poupanças gordas. A distância entre os extremos se alonga e diminui dependendo do valor que se dá para o bem que se tem. Assim, a conquista de uma casa quarto-sala por um casal recém formado às próprias custas faz com que esse imóvel se torne mais caro que uma cobertura no Leblon, presente de aniversário à cunhada recém abandonada pelo marido. Tanto numa casa como em outra, no caso da família tradicional, a figura da Dona de Casa é passível de existir. Não é, dessa forma, o reino e os habitantes dele que importam, mas a conquista dele. Não é atoa que há muito mais quadros em honra a Dom Pedro I do que a Dom Pedro II, mesmo o pai tendo reinado no Brasil por nove anos e o filho cinqüenta e oito.

Em “Rainha do Lar”, texto de Lisiane Berti, não há conquistas. A personagem título, no seu primeiro minuto em cena, diz algo do tipo: “Eu sou feliz e tenho tudo o que quero.” O que nos resta? Dizer: “Que bom!” e ir embora. Desde então, já sabemos que nada vai acontecer, a não ser pequenas ações que falseiem uma curva dramática que, de fato, não existe. É uma dissertação sobre a importância da Dona de Casa na estrutura da família, na conservação da casa e na preservação dos valores tradicionais.

Mas não vamos embora. O público de Porto Alegre é educado demais para isso. Não é, felizmente, só de gentileza que vive a platéia da Cia. Halarde de Teatro nesse espetáculo. A atriz, Lúcia Bendati, é uma ótima atriz por dar corpo, nesse texto, a momentos interessantes como o programa de culinária, o presente da vizinha e o solo de cantora. Para mim, a apresentação da família é o momento mais importante: é nele que sentimos o carisma de Bendati em cativar o público e pedir-lhe um voto de confiança. E o tem.

Cabe ao figurino e ao cenário (Cláudio Benevenga) uma tarefa essencial na sustentação dramática: fazer com que associemos a idéia de Dona de Casa ao conceito de Mãe. Mãe todos temos, dona de casa ou não. E não aplaudir a peça acaba funcionando com um insulto à mãe. As fotos da família nas canecas de café da manhã, as roupas para passar, as tomadas nas paredes do cenário e a bolsinha dourada que acompanha a roupa “de sair” da mamãe nos situam num universo de memórias e reflexões. Ao plano ideal, Benevenga, fazendo com que roupas, talheres e eletrodomésticos brilhassem de tão novos, e Paulo Guerra, o diretor, criando uma Rainha do Lar Cantora, se dirige o que é dito pelo texto enquanto cartaz a favor das mamães e vovós rainhas de seus lares. Faltou, em alguns momentos, a trilha sonora amparando a atriz nos seus solos. Não se trata de consolidação de estereótipos, mas do firmamento de uma concepção baseada na idealização (Se alguém lembrou de O Mundo da Lua, sitcom brasileiro dos anos 80, acertou!).

O absolutismo dessa Rainha, que já começa satisfeita, não nos evitou de amá-la, mas nos deixou com vontade das aventuras republicanas e das acirradas campanhas presidenciais que não encontraram espaço em sua apresentação.

3 Comentários:

Helena Mello disse...

Li tua crítica para a minha mãe. Achei que era producente. Queria dela também uma comparação com o meu. Inveja, talvez. Vejo que o teu texto tem uma sofisticação que o meu não tem. Ainda bem que escrevi primeiro. Mas, "mamãe" depois de concordar comigo sobre a tua sofisticação, disse: são textos diferentes, estilos diferentes. Ufa! Bem, mas, estou aqui, mais uma vez só para elogiar. Porque eu, como já disse antes, admiro o teu estilo!

Lu Bendati disse...

Eu aqui de novo. É sempre importante, já disse, ler opiniões sobre o teu trabalho. Rio baixinho com o comentário da Helena. Diria mais, além de textos e estilos diferentes, há uma questão crucial que tem sido um ponto comum no retorno que tenho do espetáculo: um olhar feminino e um olhar masculino. E não é criticar um ou outro. São diferentes. Me fazem refletir a respeito. Que bom!

Rodrigo Monteiro disse...

Não gosto de aparecer na página de comentários, mas, depois de ler o que a Lúcia escreveu, tive que vir aqui botar a minha mão:

ISSO É QUE EH PROFISSIONAL!

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