22 de abr de 2010

A noiva quer casar




Subjetivando

Há quem diga que o inconsciente é como o estômago. Os alimentos vão passando por ele, mas ele é ele e não os alimentos que passam. O estômago é vazio. O inconsciente é vazio. E os alimentos são o mundo. O inconsciente pega o mundo e o divide, mistura, separa, organiza e envia. É no inconsciente que se dá a significação. É lá que o mundo vira linguagem. E, depois de ter visto várias peças do Grupo Sarcáustico, encontrei em “A noiva quer casar” o seu ponto alto. E, antes que esse texto vire uma análise comparativa, o que não é muito do meu feitio, quero olhar mais de perto pras minhas lembranças da experiência que tive ao assistir o único espetáculo de rua do repertório atual desse grupo. E, falando em lembranças, há também quem continue dizendo que o subconsciente é a parte responsável pelo armazenamento das lembranças, das vivências, das experiências. São as lembranças que eu tive das peças do Grupo Sarcáustico que vão justificar o que meu estômago pode ter reconhecido ao presenciar a parte de mundo que lhe cabe. “A noiva quer casar” é o espetáculo em que a estética do grupo melhor se realiza.

Anos 80. A moda é ser trash. Misturar texturas, cortes, linhas e círculos. Grifes estampadas nos óculos, nas ombreiras, nas meias. Cabelos bem penteados, cores vibrantes de um lado, preto do outro. O chique vira pop. Rosa choque, verde limão, babados. No Brasil, Dancing Days, Viúva Porcina e Tieta do Agreste. Lambada. No mundo: Madonna e Michel Jackson.

Nada disso é novidade para o grupo que, pouco ou muito, pincela seus trabalhos com referências da música, do cinema, da tv e da moda. No caso em questão, as bases de referências não ficaram na forma da pintur, mas nela se tornaram. Dirigido por Daniel Colin, o trabalho, cuja dramaturgia é do próprio Colin em parceria com Felipe Vieira de Galisteo, não abre espaço para a estética, mas produz a estética a partir de suas referências. O colorido forte não mascara uma história, mas constrói uma história: um melodrama exagerado com muita pimenta e pouca água. Uma noiva decide não mais se casar porque descobriu que não ama seu noivo atual, mas, sim, um rapaz que fora seu noivo. E o descobrimento dessa tragédia se dá na despedida de solteiro da noite anterior quando, bêbada, transara com o melhor amigo do seu noivo atual. Quem ouve essa história é seu melhor amigo que, por sua vez, é apaixonado pela noiva. A história começa e se estabelece naquilo que de melhor o melodrama faz: peripécias, voltas narrativas, grandes emoções. Uma comédia que surge do horror, um chique que surge do trash.

A narrativa é fortemente influenciada por citações pop. Músicas são cantadas, situações do universo audiovisual são reproduzidas, expressões marcantes são ditas. Pop vem de popular. E não há melhor opção estética para o realizar dessa intenção do que na rua. “A noiva quer casar” é um espetáculo de rua. O lugar cênico é um círculo marcado com flores, dialoga-se com o público diretamente, o universo se constrói em parceria franca e aberta sob a luz do dia. Embora, em alguns momentos, a quarta parede se feche, quando vemos que os atores perdem oportunidades de interagir mais com o além-das-flores, Guadalupe Casal, Ricardo Zigomático e Felipe Vieira de Galisteo crescem ao longo da peça, cena após cena, sentindo-se mais à vontade na encenação disposta de forma aberta e solícita ao seu público.

A tentativa de apagamento do teatro, ou não-construção de uma invisibilidade, se dá em momentos em que Daniel Colim, o diretor, entra em cena, interage com os atores e com o público. Nos momentos iniciais, a ação parece estranha à cena. Então, percebe-se que a intenção é colocar o discurso em terceira pessoa, conforme foi dito logo no início e que é esquecido tamanha é força dos acontecimentos posteriores. O Grupo vai contar uma história, não representar uma. E conta trazendo sempre novos elementos, atingindo novos níveis narrativos, conquistando o público que não consegue sair do espaço sem que tenha sabido como termina a história dessa noiva e seus amores, a guisa de tudo o que acontece na rua, na praça, no parque.

As interpretações são excelentes. A direção de Colin é pontual. Os figurinos e adereços são adequados e contribuintes. A escolha da trilha sonora só acrescenta coerência, coesão e graça. Tudo isso, e mais o texto que acompanha ao invés de guiar, constrói a estética desse trabalho que eu, mesmo sem querer, relaciono com os demais trabalhos do Grupo Sarcáustico, cada um com sua estética própria e sua singular forma de se estabelecer. Se sorver tudo isso é tornar linguagem o que percebo, então, nesse caso, finalmente entendi o que o Sarcáustico vem dizendo.
E como só se entende um mundo participando dele, lá estava eu.

E cá estou. 

*

Ficha Técnica:
Direção: Daniel Colin
Texto: Daniel Colin e Felipe Vieira de Galisteo

Elenco:
Guadalupe Casal
Felipe Vieira de Galisteo
Ricardo Zigomático

Figurino: Francisco de los Santos
Cenário: Ricardo Zigomático
Realização: Grupo Sarcáustico



 

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