15 de fev de 2009

Bailei na Curva


Para dizer que vai ao teatro em Porto Alegre


Foi muito forte para nós, alunos de Direção de Arte, ouvir da boca do Prof. Voltaire Danckwardt que não se chamasse artista aquele que nunca tivesse lido Grande Sertão: Veredas, do Guimarães Rosa. A mesma força gostaria de ter ao dizer, por mim, que ninguém diga por aí que vai ao teatro em Porto Alegre sem que, ao menos uma vez na vida, tenha assistido a Bailei na Curva.

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Ontem encontrei um amigo que me dizia que Bailei na Curva começa bem, mas que, do meio pro fim, parecia que “a coisa ia caindo...” Ele não sabia explicar se era algo na história que acontecia para isso ou se ele é quem tinha rido tanto na primeira parte que, na segunda, tinha ficado cansado. Eu, por mim, pensei que é assim mesmo. Aos 10, quando batiam na minha casa me chamando pra brincar de carrinho no terreno baldio da frente, em dois toques, eu já estava fazendo argila pra construir as estradinhas. Aos 13, eu já ficava meio cansado disso. E, aos 16, tinha uma casa construída em cima do terreno baldio, das estradinhas e, provavelmente, do meu carrinho. Na dramaturgia costurada por Júlio Conte a partir de improvisações do primeiro elenco (1983 – Grupo Do Jeito Que Dá), não há caídas nem levantadas porque não há uma linha una. O conflito é exterior aos personagens que convivem com ele sem resolvê-lo. Assim, não há pontos de mudança ou clímax. O tempo é quem passa e modifica os objetivos de cada personagem fazendo com que, como é natural, esse também mude de trama. O problema está ali e o vemos. E, se não podemos lutar contra ele, em função de nossa redenção (e ápice, na trajetória clássica do personagem), melhor é tê-lo como amigo. “E nos oitenta, eu não vou me perder por aí...”

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Na saída, vi uma senhora dizendo que ela gosta de Bailei porque ela se vê no palco, que aquele tempo era o tempo dela. Seus filhos e netos, ao redor, olhavam a parenta e eram testemunhas da alegria que sentia por estar ali acompanhada dos seus após ter voltado no tempo de suas lembranças. Eu, por mim, pensei que a única coisa que me identifica na história é que lembro de ver uma multidão de pessoas na frente da minha casa e o meu pai dizendo que aquele era o enterro do presidente. Eu morava na Avenida Paulista em 1985 e vi Tancredo Neves num caixão em cima de um caminhão de bombeiros achando mais legal o caminhão do que o tal Neves. Hermes Mancilha, Márcia do Canto, Cláudia Accurso, Flávio Bicca Rocha, Regina Goulart e Lúcia Serpa, todos entre a senhora na saída do Teatro São Pedro e eu, construíram junto de Conte uma história baseada em suas memórias políticas e corporais. Jango e Sarney aparecem nos diálogos assim como brincadeiras de rua (“A calçada é minha e não é dono”), experiências sexuais ( em frente à “prainha” e na “reúna”) e refeições no RU da Ufrgs. É a história do Brasil tanto quanto é a história deles. E ver os outros contarem suas histórias é o melhor jeito de fazer com que pensemos nas nossas.

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Um ator comentou comigo na saída de outro espetáculo que Patrícia Soso (intérprete de, entre outros personagens, Gabriela e Betiranha) e Érico Ramos (Torugo, Paulo e outros) são os melhores em cena. Eu, por mim, já disse aqui que a maior habilidade de Júlio Conte como diretor é sua incrível capacidade de: 1) reconhecer o que o ator tem de melhor na sua forma de expressão; 2) desenvolver e multiplicar esse talento, seja ele grande ou pequeno; e 3) uni-lo aos demais do grupo a fim de construir uma unidade no conjunto cênico que nos faça reconhecer em Ian Ramil (Pau’Renato e a Freira) e em Leonardo Barison (Caco e Rodrigo) marcantes aparições, em Juliana Brondani (Luciana e Marília) e em Cintia Ferrer (Ana e Carmem) presenças cênicas fortes e em Evandro Elias (Pedro) e em Melissa Dornelles (Dona Elvira) uma sensibilidade vital aos personagens que representam. Num amontoado de grandes e pequenas construções, cada pessoa na platéia pode escolher aqueles que lhe marcaram mais. É, no entanto, difícil dizer, mesmo para quem já assistiu à peça mais de trinta vezes como eu, quais são aqueles que sobram ou que lhes falte maior empenho do intérprete.

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Esse, aquele e aquele outro comentário sempre surge sobre Bailei. O fato é que não tenho registro (e faço o desafio) de algum espetáculo em cartaz no Brasil desde outubro de 1983 e que, no Porto Verão Alegre de 2009, solicita que o público procure chegar cedo para que não seja preciso o uso de cadeiras extras, como eu tive que sentar, tamanha é a lotação do São Pedro em dia de sua apresentação. Eu, por mim, sentado na platéia há 15 anos, ainda me emociono ao ouvir Horizontes tanto da boca dos privilegiados atores como daqueles, como eu, sentados sob a escuridão do lustre apagado da casa de espetáculo mais significativa que nós, aqueles que dizem que vão a teatro em Porto Alegre, temos.

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Ficha Técnica
ROTEIRO E TEXTO FINAL: Júlio ConteBaseado em improvisações de Cláudia Accurso, Flávio Bicca Rocha, Hermes Mancilha, Júlio Conte, Lúcia Serpa, Márcia do Canto e Regina Goulart
ELENCO: Cíntia Ferrer, Érico Ramos, Evandro Elias, Ian Ramil, Juliana Brondani, Leonardo Barison, Melissa Dornelles e Patrícia Soso
MÚSICA-TEMA: Flávio Bicca Rocha
TRILHA SONORA: Flávio Bicca Rocha e Júlio Conte
EDIÇÃO DE VÍDEOS: Roberto Scherer e Júlio Conte
ILUMINAÇÃO: Júlio Conte e Prego Pereira
PRODUÇÃO DE FIGURINOS: Patsy Cecato
DIREÇÃO: Júlio Conte
PRODUÇÃO: Cômica

4 Comentários:

Julio Conte disse...

Meu caríssimo Rodrigo - o famoso pentelho da carta - foi ótimo teu comentário (não pelos elogios que sempre fazem bem) mas essencialmente porque tu tens uma sacada rara no texto. O conflito atinge as vidas das pessoas e elas são afetadas por ele, sem que muitas vezes o perceba, e quando isso acontece, não tem ação sobre ele. Uma vez que o poder subjaz toda a trama. Foi uma das melhores observações dramaturgicas que ouvi de BC. E olha,que em 25, muita gente boa - do Brasil inteiro - alou sobre.
É maravilhoso ver que o menino cresceu.

Julio Conte disse...

Rodrigo,
No final do ano 83 começaram os movimento de Diretas Já. A primeira manifestação no ABC paulista foi em dezembro 83. A peça estreou em outubro daquele ano. Nos meses seguinte de 84 foram marcados pelo movimento de Diretas Já até que a emenda Dante de Oliveira foi rejeitada. O elenco da peça teve participação direta no palanque. E no final o Tancredo foi eleito, por eleição indireta. Deveria ter assumido em abril de 85, mas morreu antes. Estou te falando isso, porque não sei se Bailei é a última peça com a ditadura ainda em vigência ou primeira peça na democracia. Acho que este aspecto de limite, de border, close to the edge, é uma das virtudes da peça.
Mas então, o final em 83 era estruturalmente igual. Única cena que foi suprimida foi uma que tinha uma trilha com uma música que a Elis Regina (e quando passarem a limpo...) e havia uma coreografia, então a Luciana comunicava sua gravidez e sua disposição de não ter que pedir desculpas pelo mundo. Esta cena foi cortada porque carencia coreográfica, mas essencialmente não tinha sustentação draturgica. Por outro lado, as cenas que falamos das Diretas foram incorporadas imediatamente em 84. Antes falávamos da disputa entre Tancredo e... pasme... Maluf que era um dos candidatos possível. Acho que o outro é o Mario Andreazza.
Sobre este tem uma episódio engraçado. O Bicca que foi ligado na adolescencia a movimento estudantil de direita – UEE – foi convidado em Brasília para apoiar o Andreazza e nos foi oferecido dinheiro para apresentarmos o Bailei na festa de lançamento da campanha do Mario Andrazza. Agora me pergunta se eu aceitei.
Um abraço
Júlio

Douglas Carvalho disse...

Rodrigo, emocionei-me muito ao ler teu texto sobre o Bailei. Traduziste um pouco do que sinto ao ver essa peça tão significante pra mim. Primeiro, porque a peça é minha irmã gêmea: estreou no dia em que nasci - 01/10/1983. E, como se essa grande coincidência não bastasse, a peça é linda, a gente se identifica muito e não há quem não se emocione com o público todo cantando em coro o Horizontes. O Júlio está certo, tua sacada é genial, era algo que eu sabia que existia, mas não conseguia traduzir em palavras. Parabéns mais uma vez pelo belo comentário!
Sucesso!!!

Lu Bendati disse...

Pois então Rodrigo... me fizestes repensar e e me explico: sou platéia do Bailei há pelo menos 22 anos. E há 22 anos resolvi - depois de assistir a peça - que era a essa profissão que eu iria me dedicar. Significa dizer que vi não exatamente a estréia do espetáculo mas meu primeiro contato foi com o primeiro elenco. Mas não assisti 30 vezes. Talvez umas sete, oito. Umas 4 variações de elenco. Na última vez, fazem alguns anos, fui, a convite de um colega. Elenco de nova geração digamos assim. E não gostei. Não quis assistir mais. Ruiu meu sonho na época. Talvez muito influenciada pela carga dos atores-criadores que junto ao Júlio imprimiam no espetáculo, talvez por achar que faltava nesta nova geração do Bailei uma compreensão que vinha , digamos, "dos poros" de quem estreou o espetáculo e sentiu a morte de Tancredo como um baque e não como um corpo menos interessante do que um caminhão de bombeiros (a tempo: adorei ler o relato deste fato histórico por este prisma) que o levava. Enfim, apesar de receber mais convites para assistir mais amigos e colegas ingressando no elenco, evitei assistir novamente, com medo de apagar aquela impressão "engasgante" e identificadora que a peça sempre havia me trazido. Pensava principalmente que o público "novo" iria entender tudo torto e superficial e que a missão (que eu imaginava) do Bailei não se cumpriria mais. De retratar fielmente um cenário que eu vivi de uma das formas mais críveis que já assisti, de forma simples e direta.
Mas me fizestes repensar. Tu, platéia jovem, como bem disse o Julio, fazendo uma leitura "rara" do texto. Toma na minha cara. Fui preconceituosa. Julguei um dia de apresentação como se fosse um padrão. desmereci o potencial dos atores, sendo que muitos destes que citastes já me provaram seu crescimento e maturidade no palco. Feito, vou me ligar para assistir de novo. Neste PVA nem poderia, pois estava em cartaz ao mesmo tempo. Mas que isto não sirva de desculpa, mas de lição pra mim. É claro que nos idos de 84 acena final, com o Bicca vindo da coxia e a gente escutando só os acordes no violão de uma desconhecida "Horizontes" e o silêncio misterioso que antecedia o "não vou me perder por aí" é impagável, mas depois desta nada pequena reflexão fiquei imaginando o tamanho do arrepio do Julio e do Bicca de ouvirem a platéia toda respondendo a frase emocionada... Enfim, tenho muito ainda a aprender, graças a Dionisos, e talvez deva começar exercitando um texto mais resumido, rsss. ;)

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