21 de jan de 2009

Pílula de Vatapá


Para quem consegue ver a flor e também pra quem consegue ver o asfalto

Fiquei pensando em comparar o nome “Pílula de Vatapá” com o que eu queria dizer sobre a peça a que assisti ontem na Alvaro Moreyra. Dizer que é a repetição de uma fórmula já vista em Bailei na Curva e vários filmes como Magnólia, Babel e outros com narrativa picotada disposta a fazer com que nós, assistência, unamos as pecinhas num só enredo. Também que não há nada de mal em repetir uma fórmula, afinal, pílulas nada mais são do que repetição de fórmulas. Terminar dizendo que vatapá e uma comida, uma receita culinária, e que dois cozinheiros juntos podem até fazer , ao mesmo tempo, com os mesmos ingredientes e usar o mesmo forno, mas o “vatapá” vai sair diferente porque a mão não será a mesma. Com isso, comentar que a mão “Júlio Conte” conta muito no bom resultado do processo. Mas preferi não usar isso, não repetir a fórmula que uso aqui no blog, embora não consiga fazer com que meus textos fujam da minha mão. A mesma mão que escreveu uma carta para Júlio Conte há quase 15 anos atrás dizendo da minha emoção de ter visto “Bailei na Curva”.

A trilha sonora e a luz são recursos que a produção utiliza muito bem. Não dão só o clima do espetáculo, mas também dizem sobre o que é a peça: de um lado, a rotina, o comum, o barulho da Rua da Praia, o horizontal, a breguice popular. De outro, o indivíduo, o interno, o psicótico, o desejo, o vertical, o único. E a narrativa foi uma ótima opção: entramos numa história disposto a conhecer, como o narrador informa, a vida de um personagem. Mas, ao entrar na história seguinte, descobrimos, num crescente, que há algo que liga, que junta, que aproxima, que horizontaliza. O poema de Drummond ( A flor e o asfalto) é a massa que faz com que os tijolos, já unidos, permaneçam assim mesmo com ventos e com tempestades.

A mão de Júlio Conte é hábil em esconder inexperiências, inseguranças, falta de domínio corporal e ausência de intenção de certos atores em meio à técnica e ao talento de outros. O resultado é uma impressão de grande trabalho de uns, mas a certeza de um bom trabalho de todos. Não há destaques no elenco, nem negativos, nem positivos, embora a cena entre pai e filho seja forte e grave na minha memória a boa interpretação de Lucas Sampaio. Embora também eu tenha ficado pensando que o comum (e pobre) seria o narrador-radialista ficar quietinho e não participar da trama, o que, felizmente, não acontece: Júlio Conte pulsa como o elenco que dirige.

“Pílula de Vatapá”, mesmo com um figurino improvisado e com um final que não é final, vale a pena ser visto porque nos faz pensar em quanto nos unimos uns aos outros e no quanto nos distanciamos uns dos outros. A Rua da Praia é uma só para ricos e pobres, mas só uns (tanto ricos, como pobres) podem tirar poesia de uma flor jogada nela.

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