20 de abr de 2010

Parada 400 - Convém tirar os sapatos

Foto: Bacante

Take this waltz

Ao rever “Parada 400 – Convém tirar os sapatos”, depois de muitos anos desde a primeira vez, dei continuidade à investigação outrora iniciada. Uma busca, uma curiosidade, essa convite feito pelo grupo, a Santa Estação Companhia de Teatro, ao apresentar um espetáculo teatral tão rico em potências, tão fértil em significados, tão cheios de coisas para dizer e habilidades para escutar. Utilizando como carro chefe, “Entre Quatro Paredes”, de Sartre, a encenação me põe num corredor cheio de portas, em que o tempo não passa, onde não há espelhos, e num dia que parece a noite que parece dia. Nessa ocasião, um personagem me deu uma dica. Juarez (Denis Gosch) diz algo mais ou menos assim: “Somos de antes.” Então, meu olhar se fixou. Está na possibilidade do possível o cerne da criação, já dizia Derrida. Antes. O antes já é uma existência, mas sem a lógica de. E o que os personagens de Parada 400 perdem ao chegar nessa Estação me pareceu ser justamente a Lógica.

Já não há mais espelhos, nem lembranças, nem um discurso organizado. A identidade não é mais necessária num contexto sem futuro, nem tempo algum. Quando falam em lembranças, ouve-se Youcali. A música trata de lembranças do futuro como quem lembra de querer algo que não teve. Quando falam em espelhos, as frases não terminam. Qualquer que seja o movimento ele é sempre parcial, fugindo a toda e qualquer possibilidade de fechamento, de encerramento, de lógica. O discurso não se estabelece porque carece do outro, da outra parte. Ao escrever aqui, por exemplo, uma parte de mim assume o EU. Essa parte não sou eu, mas uma parte de mim. E esse Eu que fala é uma construção minha com a colaboração do outro, do leitor, do espetáculo gerador. Em Parada 400, não há mais o outro Eu. Há apenas o Eu puro, o eu Antes, a possibilidade de ser discurso.

Jezebel de Carli dirige um elenco que já era afinado quando a peça estreou e por isso não aceita a falsa desculpa de que o espetáculo é bom porque encerra (ou pretende encerrar) a sua trajetória. Elenco afinado significa dizer que a potencialidade de um ator é completada pelo outro e de todos e de tudo completada pelo público. Gostaria de poder ser sincero em dizer Roberta Savian se destaca. Mas estaria sendo mentiroso com quem me lê. É impossível se destacar nesse espetáculo que não tem linearidade. Toma-se o absurdo de Sartre (reconheci também Becket em Fim de Partida) e dá-se a ele, talvez, a sua atualização mais elogiosa: o absurdo como a ordem. Assim, como Savian, Gabriela Grecco, Rafael Guerra, Denis Gosch, Juliano e Luciana Rossi, Larissa Sanguiné, André Petry e Ana Carolina Moreno se destacam. Na mesma intenção, o cenário de sapatos, malas e cadeiras(Juliano Rossi), a luz (Wagner Morais), o figurino (Coca Serpa), a Trilha Sonora (Jezebel de Carli), o público (as mais de seis mil pessoas que já assistiram). Nesse sentido que não vê nenhum destaque ou todos, sinto o apontar para o antes. O antes potente que gerou tudo isso. A Santa Estação Companhia de Teatro, a oficina ministrada por Jezebel de Carli que deu origem ao grupo, a própria Jezebel (Açorianos 2005 de Melhor Direção por esse espetáculo), o encontro com o público que vê nessa produção o lado mais sensível da humanidade, a possibilidade de não ser possível...

E, antes que esse texto vire poesia, e que o coração vire tijolo, tiro os meus sapatos, dou meus parabéns, mas, mais que tudo, agradeço ao teatro pela possibilidade de rever até mesmo espetáculos que eu pensei não mais veria. Pois está aí o motivo pelo qual essa arte merece ser valorizada, seus minutos não devem ser desperdiçados, sua produção não deve ser descompromissada. Nem sempre é possível rever. Nem sempre é possível fazer. Mas sempre é possível fazer bem como é o caso aqui.

Os sapatos são a parte não humana que une os humanos à terra em que pisam. Os humanos pisam o chão porque não gostam dele? Sem os sapatos, não poderíamos, porque também sou humano, ...

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Ficha Técnica

Direção e Roteiro: Jezebel De Carli

Elenco: Ana Carolina Moreno, André Petry, Denis Gosch, Gabriela Greco, Juliano Rossi, Larissa Sanguiné, Luciana Rossi, Rafael Guerra e Roberta Savian.

Iluminação: Wagner Morais
Cenografia: Juliano Rossi
Figurino: Coca Serpa e Santa Estação Cia de Teatro
Trilha Sonora Pesquisada: Jezebel De Carli

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