23 de abr de 2010

A tempestade e os mistérios da ilha

Foto: Bacante

Prazer

“A tempestade”, talvez, o último texto de Shakespeare, é um motivo graciosa e sorrateiramente utilizado por Jezebel de Carli para demonstrar seu amor ao teatro. Não que os outros trabalhos dessa diretora, desse grupo e também de outras pessoas e companhias não o sejam. Mas talvez poucos textos ofereçam ao encenador uma fala tão direta como essa:

PRÓSPERO — Pareceis, caro filho, um tanto inquieto, como quem sente medo. Criai ânimo, senhor; nossos festejos terminaram. Como vos preveni, eram espíritos todos esses atores; dissiparam-se no ar, sim, no ar impalpável. E, tal como o grosseiro substrato desta vista, as torres que se elevam para as nuvens, os palácios altivos, as igrejas majestosas, o próprio globo imenso, com tudo o que contém, hão de sumir-se, como se deu com essa visão tênue, sem deixarem vestígio. Somos feitos da matéria dos sonhos; nossa vida pequenina é cercada pelo sono. Reconheço, senhor, que estou irritado. Suportai-me, vos peço; é da fraqueza. Enturva-se-me o cérebro já velho. Não vos amofineis com minha doença. Caso vos for do agrado, entrai na cela, para aí repousardes. Enquanto isso, darei algumas voltas, porque possa tornar-me calmo.

Todas as aventuras e emoções acontecidas durante a história se vão para sempre quando a peça termina. A segunda sessão é uma nova sessão. O dia seguinte talvez não aconteça e se, nesse espaço se der, será outra e não a repetição da mesma. O que faz desse ou daquele ator um personagem se esvai, some, descansa em algum lugar. Próspero, o personagem protagonista, diz estar nervoso como tantas vezes fico eu quando vejo uma produção que ofende o teatro permitindo que um ator não saiba para onde vai, um figurino a expor-se como tal como se não fosse apenas uma roupa comum vindo de um lugar comum, uma música tirada aleatoriamente de filme, um grito sem dial, uma luz medíocre. Sendo feito de sonhos, todos os elementos cênicos são feitos de ouro porque nenhum pesquisador jamais pode entender os sonhos, ocupar-se seriamente deles, explicá-los. A humanidade que faz com sucesso um transplante de rosto, não reproduz um sonho de forma palpável. Mas os atores fazem sonhar e, para mim, por isso, são seres superiores a bailar na mão de diretores cuja responsabilidade só não é maior que a dos produtores que lhes viabilizam os projetos. Preservar os sonhos fez Próspero abandonar seu ducado em favor de seu irmão, afastar-se de seu rei, partir incógnito para uma ilha, distante das traições de que fora vitima, mas próximo do seu conhecimento, dos seus livros, de sua magia, de sua filha. E voltar só fez sentido quando a possibilidade para novos sonhos surgiram. Um espetáculo não se abandona por qualquer motivo. Apenas uma razão tem um grupo para parar de apresentar um espetáculo: apresentar outro.

A leitura do texto inglês da Santa Estação Companhia de Teatro (Hermes Bernardi Jr.) em nada reduz o clássico, embora abdique de algumas portas para fixar-se em outras. Não é a versão literal, como estou convencido de que nenhuma o é. Uma atualização é sempre nova embora a relação texto e encenação possa ser mais ou menos estreita. Nessa versão, a relação é amigável e, num ótimo sentido, colaborativa. Vemos uma estrutura de metal e algo parecido com um carrinho. Nem um nem outro se parece com algo do mundo falsamente concreto em que vivemos fora da narrativa. São reinventados, serviçais ao uso que lhe é conferido como também eram os balcões elizabetanos nas montagens primeiras de Shakespeare. Quem já entrou num teatro assim sabe que os janelões de nada servem a não ser quando servem para tudo. Não são nada e podem ser tudo. E essa dicotomia é ingrediente para o sonho que, num espaço como esse, ganha convite para acontecer. Os figurinos de Antônio Rabadan vão na mesma linha do cenário de Juliano Rossi, conferem unidade e substância, além de possibilitar alternativas para as ações dos atores enquanto ação e construção. A ilha cheia de mistérios vê os náufragos chegarem como sinal de que é hora dos mistérios morrerem e de se ver a luz. Quando a peça termina e a luz acende, saímos da ilha e vamos para casa encontrar lá novos sonhos a realizar, partindo de quem nos enganou, nos traiu, nos contou histórias, fingiu ser quem não é. E nos emocionou.

Não há um som que não tenha sido planejado, nem uma luz (Fernando Ochôa) que não tenha sido criteriosamente escolhida numa esfera de múltiplas possibilidades. Sentir isso é sentir-se especial. Não sou ator, não sou produtor, nem diretor. Mas não posso dizer que sou apenas público porque uma platéia não tem nada de apenas. Se escolhemos assistir a peça e dar ao grupo parte de nós é porque nos permitimos sonhar. E isso nos faz alguém especial. Pobre de quem não sonha...

Gabriela Grecco como Calibã é simplesmente excelente. A construção se manifesta com força, distribui energia, se faz viva, presente, colaborativa. A coadjuvância ganha adjvância e protagoniza sem precisar roubar um foco que não é seu. Não menos que isso se vê nas duplas Roberta Savian (Miranda) e Denis Gosch (Ferdinando), e Ana Carolina Moreno (Trínculo) e Larissa Sanguiné (Estéfano): um completando o sentido de outro, jogando um jogo que pelo qual torcemos. As interpretações de Jezebel de Carli (Própero) e Rafael Pimenta (Ariel) marcam a relação da narrativa com a produção. Impossível não olhar a construção do elfo Ariel sem pensar nas participações de Pimenta nos Stand Ups, produções cênicas outras frequentemente em cartaz na capital gaúcha. O ator, um grande comediante, leva, talvez sem intenção, para o personagem um registro que se torna cada vez mais seu. Quase o mesmo se dá em Jezebel. Como ouvi-la falar o texto citado acima sem pensar na pessoa da diretora da Santa Estação, da professora e da encenadora? Os sentidos se mobilizam, emergem, submergem, naufragam e vêm à ilha.

Próspero entende-se com seu passado após desfazer-se de toda a magia. É como homem e não como mago que ele perdoa e pede perdão. Eu jamais conseguiria escrever esse texto na platéia do teatro. Mas aqui lembro do prazer das últimas palavras:

“...Soltai-me de tudo o que me prende
Com essas boas mãos que o aplauso rende.
As minhas velas o sopro do vosso afeto tem de encher - ou falha o meu projeto
Que era dar prazer...”

E aplaudo afetuosamente a produção que bem faz o que faz bem.

*

Ficha Técnica
Concepção e direção artística: Jezebel De Carli

Elenco: Ana Carolina Moreno, Denis Gosch, Gabriela Greco, Jezebel De Carli, Larissa Sanguiné, Rafael Pimenta, Rafael Guerra e Roberta Savian.

Dramaturgia: Hermes Bernardi Jr.
Cenografia: Juliano Rossi
Trilha sonora original: Simone Rasslan e Álvaro RosaCosta
Figurinos: Antônio Rabadan
Iluminação: Fernando Ochôa

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