28 de abr de 2010

Em trânsito

Foto: João de Ricardo

O todo em relações

Outro dia tive que abrir a conta do meu email antigo pra pegar uma informação. Há três anos já não usava essa conta e devo tê-la considerado apenas nos primeiros meses da mudança e depois esquecido. Algum dos leitores já compartilhou a mesma experiência? É interessante olhar para si mesmo há três anos atrás. Ler velhos emails recebidos, enviados, salvos na pasta rascunho... Os sonhos de então, os segredos, os desabafos, os pequenos problemas e as intenções do dia a dia. É uma excelente oportunidade para entender da gente mesmo como alguém nunca separado do contexto, um sistema que deixaria de existir sem relações e que, por isso, só pode ser entendido dentro delas e através delas. Essa sensação me ajuda a recuperar o espetáculo “Em trânsito”, da Cia. Espaço em Branco.

O protagonista de “Em trânsito” é um personagem retirado de outro espetáculo da mesma companhia e também frequentemente em cartaz: “Teresa e o Aquário”. O ato de retirar um personagem do seu contexto e, inevitavelmente, incluí-lo em outro ressignifica (pela lógica) o personagem, potencializa certos elementos que o compõem, aprofunda outros, lhe dá novas perspectivas e faz descobrir novas possibilidades. O que poderia ser pobremente visto como a construção de um monólogo a partir de um diálogo é, na verdade, a abertura de um espaço de experimentação teatral bastante profícuo. A experimentação teatral, nesse caso, está na reconstrução de uma dramaturgia, na possibilidade de fazer emergir novos sentidos a partir de uma nova partitura, no aprofundamento do personagem que, agora, tem mais espaço para ser expor.

“Em trânsito”, assim, se anuncia enquanto espetáculo como fruto do resultado de um processo de experimentação. E tem um resultado positivo, lembrando que a palavra resultado não é vista aqui como algo fechado e imutável, mas teatral, isso é, suscetível à mudanças. Bons resultados são sempre mais fáceis de se ter quando é permitido ao público sentir que o grupo está preparado para o acaso, gosta dele e dele se aproveita quando sabe que, seja o que acontecer, ao querido público sempre estará destinado o melhor que a Cia tem para oferecer.

E onde está o melhor de “Em trânsito” no fato da encenação?

O ator Lisandro Belotto, numa análise diacrônica em que considero suas outras participações em outras produções, apresenta aqui seu melhor desempenho. Considerando que é um grande desafio fazer monólogo, seu sucesso torna-se ainda maior. Sob a direção de Sissi Venturin, que estréia como diretora, o ator nos mostra diferentes aplicações de voz, movimentos corporais que não têm medo de serem tridimensionais, força no texto dito. O personagem mobiliza o tempo e é mobilizado pelo espaço de forma segura e coerente com a produção.

Os vídeos, que marcam a estética da Cia Espaço em Branco, são usados de forma a colaborar com a falsa-narrativa que esse espetáculo produz. Colabora não redundando, isto é, cada imagem apresenta ao espectador uma nova informação, um novo jeito de contar a não-história disposta. O frio que o protagonista talvez sinta fica em oposição às cores quentes da tela. A forma contida com a qual ele mostra ter sido acostumado faz perguntas ao vulcão em erupção a que assistimos. A sensação de aprisionamento e objetivação por que o sujeito-personagem passa é divida de forma mais acessível com o público que vê e ouve a cadeira de dentista e seus instrumentos de trabalho. A produção atinge sentidos pelo uso que faz de possíveis objetos cênicos, tornando teatro não tanto o material, mas, com certeza, o conteúdo de cada um deles.

A falsa-narrativa ou a não-história vem à tona como motivo da assistência não aderir efusivamente à obra mesmo após tantos esforços cheios de sucesso. O personagem de Lisandro Belotto está trancado dentro do seu carro num dia de chuva. O trânsito está parado e o seu celular toca insistentemente. Ponto. A história acaba no Momento Inicial ou na descrição da Situação Inicial. Todo o resto é o desabafo do personagem que, aqui e ali, lembra de fatos importantes da sua infância ou da sua vida recente. A dramaturgia, no entanto, não torna essas lembranças como algo que terá alguma relação com o futuro do protagonista. “Em trânsito”, mesmo com elementos narrativos, é uma dissertação. E somente uma dissertação muito bem escrita prende o público e tira dele os aplausos que o espetáculo merece receber e recebeu comigo por testemunha. Recebendo, claro, não apenas por um ou outro elemento, mas pelo todo. O todo em contexto. Como sempre.

*

Ficha técnica:

Direção e Produção: Sissi Venturin
Atuação: Lisandro Belotto
Dramaturgia: João de Ricardo
Iluminação: Mariana Terra
Sonoplastia e Figurino: Sissi Venturin

5 Comentários:

COMIDA FALA - Karen Monteiro disse...

Amei Teresa e o Aquério... admiro o trabalho da Sissi.. não fui assistir Alice.. Tu já foi?

Rodrigo Monteiro disse...

Opa, Karen! Achei teu blog uma delícia!!! rsrsr Infelizmente não consegui ir ver Alice na temporada no La Photo. E, quando a peça foi apresentada na Mostra da Cia., eu cheguei tarde demais para conseguir uma senha... Mas estou curiosíssimo!!!

maria luíza sá e madureira disse...

rodrigo, pra te dar em primeira mão: http://wwww.agoraeuera.com.br/

Anônimo disse...

meiparadinissaquineam?

Anônimo disse...

nao posso falar de em transito, pois não assisti. todavia, assisti teresa e o aquario e vi com olhares de povão, leigo (enfim), e não de pessoa que vai ao teatro frequentemente. achei estranho. eu realmente quando fui assistir tirei totalmente a responsabilidade de entender e assisti a peça como se nunca tivesse ido ao teatro antes. é realmente uma peça dificil de mergulhar. nos vemos espectador de uma sufocante relaçao e não conseguimos nos relacionar com ela. e ai penso: para quem que a cia espaço em branco trabalha? para o publico que vai ao teatro toda semana (ou seja: estudantes de teatro e profissionais da area)? ou ele faz para atingir o povo? se é a segunda premissa, pelo menos nesse espetáculo ele não consegue completar o objetivo. se é a primeira, pra que fazer teatro apenas para quem faz teatro? isso não é um tanto masturbatório? é isso que acredito que falta no teatro porto alegrense: como destinar a peça ao povo e não apenas aos que vão ao teatro toda semana?

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