9 de fev de 2009

Ópera do Malandro


O que faz um diretor de teatro?

- Estuda o texto e tenta descobrir a rede de significados que ele tem. Tenta porque sabe que nunca vai conseguir dar conta de tudo o que a obra possa representar, mas faz porque reconhece que significados não são peças soltas numa história, mas o resultado de um processo de relação de informações. O texto tem as informações, mas quem as relaciona, antes de todos, é o leitor. O diretor pode até não ser o primeiro, mas é o que sustenta a missão de ser esse leitor mais experiente. Disso, devem surgir certas sensações sobre a realidade da transformação do que é literatura em teatro. Gênero, construções, concepção estética. Percepção de que há propostas no texto que se relacionam entre si e que há outras que dependem de elementos externos. Assim, um musical cujo cenário surge do urgimento não combina com atores fumantes de cigarros apagados, sopas que não existem e uma massa branca no cabelo para fazer de conta que é grisalho. Tampouco que uma senhora católica não recebe ninguém vestida em langerie e que se reconhece um gramophone de papelão de longe! O diretor, por ter estudado as potencialidades da obra, visualiza que no século XVII não se montava Shakespeare como era feito no século anterior e que em 2009 não se monta uma peça de 1978 tal qual está no roteiro. Que com atores inexperientes não se faz uma produção de três horas, como Chico Buarque fez com um elenco composto por Ary Fontoura, Maria Alice Vergueiro, Marieta Severo, Otávio Augusto, Cláudia Gimenez, Emiliano Queiroz, Neuza Borges e outros. Que não é possível tantas referências do Rio de Janeiro de 1940 em Porto Alegre século XXI. Enfim, antes de começar a produção, o diretor entende que a passagem da palavra para a ação não significa apenas meter o texto na boca dos atores e tudo está pronto, mas que é de teatro que estamos falando e isso sugere que há muito, muito mesmo, o que fazer.

- Estuda o que já se fez com esse texto, descobre filmes, gravações e procura ler sobre outras montagens do mesmo texto e adaptações dele. Lê sobre o gênero, pesquisa sobre a história e encontra mais possibilidades de relação no sentido de fazer com que haja níveis de compreensão, mas que o básico seja suficiente para aplausos de pé de desconhecidos e não só de amigos e parentes. Apenas ouvindo a adaptação de Charles Möeller e Cláudio Botelho, de 2003, já percebemos que o texto original de Buarque dirigido por Luiz Antônio Martinez Corrêa um ano antes do fim do AI-5 é ótimo, mas há muito o que se fazer nele para que os sentidos se atualizem. Muito precisa ser cortado e substituído e o diretor, já no início dos ensaios, sente que 173 páginas de texto são inviáveis para a realidade que temos. O diretor senta na platéia e vê seu espetáculo nascer. Quando uma cena, ou quase todas, não tem ritmo, é preciso dizer: “Diminui isso, corta aquilo, fala isso de um jeito diferente, diz isso usando algo que não seja palavra, isso já foi dito, então, diz algo novo.” Percebe que há coisas que não são compreendidas por falta de dicção, que cochilamos em diálogos decorados e sem intenção, que não há, em muitos casos, níveis e, muito menos, construções de personagem. Vê que Geni (Boni Rangel) e Max estão à vontade na suas interpretações, ao lado de um grupo de atores que não foram preparados para serem atores ou, se foram, nada mostram sobre isso. Que Vitória vai de ruim a boa ao longo da peça, que o grupo das prostitutas é menos raso que a “Macacada”, e que o lento Chaves (Diego Brasil) e o duro Duran (Ernani Poeta, que assina a direção) só não são piores que João Alegre. Que é preciso parar e estudar o corpo já que, antes de ser musical, “Ópera do Malandro” é teatro e não é teatro de bonecos. Que no palco deve haver mais que um belo cenário e ótimos figurinos, que há que se ter foco, marcação, coreografia que norteie e prenda a atenção do público que lota o teatro.

- Pensa que para se fazer um musical hoje não é possível utilizar microfones espalhados pelo palco e dois pedestais com fios que nem sempre funcionam, diferente da microfonia que grita sempre irritando nossos ouvidos antes e depois de um intervalo que divide os dois atos. Que já existem microfones sem fio que ajudariam muito o grupo de cantores tão bem afinados com exceção das interpretações de “Tango do Covil” e “Uma canção desnaturada”. Mas, sobretudo, prepara os atores para lidarem com falhas na tecnologia para que eles não mostrem com tanta clareza que estão tão perdidos e amedrontados quando um microfone não funciona a ponto de cochicharem em cena aberta sem saber o que fazer, tal como, graças a deus, raramente se vê no pior do teatro amador ou estudantil. Que o elenco de músicos, atores e bailarinos precisam estar preparados para projetarem a voz, o corpo, os passos, a energia que preenche o palco mais que a bela luz e a linda trilha.

-TEM CORAGEM, acima de tudo, de fazer o que quer fazer, mesmo sem condições e sem conhecimento (o que não o desculpa de não correr atrás tanto de um como de outro), decidido a produzir um musical na capital gaúcha tão farta de pequenos projetos. Tem ousadia de avisar para os colegas diretores que há urgimento no Teatro de Câmara a espera de bons usos e que há vozes ensaiadas e músicos dispostos, mesmo que carentes de alguém que lhes dirija, guie, faça ver, veja e permita que o sonho do musical aconteça.

7 Comentários:

Anônimo disse...

Generalização, a minúcia de um bom crítico.

Porque não é possível fazer tantas referências ao Rio de Janeiro de 1940 na Porto Alegre do século XXI? Porque a platéia é burra? A obra da década de 70 é ambientada nos anos 40, justamente pela semelhança histórica. Acabamos de completar 40 anos do AI-5, não seria um bom momento para mostrar uma peça que fala de uma ditadura para não falar de outra? A materialidade histórica que se reflete na linguagem do texto demonstra as relações de poder que continuam as mesmas desde sempre. A influência norte-americana permanece mais do que nunca. E a corrupção não pode ser mais atual. A Ópera do Malandro consegue se libertar das limitações históricas, como as obras de Shakespeare, que, de qualquer forma, são encenadas no original mundo afora diariamente. Uma releitura pode ser muito interessante, mas é uma opção, e não é porque estamos no século XXI que ela se faz obrigatória. Se alguém apresentasse a íntegra do texto de Weill ainda seria atual. Até a ironia da obra de Gay, de 1728, explicaria a senhora católica de lingerie. Ainda mais dentro da construção da respectiva personagem. No Berliner Ensemble ainda encontra-se em cartaz Die Dreigroschenoper com o texto de 1928. De qualquer forma, é evidente que não se trata de um musical do Berliner ou da Broadway. Muito menos de um musical carioca do peso de uma produção de Charles Möeller e Claudio Botelho, uma parceria que tem mais de 20 anos de experiência. Com os recursos que um grupo de Porto Alegre tem e com o equipamento disponível na maioria dos teatros municipais, a crítica foi sem dúvida completamente fora da proporcionalidade. Esperava ver uma montagem com os recursos de um espetáculo de São Paulo ou da Broadway? Porque então não doar para o grupo um microfone sem fio? Ou quem sabe um microfone de lapela? Isto não é o West End, ou o Rio de Janeiro, isto é Porto Alegre. E não é menosprezar o teatro gaúcho de forma alguma, estamos falando da realidade, e estamos falando de um musical. Uma ousadia sim, mas cujo saldo foi positivo. O dia em que houver um maior investimento nas artes talvez se veja um musical gaúcho digno dos palcos de Nova Iorque. Nunca viu uma peça com cigarros apagados? Tem certeza? Preferia ser fumante passivo num espaço tão amplo como aquele? A própria Esther Góes, representando Weigel, veio a Porto Alegre e fumou um cigarro apagado, provavelmente em respeito à platéia, e não foi a única. Ascender ou não um cigarro independe do cenário. A platéia não era de parentes: os mesmos já viram alguma versão dessa montagem há muito tempo, e ainda que eventualmente queiram rever, em 6 dias de espetáculo não dá para a parentada lotar o teatro todos os dias. Não soubeste nem identificar quem eram os bons atores em cena, e teus apontamentos demonstram total desconhecimento nesse sentido. Esse é o mal da internet: qualquer um, envaidecido com seus conhecimentos limitados, tem a pretensão de achar que tem condições de escrever uma crítica. Um bom crítico, com as bases e os conhecimentos para criticar teatro, sabe identificar aspectos negativos e positivos num espetáculo. Postar um comentário na página daquele completo ignorante que fez uma ‘critica’ anterior naquele outro blog é realmente queimar o filme para alguém que pretenda ser sério. Dizer que o espetáculo não merecia o espaço que recebeu é de uma pobreza de espírito das mais profundas, é realmente um desestímulo às artes da capital gaúcha. Como não há orçamento para investir, então vamos deixar o espaço para alguém mais qualificado, quem sabe alguém de São Paulo ou do Rio? Priva-se o público de um espetáculo que divertiu até o final da peça, até a última cena. Três horas de uma peça horrorosa, quem agüenta até o final??? Há urgimento sim, de um crítico que tenha subido num palco e montado um espetáculo do gênero. Criticar sim, mas valorizar o que tem de ser valorizado. A peça teve alguns erros sim, alguns atores novatos sim, mistura de linguagens, problemas técnicos, especialmente porque num elenco enorme e num musical enorme com um orçamento inaudível é muito mais provável que isso tudo aconteça. Mas o saldo é sem dúvida positivo. Trata-se de uma montagem local onde há também interpretações profissionais excelentes e muitos pontos altos. Uma banda maravilhosa, uma flauta que enchia o ambiente de uma leveza tão inebriante que só um insensível não conseguiria sentir. É como ocorre em muitas peças que assistimos, onde há coisas boas e ruins. E não era pra ser cool, é pra ser um musical ambientado na década de 40. Um musical perfeito? Talvez em Londres. Críticas sim, como em todo espetáculo, mas não essas de um ‘teórico’ que em algum momento achou que estava assistindo a um musical do West End.

Anônimo disse...
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Rodrigo Monteiro disse...

Os nomes que constam no texto estão baseados em:

http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=46118336

a única informação de elenco que eu consegui obter.

Peço desculpas pelos enganos que houver.

Obrigado.

Helena Mello disse...

Fico pensando até que ponto vale a pena me expor para falar com pessoas que não querem ouvir. Porque dizer tudo que se quer como "anônimo" é muito fácil. Acho que a internet permite erros de ortografia. Eu mesma faço muitos. Mas, escrever "ascender" um cigarro? Além disso, até quando os profissionais de teatro vão ficar justificando o que está ruim? O que deu problema? Alguém tem alguma dúvida de que existem muitas razões? É isso que o público deve considerar? Felizmente, encontrei no mestrado pessoas que são práticas do teatro, mas, que entendem que, assim como eu as respeito e admiro profundamente em sua arte, também devem me respeitar pela minha escolha pela teoria. Já fiz teatro. Já subi no palco mais do que muitos ditos atores em Porto Alegre, mas, mesmo que não o tivesse feito. Está na hora de encontrarem um argumento mais feliz para explicar a dificuldade de aceitar críticas. Não é preciso concordar com elas, mas, é estupidez não perceber que o interesse dessas em escrever sobre o seu trabalho valoriza o teatro como um todo. E não é isso que todos queremos?

Resposta do anônimo disse...

Exatamente, minha cara, até que ponto vale a pena me expor para um ‘crítico’ que eu não sei quem é, do qual ninguém nunca ouviu falar? Fica bastante óbvio pelo texto que o ‘anônimo’ é um membro do Coro dos Contrários, e ainda assim não acho que vale a pena me expor aqui. Sou membro do elenco e tenho a opção de não me expor para um ‘critico’ que me pareceu uma pessoa sádica. Exerço uma série de atividades profissionais paralelas e não é do meu interesse expor o meu nome para valorizar apenas uma delas. Como eu não tenho blog, achei que fosse inevitável que aparecesse ‘anônimo’ no titulo. Até onde eu sabia, não havia outra opção para quem não é membro. Sim, poderia ter colocado meu nome no final, mas como a senhora mesmo questionou, até que ponto vale a pena se expor para um desconhecido?

Quanto a tua observação, o próprio Luis Fernando Veríssimo cansou de dizer que comete erros de português com frequência e que seus revisores têm muito trabalho. Disse que é uma pena que o pobre trema tenha sido retirado da língua portuguesa porque ele não teve tempo para saber bem como usá-lo. Acha que isso diminui o seu mérito? Ficar procurando um erro de português num texto porque não tem mais o que dizer é realmente de uma infelicidade muito grande. Escrevi num momento de impulso e certamente não revisei o meu texto. Ainda sim, teu português deixa a desejar, com erros de pontuação e frases inconclusas. Atire a primeira pedra quem nunca cometeu um deslize na língua portuguesa. E ninguém estava justificando nada: tudo o que eu disse foi apenas para deixar claro que um crítico deve apontar os aspectos positivos de um espetáculo também, além dos negativos, e também deve ter mais conhecimento antes de criticar, teórico ou não. O valor da crítica é que ela seja construtiva para que se possa melhorar. Este o valor. Tampouco critiquei a teoria, disse que conforme as coisas que o moço escreveu acima me pareceu claro que ele é apenas teórico e nunca atuou na prática. Eu mesma apontei muitos erros na peça e se cheguei a ler a crítica é porque valorizo o criticar ou não teria me dado o trabalho. Não questionei em momento algum a crítica teatral. Isso ficou muito claro no comentário que eu fiz. Estupidez é detonar gratuitamente uma peça e dizer que ela não merece o espaço que teve, isso é realmente muito construtivo. Estupidez é criticar sem conhecimento. Estupidez é ficar encontrando erros de português num texto porque não tem mais o que dizer. Certamente está na hora de encontrar um argumento mais feliz.

Ricjk disse...

Sem entrar nas questões anteriores sobre erros de grafia ou de sustentação. Ou nas seguintes, que vão sobre expor-se, esconder-se. E, ainda menos, nas questões que versam sobre o crítico e o criticado, valores, fundamentações, referências, etc. Me pergunto: O que é 'urgimento'? Acaso estão, autor e comentarista, referindo-se ao vão acima do palco, de onde descem os cenários, chamado
'ur(d)imento'?
Anonimamente,
lembrando Houaiss.

Rodrigo Monteiro disse...

A palavra que eu conheço e uso para esse vão é urGimento. Foi assim que aprendi e é assim que tenho usado.

Graças a você, vou dar uma procurada nesse jeito de escrever ela.

Não posso dizer a que se refere o uso dela no comentário anônimo ao meu post. Fiquei com dúvidas se estávamos falando da mesma coisa.

Entendo que coisas podem não ficar claras para quem assiste a uma peça, sendo igualmente (nem mais, nem menos) desagrável quando o mesmo acontece na leitura de um texto (seja ele qual for). O importante e válido é o reconhecimento do esforço para que isso não aconteça.

Abraços,
Sr(a) Anônimo.

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