19 de fev de 2009

Dez (quase) amores


O lado bom do Momento


Ontem cheguei em casa e li, com calma, um poema que já conhecia: “A pessoa errada”, de Luís Fernando Verissimo. E fiquei pensando em todas as pessoas que já atravessaram a minha vida. Não consegui lembrar de uma única que tinha sido, ou que seja, tal como consta nos meus sonhos. Não estou falando só de relacionamento amoroso, mas de amizade e, principalmente, familiar. A vida, ao que me parece, está muito longe de ser realidade e muito próxima de ser sydfieldiana, com todo a alienação que a teoria dele prevê. E vai dizer que não é? Pontos de mudança, curvas e mais curvas dramáticas, deus ex machina e busca total por um ápice, por um clímax, pelo menos, orgástico!

Eu nunca vivi em outros tempos ou, se vivi, não chego hoje a ter consciência de como foram eles. Mas, nesse meu tempo, tenho percebido o quanto as relações tendem a ser mais rápidas, mais intensas, mais fortes, ao contrário da superficialidade que é apontada pelos mais velhos que eu.

“- Te dou cinco minutos – diz A.

Sem perder tempo, após um forte olhar, A e B se beijam, se tocam, se esfregam, se sentem.

Um dos dois vai embora. O outro não sabe quem foi. Quem foi não sabe quem ficou. Quem ficou, também vai e a partida é, para ambos, uma possibilidade de chegada.”

Assim, nesse movimento que, ao que me parece, marca as relações desse hoje que começou não sei bem quando, não entendo o sentido do teatro gaúcho em insistir na perpetuação católica das convenções, análises, estruturas narrativas tão desprovidas de acontecimentos, embora tão cheias de “és e não és”, teses e mais teses, depoimentos e mais depoimentos sobre a vida a dois. Ainda bem que esse não é caso de “Dez (quase) amores”, adaptação de Bob Bahlis para o livro homônimo de Cláudia Tajes.

O grande mérito da produção do grupo é mesmo Cláudia Tajes e a forma como ela aborda o tema relacionamentos. Com isso, não quero dizer que o grupo não seja digno de elogios e considerações. Há muitas formas de se abordar a literatura para trazê-la para o palco: a leveza foi a feliz opção do grupo que nos proporciona, ao mesmo tempo em que se divertem, com um espetáculo simples, suave e sutil.

Não há grandes figurinos, tampouco cenários. Trilha sonora e luz seguem o mesmo padrão, como, se bem lembro, todas as grandes comédias românticas, anos 90 pra cá. As interpretações, como também no gênero fílmico, distoam: o elenco feminino (Rafaela Cassol e Cláudia Meneghetti) domina o palco, reina diante do público. O lado masculino ( Fábio Monteiro, Marcelo Naz, Gerson Oliveira e Beto Mônaco), apesar de alguns bons momentos, desprovidos de grandes personagens, pairam na beirada do universo de Tajes sem privilégios.

O ritmo da direção é rápido e não impõe barreiras. Bahlis sabe que está lidando com uma história contemporânea: a protagonista Maria Ana dá bom dia e boa noite num intervalo de segundos e sai de casa para o circo enquanto atravessa o palco. Uma década passa em uma cena, e um cigarro já informa qual é o clima em questão. Conta-se a história das desventuras amorosas de uma mulher que gosta de beijar na boca, ser feliz e ir pra praia que faz tudo isso no exato momento em que mostra que está fazendo. Nada, além do ato, é necessário. E entendemos tudo sem necessidade de grandes explicações.

Não há obrigações nem no palco nem na platéia. Só o prazer é permitido. O nome de A não importa para B (e espero que também não faça diferença para nós, C), como também não seu signo, origem, orientação sexual ou o estado civil.

“Quando a gente acha que tem todas as respostas, vem a vida e muda todas as perguntas.”

2 Comentários:

Marcelo Adams disse...

Não sei se é ato falho, mas o fato é que o nome da peça está trocado. Coloca para dentro do parêntese o quase e tira de lá o dez. Talvez porque a peça quase aconteça. Não fosse o elenco masculino. Não fosse o histrionismo de Meneghetti. Não fossem os figurinos inadequados para as épocas a que propõem se filiar. Não fosse a adaptação superficial. Não fosse...bem, talvez não fosse o mesmo espetáculo.

Simone disse...

amei, super divertida e sutil. Adorei parabéns!

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