22 de jan de 2009

Sobre anjos & grilos


O Quintana de Déborah


Tá.

Eu tenho que prestar a atenção na Deborah ou no Mário Quintana? Ou na Zorávia? Ou no Ferretti ou na Raquel Cappelletto? Deixa eu me organizar...

Selecionar alguns dos poemas de Mário Quintana para um espetáculo de teatro é uma tarefa bastante árdua. Deborah Finochiaro não teve medo da empreitada e fez. E fez muito bem porque é uma excelente seleção: não se poderia colocar todos. Imagino que o critério tenha sido o grau de teatralidade contido no verso (olha a minha dissertação de mestrado pintando aí...). E como descobrir isso? Por intuição, por experiência, coisa que sobra nessa grande atriz e diretora do teatro gaúcho.

A dificuldade disso, e o mérito de Deborah, está no fato de que Mário Quintana nunca escreveu dramaturgia. Por dramaturgia, entendo um texto cujo significado se estabelece menos pela palavra, mas mais pela ação que propõe. Na poesia de Mário Quintana, o drama está no eu lírico e os personagens de “Sobre anjos & grilos” vêm disso. Aí vemos (Deborah vê e propõe para nós) uma criança, um bêbado, um velho, um tarado... Um personagem fica ao lado do outro e um mosaico se constrói em sessenta minutos.

Confiar num Eu Lírico, talvez, seja o desafio mais assustador de quem almeja construir um espetáculo a partir de poemas. É subjetivo demais para ser interpretado, é muito abstrato para ser corporificado. Eu, por exemplo, nunca li o poema dedicado à Cecília Meirelles imaginando Quintana se masturbando com sua máquina de escrever...

Vemos mais Déborah que Quintana, ou mais o Quintana de Debora, quando teríamos um ótimo espaço para criar a nossa própria Trebizonda. As imagens de Zorávia Bettiol, a música de Chico Ferretti e o figurino de Raquel Cappelletto, quietinhos, nos deixam livre para viajar. A interpretação de Deborah, impondo reações, vozes, movimentos, intensidades, não. A não ser quando a atriz está parada: contadora de histórias... Aí, sim, Aldeberan fica pertinho, esquecemos o frio do ar condicionado maluco do Câmara, e a história (ausente num espetáculo lírico) começa na nossa cabeça. O espetáculo, nesses raros momentos, deixa de ser só lindo e passa a ser subliminar, ou... quintanar!
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FICHA TÉCNICA
Textos e Poemas: Mario Quintana
Concepção, Roteiro e Atuação: Deborah Finocchiaro
Direção: Debora Finocchiaro e Jesse Oliveira
Imagens: Zoravia Bettiol
Trilha Sonora Original: Chico Ferretti
Iluminação: Fabrício Simões e Jessé Oliveira
Figurino: Raquel Capelletto
Produção: Deborah Finocchiaro e Elisete Idalgo
Realização: Companhia de Solos & Bem Acompanhados

2 Comentários:

Helena Mello disse...

Quero ser você amanhã! Bem, ainda não li o que tu comentaste sobre o que eu escrevi, mas, quando te leio fico com vontade de reescrever. He,he,he. Mas, viva a diferença. Muito bem escrito e comentado. Assistimos ao mesmo espetáculo e, de uma certa forma, tivemos as mesmas impressões. O teu jeito de colocar aqui me parece mais completo. Estou em um misto de inveja e admiração!

Platero disse...

Oi Rodrigo
Vá ver o Platero.
é um espetáculo baseado em poemas, mas uma proposta bem diferente da da Déborah.
estaremso em cartaz dias 27 e 28 de fevereiro e 1 de março, no Câmara.
abçs, Taís

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