18 de nov de 2010

Morgue

Foto: Vilmar Carvalho

Não devia ter sido produzido!

Prezado Oly Jr.,

Te escrevo porque gostaria de elogiar a tua participação no meu blog (ler os comentários de Oly Jr. na crítica de A lição). Não vou fazer uma reconstitução deles, mas quero citar o teu último em que me dizes, entre outras coisas, que a regra é um ato subjetivo. De fato, esse é um ponto de vista bastante interessante, porque suscita a teoria, a análise, a reflexão. Enquanto eu dizia que a percepção da regra é de responsabilidade do espectador ou do leitor, você vê a regra como uma manifestação da percepção, conclusão essa que me faz pensar e muito. São esses os momentos que mais me estimulam a continuar escrevendo: aqueles em que, ao trocar discordâncias, refletimos, crescemos, compartilhamos.

Seu primeiro comentário trouxe à baila uma crítica minha de um espetáculo dirigido por Bob Bahlis em que fui bastante claro ao dizer "Não deve ser visto!". Lembro que essa frase gerou uma série de discussões e alguns constragimentos. Cheguei a me arrepender dela, embora não me sentisse pessoalmente sincero com o arrependimento já que, de fato, era isso que eu pensava. Segundo você, um crítico jamais deve fazer isso, de forma alguma deve exortar as pessoas a não irem assistir a um espetáculo, o que significaria, na sua opinião, tolhir a construção do olhar alheio. Com as suas palavras, você diz que, se um crítico diz "Não vá ver essa peça!", ele está impedindo a pessoa de ter uma opinião seja ela igual ou diferente da sua. Eu discordei de você uma vez que ratifico a compreensão que eu tenho, essa construída na experiência deste blog, de que as pessoas 1) jamais confiam cegamente na opinião do crítico a ponto de abandonar o valor que dão as suas próprias; e 2) querem saber, afinal de contas, se o crítico recomenda ou não determinado espetáculo.

Diante disso, mas prometendo dizer ainda mais, sou taxativo em dizer que o espetáculo Morgue, dirigido pelo mesmo Bob Bahlis, não deve ser visto. E vou além: não deveria ter sido produzido e, muito menos, ter encontrado lugar num espaço público como é a Sala Álvaro Moreyra.

E, para que não digam que isso é um mero comentário (como se comentário fosse algo menor), vou avançar justificando o que acima eu disse.

TEMA: o mais grave de todos os defeitos dessa produção

Bob Bahlis e seu grupo de atores (Luciana Domicciano, Beto Mônaco, Fabio Monteiro e Marcelo Naz) empreendem seus esforços no socialmente desnecessário ato de cobrir um terço de uma hora ofendendo as mulheres e outros dois terços da mesma hora ofendendo os homossexuais (e não só os homossexuais, mas os homossexuais passivos). Contrói três personagens homens que se encontram após a morte numa sala de IML. Os três compartilham as suas vidas, os seus preconceitos e os valores. A proposta, a princípio interessante, lembra a cena cortada de Sunset Boulevard (O crepúsculo dos deuses), que começava com o Jornalista narrando sua própria morte. Mas o valor da proposta pára quando o público inteligente percebe que as piadas iniciais sobre gays e mulheres não ficam na ilustração (não tenho nada contra piadas quando elas têm apenas o valor de piadas), mas se estendem ininterruptamente por toda a duração da peça. Por mais que a dramaturgia termine por tratar as hipocrisias dos três homens, os três com relacionamentos homossexuais no passado, ao longo de todo o tempo, o que se vê é o público rindo da condição sexual homoafetiva. Ou melhor, dois terços, porque também se ri das mulheres, a partir das piadas machistas que são contadas.

Pois bem, um personagem homossexual, em hipótese alguma, deve estar ao lado de um personagem drogado ou de um padre que nao conseguiu realizar o voto de castidade. Os três mortos de Bob Bahlis são: um viciado em cocaína que morreu bêbado num acidente de moto matando outra pessoa. Esse viciado tem um filho de onze anos que é gay e ele mesmo assume que, quando criança, foi passivo numa relação homossexual. O segundo personagem é um padre que teve várias relações sexuais, uma delas com um amigo. O terceiro morreu esfaqueado por um garoto de programa. Ou seja, ocupando um espaço artístico público está uma peça que:

1) Desconsidera o fato de que ser homossexual é uma condição afetiva e não uma opção. Ninguém escolhe ser homossexual, tampouco heterossexual. Se é e ponto. A pessoa nasce assim e tem, ao longo de sua vida, o desafio de enfrentar o duro preconceito da própria família e da sociedade que lhe impede de, por exemplo, pegar na mão do seu parceiro na rua, gesto que qualquer adolescente heterossexual faz com sua namoradinha aos 12 anos sem problema algum.

2) Diferente do vício à droga, que pode ser curado ou, ao menos, tratado medicamente, o ato homoafetivo não pode ser curado, além de não ser responsabilidade de quem o faz, que não tem culpa de sentir-se atraído sexualmente por uma pessoa do mesmo gênero. Diferente da hipocrisia católico-cristã, em que padres, no mundo inteiro, pregam uma coisa e fazem outra, os homossexuais sofrem a hipocrisia alheia e, cada vez menos, se sentem encorajados a, diferente dos padres, dar continuidade à hipocrisia. Lembrando que o voto de castidade é uma opção do seminarista, que pode abandonar o curso se quiser, coisa que homossexual não pode fazer.

3) Na plateia, além de gays, possa haver familiares de homossexuais que, na maioria dos casos, sofrem bastante ao tomar conhecimento da condição sexual do filho, certos de toda a dura vida que terão que enfrentar a partir de se assumirem. Esses pais verão, no palco, pseudo-artistas debochando de seus filhos diante de um público que ri de suas piadas e lhes aplaude em pé.

4) O Brasil vive um momento político atual em que uma universidade paulista publica um manifesto pelo direito de ser preconceituosa, em que um grupo de homossexuais é agredido brutalmente a socos, pontapés e uma lâmpada florescente em plena Avenida Paulista, em que Grupos Neo-nazistas se espalham e em que a lei que proíbe qualquer manisfestação homofóbica não ganha a atenção dos deputados e senadores da República (Se o dono de um restaurante quiser expulsar dois homens que ficam de mãos dadas durante sua refeição, atualmente, ele tem esse direito.), o que é um absurdo.


A pegunta é: como alguém pode produzir um espetáculo que, por mais que termine "punindo" os personagens, promova uma hora de risos e gargalhadas vergonhosas e envergonhantes de uma plateia preconceituosa?

ASPECTOS ESTÉTICO-ARTÍSTICOS: menos pior, mas não menos ruim.

Os atores mantém suas construções de ruins a péssimas. Não é um espetáculo de teatro profissional uma vez que dispensa algumas das bases fundamentais da comédia que se propõe a fazer:

a) problemas sérios de dicção;

b) antecipam as ações o tempo inteiro (param de falar para a "enfermeira" entrar, anunciando a sua entrada); dizem que se assustam primeiro e se assustam depois; ao dizer uma piada, olham para o público para ver se a plateia ri; não têm ritmo (elemento essencial da comédia); o discurso, na maoria das vezes, soa como "decorado";...

Pode-se falar bem da atriz (Luciana Domicciano), cuja construção, assim como a direção de luz, embora com resultados positivos, ficam apagados diante de tantos problemas conceituais e operatórios no todo da produção.

Assim, caro Oly Jr., Morgue não deve ser visto, nem mesmo de graça. Presta um desserviço às artes e um desserviço à sociedade. Você quer que eu diga que essa é minha opinião aos meus leitores? Em lugar disso, vou te contar uma coisa:

Após o espetáculo, fui jantar com um amigo numa pizzaria da Cidade Baixa. Na saída, coloquei minha mão direita sobre ombro esquerdo dele, bem na esquina da Sarmento Leite com a Lima e Silva, antes de pegar o taxi para ir embora. Dois meninos passaram por nós e gritaram: "Ihhhh!!! Estão de casalzinho!!" E saíram rindo bem alto.

Rindo como riram aqueles que assistiram à Morgue. Rindo um riso que não deve ter lugar num mundo mais humano.


*

Ficha Técnica:
Elenco: Luciana Domiciano, Beto Mônaco, Fabio Monteiro e Marcelo Naz.
Figurinos: Rô Cortinhas.
Cenário: Carlos Wladimirsky
Iluminação: Marga Ferreira.
Trilha: Bruno Suman

2 Comentários:

Anônimo disse...

Parabéns pelo comentáio bem fundamentado e pela coragem!

jose carlos disse...

Gosto de teatro e lamento que não tenhamos uma cultura que valorize a produção de mais peças. E muitas que são feitas, pela má qualidade, não é que não deveriam ter sido produzidas, pois estaríamos incorrendo num tipo de censura indesejável se fossemos levar a consequência ao pé da letra, mas devem, isto sim, ser criticadas da forma que merecem, como parece ser o caso desta peça "Morgue". Uma coisa que não entendo é como as peças realmente interessantes são poucas no teatro gaúcho. Taí o palco giratória para mostrar que o teatro é um programa prazeiroso. Parabéns pela tua crítica.

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