29 de nov de 2009

Cabarecht

Foto: divulgação

Lost in the stars

Desde que baixei da internet, não consigo parar de ouvir Florence + The Machines que vim a conhecer pelo anúncio no msn da música que um contato meu estava ouvindo. Florence Welch é uma cantora que se uniu a uma banda e juntos formam uma nova sensação no indie rock britânico. Gravaram apenas um cd, em junho último, que se chama Lungs. “You Got The Love” é a música que eu mais gosto. Mas, assistindo ao “Cabarecht", eu agradeci a Deus porque, antes de aprender a baixar músicas da internet, a ter amigos de MSN e pegar as indicações musicais deles, de conhecer e gostar de indie rock e ouvir Florence + The Machines, eu tive o privilégio de sentir que música já existia há mais tempo que o teatro, bem antes do Windows Vista e do Iphone.

“Cabarecht” é um show musical apesar de existir como homenagem ao teatro. E tem muitos méritos no todo e nas muitas partes, mas senti que o maior de todos é atualizar canções de peças teatrais de Berthold Brecht (1898 – 1956) e Kurt Weill (1900 – 1950). Diferente do teatro, música é reprodutível. Para Jorge Dubatti e muitos autores, faz parte do DNA do acontecimento teatral o acontecimento convivial: o encontro num tempo e num espaço entre seres humanos cuja duração pode ou não ser delimitada, mas que não ocorre virtualmente. Ouço no meu computador uma música que não comprei, a partir de um cd em que eu nunca encostei, cantada por uma cantora que gravou seu primeiro disco há menos de seis meses. Humberto Vieira traz à Porto Alegre músicas de um dramaturgo conhecido como um dos mais importantes do século nas vozes de atores gaúchos tidos como o “cream of the top” do estado, sem falar no piano e na voz de Cida Moreira, uma das artistas mais importantes do país. E isso a alguns centímetros do nosso joelho, com a fumaça do charuto de Cida entrando pelas narinas e sob o olhar vivo de Sandra Dani. Se é num show que a música encontra o teatro, é em “Cabarecht” que é possível que um trintinha como eu, “duro do dreamulle”, de allstar, jeans e camiseta, pode encontrar-se com um teatro e um clima que só é despertado em momentos raros e quase nada comerciais. E eu em meio a pessoas de idades diversas, como também, quero crer, são os que lêem esse texto.

Se é que há algum, o único apelo comercial de “Cabarecht” é Brecht: só aparece (parcialmente) no título do evento e na composição das letras. A estrela da noite é mesmo Kurt Weill: compositor que fez dupla com o dramaturgo em vários espetáculos a partir de 1927, sendo o mais conhecido deles a “Ópera dos três vinténs”, adaptação de “The beggar’s ópera” (John Gay, 1728), espetáculo tido como o avô do atual musical norte-americano (o pai é “The Black Crook”, 1866, Charles Barras). Nessa produção da Cia Babel de Teatro, não há nada que exerça algum discurso dentro do teatro épico. As canções também não são cantadas no espírito brechtiniano e nem poderiam. Pelo menos no caso da “Ópera dos Três Vinténs”, a idéia era justamente debochar do drama clássico, da ópera tradicional de então, do gosto culto, atualizando assim o que já tinha feito Gay e Barras nos séculos anteriores. Uma vez que o “Cabarecht” é uma colagem de músicas descontextualizadas, perdeu-se a crítica, o deboche e todas as marcas do artista alemão que fez no teatro o que James Joyce fez na literatura, Sergei Einsenstein fez no cinema e Pablo Picasso fez na pintura. Por tudo, no entanto, fica claro a discordância daquilo que eu esperava, que era ver Brecht: Humberto Vieira e Cida Moreira apostam todas as forças no que, para eles, é mais importante – a música. Ao contrário de sugerir que a dupla de diretores não valoriza o teatro e importantiza outra arte, chego a conclusão de que ambos sabem que a obra brechtiniana é muito rica para ser toda refletida num só espetáculo. Essa concepção merece os aplausos que tem ganho por fazer bem aquilo que se propõe a fazer: cantar as letras de Brecht (nas músicas de Weill).

A seleção é nobre tanto quanto o elenco, formado por Zé Adão Barbosa, Antônio Carlos Burnet, Sandra Dani e a própria Cida Moreira.

Moriat (o elenco)
Surabaya Johnhy (Sandra Dani Moreira)
Duelo do Ciúmes (Sandra Dani e Cida Moreira)
September's Song (Zé Adão Barbosa, quem me fez lembrar com prazer de Mr. Higgins)
A canção da dependência sexual (Antônio Carlos Brunet)
Je ne t'aime pás (Sandra Dani, no seu melhor momento!)
Youcali (o elenco)

Entre outras, essas canções, cantadas em alemão, português, francês e inglês, são preciosidades que quem gosta de teatro não pode deixar de conhecer. Apesar de algumas esquecidas (inaceitáveis) da letra, os três atores e a cantora interpretam com paixão as letras e as melodias de forma que não conseguimos desgrudar o olhar, indo pro espaço o distanciamento brechtiniano (por uma ótima causa!). Vários signos teatrais são utilizados na expressão dos tons engrandecendo a homenagem já expressa pelo figurino e pela organização livre do cenário. De resto, o gênero teatral escolhido é mesmo o bom musical americano, em que as falhas são condenáveis, a curva dramática é bem marcada (início apoteótico, pausas intercaladas com levantes, ápice no encerramento) e o bis é agradecido.

E tudo isso para mim, numa única noite, sem a frieza de um mp3 distante, com o calor que só o teatro e a música ao vivo podem dar.

"And we're lost out here in the stars
Little stars big stars blowing through the night
And we're lost out here in the stars
Little stars big stars blowing through the night
And we're lost out here in the stars"

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